Cores Humanas


Sonho de insone

Duas noites sem dormir e tomando doses cada vez maiores de rivotril. Aos insones, a graça dos dias mais longos. Resolvi pegar meu carro e sair pelas ruas da periferia. Mas não há muito o que se fazer por esses lados ermos da cidade. Uma madrugada bruta demais, sem graça, sem música e sem fogo. Tudo muito calmo sob um céu nebuloso. Parecia o fim do mundo. Aquilo já estava me aborrecendo e me dando nos nervos. Coloquei um som do “Orijas” e toquei o carro para onde eu sabia que sempre tem diversão. Ilha da Fantasia. O puteiro mais divertido da Zona Leste. Acelerei pra lá e cheguei por volta das duas horas. Botei meu carro no estacionamento e lá haviam mais uns dez ou doze veículos dissimulados entre as mangueiras. Bem, enfim algo interessante e barato a se fazer. No Ilha da Fantasia a cerveja custa a mesma coisa que nos botecos de rua. Três reais. Cumprimentei com um tímido aceno um taciturno segurança novato com uma imensa cabeça negra raspada repousada num sólido pescoço largo que se emendava com suas costas colossais. Eu conhecia bem o Antenor, um falante magricela sorridente e alto pra cacete. Pensei em perguntar a esse brutamonte o que houve com Antenor, mas o sujeito não tinha cara de quem apreciasse qualquer tipo de prosa amigável. Era mal encarado. Porra, pensei, encarar uma briga com um bicho com essas proporções seria pedir pra morrer. Ainda mais ali. Estava com quinze reais no bolso e não ficaria ali mais que uma ou duas horas. Queria apenas distração para pegar no sono. Foda-se o Antenor.

Entrei e o velho Raul me conduziu a uma das melhores mesas. Não resisti e perguntei ao Raul sobre o Antenor. “Mataram ele faz quinze dias. Foram uns putos que vieram aqui e só fizeram algazarra. O coitado do Antenor, sabe como era o jeito dele, né?, foi dá uma de diplomata e trocar idéia e tudo, e tomou um tiro no meio da cara aqui dentro mesmo”. Assim entendi porque resolveram colocar aquele animal de pouca conversa na portaria. O garçom me trouxe uma cerveja e lá estavam as boas garotas notívagas com seus sorrisos e rebolados insinuantes. Avistei uma morena maravilhosa que nunca a tinha visto antes. Que garota fabulosa. Cabelos lisos e negros com uma franja cuidadosa escorrendo na testa alva. Olhos também escuros com adornos de linhas negras enaltecendo-os. Dois garotos estavam em seu encalço, mas ela os esnobava como uma garota faz com seus entediantes pretendentes. “Como uma puta pode esnobar clientes?”, eu pensava comigo mesmo. Embora, eu sabia, naquele lugar as regras eram um tanto diferentes. E como minha verba só me permitiria mesmo duas ou três cervejas, me dei por feliz apenas em ficar de boa e observá-la e fiquei ali, perdido em meus sonhos, “eu acho que amaria essa mulher”. Esse era meu sonho mais freqüente naquela noite. Que bunda. Sim, que bunda. Vale destacar. Ela vestia uma calça de atleta, dessas com duas faixas laterais, e uma camiseta regata branca delicadamente curta. Essa simples indumentária conferia a ela uma sensualidade descomunal. Tudo parecia impressionantemente firme. Peito, bunda, braços, barriga e face. Perfeita. Que diabo de defeito poderia ter essa fêmea? Não conseguia mais parar de mirá-la. Os rapazes pararam de atormentá-la e ela já havia lançado por duas vezes um olhar feérico pra mim. De maneira comportada e discreta, sem outra coisa a fazer, resolvi chamar o Raul. Perguntei a ele sobre a novata. “Essa é fresca demais. Ela se acha. Não sai por menos de 200 paus e dizem, não sei se é verdade, que é truta do Mãozinha”. Minhas chances se foram. Primeiro porque nem a pau que pagaria 200 contos pra trepar e depois não era uma boa idéia mexer com coisas do tal Mãozinha, o trafica mais filho da puta da vila ema. Um cara covarde e mal caráter que atirava pelas costas. O foda é que gozava poder e até proteção oficial. Nunca soube direito da história dele, sabia sim da fama ruim. Se lenda ou não, a prudência ensina não vacilar. Pedi a segunda cerveja. Duas e quarenta da madruga. Que bom, senti uma leve ponta de sonolência. O rivotril começava a fazer efeito. Esqueci de perguntar o nome da moça. Que se dane, depois daquelas informações, não me importava mais.

Minha surpresa foi indescritível quando a mão que depositou a segunda cerveja em minha mesa não era outra senão a da tal beldade bandida. A truta do Mãozinha bem ali, na minha frente, sorridente e solícita como uma aeromoça. De perto ela era ainda mais linda. E cheirava bem. Não a perfume, mas a pele morena de fêmea no cio. Não tive como disfarçar o olhar nas duas saltitantes pontinhas negras e endurecidas dos peitinhos marcando violentamente sua camisetinha branca. Uau, que tesão. Que mulher. Porra, será que o filho da puta do Raul a fez trazer a cerveja pra mim? Foi isso que pensei e, no mesmo instante, falei isso mesmo pra ela. “Nada disso, eu queria arrumar um jeito de sentar aqui com você. Posso?”, ela me disse com um sorriso inebriante. “Ah, claro, eu vou me sentir especial com a mulher mais linda deste lugar”, eu disse. Ela agradeceu como uma linda moça de família agiria a um dos centenas de incontroláveis galanteios que já se acostumara a receber. Acho que ela esperava que eu perguntasse sobre ela e tudo mais. Mas eu sou tímido e meio bocó. Falei que estava ali apenas esperando meu sono chegar, que morava ali perto, e falei do rivotril e disse que já estava até me sentindo bem porque sentira uma pontinha de sono. Daí soltei uma cantadinha barata e previsível de que sonharia com ela. Ela rio novamente, e agora sem sua ostensiva sensualidade, mas com uma ternura quase infantil. Aquele sorriso brilhou formosamente. “Casaria com uma mulher assim”, insisti nesse infame pensamento. E resolvi bancar o cara sincero:

Escrito por Mauro Cassane às 15h49
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continua...

-         Olha, moça, você é bem linda mas não perca tempo comigo. Vira e mexe apareço por aqui só pra ver o movimento e esperar meu sono chegar e depois sonhar com garotas tesudas dançando. Só isso. Não é justo você investir seu precioso tempo em mim. Não tenho nem grana.

-         Mas você disse que vai sonhar comigo. Quero que sonhe comigo!

-         Sem dúvida, você é a mais linda garota que já vi por aqui. Pra ser sincero já estou sonhando contigo. Agora mesmo.

-         Sério?

-         Juro.

Ela se calou e ficou séria olhando com atenção para o bar. Porra, pensei, deve ter visto o Mãozinha. Mas o cara nem pode encrencar comigo. Ela tá aqui pra fazer programa. Fiquei meio preocupado.

-         Você pode me fazer um grande favor, se não for pedir muito...é claro. - ela me disse de supetão.

-         Oras, se eu puder, faço sim. - respondi prontamente.

-         Você me daria uma carona até em casa. Eu te pago a corrida, te dou a grana que pagaria se eu fosse de táxi.

-         Não, que nada. To de bobeira. Eu te levo. Afinal você me garantiu um bom sonho.

Ela morava muito longe. Percorremos a avenida Sapopemba até a casa do caralho. Uns mocós fodidos e escuros. Dizem que essa é a maior avenida do mundo. Deve ser exagero. O certo é que eu passava e via a numeração das casas. Dez mil e tralalá. Dezoito mil. Porra. Realmente uma imensa via cruzando toda zona leste e cortando os bairros mais bicudos e fodidos. Quase três da madruga. E eu acelerando. Claro que a gente tem medo. Duvido quem não tenha. De repente ela pede para eu começar umas virações incompreensíveis. Esquerda, direita, segue por outra rua larga e escura, depois desce, sobe, favela e favela, nada além de ruas estreitas e casinhas sem reboque sem ninguém na rua. Ela falante, mas eu não prestava mais atenção em suas histórias, apenas tentava me concentrar nas suas indicações, já preocupado com o terror que seria a volta. “Agora vira pra lá, isso, agora segue direto por aquela rua”. Às vezes ela esquecia de me dar o rumo certo entretida com as histórias que me contava. Então eu fazia o contorno, dava ré, e prosseguíamos. Enfim paramos numa ruinha miserável e estreita que mal cabia um carro. Outros carros ficavam sobre a calçada de apenas alguns centímetros. “Pronto, chegamos, essa é minha casa”, mostrou um sobradinho de tijolos à vista e sem garagem. Já sabia quase tudo dela. Morava com a mãe e dois irmãos. O pai morrerá no ano passado de câncer. E tinha um filho de dois anos. E, a boa notícia, não tinha nada com o Mãozinha. Eu estava louco pra sair dali. E estava mesmo com o cu na mão e perdido. Era um morro e dava para avistar uma grande rodovia cintilante ao longe. “Ali é a Trabalhadores, se te serve, desce a segunda à direita e vai direto que você sai nela. Mas não tem como entrar, então pode botar seu carro por cima do canteiro e você já dá no asfalto dela”. Era o jeito mais fácil de cair fora dali. Agradeci e tornei a ligar o carro para me mandar. E daí veio o inesperado. “Você tá com muita pressa?”, ela me perguntou. “Bem, não sei, é que to me sentindo meio perdido”. “Nem esquenta. Pode ficar tranqüilo que aqui tu tá seguro. É todo mundo gente boa e conheço toda bandidagem. Meus irmãos dominam a área. E depois é só você descer o barranco ali e já dá na Trabalhadores”. Ela me beijou apaixonadamente. Depois, rápida como um relâmpago, desabotoou minha calça e abocanhou meu pau de um jeito curiosamente sedento, como se aquilo fosse mesmo um totem sagrado. Flutuei entorpecido com aquela língua voraz. Puta merda, sou um irresponsável. Ficamos por mais de uma hora ali dentro, com os vidros fechados, tudo embaçado. Ontem liguei pra ela. Amanhã é dia de folga. Vamos passear no Ibirapuera. Ela ainda não conhece o parque.    

 



Escrito por Mauro Cassane às 15h48
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momentos finais...

 

 

-         Te amo

-         Mesmo?

-         Sim, te amo muito.

-         Eu também.

Mas acaba! Não sabias, acaba.

Morre, apodrece e fede.

Não renasce. Machuca. Fode.

-         Você é maravilhosa.

-         Calma...

-         Hummm?

-         Me beija mais...

Tempestade. Traição. Lágrimas.

Frio. Dor. Silêncio. Há outro.

Não pode ser amor. Anoitece.

-         Me ajuda...

-         Sim, sempre...

-         Sinto dor...

-         Estou contigo, meu amor!

Sangue. Falta o ar. Escuridão.

Dúvida. Loucura. Ira. Mágoas.

Um abraço. Derradeiro. Verdadeiro.

-         Te amo...

-         Então por quê?

-         Não sei...

-         Também te amo.



Escrito por Mauro Cassane às 13h02
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