Fim de tarde na torre do castelo
Domingo acordei de sobressalto com um tenebroso grito misturado a intermináveis lamúrias. Um puta sono, mas o sol já brilhava lá fora e o frio outonal fazia de tudo para nos deixar letárgicos. Demoro a pegar no sono novamente. Fico puto e resolvi mijar. E daí outro grito prolongado, agora acompanhado de choro copioso e soluços desesperados. Isso é sempre assim. Decerto era a porra da morte. Desde criança me acostumei com esse choro de senhoras diante da fatalidade. Abri uma fresta da cortina da janela e prestei atenção. Não dava pra ver nada além de um pedaço solitário do asfalto iluminado. Era a morte sim. A vizinha, uma gentil senhora sempre solícita, acabara de perder o marido. Morreu do coração. Deitou, dormiu e assim ficou. A morte dos justos. Lamentei muito, era um bom homem jovial com seus setenta e dois anos. Não consegui mais pegar no sono. Sentia que precisava dar algum tipo de apoio. Tomei uma ducha e fui pra fora e me deparei com uma impressionante cena de guerra. Uma porrada de policiais fortemente armados. Entravam e saiam da casa. Porra, nem parecia morte natural. Ou talvez meu pacato vizinho fosse algum figurão do tráfico? Nada. Era gente do bem. No desespero chamaram a polícia. E eles vieram num bando grande e ostensivamente armados. Era uma pequena amostra do grande horror que tomou a cidade de assalto. O crime organizado desorganizando a sociedade. Os policiais estavam com medo de mais atentados, de mais mortes entre eles, e andavam alertas, tensos e prontos para agir com vigor. E estavam mesmo certos. Não sei o que eu faria, mas com certeza não ficaria vacilando não.
Em dez minutos foram embora. Deixaram o corpo do homem lá. Não havia o que fazer. Horas depois chegou o resgate. Também nada fizeram. E o senhor continuava ali, já com as gélidas fibras endurecidas e tomando feições fantasmagóricas. A mulher sofria muito. A gente não sabe direito como ajudar. Mas ficamos ali, somos seres sociáveis e solidários. Estava com uma dor de cabeça fodida fruto de uma ressaca pesada de cachaças e cognac. A guerrilha urbana explodira na noite anterior. E eu nem sabia de nada. Fui beber com amigos que também sabiam de pouca coisa. A ignorância nos faz corajosos. Ressaca me dá fome. Fui comer na casa de minha mãe. O morto permaneceu ali, rijo e gelado, transtornando ainda mais a pobre senhora recém-viúva. Mas gente demais já a acudia, e meus prestes, embora de boa vontade, não serviam pra merda nenhuma. Caminhei quilômetro e meio até a casa de minha mãe. Lá na rua onde passei minha infância encontrei Jonas que logo veio em minha direção. Não o via há três anos. Estava magro e com umas tatuagens toscas por todo o braço. Mas bem penteado e limpo. Indulto do dia das mães. Puxava cana de cinco anos. Assalto à mão armada e tentativa de homicídio. Não falava com ele desde quando fora preso.
- E aê Cass, belê mano? – ele me diz sorridente e logo me dá um abraço. É um cara alto, forte e boa pinta.
- Fala maluco. Enfim a liberdade?
- Nada. Três dias em casa por causa do dia das mães. Volto pra lá na terça.
- E quanto tempo mais?
- Se Deus quiser mais um ano e to na área de novo...
- E tu vai fazer merda de novo?
- Nada, Deus me livre. Agora to sossegado. Me chamou pra tomar umas no barraco dele que fica logo na frente da casa de meus pais. Barraco não, uma casinha fodida de tijolo e cimento com dois cômodos ínfimos. Ali moravam sua jovem esposa e dois filhos. Um de oito e outro de seis anos. O terreno sim era grande mas completamente ocupado por outros pequenos cômodos que abrigavam os pais, os tios, outros irmãos, alguns primos e incontáveis crianças maltrapilhas. Muitos deles velhos conhecidos das delegacias. Mesmo sem vontade e com dor de cabeça aceitei dividir uma cerveja com ele. Afinal, eram três anos sem vê-lo e sabe-se lá se o veria novamente. Jonas falou um pouco da vida dura na prisão e citou Deus umas vinte vezes. Perguntei se ele tinha se convertido. Ele disse que não, mas agora se sentia mais perto de Deus. Entendi. Bebemos e terminamos a garrafa. Então me despedi. Não sei direito as merdas que o cara fez por aí, mas comigo sempre foi gente boa. Depois de um agradável almoço na casa de meus pais fui caminhar pela periferia. Adoro ver o crepúsculo alaranjado na praça do castelo que nada mais é que uma antiga caixa de água que, nos anos 40, fora adornada e tomou pueris feições de uma torre medieval. Mas só a torre. Nada de castelo. Desde criança brincava ali, e já naqueles idos anos estava desativada. Creio que parou de funcionar nos anos 50. Como fica no alto do morro e tinha porta e tudo mais, a gente transava com as garotas lá dentro no meus tempos de garoto. Não havia no mundo, pra nós, lugar mais seguro pra trepar com as vizinhas.
Escrito por Mauro Cassane às 15h10
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continua...
Caminhei até lá sob os zunidos nervosos das viaturas assoviando. Os policiais estavam ouriçados. E isso é ruim. Principalmente na periferia. Queria fumar um beck tranqüilamente mas era evidente que seria impossível. Mesmo com o sol se pondo parecia tudo meio cinza e opaco. Tarde triste de domingo. Muita polícia na rua, um bom vizinho morto e nada pra fazer. Sentei-me no banco e fiquei ali olhando o castelinho e bulinando com minhas lembranças. Ângela passou por mim. Uma morena incrível e tesuda que adora provocar qualquer cristão. Com seus vinte e um anos parece padecer de furor uterino. Transpira sexo. A mãe dela já era gostosa. Loira espevitada e ruidosa com grandes olhos verdes e uma bunda impecável e bojuda. Nunca fodi com ela, mas já havia gozado muito pensando naquelas tetas, pernas e bunda. Depois casou, teve filhos e ficou gorda e feia pra caralho. É um ano mais velha que eu e tá um horror. Parece que tem uns quinze a mais que eu. Foda-se ela. Casou com um negrão estranho e taciturno que era valentão e metido a bandido. Depois o cara ficou doente e fodido e agora parece um saco de merda se arrastando e mendigando trocados pra fumar e tomar seus tragos. Ângela saiu uma mistura luxuriosa dos pais. Morena com olhos de mel com uma bunda perfeita e redonda, arqueada e vibrante, e aqueles peitos duros e selvagens.
- Que tá fazendo aí feito um bobo sozinho? – ela me diz escrachada e sorridente.
- Tava te esperando!
- Vai-te a merda, mentiroso...
- Porra, é sério, me falaram que você tinha subido pra cá e...
- Vai, fala sério...
- É, trouxe até um beckezinho pra gente fumar...
- Hummm, mesmo?
- Tá aqui...
- Mas fumar aonde?
- Lá em cima...
- Tem policia pra caralho hoje...
- Ninguém sobe lá...
- Então vamos...
Que garota incrível. Dentro do castelinho ainda tinha um cheiro forte de urina. Mas o espaço é pequeno e defumamos tudo com a erva. A fumaça fugia pelas pequenas janelinhas retangulares. Ninguém nos incomodou. Da porta, com aquele dorso achocolatado dobrado e com seus braços musculosos segurando firme na grade, pude observar a lua tímida por trás de umas nuvens cinzas, deslizei a mão esquerda por aquela pele úmida e oleosa de suor. As sirenes continuavam a soar ferozmente no horizonte hostil. Mas na modesta torre do castelo da zona leste dois pobres súditos pareciam não se importar com nada além do amor.
Escrito por Mauro Cassane às 15h09
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