o suicidio
- Abram a porra da porta, abram!
Passadas tristes, arrastadas
É o sombrio senhor da morte,
- Que queres? Que queres?
- Abra, preciso entrar!
- Não morrestes ainda, fedelho.
- Foda-se, abra logo!
Silêncio...
- Volte a seu corpo.
Silêncio...
descabidas discussões metafísicas
nos corredores de luzes infinitas.
- Me dê um copo de água...
- Sei que não tens sede...
- Preciso entrar.
- Não! Caia fora!
a garganta dói, torcicolo
os pés flutuam, a sede aperta...
- To com medo...
- Volte, cuide de seu corpo
- Não sei voltar
- Foda-se
- Filho da puta
A escuridão volta aos poucos,
Começa cinza, assume o azul
Vozes irritantes, cheiro de terra
e grama, folhas caídas, balança
canção de ninar, sangue pisado
O pescoço dói, tá seca a garganta
Há um choro, sirene, a luz
se agiganta na tarde volátil
começa amarela, o céu ficou longe
Enxofre com pimenta, o chão é suave
A voz não sai, o grito adormece
O corpo viaja veloz no trânsito sideral
A vida volta e zombeteira dança
O corpo chora, a menina beija
A mulher reclama, o policial anota
O médico salva. O balde caiu.
O filho retorna à vulva materna
Um uivo, um gemido, a igreja tão torta
As damas beatas, tão doces e putas
Tudo em volta da cama macia,
a serpente inocente sorri encantada
Parece um doente, retrato tremido
Só faz ranger dentes, “água, água”
Sede humana de morrer como santo
Queria ser gente, encontrou o vazio
Enfermeira indecente, lhe deu água morna
Remédio, imbecil! veneno fatal
Não morrestes, incompetente.
A corda partiu...
Escrito por Mauro Cassane às 16h46
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