Cores Humanas


Um dia à toa

 

Passei boa parte da manhã perambulando por ruas e avenidas da periferia como se estivesse percorrendo caminhos obscuros numa selva terrivelmente fantasmagórica. A densa neblina deixava tudo cinza, as pessoas pálidas e os carros opacos e monocromáticos pareciam todos embutidos no asfalto, todos ali solidamente estáticos diante de meus olhos contemplativos demais por conta de mais uma noite insone e indócil com sonhos ou delírios que me faziam ter medo da minha própria cama. Fechava os olhos, e nada. Vontade de mijar, olhar a janela, pensar, talvez pudesse aproveitar a ausência de sono para escrever um conto fabuloso. Mas nesses momentos nunca me ocorre boas idéias nem personagens interessantes. Ou sim, isso pode ser, na verdade me vem sempre o mesmo personagem tolo e desinteressante: eu mesmo. Ou alguém que supostamente deveria ser eu. Não sei ao certo. Não sei quanto tempo tem uma manhã de neblina. Sai de casa protegido pela escuridão celestial de inverno e achei por bem não olhar o relógio. Apenas botei calça, camiseta e blusa e sai pedindo gentilmente pro cão não ladrar tanto para não alardear minha saída. Os cachorros são bons amigos, mas são ruidosos demais, seria bom ter gato, que são animais mais silenciosos mas que não tenho nenhuma afinidade por não suportar aquela língua áspera e débeis olhos lascivos. Bem, não era tão madrugada, acho que mais que seis da manhã e tudo estava sórdido e as calçadas repletas de gente.

Caminhei por uma hora ou mais. O que sei é que foi o tempo suficiente para o dia amanhecer de vez. Não tive vontade de retornar, queria apenas seguir caminhando. Estava com algum dinheiro no bolso e isso me deixava confortável para, assim que tivesse vontade, parar e tomar um bom chocolate quente com um lanche especial com pão e queijo e manteiga. Os ônibus seguiam lotados para o centro da cidade. Há gente demais no mundo. Isso é assustador em todos os sentidos. Sinto fome e sei onde aplacá-la por quatro reais. O lugar é bom, sempre vazio, e é a dona quem nos atende e faz o lanche. Uma mulher de mais de cinqüenta anos, mas que ainda conserva uma certa elegância e até uma dose elevada de sensualidade. O avental encardido dissimula os peitos fartos, talvez um tanto caídos e macilentos mas apreciáveis, particularmente numa ociosa manhã sem graça. Ela me faz o queijo quente no pão francês e me serve uma generosa xícara com chocolate fervilhante. A gente se sente bem com essas coisas. Senti vontade de beijá-la não por ter despertado em mim a libido mas por pura gratidão. É um carinho barato. Apenas quatro reais. Ando à toa por mais um tempo e retorno pra casa mais aliviado e tranqüilo. O melhor a fazer é deitar e dormir. Nada de trabalho. Durmo pesado e acordo uma e meia da tarde e tomo o resto do vinho que sobrou da noite mastigando bolachas de água e sal. Fico na dúvida se seria proveitoso dar mais uma volta peripatética ou então escrever algo. Mas não me motivo com nada. Ligo a tevê. Não há nada além de conversa de mulheres estranhas. Ligo o rádio, mudo freneticamente o dial, e nada de bom. Seria ótimo se houvesse uma rádio só de jazz como há um monte de estações especializadas em pagode e rock da moda. Melhor o silêncio. Folheio alguns livros bons que ainda hei de ler, mas não nesta tediosa tarde de ócio improdutivo.

As pessoas estão fazendo as coisas por aí e me sinto um vagabundo. Mas pra que produzir tanto? Se ao menos pudéssemos usufruir de dez por cento de tudo aquilo que produzimos ao longo de nossa vida. Trabalham por dinheiro e perdem tempo demais dentro de fábricas e escritório e não sabem depois como gastar o que ganharam. Nem têm tempo pra isso. O trabalhador recebe algum dinheiro no fim do mês mas não tem tempo de gastá-lo. O vagabundo tem tempo de sobra mas não tem grana pra gastar e curtir. Deveria haver um meio de um ajudar o outro de alguma forma. Bem, eu ganho alguma coisa. Sento diante do micro, inspiro e expiro profundamente para tentar limpar a mente. E nada. Não me ocorre nada. Um imenso vazio de idéias. Quase três da tarde. Fome de novo e só me resta na dispensa mais meio pacotinho de bolacha de água e sal. Você não consegue ter uma boa inspiração com inanição. Há ainda uma garrafa de vinho pela metade e um bom pedaço de fumo prensado. Enrolo um baseado e fumo pra tentar viajar um pouco e pensar num conto incrível. Fico sonolento, quieto e triste. A tela branca e brilhante do computador parece me desafiar, na verdade tenho a impressão que esse aparelho frio e debochado quer mesmo é me humilhar. Desligo. Como o resto das bolachas, abro o vinho e mato o resto no gargalo mesmo. Depois me arrependo. É uma heresia para com o vinho. Vou dar uma volta.

Caminho sem pressa e, a cada passo, vou tentando pensar em uma história para escrever. Não me ocorre porra nenhuma. Paro na padaria. Aquela mulher ainda está lá firme e forte. É dura como um vergalhão. Tem a cara retangular, um nariz reto e pontiagudo e as bochechas inchadas e rosadas com pigmentos brancos. Me aproximo. Ela sorri solícita. Peço um chocolate. Ela acha estranho, mas pega o bule de leite e derrama-o na xícara, enche uma colher de pó de chocolate e enfia lá dentro e mexe com desdém. Fico com nojo e raiva. Ela não me olha e desliza a xícara pra mim. Isso me deixa furioso mas foi uma deixa para sair fora sem pagar nada pois me ocorreu que aquilo não faria qualquer efeito para diminuir minha fome. Me levanto e vou embora. “Seu filho da puta”, ela diz, “não volte mais aqui”. Foda-se. Mulher feia. Eu é que estava fazendo um grande favor a ela em olhar com cara de desejo aqueles peitos decadentes. Não me ocorre nenhuma história. Compro uma coxinha no bar mais adiante. Parecia meio azeda e estava quente porque praticamente jazia sob uma luz de sessenta velas. Não há sequer uma biblioteca legal na periferia pra gente ler alguma coisa boa e passar o tempo. Subitamente me dá um tesão desesperador. Tenho dois reais no bolso. Às cinco da tarde os trens do metrô começam a ficar lotados. Lembro-me de quando me divertia nos ônibus encoxando as garotas. Aquilo era uma louca aventura. A grande merda em nossas vidas é que chega uma hora que vem o juízo e a gente se bota freios. Entrei na estação resoluto. Hora da diversão.           



Escrito por Mauro Cassane às 12h27
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]


 



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 36 a 45 anos, Livros, Arte e cultura
MSN -
Histórico
  15/10/2006 a 21/10/2006
  01/10/2006 a 07/10/2006
  03/09/2006 a 09/09/2006
  27/08/2006 a 02/09/2006
  20/08/2006 a 26/08/2006
  13/08/2006 a 19/08/2006
  06/08/2006 a 12/08/2006
  30/07/2006 a 05/08/2006
  23/07/2006 a 29/07/2006
  16/07/2006 a 22/07/2006
  09/07/2006 a 15/07/2006
  02/07/2006 a 08/07/2006
  18/06/2006 a 24/06/2006
  28/05/2006 a 03/06/2006
  14/05/2006 a 20/05/2006
  07/05/2006 a 13/05/2006
  30/04/2006 a 06/05/2006
  23/04/2006 a 29/04/2006
  09/04/2006 a 15/04/2006
  02/04/2006 a 08/04/2006
  26/03/2006 a 01/04/2006
  12/03/2006 a 18/03/2006
  05/03/2006 a 11/03/2006
  26/02/2006 a 04/03/2006
  19/02/2006 a 25/02/2006
  05/02/2006 a 11/02/2006
  29/01/2006 a 04/02/2006
  22/01/2006 a 28/01/2006
  15/01/2006 a 21/01/2006
  01/01/2006 a 07/01/2006
  25/12/2005 a 31/12/2005
  18/12/2005 a 24/12/2005
  11/12/2005 a 17/12/2005
  27/11/2005 a 03/12/2005
  20/11/2005 a 26/11/2005
  13/11/2005 a 19/11/2005
  06/11/2005 a 12/11/2005
  30/10/2005 a 05/11/2005
  23/10/2005 a 29/10/2005
  16/10/2005 a 22/10/2005
  09/10/2005 a 15/10/2005
  02/10/2005 a 08/10/2005
  25/09/2005 a 01/10/2005
  18/09/2005 a 24/09/2005
  11/09/2005 a 17/09/2005
  04/09/2005 a 10/09/2005
  28/08/2005 a 03/09/2005
  21/08/2005 a 27/08/2005
  14/08/2005 a 20/08/2005
  07/08/2005 a 13/08/2005
  31/07/2005 a 06/08/2005
  24/07/2005 a 30/07/2005
  17/07/2005 a 23/07/2005
  10/07/2005 a 16/07/2005
  03/07/2005 a 09/07/2005
  26/06/2005 a 02/07/2005
  19/06/2005 a 25/06/2005
  12/06/2005 a 18/06/2005


Outros sites
  UOL - O melhor conteúdo
  BOL - E-mail grátis
Votação
  Dê uma nota para meu blog