Cores Humanas


Não gosto da ordinária vida virtual, mas brinco com ela...

Queria transar com muitas mulheres ao mesmo tempo. Todas juntas. Nuas, sedentas por sexo, e lânguidas e putas. Numa grande orgia fumegante regada a maconha e vinho, champagne e tudo mais. Todas ali, numa sala iluminada por velas imensas, comendo-se vorazmente, e me instigando até esgotar toda minha porra. Ainda assim, tomaria viagra, e foderia mais e mais. Uma fantástica fantasia sexual de um verme doente. Putaria nos tira de órbita, ajuda a esquecer o amor e, como outra droga, dá aquela incrível sensação de contentamento e realização. Tudo fugaz, mas funciona. Não importa. Paliativo. Foda-se. O bom é isso mesmo. A vida é cheia de paliativos, falsos conselhos e panacéias. O bom da internet é que inventaram esse troço de sites de relacionamento. A gente vai lá, faz um perfil idiota, tem comunidades e tudo mais, e cantamos as garotas deslumbrantes que se exibem em fotos. Ali é tudo imagem, quase tudo falso. Mas quem se importa? Ninguém. Depois batemos uma punheta e tá tudo certo. A vida real é bem diferente. Quando tiramos a bunda da cadeira e apagamos o micro a verdadeira vida se apresenta pálida e sombria. Não há fotos, nem perfis, nem nada. E parece que flutuamos entre os fantasmas. Vejo uma linda garota no metrô. Porra, como poderia deixar um scrap pra ela? Não tem jeito. “Ah se eu a visse na internet”, eu penso.

Mas ainda prefiro o contato humano. O cheiro, o suor. A brisa marítima que sopra pela rua da Glória no crepúsculo, e a morena airosa que caminha serenamente ao meu lado. Aquele olhar manso e penetrante, aquele cheiro feroz de folhas verdes. Sempre é ela que me vem em mente. Onde estará agora? Nunca vou saber. Provavelmente nos braços do homem que dá a ela confiança. Eu não inspiro uma gota de confiança. Nunca passei isso a ninguém. Tenho cara e jeito de mentiroso e safado. Homem genuinamente cafajeste. É isso. E não adianta qualquer explicação. Muitas vezes penso que minha índole é podre. As mulheres, via de regra, acreditam no que querem. Essa minha miserável cara de filho da puta já me causou repetidos problemas até com a polícia. Procuro andar na linha, mas tenho certeza que realmente não inspiro confiança. Mas me olho no espelho e vejo um sujeito normal. Não sei que caralho vêem de errado em mim. Claro, minhas atitudes são meio mesquinhas, e sou ordinário mesmo em pensar em foder com diversas mulheres, de preferência todas juntas, mas eu vivo num mundo real também. Vira e mexe percorro as calçadas desse verdadeiro mundo real, vou à padaria, bebo cerveja com amigos e converso com pessoas, cumprimento vizinhos e brinco com crianças.

Agora na internet, nesses sites de relacionamento, não sou mais eu. Não gosto de ser eu. Prefiro ser um cão vadio com um nome inventado. Não gosto de internet, mas me divirto com ela como se gostasse de atazanar o diabo. O foda é que te julgam por tudo nesse mundo. Te julgam pelo que escreve, pelo que fala, e até pelo que pensa em segredo. Houve um tempo em que amei demasiadamente. Não uma boneca inflável, nem uma fotografia na internet, mas uma mulher de corpo e alma, creio que mais alma do que corpo. E que sabia usar o corpo em sua plenitude, como a alma usa a mente. Depois a perdi. A gente sempre perde. E então me perdi. Não tem como mudar. Pensei ter encontrado outro amor. Mas também o perdi. Me acostumei a perder essas coisas. Talvez tenha também perdido a capacidade de oferecer a uma mulher a segurança que um homem deve oferecer. Sei lá também se mulher realmente precisa dessas porras. Muitas ainda precisam.

A fé é volátil e quando a perdemos a gente vai se afundando em um lodaçal amaldiçoado e cruento demais sem nos dar conta do perigo. Não falo de Deus, pois não suporto coisas metafísicas, cada um crê no que quiser. Falo de fé na porra das coisas da vida. É como pular onda de praia. De repente nos fodemos num banco de areia. Tudo parece agradável até chegar o desastre. No meu mundo real eu sou apenas um sujeito comum que trabalha, tem sonhos, desejos e fantasias. E, assim como outros pobres mortais, comete mais erros que acertos. Alguém levou meu amor embora. Ou levou minha alma. Não sei. Muitas vezes sinto que estou sem alma. Qual a sensação de se perder a porra da alma? Leveza? Ou peso? A mulher de minha vida diz que alma não é coisa que se perca. “Ela está imposta na gente”. Vou confiar nela.

Na noite passada me encontrei com Rita. E me senti leve. Não pensei em nada. Fumamos e nos divertimos na sua larga cama king size com a janela escancarada para seu jardim. É bom trepar com ela. Uma morena cheirosa, sempre limpa e com uma espetacular cara de vadia. Gosta de chupar o pau quando ainda tá meio mole. E fica com ele naquela boca úmida e quente até o bicho ficar pulsante e rijo. Depois fica me contando o jeito que ela fode com o garotão filho do zelador e como o marido dela faz quando eles vão a uma casa de swing. Ela é um tesão. E tem uma bunda redonda e firme que parece escultura de bronze. Não a conheci na internet. E isso é uma grande vantagem. Não é bom sair com garotas que a gente conhece na internet. O bom é sempre mantê-las no virtual. Vou andar de moto por Sampa. Adoro andar no limiar da madrugada e ver a cidade adormecida e os notívagos loucos sedentos pelo crime. Assistir tudo isso em alta velocidade faz tudo parecer serenamente irreal. Virtual. Não me sinto muito bem. Queria um abraço verdadeiro, mas hoje ela deixou o celular com o marido. Vou acender um beck então.  

 



Escrito por Mauro Cassane às 18h43
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Desgosto

Antes da gente morrer, muitas coisas morrem na gente. E passamos a vida sepultando essas coisas todas até que um dia alguém nos sepulta. Houve um tempo em que eu acreditava francamente no amor e, mais ainda, na amizade que precede esse sentimento. Perdi a fé em ambos. Você vai perdendo a fé nas coisas na exata proporção de suas frustrações com elas. Acontece com a religião, com o amor e o caralho. Por conta disso, me tornei um sujeito amargo, rabugento e velho com bastante precocidade. No fim todo mundo fica assim, pois frustrações, como gripe, atinge indiscriminadamente qualquer ser humano vivente. Ando deprimido, me sinto feio e chato. O calor me aborrece. Rock me dá náuseas, mas até que gosto. Blues é legal, mas me enche o saco às vezes. Jazz me traz recordações tristes. O resto não suporto mesmo. Sou uma péssima companhia pra ir ao cinema porque não gosto de muita gente junto e sempre me incomodo com aquele que senta bem na cadeira na minha frente que, por uma estranha razão inexplicável, eu sempre acho que deveria permanecer desocupada. Adoro culinária, mas ando de saco cheio de restaurantes. Curto vinho, mas detesto escolhe-los nas prateleiras dos mercados. É muito bom dormir, mas raramente pego no sono. Escrever me deixa tenso. Ah, pro caralho com tudo isso. Uma amiga me pediu conselhos para escrever. Ela acha que isso poderia ajudá-la em algumas coisas, entre elas, se entender melhor. Não sei porque muita gente tenta se entender. Tudo é tão simples. Não existe bicho mais simplificado e previsível que os humanos. Barata sim é sofisticada. Mas isso é outra história. As pessoas sempre precisam de ajudas estranhas. Escrever não ajuda ninguém, só toma tempo e causa dependência. Quanto mais escrevemos, mais nos tornamos inúteis para o mundo. Os escritores fazem parte de uma categoria de gente medíocre e esnobe. Aliás quase todos os artistas é farinha do mesmo saco. Esnobes de merda. Nada supera a arte de uma boa e humilde cozinheira! Dei alguns conselhos à minha bela amiga aspirante a escritora. Minha gentileza foi vil. Eu a acho um tesão de mulher e sempre quis transar com ela. Por isso fui solícito. Ninguém é tão bom a ponto de fazer algum favor sem esperar nada em troca. Somos todos hipócritas ordinários. Os monges zen budistas também são mesquinhos. Os cães são gente boa apenas quando ficam com a boca fechada. Odeio cães tagarelas.   



Escrito por Mauro Cassane às 15h31
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Queria me livrar desse amor

Sou um demente

Porque ainda te amo

Que se foda, vou te esquecer

Mas ainda te amo, puta!

Por que te amo, não sei

Sou um demente

Procuro recordar suas coisas ruins

Penso em seus defeitos

Queria ter raiva de ti

Mas ainda te amo, puta!

Tu es feia, vai engordar

Cabelo ruim,

Olhos de serpente

Tosse sem parar,

Vive doente...

Mas ainda te amo, puta!

És chata quando bebe

Parece uma vadia

Fica com um jeito vulgar

Transa com todo mundo

Caralho! Por que te amo?

Sou um demente

Há quem me deseje

E quem quer me gostar

Pele lustrosa, olhos brilhantes

Corpo tesudo, me faz gozar

Mas ainda te amo, puta!

Parece que só sei te amar

Lúcido só me lembro de seu sorriso

Bêbado mergulho em seu cheiro

Nos sonhos passeio contigo

E nos pesadelos te salvo dos monstros

Maldito amor, vá embora!

És insano, me faz mal,

Me deixe viver e quiçá me apaixonar

Sou um demente

Mas ainda te amo, puta!

 

 



Escrito por Mauro Cassane às 18h14
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