Cores Humanas


Lady Jane

Estive por horas parado diante daquele prédio. Por um tempo eu entrava ali sem ser incomodado pelo pessoal da portaria. Chegava, cumprimentava e entrava direto. Pensavam que eu morava lá. Não morava. Residia por dias, mas tinha meu apartamento que divisava com um japonês e um jovem estagiário. Eu era o mais velho e, vergonhosamente, o mais irresponsável. Mas, para a sorte deles, eu raramente aparecia. Senti uma sórdida vontade de rever o prédio simplesmente para refrescar as lembranças. O diabo é que fiquei ali feito um imbecil por mais de horas. Não sei exatamente quantas. Mas foi um tempão. Depois liguei o carro e cai fora. Era fim de uma letárgica tarde de domingo, cheguei com sol ainda quente e sai com o sol baixando no horizonte e lançando suas derradeiras chamas encandecentes e frias para o topo dos edifícios alaranjados. É uma merda andar sem rumo. Pensei que seria interessante ir ao cinema. Dizem que há bons filmes em cartaz, minha amiga me convidou, ela é bonita, mas não me sinto interessado nem nela nem em porra de filmes. Volto pra casa, pego um livro e fico contando as páginas. Me dá uma baita preguiça ler livro com mais de duzentas páginas.

Com o livro em mãos, leio algumas linhas, acho interessante. É uma biografia do Kafka. Não me lembro de ter lido outra biografia alguma vez em minha vida. Acho meio sacal isso de ler sobre a vida de alguém. Mas o Pawel escreve bem, com ritmo, tem estilo, é um escritor nato e astutamente me segurou por vinte e duas páginas. Mas não sei se vou em frente. São quase quatrocentas páginas. Levei um ano para ler Crime e Castigo. Depois de vinte minutos lendo, parei e fiquei pensando em Lady Jane. Esse é o seu apelido. Não sei o nome, apesar de minha insistência, ela não me disse. É uma garota linda, com olhos de um castanho penetrante e uma boca em harmonia com a face. Tudo nela parece que mexe com minhas sensações degustativas. Impressionante isso. Parece que ela tem sabor. Nunca a toquei, apenas conversamos por duas vezes num restaurante que oferece comida barata. Ela é advogada e é, segundo me disse peremptoriamente, muito bem casada. Acho que quis, de maneira gentil, sinalizar pra mim para que eu me restringisse às trivialidades de um bate-papo de mesa de lado de restaurante barato.

Aproveitei Pawel para falar sobre Kafka. Ela se interessou. Mas eu enrolei, não sabia muito, havia lido apenas vinte páginas. Ainda bem que ela falou de livros que eu já lera. "Metamorforse", "Cartas ao Pai", "Serafina, a cantora". Nos demos bem mas quando eu fixava meus olhos nos dela ela os desviava com sutileza e ficava um tanto ruborizada. Não sei por que fiz isso, queria não fazer. Foi irritante e constrangedor para ela. Depois procurei me desculpar com o silêncio e dando garfadas surdas e mastigando e buscando me entreter em meu prato. Ela faz o mesmo com uma elegância imperial. Sinto vontade de dizer que ela parece uma princesa comendo. Ela fica ereta, firme, e leva o garfo à boca com uma delicadeza sedutora. Me censuro. Não poderia dizer isso. Pergunto o nome. Lady Jane. Ah, "my sweet lady jane", a música. Rollings Stones. Não entendo essa mulher misteriosa. Ela é sensual, levanta-se, desculpa-se com uma educação nórdica, olha o relógio, está atrasada. Eu não, nunca estou atrasado, pois há tempos não sei o que é um compromisso ou uma formalidade. Ela vai embora, e eu termino com as batatas nervosamente.

Penso como seria lindo se eu namorasse com essa garota. A segunda vez que a encontrei foi por esses dias. Ela já estava almoçando. Sentei apressado, desta vez na mesa dela. Bem ao lado e até encostei, fingindo relaxo, minha perna esquerda na perna direita dela. Senti uma coisa louca. Fiquei com muito tesão, desejo de beijá-la com todo aquele arroz e salada na boca dela. Foda-se. Beijaria aquela mulher de qualquer jeito. Mastigou aquilo tudo com infinitas e mudas mordidas. Só então me disse olá. Eu queria conversar algo, mas não me ocorria assunto algum. Não falaria de Kafka novamente. Nem de cinema. Fazia um tempão que não ia ao cinema. Falar do que, então, caralho! Se ficasse simplesmente olhando para ela, ainda que me fosse incômodo, pois teria que ficar de pescoço virado, pra mim já estaria muito bom. Mas isso a incomodaria. Então ela tomou a iniciativa. Suspirou, e disse algo. "Estou grávida". Eu tossi. O que? Eu disse isso mesmo "o que". E ela, serenamente, repetiu "estou grávida". "Não parece", eu disse. "É claro, fiquei sabendo ontem". É, grávida recente. Alguns dias, ou um mês. Não sei. Mas grávida de verdade. Esperando uma criança que, certamente, vai ser linda e com a mãe mais linda do planeta.

Acho que toda grávida precisa contar pra alguém sua gravidez. É um momento e tanto da vida da mulher. Mas aquilo parece que foi um decreto absoluto de que eu não teria a menor chance com ela. No primeiro dia me disse que era "bem casada". Na segunda vez que a vi e, inadivertidamente sentei-me ao lado dela, veio o petardo "estou grávida". Bem, resolvi ser sincero e soltei minha maior bobagem. "Eu te amo mesmo assim". Ela riu, engasgou, quase devolveu o alimento que mastigava para o prato. Botou a mão na boca. Riu mais ainda. Tossia. Com sacrifício me disse "você é muito engraçado". Eu ri também, um tanto sem jeito, mas foi o melhor que eu poderia fazer depois da tolice que acabara de dizer. Foi ela quem falou depois de outras coisas. Eu já estava deveras sem jeito. Mas resolvi então fazer o que tinha vontade. Ela contava sobre sua mãe, sobre a reação de sua mãe ao saber de sua gravidez, e eu penetrava todo meu olhar, e minha alma também, nos ohos dela. E ela notou isso, nas não reagiu, não desviou os olhos, sentiu-me invadindo seu corpo, perscrutando sua intimidade, despindo-a até, e permaneceu ali, firme, no seu relato, ignorando o que eu fazia silenciosamente com o olhar mas, decerto, que sentia tudo e até dissimulava suas sensações em cada toque imaginário que eu dava em seu corpo. Foi fascinante, inesquecível. No fim, como num idílico gozo conjunto, suspiramos e nos despedimos e ela deixou seu café esfriar na xícara que sequer tocara. 

Há tempos não a vejo. E foi por isso que estive lá no prédio neste domingo. Queria lembrar de coisas. Gosto desta sensação. Não estou morto. Vira e mexe procuro me certificar disso. Tenho medo de morrer e não notar. Deve ser terrível isso. Há muita gente neste lamentável estado triste. A vida segue em frente. Queria muito encontrar Lady Jane novamente. Mas talvez nunca mais a veja. Porém, nunca mais vou esquecê-la, e tenho certeza que vou beijá-la febrilmente todos os dias.   



Escrito por Mauro Cassane às 23h09
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