Cores Humanas


Apenas etapas e nada mais...

Dias desses recebi pelo correio uma caixa-correspondência com um remetente fajuto. O nome era uma porra de uma mentira, e o endereço tão surreal que não sei como não despertou suspeita. Rua dos Amores, número 69, bairro das Roseiras, Espírito Santo. Que coisa mais idiota. Mas fiquei meio receoso de abrir. E só o fiz com alguma cautela e também porque estou no Brasil e não sou nem famoso, nem rico, nem político, nem alto executivo, nem porra nenhuma que merecesse atenção de encrenqueiros terroristas. Ainda não fui assim tão contaminado por paranóia de cartas-bombas ou coisas do tipo. Abri. E só tinha um pequeno pacote com umas fotos dentro. Umas vinte, pareciam novas, e mostravam cerimônia e festa de um casamento. Nada demais não fosse pela protagonista principal. A garota que por um tempo amei demasiadamente, pra ser bem franco, descontroladamente. Se é que no ato de amar seja passível de algum controle. Bem, foda-se. Seja lá quem o fez, teve como propósito me magoar. Talvez imaginasse que eu cairia em prantos. Ali estava ela defronte ao juiz, toda linda de vestido sensual, com seu sorridente cara ao lado, e padrinhos, e tios e parentes. Depois jantar, champagne, e tudo muito bem documentado em fotos. Que bacana. Uma boa cerimônia de casamento. Simples e correta.

Não derramei uma lágrima sequer. Muito embora diversas outras tinham, em tantas outras ocasiões, percorrido minha face, exclusivamente por ela. É o mesmo gosto salgado do suor. Mas ao ver tais fotos não senti nada além de um certo alívio. Enfim o término de uma etapa. Me senti pronto, definitivamente vestido, para a outra fase. Creio que ainda sinto algo por ela, mas definir esse algo é o mesmo que tentar vasculhar um saco de merda com os dedos. Não vale a pena e só nos deixa mais fodidos. Foi um período maravilhoso, dourado, idílico, mas acabou. Tudo termina. Até essa porra de vida uma hora vai pro brejo. O que sei é que a amei de verdade. E isso já me basta. Há resquícios dessa insânia, e tendem a permanecer atados na gente feito tatuagem. Se alguém queria me ferir, creio que o efeito foi uma boa dose de remédio. Cicatrizou. E fui em frente. Guardei as fotos, porque estavam mesmo lindas. O verdadeiro casal feliz. E isso sempre me enternece.

Depois resolvi sair um pouco da toca. Encontrei Fernandinho para umas cachaças no bar do Coelho. É uma espelunca mal-cheirosa mas me servem bem e com generosidade. Contei pra ele sobre as fotos. E ele fez cara de atônico consternado. Dessas que as pessoas fazem diante das desgraças alheias. Eu ri. Ele ficou ainda mais surpreso. Expliquei tudo o que já disse acima, e em minutos ele já estava me contando suas aventuranças bem e mal sucedidas com as mulheres. É divertido ouvi-lo, acho que nem o grande Nelson Rodrigues seria capaz de inventar tantos nós sentimentais.

Nessa noite, diferente das outras, onde normalmente bebo e vou pra casa dormir, conhecemos uma turma. Duas garotas e um sujeito oriental. Todos publicitários que trabalhavam numa dessas agências da moda. O cara que armou tudo e nos convidou pra sentar com eles. Claro, natural, óbvio, era veado. Homem não chama outro estranho para compartilhar suas fêmeas, mesmo se essas não vão dar nada pra ele. E então sentamos todos ali. A conversa flui para o que eles entendem bem. Moda, vídeo, campanhas publicitárias, roteiros e o caralho. Na verdade a conversa já estava nesse pé quando chegamos. E a gente apenas ficou ali assistindo o papo e bebendo. Não gosto desse assunto. E Fernandinho não entende de outra coisa senão de brinquedos e putaria. Ele tem uma loja de brinquedos. Ficamos pacientemente dando sorrisos idiotas, pois as duas eram verdadeiramente gostosas. Uma loira de olhos azuis, uns 30 anos, peitos formosos e soltos em uma camisa larga de seda indiana, e só a vi sentada, mas dava pra notar que tinha boa bunda pois seu quadril fazia um grande arco que se esparramava para fora da cadeira. A morena era meio esquelética, mas tinha um rosto suave, branco e melancólico, adornados por um par de olhos negros e delicadamente maquiados e uma boca lânguida com grossos lábios. Uma chupada daquela boca seria algo a ser lembrado para sempre. Confidenciei isso com Fernandinho, enquanto os três discutiam uma postura ou sei lá o que de um cliente. Ele concordou, assim como entendeu que ficaria com a magricela. Não dava para negociar muito na frente deles.

Às duas da madrugada pedimos a conta e rachamos as despesas. O japonesinho espevitado sugeriu bebermos saquê na casa dele ali perto. As moças se ouriçaram, e nós, evidente, topamos. “É perto, vamos andando mesmo”, e a trupe seguiu esse serelepe zen budista infame. Era realmente um apartamento incrível e tipicamente burguês. Cheio de luzes opacas por tudo quanto é canto, um grande sofá baixo e largo, mantas orientais de cores fortes e um bar repleto de bebidas. O anfitrião tratou de botar som e nos deixar bem à vontade. Sentamo-nos todos ao chão, daquele jeito que todo mundo gosta, recostados em almofadas. Nenhuma novidade. A morena falou que seria interessante um beck. O japa não tinha, mas eu tinha. E acendi sem falar nada. Eles uivaram de alegria. Fiz a bagana girar, todos puxaram e seguraram e toca raridades de Caetano Veloso em vinil. Um velho álbum onde ele interpreta a canção “terra” bem pra cacete, naqueles tempos dos pós novos baianos. E nós ali, nos transportando para os hippies, largados ao chão, fumando, bebendo saquê e com tesão. Pobre japa, eu pensava. Se ele pensa que isso vai ser uma orgia e que vamos trepar com ele, tá enganado, pois o Fernandinho é avesso a veados e eu não tenho nada contra, mas não rola. Não tem jeito. A loira estava muito perto e exalava aquele cheiro úmido de cio, mas até então nada. Resolvi fazer algo. Me encostei nela, corpo a corpo. Ela relaxou, tragou fundo o beck e se virou pra mim com aquela boca sedosa e soltou a fumaça com os lábios colados aos meus. Traguei e beijei. E nos atracamos bem rápido. Fernandinho é veiaco e não deixou o clima esfriar. Catou a magrela. O veado ficou ali, como um velho sábio, assistindo e bebendo saquê.

Escrito por Mauro Cassane às 14h19
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continua...

A loira cochichou algo para o japa e me puxou para o quarto. Entrei com ela e, por precaução e para evitar surpresas, logo ao passar tranquei a porta. Ela apenas sorriu como se adivinhasse minhas desconfianças. O cheiro dela me deixava febril e primitivo. Passei a mão por suas costas, e a textura me deixou de pau rijo demais. Pele muito macia, e ela ronronava e se enroscava em mim. Não estava muito afins de preliminares românticas. Estava no meu estado incivilizado e meio sádico. Cateia-a pelos cabelos, arranquei sua blusinha riponga e pressionei com força seus peitos fartos e duros. Ela gemeu em minha boca. Disse algumas palavras incompreensíveis. Continuei firme com a mão direita prendendo sua cabeça pelos cabelos e puxando sua cabeça pra trás. Ela gemia mais e como em franco desespero, com suas mãos, tentava tirar minha calça jeans. Isso me enlouqueceu. Sem largar seus cabelos, e com uma força furiosa, a coloquei de quatro, com a mão esquerda baixei sua calça e ali estava o que eu já imaginava, uma linda e branca bunda muito bem feita e arqueada e sedenta. Apliquei-lhe bons tapas, selvagens e brutais, ela pediu mais. Gritava. Filha da puta de uma cadela deliciosa. Trepamos por horas. Suor, ruídos, hematomas, cansaço e muito gozo e saliva. Dormimos ternamente atados como nos tempos em que eu dormia com meu amor. Pensei nisso ao acordar de manhã muito cedo. Tomei café só eu e o japa. E ele parecia incrivelmente feliz e satisfeito. No sofá dormia a magricela. No chão jazia um largo colchonete com um lado desarrumado e, do outro, meu amigo Fernandinho cuidadosamente coberto em sono profundo. Não perguntei nada. Odeio fazer perguntas pela manhã. 

 



Escrito por Mauro Cassane às 14h19
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