Cores Humanas


Perdi minha segunda virgindade, e outra vez sem glamour

Conheci Lily de um jeito estranho e demasiadamente contemporâneo. Coisa moderna. Foi pela Internet. Engraçado, ainda me lembro de quando escrevia minhas matérias a mão por implicância em utilizar a última palavra em tecnologia: uma Olivetti elétrica. Tinha pavor daquele troço que passava de uma linha para outra apenas com um toque do dedo numa tecla macia. E demorei uns meses para me dar com ela. Gostava mesmo da minha saudosa e arcaica Olivetti Lettera 92 a bisavó dos notebooks. Agora, vinte anos depois, faço tudo pelo computador. Inclusive pagar minhas contas. O tempo passa depressa demais. O mais assombroso: faço, também, novos amigos. Tudo sentado diante de uma tela de computador. E foi assim que conheci Lily, uma garota que, deduzo, não teve nenhum contato com uma máquina de escrever. Veja só, que nome poderoso para uma máquina. Agora, os computadores escrevem e até te corrigem caso cometa alguma barbeiragem gramatical.

Lily apareceu subitamente no meu msn. Confesso meu desconforto ao tratar de msn, que sequer é uma palavra e sim apenas uma mísera sigla de algo, ao menos pra mim, incompreensível. Pois bem, não tenho intimidade com isso, mas agora já faz parte de minha realidade. Antes falávamos por telefone, e pra mim já era uma magia impressionante. Agora falamos com os dedos tamborilando o teclado. A voz deixou de ser importante. Ganham alma as letras cintilantes que aparecem no micro. Eis Lily. Mas poderia ser Emanuel, João ou Madalena. Sem voz não dá para saber. Há o recurso das câmeras, mas Lily me surgiu assim, simplesmente Lily. E eu não sei usar câmera no micro. Sequer havia uma foto. Aceitei seu pedido de me acrescentar no tal msn, e então se deu nossas conversas intermináveis em minhas embriagadas noites insones.

Aqueles diálogos foram esquentando. Falávamos de amor, música e viagens. Lily se disse casada, e nunca perguntei detalhes de nada de sua vida. Era uma boa companhia para minhas solitárias madrugadas lúgubres. Estava tudo perfeito até começarmos a falar de sexo. Certa vez ela me disse: “hoje eu estou com um tesão incontrolável, e quando eu fico assim me dá vontade de chupar um pau”. Bem, o curioso é que estávamos falando de política. E o bizarro é que eu sequer sabia como era Lily. Se feia ou bonita, gorda ou magra e, pior, homem ou mulher. Até então era apenas um bom papo. E nada mais. Esperei um pouco para responder. Não estava atônito, mas confuso. Ela deve ter percebido e disparou um constrangido: “desculpe, foi mal, saiu sem querer, vamos continuar nossa conversa”. Continuamos, fingi que não houve nada, mas aquilo mexeu comigo. Fiquei com tesão. Outras vezes ela me chamava e falava tolices sem sentido. Parecia bêbada e cometia muitos erros de ortografia. Eu sempre fui paciente, nossas conversas prosseguiam, até o dia em que resolvi retomar o assunto do tesão e vontade de chupar um pau. “Hei, Lily, você gosta mesmo de chupar um pau quando fica com tesão?”. Nada apareceu na tela por um momento. Agora era ela quem paralisava os dedos. Imediatamente me arrependi de ter feito tal pergunta. Fui um idiota. Mas dei o troco, pois fiz a pergunta no meio de um assunto, creio eu, de cinema. E a resposta surgiu ainda mais surpreendente que minha subida e inesperada questão: “gosto sim, você, por acaso, quer que eu te chupe?”. Me parece que as mulheres gostam de fazer provocações impossíveis de serem efetivadas. Fosse num bar, ali téte-a-téte, ela não me diria isso jamais. Aliás, nunca nenhuma mulher me disse tal coisa ao vivo, nem mesmo diante de perguntas imbecis que, via de regra, eu faço a elas. Respondi: “todo homem gosta de um felatio”. Preferi o termo mais acadêmico e erudito ao chulo não sei por que razão. Ela, no entanto, inabalável, se mostrou senhora absoluta da situação: “eu chuparia você agora se você quisesse”. Que homem fica incólume diante de uma frase como essa disparada por uma mulher? E eu resolvi entrar de vez na brincadeira para ver até onde iria: “eu quero”.  Ela escreveu uma palavra irreproduzível mas que sugeria um gemido. E emendou a seguir: “então tira esse pau gostoso pra fora”. Fiquei sem ação. Como assim tirar o pau pra fora diante de um computador? Não escrevi nada e ela seguiu em frente como se estivesse num frenesi incontrolável. “então, tirou? Ele tá bem duro, mexe nele vai, mexe...”. Meu pau sequer estava duro, e diante de tudo aquilo, se esquivava vexado e envergonhado. Eu me sentia verdadeiramente ridículo e estúpido olhando para tela do computador. E nada escrevi, apenas lia um frenético desfile de frases atiradas com veemente furor: “vai, gostoso, deixa em sentir esse pau”...”nossa, como é grande e duro”...”hummm, mete fundo na minha boca”...”ai, humm, não goza ainda, espera...”. Porra, pensei em escrever algo para ela parar com aquela bobagem mas fiquei ali estático, apenas lendo sua interminável loucura. Até que, enfim, chegou a derradeira frase emendada de uma pergunta: “nossa, que pau heim, gozou gostoso?”. Escrevi singelamente: “você está tirando uma da minha cara ou algo assim?”. E ela: “nossa, não vai me dizer que me desdobrei aqui e você nem ficou com tesão?”. Respondi: “bem, desculpe, era pra ficar?”. “Ah, vai a merda”. Foi o que ela me escreveu e, imediatamente, quando pensei em responder, o quadradinho mágico me informou que ela estava “offline”. Há tempos ela não aparece e estou feliz por isso. Foi minha primeira experiência sexual virtual. Não foi das melhores. Eu ainda era virgem nessa coisa. São as insânias dos tempos modernos.      



Escrito por Mauro Cassane às 16h20
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