Cores Humanas


Pecados e prazeres da carne

Julio é um paraibano bom de bola. Tem 44 anos e ainda joga futebol de campo todas as tardes de domingo. Eu o conheço desde quando éramos garotos. Ele era o mais velho e jogava horrores. Não fosse a miséria do pai, que o botou pra trabalhar com doze anos como ajudante de açougueiro, poderia até dar alguma coisa no futebol. No fim o destino foi generoso com ele, a despeito de ter cobrado por isso alguns nacos de seu braço e dois dedos da mão esquerda numa barbeiragem na hora de cortar osso de mocotó. Depois de vinte anos trabalhando para o velho Miguel, que foi assassinado há dois anos numa encrenca de jogo de cartas, juntou uma grana e comprou o ponto da família do finado. Agora toca seu próprio negócio e até aumentou a freguesia. Ao lado de seu açougue, tem o bar do Zelão onde toda noite se reúne um bando de bêbados degenerados do bairro. Brigas e polícia são coisas rotineiras. Julio, sempre taciturno, é um sujeito regrado. Após o expediente toma duas cervejas no Zelão e cai fora. Chega em casa religiosamente por volta das oito da noite. Ninguém mexe com ele. É mal encarado, forte pra caralho, mas boa praça. Casou tarde, já com 38 anos, com uma moreninha de 19 anos que impressionou no forró da favela do Mata Porco ao chegar com seu Omega metálico, ano 99. Julio é assimétrico, tem marcas profundas de varíola na cara e talvez isso confira a ele um aspecto sombrio e assustador. E é ainda mais habilidoso com a faca do que com a bola. Gosta de se exibir para a freguesia partindo os filés com muita agilidade e lançando a faca girando pra cima e a pegando firme e já pronta para partir mais algumas fatias.

A moreninha, Suzana é seu nome, parece ter sido esculpida pelo demônio para desorientar qualquer mortal. Vive pra cima e pra baixo com sua saia curta e aquela exuberante bunda estufada e banlançante, sempre metida em sapatos com saltos exageradamente altos e finos. A gente olha, mas procura não prestar muita atenção. Julio é violento e ciumento, além de muito habilidoso nessa coisa de tirar carne dos ossos com facas assustadoramente grandes e afiadas, de modo que é o tipo de mulher que o melhor a fazer é ficar bem distante. O problema é que é impossível ignorá-la. Realmente impossível.

Meu telefone toca às duas da tarde. É Fernando.

-         Meu, tenho que te contar uma parada – ele me diz com aquele velho tom faceiro de sempre que significa que trepou com alguma vadia.

-         Diga, quem foi dessa vez? – eu pergunto.

-         Você não vai acreditar! – ele faz um suspense meio idiota e juvenil.

      -    Caralho, conta logo!

Escrito por Mauro Cassane às 17h01
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continua...

-         Meti muito essa manhã. Acabei de sair do motel. – ele continua no suspense.

-         Tá. Legal. – eu digo como quem não está interessado em saber mais nada.

-         Não quer mesmo saber com quem? – ele insiste no suspense.

-         Conta logo, porra! – começo a perder a paciência.

-         Bicho, loucura, comi a Suzana! Sabe quem é ela?

-         A mina do açougueiro?

-         Ela mesmo! – ele me diz todo satisfeito.

-         Você ficou maluco? O cara vai te matar.

-         Pára, deixa de ser agourento. Preciso te contar outra coisa...

-         O que mais?

-         Ela me disse que tem vontade de foder com dois!

-         Você tá de brincadeira! – eu digo já adivinhando a proposta que viria. E veio.

-         Então, o que você acha? Você topa? Na hora pensei em você!

-         Claro! Quando?

-         Amanhã, dez da manhã, porque uma e meia ela busca a filha na escola.

No dia seguinte fizemos uma orgia escandalosa e febril a três. Suzana nua é ainda mais tesuda do que com suas roupas agarradas e provocantes. Lisinha, cheirosa e uma das poucas mulheres que conheço que abocanham um pau e gemem de prazer com o danado na boca como se fosse mesmo gozar com aquilo. Ninguém tocou no assunto Julio. Ele não é meu amigo, apenas me vende carne, sendo algumas vezes até fiado e jogava um bolão quando criança. Inclusive, muitas vezes, me humilhou tocando a bola por entre minhas pernas e me chapelando. Lembrei dessas coisas pra poder foder Suzana com gosto e sem remorsos. Ela nos fez uma proposta irrecusável. Disse que adorou a foda a três e quer meter com a gente pelo menos uma vez por mês. Fernando tem um jeito diabolicamente cínico que não consigo entender. “E você vai ser fiel a nós, com exceção de seu marido, é claro”, ele disse. Ela levou a sério, cruzou os dedos ternamente, beijou-os e prometeu que sim. Que cena absurda. A próxima foda já ficou agendada. Ela absorveu bem essa coisa de ser sistemática. Esses dias fizemos um churrasco em casa. Mandei um garoto comprar a carne no Julio. Por ora, prefiro não vê-lo manusear a faca. 

 

 

 

             

 

 



Escrito por Mauro Cassane às 17h00
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O sonho, a ira e a musa eterna

Sonhei com Sofia e acordei ensopado de suor e com tesão febril feito garanhão preso na baia diante da fêmea no cio saltitante no pasto. A gente acorda assim, de pau duro, com vontade de mijar e não consegue porque simplesmente a urina não sai com o canal enrijecido e teso. O jeito é tocar uma punheta, gozar e aí sim aquela engenhoca de nervos  relaxa e se pode mijar tranqüilamente. Me masturbei pensando em Sofia, em sua bunda, em suas ancas arqueadas, em sua indecente cintura, naquela santa pele de diaba e na sua barriguinha aveludada. Gozei rápido. Mijei e voltei pra cama faltando poucos minutos para as cinco horas de mais uma tristonha madruga solitária. Rolo de um lado pra outro, o tesão persiste, o calor seco incomoda e resseca até as tripas. Fronha e lençol parecem cheirar a serragem. Depois de muito tempo sem trepar a punheta se torna um paliativo ineficiente. Duas punhetas seguidas seria um mergulho na insanidade. Não posso fazer isso, prefiro ficar de pavio curto, sempre pronto para uma catastrófica explosão de fúria. Tento pensar em outras coisas mas minha mente estúpida se nega mesmo ciente de que o corpo padece de cansaço. Sofia está ali, insidiosamente nua ao meu lado, abraço o travesseiro bojudo de algodão e espumas e imagino seu corpo frio lambendo o meu, isso tudo me dá calafrios. Queria amarrotar aquela sedosa pele morena com a aspereza de minhas mãos pesadas e pressioná-la inteira a ponto de atá-la completamente a mim feito tatuagem. Como um idiota doente beijo o travesseiro. Me sinto mal e fraco praticando atos como esse pois fico parecendo um idiota adolescente desajeitado e carente. Eu gostaria de nem sentir tesão por essa mulher. Mas temo que a amo. Ela, naturalmente, não sabe de nada disso. Jamais saberá. Quando a vejo, sinto vontade de esbofeteá-la. E ela nutre um ódio irracional por mim. Me trata mal. A gente raramente se fala, mas adoro ouvir sua voz rouca e silvestre.

Penso nessa puta e perco o sono. Poderia dormir numa boa até tarde mas me boto em pé com as primeiras luzes do alvorecer. Olho para fora, o céu parece uma incandescente boca de fogão a lenha com as cores laranja e amarelo se esparramando preguiçosamente num vermelho profundo. Mais um dia seco e de calor insuportável nessa porra de inverno tropical. Vou tomar um banho de água fria pra hidratar os poros e ducha matinal sempre me deixa revigorado. É como nascer novamente. Gosto de me sentir limpo e renovado. Depois boto a mesa, como duas torradas com manteiga e bebo quase uma jarra de suco industrializado. Pronto, um novo homem vivo. Me sinto decente, pego meu carro e ganho a rua. A idéia é ir para a editora vazia logo cedo e escrever até aparecer os primeiros personagens de meu cotidiano que, normalmente, chegam às nove horas. Chego rapidamente e o relógio ainda não registra sete horas. Que bom, duas horas para escrever. A despeito de ser muito cedo o vigoroso calor deixa a impressão de uma gigantesca estufa. Ligo o computador e começo a dedilhar rapidamente meu interminável romance sobre dois amigos que compartilham sempre uma única linda e lânguida jovem. Sem brigas, nem ciúmes, e a danada gosta disso. Apenas uma história e prossigo com ela para me distrair nas horas vagas. História boa deve ser curta, qualquer coisa longa é enfadonha. Por isso começo já a pensar onde caralho vai dar isso tudo que estou criando. A merda é que estou curtindo e nem tenho a menor idéia por que caminho meus personagens trilharão. Foda-se. A vantagem de não ser escritor é não ter compromisso com o que a gente escreve. Fazemos apenas por tesão e assim a coisa flui como um bom jorro de porra após uma boa foda. Não deveria lembrar disso, boa foda não é exatamente o que desfruto nesses últimos e terríveis tempos. Nem sempre vivemos na bonança, normalmente nos debatemos nas enxurradas de lama.

Escrito por Mauro Cassane às 15h19
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continua...

Duas horas de ócio criativo passam rápido demais. As pessoas chegam. A jornada começa com o telefone nos atormentando, dedilhações frenéticas nos teclados, conversas, cheiro de café pastoso, risos e grunhidos. A gente gosta de alguém, podemos até amar, mas é incrível como temos ódio de nossos semelhantes. Queria ser mais zen, mas não suporto os humanos no atacado, apenas tolero alguns no varejo. Deixo meu eterno romance de lado, remexo uns discursos. Depois vem contas a pagar. Há dois livros para resenhar. Porra, outra vez livros de auto-ajuda. As editoras lançam centenas dessas merdas todos os meses. Os executivos gostam. Muitas vezes penso que esses caras deveriam ser obrigados a ler, em vez dessas porcarias, Dostoiévisk, Machado, Paulo Mendes Campos, Lima Barreto, Camus, Kafka, Borges, Baudelaire, Miller ou Hemingway. Tem tanta gente que escreveu coisas legais. E essas porras só lêem auto-ajuda. Ao menos se lessem Nietzsche. Bem, fiz as duas resenhas, pois é daí que vem meu sustento. Somos todos, de uma forma ou de outra, descaradas prostitutas. Mas eu preferia mesmo ter nascido uma linda e tesuda mulher, e assim ganharia dinheiro fodendo e não destroçando meus princípios literários.

Hora do almoço e Paula me convida para ir com ela comer no shopping. Ela não me agrada, tem uma bunda de urso e nunca bebe, e vive mandando e.mails boçais com lições de vida com um odioso “beijo no coração” no final. Tenho vontade de estripá-la por isso. Beijo no coração o caralho! Mas tem peitos gostosos e eu não fodo há tanto tempo. Aceitei. Saímos no meu carro. Ela estava sorridente e falante. Mas o tempo seco e o trânsito intenso me irrita. E, não sei por que razão, pensei em Sofia. Poderia ser Sofia ali comigo, toda brejeira e sorridente. Mas era Paula. A insossa Paula. Queria agarrá-la pela nuca e forçar a cabeça dela para baixo em direção a meu pau, e assim faze-la engolir tudo para enfim ficar quieta e me dar um pouco de prazer. Apenas imagino a cena e me divirto um pouco com meu sadismo babaca.

Num momento de alívio do tráfego na rua um Fiat velho oscila de um lado para outro na minha frente e não se decide que faixa ficar. Apenas como reflexo meto a mão na buzina e meu carro grita duas vezes como um alerta. Isso foi o suficiente para que o tal motorista do Fiat enfiasse o braço pela janela e, gesticulando nervosamente, me mostrou o dedo em riste naquele sinal universal de “vai tomar no seu cu”. Isso me deixou puto. O sinal fechou em nossa frente e foi o Fiat parar para eu acelerar e socar meu carro contra seu velho pára-choque de plástico. O tranco foi violento e jogou o Fiat para mais um metro adiante. O sujeito ficou enfezado, abriu a porta e saiu, com seu andar pesado e resoluto, para tirar satisfações comigo. Fiquei no carro, mas já estava transtornado e minha vontade era matá-lo. O bicho, um enorme homem gordo e com uma cara dramática, com suas bochechas avermelhadas e olhos esbugalhados, deve ter sentido que eu me intimidei pois seu tamanho era quase o dobro do meu. Sem belongas, e xingando muito, chutou a porta do meu carro. Fez um estrondo terrível a ponto de nos chacoalhar ali dentro. Eu não sabia direito o que fazer e ele então decidiu me agarrar pela janela enfiando seu braço para dentro, acho que com a intenção de me arrancar pela janela. Paula gritou apavorada. Eu agi por impulso e o segurei firme o que o fez se dobrar e praticamente colar sua carona perto de mim. Ele continuava xingando coisas incompreensíveis. Então puxei aquela imensa cabeça para dentro, torci, passei meu braço esquerdo por cima e pressionei com força. Aquele corpanzil se contorceu e desabou, e a cabeça ficou ali, travada sobre meu braço. Ele, no desespero, sentindo-se a ponto de abate, lascou uma dolorida mordida em meu antebraço, e isso desencadeou o desastre. Com a mão direita totalmente livre comecei a socá-lo com raiva, desferindo sucessivos e violentos golpes vigorosos em sua cara, depois, como o filho da puta resolveu travar os dentes no meu braço esquerdo, e com o sangue já escorrendo, atolei meu dedão em seu olho até sentir uma nojenta gosma envolver minha mão. O cara desfaleceu e ficou pendurado na janela do meu carro respirando com dificuldade. Um monte de sangue no meu colo. Paula já estava fora do carro aos prantos. Gente pra caralho em volta. Uma puta confusão. Mas nada de sirene. Empurrei aquela miserável cabeça pesada pra fora, gritei para Paula entrar, liguei o carro e arranquei, desviei do Fiat pela calçada, e dei o fora sob diversas caras atônitas e, ao fundo, um imenso saco de carne atirado ao chão. Acelerando, peguei seu globo ocular e atirei pra fora acompanhando pelo retrovisor aquela coisa gosmenta rolar pelo asfalto até parar para fritar na sarjeta. Soube depois que não o matei. Ninguém anotou minha placa. Nunca fui preso por isso, não me arrependo e ainda passo diversas noites sonhando com Sofia. E fico muito puto da vida.         

 



Escrito por Mauro Cassane às 15h18
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