Cores Humanas


Gozo e castigo

Dormira pesado demais e acordou com as odiosas buzinadas matinais do pára-e-anda defronte de seu prédio. Sentia dores generalizadas e uma puta sede infernal. Muita bebida e a garganta até meio ferida com as tragadas gulosas que dera no baseado na louca noite que passara com Alfredo. Lembrar dessa trepada era suficiente para minimizar as dores agora já lancinantes. Terríveis mesmo. As costas pareciam estraçalhadas. Esquecera a cortina aberta e aquela claridade demasiada ofuscava sua visão e a fazia cerrar as pálpebras com força desumana. A sonolência parecia lhe soterrar as pupilas com enormes grãos de areia. Tentou virar de lado. Não conseguiu. Ficou irritada. Não queria abrir os olhos. Os dois ombros doíam demais agora e uma vontade incontrolável de mijar a deixou furiosa. Soltou um grito de ódio. E lançou o corpo para frente de modo a ficar sentada para ir ao banheiro. Um violento tranco a devolveu à condição de deitada. Tomou um susto. Os pulsos doeram também. Ficou por alguns instantes sem entender porra alguma. Tentou mover seus braços que estavam esticados para trás. Não conseguiu.

As coisas começaram a fazer algum sentido em sua mente letárgica. Estava presa na cabeceira de ferro da cama por um par de algemas de aço. Algemada. Pegara no sono na madrugada depois de gozar freneticamente com Alfredo. O puto dormiu e não lembrou de desarmar as algemas. Pior. Acordou cedo e se mandou para o trabalho e esqueceu-a daquele jeito. Onze da manhã. Calor, sede, dor e vontade de mijar. Adriana força os braços, comprime as mãos de modo a tentar se livrar das algemas. Mas eram de verdade, dessas que se prende delinqüentes. As tentativas, entre cuidadosas e desesperadas, não rendem qualquer êxito. Tinha um almoço com um cliente a uma da tarde. Vira o corpo e atira as pernas para fora da cama. Mija assim, torta porém evita que a urina se espalhe pelo colchão e lençol que já estavam encharcados de suor. Por sorte estava sem calcinha. Devagar volta à posição inicial. A dor aumenta, o pulso está ferido e sangra um pouco. As costelas parecem em padecer com contínuas cãibras. O celular estava em cima do criado-mudo e começa a vibrar. Ela nada pode fazer. Consegue apenas ver a hora no relógio analógico que fica sobre a penteadeira. Quase meio dia. Ela está suada demais, e com sede. Tenta manter a calma para refletir e buscar uma saída. Mas quando pensa na situação entra em desespero. Era uma sexta-feira e a empregada só aparece às terças e quintas. Seu quase namorado, Juan, faz rali todos os sábados e só dá as caras aos domingos. E Alfredo é casado, não vai aparecer mesmo nos próximos dias. Adriana respira fundo no seu espaçoso apartamento no décimo quinto andar. O apartamento ao lado estava vago há meses. O outro, no fim do corredor, morava sua arqui-rival que vivia reclamando de suas ruidosas festas. Era uma velha viúva antipática e soturna que recebia uma gorda pensão do governo. Nem se cumprimentavam quando se encontravam no elevador.

Adriana começa a chorar. Pressente algo trágico. Não sabia, nem nunca notara, mas devia ter claustrofobia. Estava soluçando, sentia falta de ar. Os pulsos gotejavam sangue, não conseguia vê-los, mas estavam em carne viva. Como foi acontecer aquilo? Era o que mais pensava e se lamentava. Estava nua e, com algum esforço com o pescoço, conseguia ver alguns hematomas imensos por suas pernas e as queimadas de velas pela barriga e peitos. Fora uma noite e tanto. Agora estava na mais profunda desgraça depois do mais tesudo dos gozos. Filho da puta do Alfredo, pensava consigo. Como fora fazer aquilo com ela. O celular vibra novamente. Insistem. O fone da casa também. Tocam juntos. Isso a deixa ainda mais em pânico. Decerto é seu chefe ou seu cliente querendo saber do almoço. Faltam quinze minutos para uma hora. E ela ali, naquele fedor de urina e suor, com dor e sede e em prantos e soluços. Teve um pensamento ainda mais idiota. E se sentisse vontade de cagar? Onde caralho cagaria? Isso a deixou ainda mais aterrorizada. A situação ainda tendia a ser catastrófica. O que certamente seria motivo de risos num futuro, agora lhe parecia praticamente o fim mais dramático de sua existência. Por suas contas e cálculos, poderia morrer de fome e sede naquela situação. Com certeza seus amigos a procurariam, afinal era sexta-feira. Mas normalmente eles combinavam tudo por telefone. E ela não tinha a menor condição de falar ao fone. Teve uma idéia. O negócio era berrar e se chacoalhar na cama de modo a fazer barulho suficiente para alguém aparecer por lá. Gritou, mas o som era rouco e abafado. Seu quarto estava com a porta encostada e janela fechada com o vidro só permitindo a entrada dos brilhos do sol que incidiam diretamente sobre ela e a estavam castigando ainda mais. Ainda assim se esgüelou gritando. A secura da garganta, e a lesão do fumo a calaram em segundos. Não conseguia sequer falar, quanto mais gritar. Nada. Não apareceu ninguém, e sabia que sequer tinham ouvido qualquer coisa.

Escrito por Mauro Cassane às 10h40
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continua...

Começou a se balançar na cama, do jeito que dava, erguendo e batendo a bunda na cama com bastante força. E ajudando com os pés também. Fez algum barulho, mas nada de escândalo. A cama era firma e forte, e mal se movia. O resultado foi apenas aumentar as feridas em seus pulsos com os trancos do corpo. Olhou para o relógio. O almoço de negócios malogrará sem que ela sequer tivesse meios de avisar seu cliente. Estava fodida. Uma hora e vinte minutos. Era seu fim. O celular toca novamente, balança, vibra. Parece também desesperado. E, na seqüência, o fone da casa solta seu grito deixando-a enlouquecida por não poder atender. Adriana fecha os olhos. Tenta dormir. Era o que restava a ela. O calor aumenta, a sede a deixa num estado lastimável de pusilanimidade. Começa a ficar faminta também. Agora a cabeça dói, sente pontadas fortes na nuca por não conseguir ficar de lado. As costas rangem e parecem estrupiadas. Os braços estendidos à força intercalam cãibras com dores nos ossos. Não consegue dormir assim. Chora mais ainda. E pára com medo. Esta se desidratando rapidamente. Sabe que não pode chorar. Duas da tarde. Fica em silêncio. Procura manter a calma. Tenta se enganar e busca uma forma de retirar apenas uma das mãos da algema. Comprime os dedos da mão esquerda. Ela era destra e resolveu sacrificar a esquerda. Comprime o máximo que pode, estica-os e começa a forçar o braços e a fazer pequenos movimentos de compressão nos dedos para tentar desvencilhar ao menos um braço. Começa a dor muito. Sente a pele sendo rasgada com a força que faz para retirar a mão. Fecha os olhos, respira fundo, e não cessa. Vai puxando de maneira lenta e firme o braço e comprimindo os dedos. Parece que daria certo. Sente que sua mão, agora untada pelo sangue, começa a escapulir. Mas trava nos ossinhos dos dedos. Não tem mais como ir em frente diante de uma dor insana. Ela força, mas só sente dor e nada de transpassar mais nem um milímetro. Não tem coragem de enfiar a mão de novo, mas era a única coisa que deveria fazer, senão sangraria ainda mais e não parava de doer. Contrariada, totalmente derrotada, enfia novamente a mão para dentro daquela maldita argola de aço. Sente o cheiro de sangue que goteja ao lado de seu rosto e escorre pelas grades da cama. Mas agora não se importa mais com as dores. Afinal doía tudo. Até sua alma. 

Assim, submersa completamente na mais profunda dor, pensa no martírio de Cristo. Em todas aquelas chagas. Sentia seus pulsos dormentes e umedecidos com sangue. Tivera a noite de seus sonhos com irrefreável prazer e gozo, e agora agonizava numa espécie de sacrifício. Talvez fosse castigo divino, ou simplesmente o preço que se paga pelo prazer. Estava envergonhada também. Continha a bexiga, pois sentia novamente vontade de mijar. E se o fizesse começava a delirar que perderia todo líquido do corpo. Também não tinha mais força para mover seu corpo para fora da cama com os braços naquela posição. Teria que fazer na cama mesmo. E foi o que fez. Mais uma hora e o ar ficou pesado, sufocante. O sol castigava mas por fim aliviou um pouco os raios diretos em seu corpo. A tarde, entretanto, estava ainda mais quente e pesada. Adriana agora daria tudo para uma fresta na janela, por uma ligeira brisa que fosse. Queria sentir um ventinho ao menos. Mas nada. O vidro freava o suave sopro vespertino e só permitia a entrada do denso mormaço. Passava a língua pelos lábios e já os sentia secos e rachados. Quatro e meia da tarde. Começa a delirar, tem ligeiros pesadelos e geme intensamente. Pensa e deseja coisas simples. Banho, um copo de água, ar fresco, caminhada, televisão, amigos, bate papo. Sua cama é seu cárcere agora, seu quarto transformou-se em sua masmorra e seu tesão, que era tudo de tão maravilhoso, virou seu mais terrível algoz. Quem a acharia ali naquela condição deplorável? Quem? Adriana começou a pensar em como uma simples fantasia estúpida pode virar completamente ou até ceifar uma vida. Na madrugada, algemada, louca de prazer, pedia para seu amante aplicar-lhe bons tapas, ele a queimou com gotas de vela, e trepou com feroz languidez. Ela delirou e gozou muito. Era seu momento de prazer na realização de uma bizarra fantasia, nem pensou em nada e apenas dormiu pesado até ser despertada nessa terrível metamorfose. Era um ser prestes a definhar até a morte.

O entardecer foi lento e cruel. Adriana não conseguia dormir castigada pela agonia e pela dor. Porém, às seis da tarde apagou desmaiada. Acordou duas horas depois com a campainha se esguelando. Alguém ali. E insistindo na porta. Ela dá um sobressalto. Grita. Não sai a voz, suas cordas vocais estão ressecadas e sua garganta parece uma lixa retorcida. Desespera-se. Solta grunhidos. Silêncio. Se era alguém, desistiu. Adriana não tem mais forças para nada. Apenas fica olhando para o teto. Já é noite, ao menos há um certo frescor, porém o fedor é intenso e asfixiante naquela quarto. Só não é insuportável porque ela está ali, presa, e não tem a felicidade da opção de dar o fora. A fome aperta, e a sede a deixa nauseada. De repente ouve um som que nunca imaginou que a deixaria tão feliz. Sua porta do apê sendo destrancada. Estava tonta demais mas decifrou a voz que a chamava. Era bem familiar. Sua mãe. Uma mulher linda apesar de seus cinqüenta e poucos anos. A mulher quase desmaiou ao deparar-se com Adriana naquele estado. Ficou zonza, entrou em pânico e gritou. Adriana só pediu água. Sua mãe tremia desesperada. Não encontraram a chave da algema. Adriana ficou presa mais uma hora. Sua mãe limpou o quarto, a vestiu com um moleton e chamou o zelador para cerrar um elo da corrente. O homem não perguntou nada, fez o serviço em minutos e se retirou com um ar aborrecido. No domingo, com curativos nos pulsos, disse a Juan que num momento de depressão tentara o suicídio. Parece que colou. Juan nunca questionava nada. Alfredo ligou na terça-feira. Sugeriu chicote e uma coleira. Adriana respirou fundo. Queria dizer poucas e boas para aquele filho da puta. Mas estava mais calma, fora um acidente. Topou a fantasia. Porém decretou peremptoriamente: “essas coisas, de hoje em diante, só no motel”.    

 

 



Escrito por Mauro Cassane às 10h39
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Os livros e o mar

Entro na livraria e me entretenho apenas em abrir livros e ler o início, sempre leio a primeira página, e vou pegando aleatoriamente livros e mais livros, religiosamente na seção de literatura. Nem entro naquelas fileiras onde há esoterismo e essas merdas todas de auto-ajuda. Fico imaginando o autor e o início de sua obra como o pintor diante da apática e insolente tela branca, desafiadora como um fantasma zombeteiro. A obra então se inicia, devagar, poucos traços, tímidas cores, e uma espécie alucinante de transe vai tomando conta do artista. Pintar, pintar, pincelar a tela entre o carinho e o açoite, domar a tela que em pouco tempo perde o seu nada e vai ganhando algo, um espírito embrionário e até tristonho. Ah, o mesmo deveria ocorrer como a folha de papel em branco, quieta e silenciosa, aguardando a pena e a negra tinta de seu autor que não raras vezes expiava dessa vida sem sequer ver se alguém leu aquilo tudo. Hoje temos a ereta tela cintilante do computador, e em vez de pena e tinteiro, batucamos nas teclas suaves e obedientes que imprimem as palavras, o verbo e tudo mais bem na nossa frente e podemos simplesmente apagar tudo com apenas um toque mágico, ou para nosso desespero, num toque acidental. Percorro as prateleiras da livraria, grandes autores, outros desconhecidos, não me importa. Vejo o título, me chama a atenção, pego o livro e leio atentamente a primeira página. É um hobby, ou uma obsessão. Sei lá, talvez seja loucura mesmo. Porra, mas tem cada puta livrão, centenas de páginas, e o início invariavelmente é algo singelo, simples, quase ingênuo, mas depois vira aquela coisa toda cheia de tramas e traços psicológicos. Não tenho paciência de ler um livro grande, o excesso de página me dá náuseas, me sinto enclausurado em uma história que vai me consumir dias e dias. “Crime e Castigo” deve ter sido o mais volumoso que li, levei quase um ano com ele. Tentei ler “Por quem os sinos dobram” do Hemingway, mas só fiquei mesmo nas cinco primeiras páginas. Mas li o  deliciosamente sucinto “O velho e o mar”. Talvez escrever fosse o caso, uma vez que raramente alguém vá ler. Kafka já dizia isso, “se queres ler algo legal, escreva você mesmo”. Nem sei se concordo, mas o fato é que Kafka gostava de histórias curtas e escreveu milhares delas, acho pouco mais da metade foi publicada. Grande Kafka, tão pequeno, tão minguado e desprovido de corpo, e tão gigante. Ontem passei na livraria depois de uma viagem ao porto de Santos. O que é mais importante a ser relatado? O porto talvez. Sim, aqueles imensos navios escuros, sombrios, com suas rampas gigantes, e o pessoal da estiva percorrendo suas entranhas como vermes fantasmas. Não sei se é bom falar disso. Aquilo tudo me causou calafrios, aquela gente triste. O mar tristemente escondido por detrás de imensas paredes de aço, o cheiro de urina se sobrepondo e  humilhando a suave brisa da maresia. Depois fui comer num lugar mais aprazível, junto ao mar, num restaurante de velhos marujos, dois homens rudes, mas com suas caras boas. Comi bem. Há anos fui lá com a mais louca garota que apareceu na minha vida. Não sei porque digo que ela é a mais louca, talvez por ter me amado e eu também a amei com uma devoção pouco comum. E estive exatamente no mesmo lugar, mas eram outros os donos. Ou não. Não lembro de ter visto esses caras. De qualquer forma, eu também era outro naquela época. A gente nunca consegue ser o mesmo, principalmente quando amamos. Bem, foda-se isso. É melhor não falar de mar, e sim dos bons livros. No fim dá no mesmo, pois ambos contam tantas histórias dramaticamente trágicas.      



Escrito por Mauro Cassane às 11h02
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