Um quase beijo, inesquecível...
Passei a tarde inteira escrevendo uma reportagem sobre o cotidiano de uns pescadores esquecidos em um povoado do litoral norte de São Paulo. Fiquei uns dias com eles como hóspede do Zé Amaro, um sujeito taciturno que me cedeu um pequeno canto de sua casa de barro e madeira que ele mesmo ergueu nas encostas do morro. Até que gozei de bom conforto na velha cama com um roto colchão de mola. Usei como travesseiro minha mochila de lona e ficou perfeito. Ele dormia na rede e só falava se eu puxasse assunto, coisa que eu fazia o tempo todo. Senão simplesmente entrava e saia da casa sem dizer nem olá, nem tchau nem nada. Não havia energia elétrica, nem gelo, e a única luz era oriunda de uma lamparina esfarrapada que ficava amarrada nos sarrafos do teto baixo. Em umas caixas pelo chão batido encontrava-se arroz, farinha, óleo, cebolas, batatas, muito sal e alho. No outro canto uma pia amparada por uma tábua que servia como mesa e como suporte para o fogão movido a álcool. Apenas um banco e nada mais. Não havia mulher, ele mesmo fazia o rango. Fiquei cinco dias ali, e não vi o cara sorrir nenhuma vez. Me acostumei com o cheiro ocre do lugar e também compreendi o seu jeito. No fundo era um sujeito bacana, mas tímido pra caralho. Era um bom pescador, eu não o via quando saia antes do sol nascer mas sempre o via chegar carregado de peixe. Vendia quase tudo na cidade, e deixava sempre um resto pra comer fresco em casa. Não sei onde enfiava a grana. Cozinhava mal e só comia o que fazia, e passava o resto da noite remendando sua rede e enchendo seu encardido copo com pinga. Comi apenas a primeira noite com ele, e foi a coisa mais terrível que passei nessa viagem. Uma comida insossa feita com um peixe fedido e gorduroso cuja pele parecia de borracha.
A comunidade tem mais de cinqüenta pessoas. Fiz amizade rápido, e fui bem acolhido e comia muito bem cada dia num lugar diferente. Sempre peixe. Me contaram depois que Zé Amaro teve um grande desgosto quando sua jovem mulher morreu afogada em uma noite chuvosa em que ele ficara bêbado e houve uma imensa briga entre eles. Ela correu da casa direto pro mar. E ele apenas ficou observando ela sumir feito uma uva num liquidificador. Daí pra frente ninguém mais o viu bêbado, tampouco conversando ou sorrindo. Não encontraram o corpo da moça. E eu sinto uma mórbida vontade de perguntar tudo isso para o Zé. Mas não o fiz. Ainda bem. Muitas vezes temos que nos controlar para as coisas darem certo. Ele foi a primeira pessoa que vi quando cheguei de barco. E fui logo perguntando se havia como eu dormir em algum lugar. Ele nada disse, apenas abriu a porta de sua casa e apontou a velha cama com o colchão de mola. Bem, foi isso. Acho que até ficamos amigos. Quando fui embora ele me estendeu a mão e me disseram que há anos ele não fazia isso com ninguém. O legal é que o cara não roncava, e eu tenho sérios problemas para dormir com alguém roncando ao meu lado. Na verdade desconfio que ele sequer dormia. Apenas se desprendia de seu espírito na escuridão da madrugada e aguardava a hora de voltar ao mar para tentar encontrar sua amada.
Poesias à parte, tinha que escrever depois alguma coisa sobre isso tudo. É meu ganha-pão. Fotografei, bebi pinga e me enchi o saco de tanto comer peixe frito, assado, com banana e ensopado. Agora era a hora de contar a história para os leitores da revista. Mesmo como jornalista, nem sempre conto a verdade. Odeio ter qualquer compromisso com a verdade. Contei as coisas ao meu jeito e fiz daquele povoado um recanto de heróis anônimos. Sobreviventes imaculados de um mundo perverso. O Zé Amaro do meu artigo virou um idealista que lutava fervorosamente pelos direitos de sua comunidade e era, além de grande orador, um engajado defensor do meio-ambiente. Foda-se. Temos fome da verdade, mas nos alimentamos com as mentiras.
Escrevi tudo e mandei para o editor. Acendi um baseado para relaxar e estava imaginando como seria minha sexta-feira. Meus amigos de anos são homens dedicados à família. Vince, meu amigo também, o único solteiro, só que vinte anos mais jovem que eu, e também meu parceiro de viagens pelo Brasil, estava preparando sua kitnet para receber duas ninfas para uma orgia juvenil e eu precisava fazer algo. Pensei em ligar para Denise, a fotógrafa mais tesuda e perva que conheço, para uma noite insana num bar de swing. Ela tem uma bunda perfeita e é uma das poucas mulheres que conheço que goza só de chupar o pau. Penso nisso e me animo. Mas daí para ligar é um passo que parece impossível de se dar. Me contentaria apenas em conversar com um bom amigo num bar e relaxar, descontrair. Penso no Teta, o meu bar de jazz preferido. Mas lá é estranho chegar sozinho. Vou parecer uma bicha velha. Eu tenho um tipo que lembra essas bichas velhas e saradas. Careca, quarenta anos, ando sempre de camiseta e jeans e ainda preservo um corpo dentro dos limites da decência física. A gente tenta, até se esforça, mas no fundo somos sempre preconceituosos. Na essência temos mais defeitos do que qualidades. E é isso que move esse imenso fluxo de gente para consultórios de analistas. A gente não consegue encarar essa realidade: somos verdadeiramente defeituosos e a maioria dos problemas vem do próprio caráter. Ah, sim, é bom lembrar, estou me referindo a pessoas de boa índole.
Mas antes de qualquer decisão do que fazer com minha sexta-feira recebi um telefonema maravilhoso. Era Sofia. Sua voz macia, aveludada, é o tipo de mulher cuja presença é sempre inesperada. E isso me fascina. “To com vontade de conversar um pouquinho com você”. Sim, aquele jeito naturalmente sensual e sensivelmente pueril. Meu estômago ficou polarmente gélido. Fiquei surpreso. E eu tinha sonhado com ela, que a tinha beijado apaixonadamente. Conversamos por quase uma hora por telefone. Não resisti e contei o sonho. Ela apenas ouvi, não comentou nada. Ficou quieta. Eu compreendo o silêncio dela. Convidei-a para jantar. De imediato ela declinou. Insisti. Ela assentiu não sem antes rezar um rosário que exigia de mim um juramento solene de que não tentaria nada com ela. Jurei sem pensar. Jantamos um suculento filé no Sujinho. Tomei três cervejas e ela, com minha ajuda, duas capirinhas. Falamos o tempo todo. Ela é ao mesmo tempo doce e arredia. Mas sinto que gosta de estar comigo, porém tem medo de se apaixonar por mim. “Seria um desastre se eu me apaixonasse por você”. Ela me diz. Não pergunto o porquê. Seria tolo demais fazer isso. Conversamos sobre várias coisas e depois, já meio altos, brincamos de imaginar como seríamos se fôssemos namorados. Foi engraçado e concluímos que brigaríamos muito, mas também nossas transas seriam insanas e intensas. Essa última conclusão foi exclusivamente minha, ela apenas ouviu e sorriu com timidez. Levei-a para casa lutando contra meu desejo quase incontrolável de beijá-la. Nos despedimos com um terno beijo no rosto, mas nossos lábios, quase acidentalmente, se tocaram. Fiquei muito feliz. Depois fui ouvir um jazz no Teta. Sozinho mesmo. E nem me importei se me confundiriam com um veado.
Escrito por Mauro Cassane às 15h10
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