Fuga eterna
Não existe estatística confiável nem nenhum fundamento científico, mas é fato que há mais filhos da puta do que gente boa nesse mundo. Creio que a proporção seria algo perto de 80% da população do planeta. Tudo filho da puta ordinário. Estão espalhados por aí, em todo lugar. Mas disfarçam bem. Principalmente quando ocupam cargos legais e ganham grandes somas em dinheiro. Uma boa máquina pra detectar filho da puta é o automóvel. Grande invento popularizado pelo senhor Ford. O sujeito entra ali e imediatamente é identificado. O foda é que quase todo filho da puta tem carro. Bem, esse é o mundo, uma pequena aldeia sufocante e abarrotada de filhos da puta. Vivemos como numa boiada, e temos medo de nossos semelhantes, os matamos e os ferimos, desconfiamos de nossos pares e cheiramos nossa merda o tempo todo. Os 20% restante, aparentemente gente boa, tentam botar a cabeça pra fora e respirar ou simplesmente se isolam e enlouquecem.
Quando garoto eu acreditava em amor. Isso mesmo. E plenamente. Acho que assisti muitos desenhos da Disney. Dama e o Vagabundo. Essas coisas. Cresci na periferia arruinada de São Paulo, nas mais desordeiras sociedades alijadas do mundo civilizado, mas acreditava pra caralho no amor. Fazia poemas mas tinha vergonha de mostrá-los aos amigos. Diziam que era coisa de viado. A gente vai se embrutecendo na periferia. Ganhava grana fazendo carreto em feira e a tarde ia para escola e escrevia poemas nas últimas folhas do caderno. Quase nunca tinha aula. E quando tinha os professores se dedicavam a quem eles acham que tinha algum futuro. Um grupinho pequeno posicionado ali nas primeiras carteiras era o escolhido. A turma do fundo era formada pelos vagabundos sem juízo e sem qualquer perspectiva. Eu era um deles e também o mais jovem. Bando de repetentes, e os que faziam sucesso com as garotinhas eram os mais velhos, fortes e delinqüentes. O grande negócio era roubar tênis all star dos burguezinhos e farol de milha dos carros. Eu não roubava nada de ninguém. Meu pai era duro comigo. Ocupava meu tempo escrevendo poeminhas melosos e pensava um dia entregá-los ao amor de minha vida. No fim, anos mais tarde, foram todos jogados ao lixo quando meu pai resolveu fazer um puxadinho na casa. Não me importei, afinal já não levava tanta fé nessa porra de amor.
Faltava grana e me ensinaram que moralmente era errado roubar. O exército parecia o único caminho, mas eu tinha aversão à rotina de caserna regida por superiores e regras e o caralho. Além do mais o regime era militar, ditadura de filhos da puta, e servir o exército parecia coisa de pelego. Ganhava uns trocados num negócio que parecia bem próspero: eu e meu amigo só tínhamos que entregar míseros pacotinhos com erva prensada nos carros que ficavam ali parados. Um alemão taciturno, grandão e gordo só nos dizia a cor e o modelo do carro. E a gente andava até lá, de boa, conversando, e jogava aquela porra dentro do carro e o bicho saia fora acelerando. Fácil e simples. A cada entrega, um trocado. A polícia nunca aparecia. Pelo menos é o que nos diziam. Então tudo tranqüilo. A gente andava descalço e os pés pareciam criar um solado de pele morta e imunda. Um dia um opala freou bruscamente no meio da vila. As portas se abriram e saltaram três sujeitos de óculos escuro e calças jeans apertada e sapatos e saíram como cães raivosos. Parecia mesmo um trovão e aqueles filhos da puta foram disparados do carro falando coisas loucas e incompreensíveis. Eu estava com um pacotinho na mão e joguei ao chão e sai correndo. Não sabia ao certo pra onde ir. Mas corri pra cacete sem olhar pra trás. A gente aprende a não olhar nunca pra trás. Faço isso até hoje, não olho pra trás. Agora nossas fugas são outras, e não são menos perigosas e doloridas. Naquele dia não me pegaram, fui mais ágil. Mas ganhei um imenso caco de vidro inteiramente enterrado na sola do pé. Ninguém sai ileso. Fui socorrido na farmácia do bairro. Tiraram o pedaço de vidro e desinfetaram. A gente não pode demonstrar dor, senão ganha má fama e perde o respeito.
Parei com essa merda de entregar pacotinhos. Voltei aos poemas. Entrei no grupo de teatro da escola. E aí sim, brincando de ator, consegui transar com algumas garotas interessantes. Elas olham pra gente quando nos destacamos dos outros. Não sei se nascemos filhos da puta. Dizem que a vida nos ensina muitas coisas. Então é provável que nos tornamos filhos da puta com o tempo. A todo momento tento fazer parte dos 20% de gente boa. Mas não é fácil. Não é nada fácil. Talvez se encontrasse um grande amor. A merda é que toda vez que pensei ter encontrado veio uma puta frustração aterradora. E fui me tornando mais e mais amargo. Mais e mais filho da puta. A gente tenta escapar, mas o grande laço nos retém na manada de tolos. Continuo fazendo poemas para poder respirar. Mas ainda tenho receio de mostrá-los.
Escrito por Mauro Cassane às 11h22
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