Cores Humanas


Nos dias secos e quentes os fantasmas nos assombram

Os dias quentes do inverno tropical são insuportavelmente secos. Um calor do caralho, e nada de chuva. São Paulo parece um incandescente Atacama urbano.Tudo árido e cáustico que chega a dar desespero ao respirar. Enjoei de cerveja e cachaça depois de algumas orgias etílicas. Ou é apenas efeito da ressaca de ontem. Acordei com um puta calor, fui ver um amigo e bebemos uma cerveja antes das onze da manhã. Fiquei imaginando-a como se fosse um poderoso elixir revitalizante. Depois passei mal. Vomitei tudo e fiquei convalescendo na cama sem vontade de nada até o começo da tarde. A gente precisa parar um pouco e simplesmente não pensar, não ler, não escrever, mas quando fico assim acabo despertando meus sombrios instintos assassinos e me dá vontade de estrangular pessoas que, pra mim, não servem pra nada. Nesse meu pessoal corredor da morte entra um ou outro vizinho, quase todos os políticos e até mesmo poderosos mandatários de outros países. No fim acabamos sempre pensando em algo. Uma merda.

Para fugir do tédio, resolvi caminhar um pouco pelo velho centro da cidade. Vasculhei os bolsos de minhas camisas e achei um resto de fumo prensado. Fumei. A gente sempre pensa que vai acontecer alguma coisa incrível nessas saídas sem propósito. Mas raramente acontece. Vivemos numa puta mesmice de fazer dó. Com uma boa grana hoje me acabaria num puteiro. Mas não me sobra muito depois de pagar as contas. Às vezes não sobra porra nenhuma. No metrô os paulistanos são fantasmas indiferentes que se deslocam oprimidos entre os subterrâneos. Nenhum rosto interessante, nenhum sorriso amistoso. Meu celular poderia tocar, e do outro lado seria divino ouvir algo do tipo “to com saudade de você”. Há anos não ouço isso. E quando eu ouvia não dava o menor valor. Desci na Sé e fui tragado por aquela inóspita massa humana e apenas me deixei levar junto com a boiada. Aquilo me divertiu um pouco. Pensamentos sórdidos passam por minha mente quando me sinto deprimido. Poderia matar alguém ali e ninguém se daria conta. Olho para anônimos rostos velozes e parecem almas desesperadas e tristes. O grande termômetro digital aponta agonizantes trinta e três graus na Sé. A cidade arde. Calor insuportável pra mim e agravado com um ar tão seco que parece que vivemos num miserável microondas. Deslizei para o caos do Parque Dom Pedro e me meti no mercado municipal para olhar as coisas e comparar com o mercadão de Belo Horizonte. Não comparei porra nenhuma. Apenas chupei duas grandes fatias de abacaxi e perambulei à toa por lá. Nenhuma mulher me notou mas eu olhei para diversas.

Gostaria de ser um sujeito mais atraente, ainda que o preço para isso fosse minha completa estupidez. As mulheres olham caras atraentes. Não olham pra mim. A falta de sexo me estraga o ânimo, me deixa insosso e sem viço. Acho que também me causa diarréias crônicas. Ando mal do estômago. No fim comprei uma garrafa de cachaça mineira por sete reais e tive vontade de tomar tudo por preguiça de levar aquela porra pra casa. Mas não sou um bêbado sujo e tenho compostura. Apenas fui dando pequenos e reanimadores goles enquanto rumava para o Largo do Arouche para visitar minha amiga Anita. Tivemos um caso no passado, há incontáveis anos, e apenas lembrava onde ela morava. O excesso de tesão, o desânimo, a preguiça e a falta de grana nos levam irremediavelmente numa nefasta rota de colisão com o passado. Encontrei o prédio. Estava tudo igual e cinza, e ainda funcionava a porra do elevador com a ruidosa e sinistra porta sanfonada. Até o sonolento porteiro pardacento e gordo parecia o mesmo. Ele interfonou e anunciou meu nome com desdém. Fiquei ali parado na sua frente aguardando. Ele repetiu meu nome já demonstrando total falta de paciência com seu serviço. Claro que Anita não lembrou de mim e deve ter dito pra ele repetir o nome. Daí o velho desligou, me mediu e apenas disse “pode subir”. Embarquei naquele fóssil de elevador e lentamente fui chegando ao quarto andar. Ela me aguardava no corredor. Estava horrorosa e descabelada, uma cara triste e dramática como se seus ossos faciais tivessem lhe tragado a carne. Era uma mulher linda há dez anos. Uma beldade que parecia que seria eternamente cobiçada pelos homens. Agora parecia um farrapo humano e tão esquelética e decadente quanto o velho elevador. Por meus cálculos eu sou dois ou três anos mais velho que ela. Mas, diante daquele triste espectro, me senti um adolescente em pleno vigor físico.

“Tá tudo bem com você”, ela me disse. Sua voz pastosa e meio estridente era de uma pessoa muito idosa. Aquilo me deixou sem ação e, claro, o tesão foi embora na hora que vi aquela figura incrivelmente arruinada. “Sim, e você?”, perguntei com um jeito meio imbecil, ou talvez um pouco arredio. “To indo, quanto tempo heim? Entra, entra”, me disse isso e saiu arrastando seus chinelos destroçados, com passos lentos e se forçando para encolher a barriga e ficar minimamente mais ereta. Aquela sala, que antes eu ouvia com ela world music sentado no chão e fumando maconha, agora era um lugar pálido com ostensivo cheiro de gordura. “O que você trouxe aí”, ela me perguntou ao ver a garrafa envolta num saco plástico em minha mão. “Uma cachaça pra gente lembrar dos velhos tempos”, foi o que eu disse simplesmente porque me ocorreu apenas isso. Acho que a maioria das vezes que respondemos ao que nos perguntam pecamos por não refletir um pouco a respeito. “Então serve aí”, ela me disse sorrindo e botando dois copos encardidos que pegou de cima da pia cheia de louças sujas. Aquilo tudo me deu nojo. Inclusive dela. Queria sair fora dali o mais rápido possível, mas não poderia fazê-lo assim, na grosseria, teria que ser de uma maneira educada, porém fui falar a maior merda ao dizer que trouxe a porra da cachaça pra gente. Havia ainda quase a garrafa inteira. Servi meu copo e o dela. Enchi ambos até pouco menos que a metade. Ela riu. “Enche essa porra caralho, vamos relembrar os velhos tempos ou não?”. A gente bebia muito. E fodia muito também depois. E essa segunda parte já começava a me aterrorizar. Ela bebeu sua super-dose numa golada só. “Viva”, ela disse me parecendo muito animada e pegou a garrafa e encheu outro copo até a boca. Eu ainda bicava timidamente o primeiro copo. Ela virou o outro com tudo. Não, não pode ser. Definitivamente estava atordoada, louca e aquilo tudo daria uma grande merda. “Vá com calma”, eu disse. “Calma o caralho”, ela me respondeu. A coisa ficou feia antes do previsto. Tivemos uma ruptura traumática no passado. Aquilo tudo me veio em mente. Ela encheu o terceiro copo, mas desta vez não o virou e me olhou com intimidante ferocidade. “Anita, acabei de chegar depois de tantos anos e você me trata assim?”. Foi o que eu disse, e também sem refletir muito, apenas me ocorreu isso. “Vai a merda, seu filho da puta”, ela desferiu já aos gritos. Levantei. Ela me empurrou e ameaçou pegar a garrafa pra me bater. Imobilizei com facilidade seu braço magro de gente tísica. Ela fedia a carne azeda como quem não toma banho havia dias. “Então vai embora, seu porra, e não volte mais aqui”. Preferi descer pela escada a esperar o elevador com aquela louca no meu encalço. Não a via acho que há dez anos. E, pelo jeito, não a verei mais. A vida nos devora devagar.



Escrito por Mauro Cassane às 17h33
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O trio romântico e o surgimento de um grande amor

Eu e Vince perambulamos pela capital mineira por mais dois dias. Depois de pão de queijo pela manhã, escalávamos estoicamente alguns quarteirões apenas para ver o movimento. Para recuperar o fôlego, cachaça com cerveja no tradicional mercado municipal e mais uma vez percorríamos as ladeiras intermináveis de uma feérica beagá iridescente. As mineiras são tesudas, e quase todas possuem bundas perfeitas e coxas musculosas por conta do relevo montanhoso da cidade. Diferente das cariocas, elas não se exercitam para moldar o corpo, simplesmente transitam com sua brejeirice pelos morros asfaltados num eterno sobe e desce e, assim, ganham boa forma física. Creio que leite e queijo também ajudam a dar substância glútea. E o sotaque é lascivo demais, envolvente e sedutor.

Em nosso último dia, depois do sacro ritual etílico no mercadão, resolvemos visitar o parque municipal. Árvores, ruinhas e aquela horda vagarosa e ensebada que aos sábados assombra os parques das grandes cidades. Curtimos boas horas de tédio assistindo pessoas animadas remando seus barquinhos de madeira num fantasmagórico lago pastoso incrivelmente minúsculo. Antes de nos aborrecer, o milagre. Avistamos uma morena solitária, voluptuosamente sentada num dos bancos de madeira sob a sombra bucólica de uma figueira secular. “Olha só aquela mulher”, me disse Vince apontando sua direção. Olhei. Sim, que mulher. Suas coxas, exuberantes, cruzadas, estavam à mostra. O brilho ostensivo das três da tarde parecia conferir a ela um certo fleuma de mistério e penetrante sensualidade. De preto, com grandes e fúnebres óculos negros a lhe ocultar parcialmente a face, e encapada com um vestido talvez de seda ou algum tecido muito leve, entrecortado por aberturas generosas nas costas e na frente, exibia, para nós e também para os outros, seus seios firmes de proporções infantis. Algumas cachaças, um toque de erva e a condição de forasteiros parecem fulminar qualquer resquício de timidez. E assim nos aproximamos e Vince, com sua peculiar cara de pau, a cumprimentou como se estivesse encontrado uma boa e velha amiga. “Olá, tudo bem?”. Eu esperava um muxoxo indignado da parte dela mas, ao contrário, veio um surpreendente “muito bem, e vocês?”. Sim, essa foi a senha para sentarmos a seu lado. Um de cada lado. 

Depois daquele enfadonho e repetitivo ritual de praxe onde se descortina uma série imensa de perguntas e respostas de ambas as partes, e isso leva pelo menos quarenta minutos, iniciamos, assim, e enfim, um diálogo mais interessante. As pessoas não deveriam se preocupar tanto em se conhecer porque, afinal, somos quase todos exímios mentirosos e nos manteremos eternamente sinistros estranhos. Eu poderia simplesmente ser honesto e dizer de imediato: “olha moça, a gente te achou um tesão, você tá com um jeito de quem tá afins de foder, e então viemos aqui pra saber se temos alguma chance de te comer”. Mas as tais regras silenciosas e jamais escritas não nos permitem agir assim. São as malditas etiquetas sociais. Então perdemos quarenta minutos de conversa fiada para saber cada um o que faz e tudo mais e, depois, mais hora e meia numa complexa e intrincada circunavegação de rodeios e abordagens para sabermos se rolaria um sexo entre a gente. Eu e Vince, mesmo sem qualquer combinação prévia, estávamos dispostos a fechar a viagem com chave de ouro fazendo um idílico sexo a três. Para tentar agilizar um pouco o processo, e visto que este seria nosso derradeiro dia em Minas, pois embarcaríamos no ônibus da meia noite, e o relógio do parque já marcava quinze para as cinco da tarde, propus tomarmos cerveja em algum bar em vez de ficarmos ali naquela porra de lugar enjoado vendo barquinhos idiotas sendo remados por seres bem próximos da completa tolice espiritual.

Ela topou e se propôs a nos levar a um bar ainda inédito pra gente e que também fazia parte da boemia belo-horizontina. “Pertim, pertim”, ela disse. Rimos e a seguimos sob os insistentes galanteios românticos de Vince pra cima dela. Após quinze minutos de escalada esbaforida da rua Bahia, e contornando por outras ruas entrecortando os urbanos Alpes mineiros, chegamos ao tal bar cujo nome, ainda que simpático, não me recordo. Deslizamos pra dentro e não havia lugar disponível. Todas as mesas ocupadas por grupos ruidosos e bêbados. Déia, com sua mineirice charmosa, e toda sua experiência de mais de vinte anos flutuando pelos bares de beagá, chamou o garçom (seu amigo) que imediatamente nos colocou num canto privilegiado. Cerveja, torresmos e mais cachaça. Mulher solta tudo com álcool. E Déia não foi exceção e começou a nos contar um rosário de aventuras impressionantes em que sua maior especialidade foi transar com homens que se auto-proclamam “dominadores”. Ela tem uma certa intimidade com o assunto e chama sujeitos assim de “dono”. Depois nos contou sobre suas experiências masoquistas e tudo mais. Me animei e meti a mão em suas coxas grossas e macias. Ela me olhou fingindo surpresa. “Essa porra toda tá me deixando com muito tesão”, eu disse. Ela apenas riu. “Você já experimentou trepar com dois caras?”, perguntei na lata. A conversa ficou nessa lenga-lenga juvenil, com reiteradas passadas de mão, onde dois caras tentam meter numa mulher que está afins de dar mas faz cu doce.

As horas passam e a única coisa que evoluiu foi nossa bebedeira e as intimidades entre a gente. Nove da noite. Três seres tronxos de bêbados saem cambaleando pelas ladeiras colossais de beagá. Vince a beija, ela me beija, os três tropeçam e seguimos adiante nos esfregando. “Ela tá sem calcinha”, Vince segreda pra mim. Eu a seguro pela cintura, desço a mão por sua bunda dura, e confiro que realmente não há nenhum sinal de marca de calcinha. Aquilo me deixa tarado. Dobramos para uma rua sombria com cheiro de mijo e prédios com alpendres imensos e frios sustentados por redondas colunas pichadas.  Entre as sombras, e protegidos pelo silencioso vazio humano, eu a comprimo numa dessas colunas e percorro com as mãos seus peitos, subo sua saia, sinto sua coxa e toco com os dedos sua buceta molhada. Ela se estremece toda, geme baixinho desferindo mordidelas em minha orelha. Vince acende uma ponta e fica dando várias voltas desencontradas pelas colunas dissimulando o indissimulável. Um grupo de jovens cantarolantes passa do outro lado. Continuamos frenéticos. Vamos meter ali mesmo. Ela se vira e exibe sua anca arqueada, apóia o rosto e os dois cotovelos na coluna suja e eu levanto sua saia fina e me deparo com uma deslumbrante bunda redonda, dura e branca. Camisinha no bolso. Tudo certo. Metemos com ímpeto, gana e estalados tapas em sua bunda. O método foi o do revezamento. Gozo para todos. Dez e quarenta da noite. A levamos ao seu ponto de ônibus. Beijos, carinhos, e doce ternura a três sob olhares indignados dos notívagos trabalhadores. Seu coletivo aparece no horizonte da rua, momento de rápidas despedidas. Vince a pega pela mão e a pede em namoro. Uma cena tocante de imaculado romantismo. Aquilo tudo me emocionou.         



Escrito por Mauro Cassane às 15h06
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Pelas ladeiras de beagá

Estou trabalhando num livro que relata viagens de ônibus pelo Brasil. Vai demorar uma infinidade para ficar pronto. E talvez nunca fique. Muito embora, desta vez, tenho algum tipo de apoio financeiro. E isso me permite viajar sempre. Eu escrevo minhas impressões sobre personagens, situações, uma espécie de diário dos acontecimentos, e deixo ali no computador. Não escrevo mais a mão. Deveria fazê-lo, mas não consigo mais. Se um dia o computador pifar, fodeu. Perco tudo. Bom mesmo seria fazer como Dostoiévisk, Machado e Kafka, além de outros centenas de gênios da literatura: escreviam tudo a mão. Fico imaginando a musculatura dessas mãos. Verdadeiras fortalezas. A minha é uma lástima, pois só faço bem digitar centenas de letras por segundo. Talvez um dia, exercitando essa dedilhação toda, meus dedos sirvam para algo mais útil como, por exemplo, fazer uma mulher gozar.

 

Bem, voltando à viagem. Eu e Vince embarcamos para beagá. É assim que os mineiros e nós também, os paulistanos, chamam Belo Horizonte. Tem uns que chamam de “belô”, mas esse termo eu considero mais afrescalhado. Uma viagem confortável na classe mais luxuosa do ônibus. É divino gozar de patrocínios. Oito horas numa poltrona larga que se reclina como uma boa cama e pouca grana no bolso. Na outra poltrona, Berta. E, na outra, um pouco mais atrás, Mariana. Berta é atriz há 50 anos e, no seu rosto, marcado pela idade, esbanja um lirismo contagiante e uma ternura adocicada. Uma linda mulher que, na conversa que travou comigo, como magia, fez o tempo do trajeto parecer apenas uma ou duas horas. Falou de cinema, claro, que é sua especialidade. E me contou que estava fazendo essa viagem para mais uma filmagem. Virei seu maior fã. E Mariana, uma jovem de pouco mais de trinta anos, é apaixonada por animais. Vince ficou ligado nela. Mas a vida é feita de paixões fugazes. Na rodoviária mineira tudo se acabou. Seguimos nosso destino. Sentirei saudades de Berta.  

 

Chegamos na rodoviária pouco mais das sete da noite e os anfitriões nos recepcionaram e fizemos uma rápida city tour. Ruas largas e subidas incontáveis para todos os lados. Bons bares e hotéis caros. Percorremos diversos bairros e me agradou o centrão, mas por insistência dos patrocinadores ficamos no bem-bom de um hotel três estrelas no bairro burguês de Savassi que é um lugar mais parecido com a zona Sul de São Paulo. “Minha vida é essa, subir Bahia, descer Floresta”. Essa frase está ali imortalizada em um velho marco no centro de beagá. Não lembro o nome do autor. Mas é isso mesmo. Em Belo Horizonte as ruas invariavelmente sobem e descem. Subi a Bahia algumas vezes, mas em nenhuma desci a tal rua Floresta. Os bares são diversos, e todos eles, ao menos aqueles que freqüentei, são habitados por tipos curiosos que seria mais ou menos a mistura de um hippie com um intelectual esfarrapado.

 

Vince queria de todo jeito conhecer um tal lugar chamado clube da esquina. Perguntamos para os anfitriões e eles, no jeito deles, na verdade um pouco caipiras, não souberam dizer mas indicaram outros bares da moda. Não queríamos ver aquela gente enfadonha de sempre dos lugares badalados das grandes metrópoles. São os mesmos tipos em todo mundo. De Paris, passando por Tóquio, até Porto Alegre, todos tediosos e sem espírito. São seres que se proliferam e fedem como ratos. As noites urbanas da moda só guardam diferença, umas das outras, no jeito de falar. Entramos no hotel. Cento e dez mangos a diária para o quarto duplo. Orçamento apertado mas os anfitriões bancaram uma parte. Topamos. Paulo é o porteiro, um mineiro faceiro e metido a malandro, mas gente boa. Araújo, o anfitrião, se desculpou por não poder nos levar jantar. Ufa. Foi um alívio. Noite livre.

 

Vince perguntou para Paulo sobre o tal clube da esquina. E Paulo, seguro de si e de seus conhecimentos de antros noturnos, não hesitou em nos dar o endereço. “E qual o nome do bar”, perguntou Vince. “É esse mesmo: Clube da Esquina”, disse Paulo. “É nesse lugar que o Milton Nascimento se reunia com amigos e bebia, cantava e tudo mais?”, questiona Vince, “Sim, sim”, responde resoluto o simpático porteiro. No quarto liguei imediatamente para Beth. Minha amiga mineira. “Hei, vamos beber no clube da esquina”, eu disse com a veemência de um bom conhecedor dos melhores botecos da capital mineira. “Onde?”, ela redargüiu com indisfarçável desprezo por minha sugestão. “Porra, no clube da esquina, o grande bar da saudosa boemia mineira”, respondi já meio indignado com a ignorância de minha amiga que, afinal, que porra, mora em Belo Horizonte. “É um lugar chato pra caralho”, ela me disse. Fiquei puto. E fui peremptório “Mas é perto daqui e não conheço nada e me disseram que posso ir a pé até lá”. “Tá, tá bom, então dez horas lá?”. Acertamos tudo.

 

Fumamos um beck estranho no quarto. Um extrato de fumo inusitado que compramos de um músico em Sampa e que mais parecia pó de café prensado e meio úmido. Deu trabalho para carburar de verdade e precisava fazer um grande esforço pra tragar. Mas, em pouco tempo, deu pra sentir que o esforço valeu a pena. Saímos desencontrados pelas melancólicas e lúgubres ladeiras de beagá rumo ao glorioso bar.  Beth já nos esperava tranqüilamente sentada à mesa com meia cerva consumida. Nos juntamos a ela, mas ela não parecia muito feliz ali. “Isso aqui é uma droga de lugar sem graça e sem personalidade”, foi o que disse logo quando sentei à mesa. Ela tinha razão. Era uma farsa. Uma merda de bar insosso que só tomara emprestado o nome “clube da esquina”. Não consegui imaginar Milton Nascimento jovem ali naquele lugar fresco. Pagamos a conta e caímos fora daquele engodo Ela nos conduziu, por entre as imensas ladeiras, até a cantina do Lucas no centrão velho. É uma espécie de primo do Sujinho em Sampa. Algo assim. Um lugar de quase meio século de existência com antigos garçons engomados e meio aborrecidos. Seu Deco nos atendeu. Um velhinho com seus setenta e poucos anos e quase quarenta deles servindo aquelas ensebadas mesas de rotas toalhas vermelhas.

 



Escrito por Mauro Cassane às 18h32
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continua...

Comemos muito. E bebemos mais ainda. Nada como tomar cachaça em Minas. Parece mesmo que tem outro sabor. Mais divino, mais terra, mais roça. Várias doses de Salinas, Boazinha, Veio de Minas, Chico Mineiro. Pensei em Helena Meireles. A gente toma cachaça e pensa em moda de viola. Beth cumprimentava todo mundo com acenos e beijos. Estava feliz da vida. De lá descemos outras tantas ladeiras e demos no grande parque municipal onde rolava uma festa de gente de teatro. Entramos e já era uma da madruga. Um sujeito esquelético e quase translúcido fez uma performance bizarra tirando a roupa e escrevendo nomes de garotas por todo o corpo com uma caneta, depois traçou grandes vergões com uma tesoura e daí, com uma marreta, despedaçou imensos blocos de gelo que continham fotografias de mãos, pés, e pernas. Não entendi nada, mas foi engraçado. Um quebra gelo. Estávamos bêbados.

 

Beth andava freneticamente. Nós a seguíamos obedientemente como se ela fosse nossa grande guia da noite. Ela queria fumar um baseado e nós não tínhamos mais nada. Beth então, sem cerimônia, encostou em um solitário cara negro que se isolara num canto em um banquinho sobre grandes árvores. Fiquei conversando com Vince e imaginamos que fosse mais um de seus velhos amigos. Ela acenou, nos chamou e fez as apresentações. “Galera, esse aqui é o Justino, de Mariana”. Um sujeito batuta. E melhor: morador da histórica Mariana. Fumamos um baseado perfumado, parecia cítrico, feito na palha, um verdadeiro artesanato roceiro. Depois bebemos diversas doses de quentão bancadas pela doce Berta. As coisas começaram a ficar confusas e tortas. Berta se apoiou em mim e eu estava já com o estômago virado. Uma banda tocava tolices melódicas em um dos palcos. As pessoas se arrastavam lentamente. “Vamos cair fora daqui, vai, vamos pro seu hotel”, me cochichou no ouvido com sua voz melosa e com seus peitos massageando minhas costas. Ela cambaleava um pouco e parecia apressada ao se antecipar e se despedir de Justino abruptamente. Mulheres são assim mesmo. Decididas. Partimos em retirada e, para evitar as ladeiras infinitas, tomamos um táxi.

 

No carro elogiamos o jeito zen de Justino e ela nos confessou que nunca antes tinha visto o cara. Encostou nele porque viu, como uma ave de rapina, a marofa nas mãos dele. Que mulher incrível. Em minutos chegamos ao hotel. Era outro porteiro que fazia o turno da madrugada. Um senhor sereno, com sonolento ar caipira, abriu a porta de vidro e nos botou pra dentro. Antes de nos dar a chave decretou que Beth não poderia subir. Ela contestou imediatamente com forte aspereza e isso o deixou ainda mais irredutível ao ter sua fugaz autoridade ameaçada. A confusão foi armada. Prefiro a diplomacia, sempre preferi, mas Beth não estava para diálogos diplomáticos àquela hora da madrugada e no estado idílico de álcool e fumo em que se encontrava. Virou um fuzuê desagradável e eu e Vince apenas assistíamos ao celeuma calados. Por nossa atitude, ela pareceu entender que estávamos do lado do porteiro e creio que se chateou com nosso silêncio. Talvez tenha parecido que fôssemos fracos. Não sei ao certo. No fim, já bem brava, ela resolveu sentar-se no sofá do hall. Aproveitei a momentânea calmaria e disse para o velhinho que seria gentil deixá-la ao menos subir um pouco pois não estava bem e não seria legal ela ir embora daquele jeito. Com diplomacia. Com jeito. Deu certo. Ela subiu mas já estava abalada, e chorava aborrecida. Não houve como acalmá-la. A noite se estragou. No quarto, em desespero, Beth sorveu mais duas cervejas e caiu fora em solitária busca por outros bares, quiçá por homens de mais atitude que nós. Naquele momento me senti um grande idiota ao ver aquela linda mulher ir embora. Ficamos mais uns dias em Belo Horizonte, mas não encontramos mais a doce Beth.      

 



Escrito por Mauro Cassane às 18h31
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