Cores Humanas


Vida de católico

Deveria existir uma maneira de você ser homem e prescindir dos préstimos da mulher. Não, não quero ser veado porra. Nem levo jeito para o celibato. Então não sei o que caralho fazer. A gente precisa da mulher. Elas são maravilhosas, deliciosas, tesudas e mexem com nossa libido o tempo todo. Se vestem pra isso, exibem seus decotes pra isso, e nos forçam a viver num inferno em tempo integral. Tento me concentrar um pouco, tento aliviar a tensão, viver sem pensar em trepar, mas simplesmente não consigo. E o pior, bem pior, elas conseguem fazer isso numa boa. As mulheres vivem sem sexo por um longo período, renunciam ao sexo solenemente como se tivessem, com isso, imolando os homens. Miseráveis. E o que somos? Tolos e primitivos seres escravizados pelo desejo. Pensamos quase sem parar com a cabeça do pau, queremos ser mais fortes, mais ricos, mais poderosos unicamente para nos exibirmos às fêmeas que, via de regra, nos esnobam ou exigem ainda mais. E se elas se entregarem por você ser um sujeito atraente em termos físicos ou financeiros, ou ainda intelectuais, ou sei lá, por seu talento em limpar fossa, pois mulher só se entrega a um homem que tem algum tipo de atração, ainda assim as desgraçadas exigem de ti uma virilidade só encontrada em personagens de filmes pornô. Caralho de vida. Se ao menos nossas mãos fossem anatomicamente mais semelhante às bucetas até que valeria à pena se acabar na punheta. Mas nem isso a natureza nos ofertou.

A cada dia me enclausuro mais dentro de meu quarto, e fecho a janela pra não deixar o sol entrar e também para minimizar o cheiro do cio feminino que percorre toda a cidade. Quem não sente? Oras, está no ar. Saia para almoçar, entre na fila de um restaurante proletário, e inspire devagar, ali estará o odor veemente, insano e irresistível das fêmeas tagarelas e esnobes que grassa por toda parte. Elas nos esnobam o tempo todo e escolhem a dedo pra quem vão oferecer sua volúpia poderosa e quase sagrada. Sim, quem não concorda que o gozo só pode mesmo ser uma graça divina. Não sei como confiam em padres que, supostamente, pelo menos teoricamente, não trepam. Quem não goza não pode conversar com Deus. Tenho um amigo veado. Ele está imune aos ardis das mulheres. Saio com o cara e ele segue alheio aos peitos, bundas e cinturas e barrigas. Segue ignorando tudo isso como um grande semi-deus invencível. Nisso eu o invejo, considero-o um grande herói. Gosta mesmo é de dar o cu para rapazes. E isso me parece fácil. Pergunto pra ele se não é foda ter que cantar homens. E ele me responde que não canta homens e sim outros veados. Bem, faz sentido. E os veados nasceram homens, geneticamente são homens porra, e trepam como homens, ou seja, fodem sem tanta frescura e desprovidos dos enigmáticos sortilégios femininos. Os veados são mais felizes, é notório. E a maioria não resiste à promiscuidade, pois fodem muito mesmo. Estão certíssimos. Meu amigo me diz que há um preço pra isso: o amor é um pouco mais difícil. Mas ele se refere à fidelidade. Porra, eu respondo, e pra que serve a fidelidade? Se somos fiéis à nossa parceira, se nos esforçamos pra isso, significa inadvertidamente que passamos a ser infiéis ao nosso desejo. Bem, filosofias tolas. Quem se importa.

Tudo isso pra dizer que me apaixonei e isso me irrita profundamente, pois a paixão é perversa. Encontrei uma garota. Fiz de tudo para não acontecer, procuro sempre a putaria, mas ao botar os olhos nessa mulher fabulosa meu mundo foi abaixo. Por isso preciso caminhar mais, exercícios sistemáticos, regrados e intermináveis. Suar, suar e suar. A vida peripatética. Caminhando a gente não fica de pau duro, e só assim é possível refletir. Eu não consigo prestar atenção em porra nenhuma quando estou de pau duro. Talvez eu só queira transar com essa garota. Sim, é imperativo acreditar nisso. Caralho, tenho mais medo de amar do que de morrer. Olho de novo a foto dela. Que ser mais lindo. Vejo aquele sorriso tão doce e pueril, e ao mesmo tempo tão lascivo e insano. Me imagino beijando aquela boca, tremendo de desejo, pressionando seu delicado tecido suave e meio frio contra meu peito áspero e me sinto como um fanático religioso que segura seu amuleto ou santo com todo fervor. Ah, que diabo. Rezar, oh meu Deus, me ajude. Mas porra, o universo é exageradamente grande. Somos tão ridiculamente ínfimos diante de tudo isso que existe, de tanta matéria sem fim, das coisas celestiais tão imensas e eternas, do universo inatingível, e ainda temos a cara de pau de rezar. Merda. Nos largaram à nossa própria sorte aqui nessa bola azulada com todas essas indóceis mulheres maravilhosas, e seus encantos e nosso incontrolável desejo. Nunca deu certo e nunca dará. Mas meu Deus, hei Senhor, que tal se fizesse com que ela me beijasse. Hum? Prometo que, com todo esse meu tesão, eu a faria gozar divinamente para sempre.   



Escrito por Mauro Cassane às 14h24
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O sonho e o desejo de um beijo

Tive um sonho insólito esta noite depois de ter pego no sono por volta das três da madrugada. Estava angustiado no útero de minha mãe aguardando com pouca paciência a hora de meu nascimento. Havia uma incontrolável vontade de conhecer o mundo. Seria minha primeira grande aventura e certamente a viagem mais fascinante que faria. Expectativa. Eu vivia num ambiente ao mesmo tempo hostil e sagrado pois a escuridão me parecia confortável, e a umidade, terna e morna, de alguma maneira me consolava. Entretanto o barulho me irritava e era ininterrupto. Eu sentia mãos gigantescas perscrutando aquele esconderijo acolhedor e me dando violentos trancos aterradores. Aquilo me assustou e me fez desistir de nascer. Queria desesperadamente voltar à trás. De repente tudo me pareceu muito assombroso e inóspito fora da segurança de minha caverna. E eu já sabia o que me esperava, das mazelas às riquezas do mundo, das pessoas e de seus fantasmas e então tentava a todo custo me encolher e lutar para me manter ali naquelas lubrificadas engrenagens mas a emborrachada mão insistia e segurava minha cabeça e eu não tinha força para lutar. Foi então que ela me agarrou e me arrastou para fora como se extirpasse um apêndice e eu me senti afogado, sufocado e amedrontado olhando para todas aquelas caras estranhas e aquela luz absurdamente clara não me deixa abrir os olhos. A violência não cessa, são seres cruéis, investem sobre meu corpo delgado aos atropelos. Grito desesperado com fúria e dor. Filhos da puta. Acordo suado às nove da manhã. Ainda sinto sono, mas não consigo mais dormir.

Jogo uma água no corpo e saio para caminhar um pouco pela rua. Está frio, a garoa é quase um vapor fresco que chicoteia nossa face e vou seguindo resoluto. Gosto de pensar caminhando. Queria contar esse sonho para uma amiga psicanalista, mas ela vai me falar de Freud e eu odeio quando me falam de Freud como se esse desgraçado tivesse desenvolvido teorias sobre tudo e, assim, há explicação racional pra tudo. Foda-se. Também não entendo uma coisa que deveria ser igualmente estudada. Por que, afinal, tantas mulheres são psicanalistas? Talvez por não terem tantas fantasias sacanas quanto os homens. Não sei os outros, mas eu tenho uma infinidade de fantasias libidinosas que muitas vezes me fazem crer que sou um ser abjeto, ao menos sob uma análise mais sexual. Houve um tempo em que amei uma garota e adorava transar com ela imaginando-a fodendo com algum sujeito irreal. Porém tinha um baita ciúmes dela. Com certeza Freud também explicaria tudo isso. E é por isso mesmo que o odeio tanto. Não suportaria ter minhas fantasias explicadas uma vez que, desse modo, elas deixariam de ser fantasias e eu gosto delas assim como são. O frio paulistano é o melhor dos frios. Muito melhor que o europeu, pois aqui em vez da viadagem da neve tem garoa que é capaz de transformar 10 graus centígrados em genuínas temperaturas negativas. O frio me dá muito tesão, mas gosto dele apenas durante noventa dias. Depois, bem depois os trópicos cuidam de esquentar o clima e daí é a vez das mulheres sentirem o tesão fluir vigoroso por todos os seus indômitos poros.

Sigo caminhando, e não há nada de interessante nas ruas da periferia. Com esse clima nem mesmo os cães vagabundos fazem sua ronda rotineira. Gosto de observar os cães urbanos perambulando pelos becos. De alguma maneira somos muito parecidos. Os cães vagabundos parecem lobos solitários e andam esfarrapados pelas ruas do mesmo jeito que seus ancestrais lobos percorriam as pradarias, com aquele mesmo olhar sábio e solidário, mas sempre pronto para qualquer combate. Eles farejam o cio das fêmeas, os alimentos e também o medo ou a coragem de seus oponentes. Talvez por isso mesmo se tornaram grandes companheiros dos homens. Não caminho por muito tempo e volto para um café na padaria. A gorda furiosa está lá, mas nunca guarda rancores. Ou, quem sabe, nem se importa e como puta suporta um idiota como eu apenas para defender sua renda do dia. Ela me serve chocolate e pão na chapa com manteiga. Mesmo não gostando muito de mim se esforça um pouco para parecer simpática. E diante de tudo isso eu me sinto poderoso com apenas três reais no bolso.

Começa a chover mais forte. O som batucado pelas gotas de água na cobertura de zinco me traz idéias de um conto que eu bem que poderia escrever. Bastaria pedir um papel e uma caneta para essa velha cadela obesa e rabiscar um pequeno esboço, ou botar essas idéias no papel e depois escrever freneticamente uma história. Mas não me permito pedir favor a essa mulher. Quero ser um pouco esnobe e ignorá-la por completo. A história me foge completamente quando fixo meus olhos naquelas tetas imensas repousadas sobre uma barriga bojuda e gelatinosa. Ela se move, lava copos, vai de um lado a outro, e toda aquela massa espetacular permanece imóvel. Fico observando-a atentamente e imaginando como seria essa mulher fodendo de quatro. E acho que isso a irrita. “Deseja mais alguma coisa?”, me pergunta com uma cara pouco cordial. Ela tem essa cara demasiadamente quadrada e de um rosado desbotado e sinto vontade de rir. Mas apenas pago os três reais e vou embora sob a chuva que aperta com meus passos apressados. Em casa, depois de seco, me boto em frente ao computador. Fico ali olhando a tela branca brilhando e me intimido. Os teclados riem de mim ou apenas das cócegas que meus dedos fazem neles. As palavras surgem e me dou conta que escrevi mais que uma frase, e depois outra, e outra e enfim quatro parágrafos longos. Agora sou eu que encaro o monitor salpicado de letras negras formando quatro grandes blocos. Venci o páreo de hoje com ele. Salvo tudo e me levanto com essa agradável sensação de vitória. Cheio de júbilo e confiante, sinto vontade de ligar para a analista, nutro uma grande atração por ela, queria reunir toda coragem e dizer a ela o quanto sinto vontade de beijá-la e amá-la. Não sei direito o que é isso. Resolvo então escrever um e.mail e apenas contar meu sonho. Ela vai citar Freud, eu já sei, mas foda-se, ao menos tenho um assunto a tratar com ela. Acendo um baseado e começo a escrever o e.mail: “Minha querida Lady Jane, tive um sonho insólito esta noite”.              



Escrito por Mauro Cassane às 12h36
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