Uma visita a Manaus e a saga da linguiça calabresa
Viver no Brasil é muito bom. Não é ironia, nem nada. É bom pra caralho mesmo. A gente só precisa se virar pra ganhar uma grana e ignorar completamente qualquer coisa política. Afinal não se pode levar a sério brasileiros na política. Não quero nem saber. Já foi o tempo em que me preocupava com essas merdas. Hoje não ligo mais. Não tem jeito, nem cura, nem nada. O negócio é não se preocupar com isso. Nossos políticos são boçais desde quando começou a república. E acho que é assim que as coisas devem ser. Me deixa menos puto saber que esse câncer é globalizado. Se você tá fodido é bom ver o rabo arruinado de seus vizinhos também. Deixa a gente mais conformado. No mundo inteiro é uma merda. Que se foda, a despeito desses vermes, é um tesão viver no Brasil. Tem que viajar pra conhecer. Botar o pé na estrada e sair por aí. Essa gente toda e essas terras coloridas são fascinantes. Passei uns dias em Manaus, estava saudoso daquela umidade pesada e quente e daquelas mulheres formidáveis com seus corpos achocolatados e brilhantes. Porra, não dá pra morrer sem passar uns dias em Manaus.
Se instalar ali, no grande e velho hotel Taj Mahal, é o que se deve fazer. E foi exatamente o que fiz mais uma vez. Não guardo nomes de ruas, mas a rua principal dá no centrão velho e no lugar onde se vende tudo quanto é bugiganga. Legal. Andei por aquelas ruas, saudoso, pois foi ali, naquela rua, que há dez anos me apaixonei por uma putinha fabulosamente linda. Parecia uma solitária índia triste, com suas vestes insinuantes e aqueles lábios infernais e vermelhos e grossos. Estava quieta e parada, apenas tentando sobreviver. Me aproximei e dei a ela uma nota de cinco reais. Era o que eu tinha e nem queria nada. Apenas senti esse impulso de dar a ela algo para comer. E foi mesmo o que disse a ela. “Olha aí, pra você fazer um lanche”. Ela me lançou um olhar febril e luminoso, negros olhos levemente puxados, aqueles cabelos lisos e imaculados, não disse nada, mas notei que ela sorriu por dentro. Me senti bem. Ela me deu um beijo no rosto e saiu correndo descalça. Que linda. Nunca mais a vi, nunca mais a esqueci tampouco. Bem, de volta ao idílico universo amazonense. Não encontrei minha puta índia, fruto de tantos poemas, mas parece que ela se multiplicou em centenas ou milhares.
Peguei um táxi para ir ao evento que me convidaram. O taxista, como quase todos, disparou suas mais cabeludas mentiras. Dizia que comia de cinco a seis garotas diferentes por mês. “Aqui tem dez mulheres para cada homem”, se gabava. Caralho, eu disse, então vocês devem mesmo tomar conta muito bem de todas elas, pois nunca sobra nada pra mim. “Viche, mas tu não é brocha não, é?”, ele soltou isso de bate e pronto. Caboclo faceiro. E seguimos zigue-zagueando pelo trânsito insano. No evento fiz amizade com uma equipe de reportagem de tv. Ficamos enchendo a cara de uísque. “Porra, aqui tu tem que ir ao forró. Sobra mulher. Elas te pegam e aqui a gente fode depois conhece direito. Tem dez mulheres pra cada homem”, me diz o cinegrafista. Cacete, de novo. O mesmo papo. Significa que era verdade? Sei lá. Se sim, então sobram sempre nove coitadas. O cara me convidou pra conferir. O problema é que ando meio sem pique. Não sei ao certo o que se passa comigo. A repórter, um tanto de lado, pois certamente não estava muito interessada nos rumos da prosa, ficara ali bebericando seu refrigerante e fumando. Era feia e aparentava mais de quarenta anos. Parecia sofrida. Mas tinha um bom corpo, parecia toda firme e forte, além de ser esguia e ter uma bunda arqueada. Me aproximei. Ela sorriu e falou. “O que eles falam é verdade, sobra mulher aqui”. “Ah, sim, e você tá sobrando?”, apenas brinquei. “Não sei ainda, to?”, ela respondeu. Meu pau respondeu com um sobressalto animado. Avaliei melhor o corpo. Era perfeito. A cara dramática, mas o corpo divino. A terceira dose de uísque tira nosso poder de discernir as coisas. Pedi a quarta dose. Daí pra frente a gente se larga. Bem, tomamos café da manhã juntos no Taj Mahal e isso realmente foi a pior parte. Ela era casada e parece que vingou-se de seu marido e de todos os sujeitos de Manaus comigo.
Estatisticamente, de acordo com a crença popular, em Manaus sobram sempre nove mulheres para cada homem, e eu fui pegar justamente a mais feia e a que já tinha dono. Mas, enfim, era gostosa. Voltei pra Sampa e perdi a festa de aniversário de meu amigo Vince. Ando meio avesso à festas. Mas ele me contou o desfecho em detalhes. Fiquei impressionado. Nunca havia pensado em algo tão exótico. Ele e seu amigo transaram com uma garota no apartamento. No cinema há uma verdadeira ode à culinária nas trepadas mais antológicas. Já vi cenas legais com ovos e outras, ainda mais cult, com manteiga. Nunca vi nada parecido com um portentoso naco de lingüiça calabresa. Mas dá pra imaginar. A lingüiça adormeceu esquecida no chão, mas voltou para a geladeira na hora de arrumar a casa. Vai virar porção na reunião da galera no fim de semana.
Escrito por Mauro Cassane às 15h39
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