Quarenta e oito horas
Como é bom um crespúsculo na Dutra sombria perto das grandes montanhas de agulhas negras. O ar pesado e enfumaçado do inverno seco e o rio paraiba ao lado no grande vale esverdeado e repleto de um relevo sinuoso com luzes e sombras. Ao fundo, Resende. Pra trás a velha sampa, e pra frente as abruptas rochas geladas, depois os morros e aí sim a serra com cheiro de esterco e leite coalhado. Zunimos felizes pela curva. Lily acende um baseado e traga, led zeppellin tocando e eu feliz olhando as vaquinhas holandesas estáticas e sorridentes. O alaranjado do céu vai cedendo espaço para um azul arrocheado e denso e com minúsculos pontos cintilantes. A vida é boa quando simplesmente não temos que pensar nela. Lily não me olha, traga, segura, e solta a fumaça lentamente. Gosto do cheiro da maconha que vem das entranhas dela. Tem um certo perfume de relva úmida com alecrim. Ela deixa apenas uma frestinha cujo vento faz a dança da fumaça dentro do carro. Gosto daquilo tudo. Passo a mãos direita por sua coxa esquerda, ela me lança um efêmero sorriso tímido e traga novamente e depois me estende o cigarrilho repousando suavemente em meus lábios. Trago, mas o maior prazer é seu gesto. O tesão flui sozinho, irresponsável, crescente. A serra, as curvas, led zeppellin, o rif sonoro e choroso da guitarra. A escuridão esconde as antigas árvores mas a brisa noturna se mistura com a fumaça. Lily parece se esconder de si mesma, me olha de soslaio como pedindo mais carinho em sua coxa, em sua bunda, nela inteira. Entramos por uma via secundária de terra batida, muito ruim. O carro sacode, a poeira é intensa, tudo muito seco. Não vejo mais as vaquinhas silenciosas, mas apenas alguns melancólicos pontos amarelados de luz nos velhos casebres distantes. Lily não deveria ter casado. Mas agora está comigo. Estamos chegando no pequeno chalé de madeira de seu irmão no alto do morro. No caminho ainda penso no que vai ser desta noite. Ela transpira desejo, mas não fala comigo. Eu estou fascinado por tudo que está acontecendo, até mesmo pela poeira esvoaçante que insiste em nos seguir. Mais quarenta e oito horas e tudo isso vai terminar. Ela volta pro marido. Não quero pensar nisso, mas penso. Ela é tão linda, parece tão minha. Paramos na velha porteira trancafiada por uma corrente enferrujada. Ela vasculha a bolsa de couro e me entrega as chaves. Eu mergulho na noite encantada recebido pela ruidosa orquestra dos insetos. Enquanto procuro o buraco do cadeado para enfiar a chave penso novamente que terei apenas quarenta e oito horas. Nada além disso, e eu queria toda a eternidade. Mas terei somente isso. Duas noites e depois a trarei de volta para talvez nunca mais vê-la, ou ainda se a ver, dificilmente terei tudo isso de novo. Foda-se. a vida é o momento. Acho o buraco, destranco, libero a corrente e empurro o portão que solta seu gemido triste como se estivesse chorando ao ser livre por apenas alguns minutos. As horas estão passando, e tudo pode ser frustrante quando nos prendemos ao tempo. O portão deveria sorrir ao ser chacoalhado livremente, mas chora. Eu também senti vontade de chorar. Bem, respiro fundo antes de voltar ao carro. Vou curtir essas quarenta e oito horas como um grande amante. Um furioso e descarado sedutor. Um fodedor astuto com as mulheres. Essa é minha roupa nessas quarenta e oito horas de sonho e lirismo que ela me deu para amá-la. E é assim que devo agir. Pois só assim ela vai, de uma vez por todas, me esquecer.
Escrito por Mauro Cassane às 18h48
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