A verdade sobre quanto acreditamos em nossas mentiras
É incrível como vivo mentindo pra mim mesmo. Mas faço isso para o meu próprio bem, numa tentativa sempre desesperada de apaziguar um pouco os tormentos de meu espírito torpe. Desde garoto faço isso. Não significa, de modo algum, viver num mundo de faz-de-conta, mas são simplesmente tentativas sistemáticas de aplacar a angustia. Mentirinhas tolas, sem qualquer conseqüência nefasta ou envolvimento de outras pessoas. Um exemplo: bem, eu me imaginava um Pelé branco, um baita craque do futebol, cultuado no mundo inteiro. Depois me imaginava um grande estadista totalitário e ditador, gostava mais ainda, pois daí eu tinha o poder sobre as outras pessoas. E era comum também ter super-poderes como ser invisível, ou voar ou, ainda, ser imortal. Passava essa lábia em mim e me sentia sempre muito bem.
A maior lorota, e a mais irresponsável, que apliquei em mim mesmo foi convencer meu espírito, um grande puto cético, que amei uma garota. Nisso eu fui um mestre. Ou, pensando bem, o maior de todos os tolos. Desde sempre meu espírito compreendia minhas intenções e fora conivente e complacente com minhas mentiras pueris. Mas nessa juvenil história de amor ele acreditou. E então, me fodi. Passou a ser uma verdade soberana, implacável e indissociável de minha vida. Tentei depois, em vão, e de todas as maneiras possíveis, dizer que era uma farsa, que eu só estava querendo ser mais romântico e tudo mais. Nada. O filho da puta está convencido de que ama mesmo a tal garota. E eu queria tanto que fosse apenas mais uma daquelas brincadeiras idiotas que me faziam planar sobre as cidades ou nunca ser atingido por balas.
Eu ainda não entendo porque diabos fui criar isso tudo. E confesso que me desdobrei pra tentar diminuir esse amor, destruí-lo, vexá-lo, desacreditá-lo ou até abstrair suas implicações. Tudo em vão. Um imenso tormento se instalou em mim. O tempo que desfrutamos do amor não compensa a eternidade impressionante de mágoas que ele deixa quando, fisicamente, vai embora. O fisicamente aí está representado, na concepção mais literal do termo, pela pessoa em si que canalizamos nosso amor. O que não entendo é porque isso acontece. Há de ter uma explicação científica. Destino? Ora, porra, então o destino é sempre se foder? Algo metafísico? Não, definitivamente não pode ser. E dentro da maior racionalidade possível não consigo crer que o amor seja uma verdade e sim uma grande mentira humana. Só os humanos mentem? Acho que sim. Os animais, puros como são, apenas dissimulam com propósitos sempre nobres e seus espertos instintos os preservam do amor.
Já li em algum lugar que o amor é uma doença vertiginosa e se assim for eu a posicionaria dentre aquelas terríveis moléstias peçonhentas e incuráveis. Não me livro dessa merda tão cedo. Mas também não acredito que seja incurável. Dizem que o remédio para curar um amor é arranjar outro amor. Mas que merda, não pode ser assim tão cruel, pois temos então que transitar feito desgraçados entre uma e outra enfermidade. Prefiro investir no tratamento de choque. Numa espécie de retrocesso aos mais primitivos e imaculados instintos selvagens. Isso sim me parece redentor. Sexo pelo sexo, pelo puro prazer da satisfação com o efêmero gozo cru. Nada além disso. Na verdade também é uma mentira, mas ainda é melhor antídoto para esse vil e poderoso veneno. Perdi meu grande amor há alguns anos e desde então o que faço é sempre aviltar e conspurcar meus sentimentos. Se sinto algo por alguém imediatamente trato de me mostrar um ordinário canalha. Nada de apego, nada de paixão. A única vez que acreditei nessa lorota toda, adoeci.
Com tudo isso fermentando em minha mente sai caminhando pela avenida Paulista às quatro e meia da tarde. As mentiras são odiosas e perdem a graça quando passamos a acreditar nelas. Eu pensava insistentemente na mesma mulher. Parei na banca de jornal em frente ao parque Trianon. Precisava ler alguma coisa para esvaziar as porcarias que pareciam sufocar meu espírito. A leitura pra mim é uma espécie de descarga. O foda é encontrar algo interessante pra ler. Ou então o melhor a fazer é xingar todo mundo e chutar quem estiver por perto. Na banca não encontro nada, nenhum livro bom e barato. Minto de novo: dou uma boa surra imaginária no prepotente dono da banca. Espanco o filho da puta e o deixo ensangüentado na larga e sombreada calçada.
A luz do crepúsculo é irritantemente poética e o brilho alaranjado refletido aqui e ali pelos grandes edifícios espelhados confere à metrópole ares sagrados de paraíso colorido. É também uma porra de uma mentira. A violência está ali estampada na cara de cada um, nos olhos desesperados e desconfiados, nas faces taciturnas e repletas de ódio. Os pássaros do Trianon fazem um puta reboliço com suas cantorias alucinadas. Tudo parece tão bucólico e pacífico com os hippies vendendo seus artesanatos, outro maluco tocando violão e umas garotas esfarrapadas confeccionando pulseiras com sementes e arames. Uma rota criança passa com um saco colado nas ventas sugando furiosamente o parco ar contaminado dali de dentro. As pessoas, mesmo apressadas e sempre avessas às mazelas, desviam dela e seguem aos atropelos. Os guardas permanecem nervosamente impávidos. Desci a escada do metrô e dei o fora daquele inferno sem parar de pensar um minuto naquela maldita mulher. Talvez nos subterrâneos eu encontre a cura. Ou alguma paz.
Escrito por Mauro Cassane às 13h53
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