Cores Humanas


Tibúrcio e Licrécia

Então Tibúrcio caminhou serelepe por entre as altas paredes daquele labirinto metropolitano, nada o detinha, nem os uivos modorrentos de seus algozes agora esmagados sob seus pés descalços. O sangue pisado fede, mas Tibúrcio estava indiferente, apenas pensando em terminar logo com tudo aquilo. Imagina-se já em seu higiênico quarto repousando em sua imaculada cama, para apenas distrair a mente que estava agora exausta. Escapara da morte mais uma vez. Seus inimigos prostrados, vingara-se. Antes o sangue lhe dava náuseas, agora sente até algo parecido com o prazer. Remexe os dedos dos pés untados pela fina graxa de sangue. Sorri um pouco, mas está tenso. Precisa seguir em frente. A lanterna pisca no final do corredor. É Licrécia, sua amante cigana. É seu anjo salvador. Aperta os passos, mas sem correr. Seria perigoso demais. Pisa em algo mais espesso, talvez restou algum pedaço humano? Não, respira aliviado. Era apenas uma ratazana desavisada. Ele a observa estrebuchando. Sente um pouco de pena. Licrécia parece impaciente. Mais uma vez deu tudo certo. Se abraçam, e seguem languidamente de mãos dadas. Tibúrcio se detém numa escura possa de água para lavar seus pés. Licrécia acha a cena engraçada e ri. Um casal passa por perto. O rapaz estranhou, achou tudo aquilo muito sinistro, mas a garota, por fim, comentou que a cena fora romântica. O rapaz morreu meses depois. Não acharam seu corpo. Apenas uma espessa e estranha pasta avermelhada num obscuro corredor do Brás. Licrécia escreveu um poema a Tibúrcio. Uma ode. Depois de ler, Tibúrcio sentiu vontade de chorar, mas preferiu fazer amor. Transaram, mas Licrécia não gozou. Ela raramente gozava. 

 



Escrito por Mauro Cassane às 15h09
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Anjo

Solitário perambulando pelas hediondas esquinas

E a multidão mutila nosso silêncio, tira-nos de órbita

Os pensamentos pesam, desabam ao estômago

Pena, somos humanos. Pena, a gente quer viver

Comemos alguma coisa ruim, carne ruim, devoramos

tudo condimentado com suor e ferro, e pesa no estômago

Pena, somos humanos, e não temos órbita

quando perambulamos pelas esquinas solitárias

diante da silenciosa  multidão hedionda devoramos

o suado estômago mutilado de nosso pensamento ruim

feito carne em tiras condimentada com ferro que

nos dá pena. Não somos órbita peranbulantes

nas esquinas humanas que desabam feito pensamentos

multilados sobre a multidão de gente ruim que

não são coisa alguma, apenas silenciosos estômagos solitários

que nos tiram a carne com seu ferro hediondo e o suor pesa

feito pena humana de um anjo miserável que devoramos

sem condimento algum...



Escrito por Mauro Cassane às 11h49
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Apaixonante gozo fugaz e barato

Encontrei Miriam pela primeira vez na loja de um amigo. Ela trabalhava como balconista e logo que cheguei ela se aproximou com aquele andar indecente, calça jeans bem baixa e aquele barriga lisa e incrivelmente sedosa contrastando com uma camiseta negra com um arranjo em forma de estrela cintilante ao centro, esbanjando duas estonteantes protuberâncias peitoris que certamente deixariam qualquer cliente desorientado. Não me ative muito ao rosto, a gente não consegue se fixar muito na beleza facial feminina pois temos esse hábito primitivo de apreciá-las de baixo para cima ou, normalmente, de trás pra frente. Exatamente como fazemos com revistas. No entanto Miriam tinha os traços simetricamente perfeitos. Há garotas que a gente até tenta, mas é uma tremenda e árdua tarefa achar defeito. Não fui comprar nada na loja de meu amigo, estava vagabundeando pelas ruas e apenas passei por lá pra prosear um pouco. Para minha sorte, ele não estava. E então expliquei tudo isso para Miriam, nem era preciso, mas foi a forma que encontrei, ali de bate e pronto, para conversar um pouco com uma garota linda de verdade. Vale destacar os lábios, carnudos e bem desenhados, que se sobressaiam magistralmente mas sem conferir nenhum exagero àquele rosto com ângulos perfeitos. A voz era seu ponto fraco, desagradavelmente aguda e desafinada, parecia desastrosa, mas quando ela se virou para dizer alguma coisa à balconista, aquela virada, quase em câmera lenta, me deixou libidinosamente confuso e atiçado. A calça baixa se apoiava em uma vibrante anca redonda, de tamanho médio, mas que se destacava em formas generosas, e a camiseta negra terminava na imaginária linha um pouco acima do quadril fazendo a magia do efeito visual da estética e conferindo à cintura o selo de garantia de que seja lá quem fosse o felizardo, uma coisa era certa: uma trepada com Miriam era uma prolongada e gostosa foda recheada de inesquecíveis momentos de gozo.

Havia também uma reluzente aliança ostentada na mão direita. Noiva ou algo parecido. Bem, conversamos mais um pouco sobre algumas tolices e nos despedimos depois que ela anotou meu celular, a meu pedido, para que meu amigo me ligasse. Meu plano, naturalmente, não surtiu qualquer resultado. Fosse filme de sacanagem, ou novela, ou eu o protagonista de contos eróticos, é claro que ela me ligaria já no dia seguinte pra gente beber em algum lugar lúgubre e eu, assim, depois de bebermos muito, a teria em meus braços num romântico ambiente com luzes de vela e tudo mais. Porra nenhuma. Ela não me ligou. E passamos meses sem nos ver, pois raramente vou à loja de meu amigo. Porém ficou aquela imagem de uma mulher verdadeiramente perfeita, não para um amor ou algo do tipo, pois para amar a voz é mais importante que a bunda, mas apenas para uma boa trepada. Boa não, eu diria,  pra ser mais honesto, para uma trepada inesquecível. Sabe como são essas coisas, a gente vê uma mulher gostosa e já a imagina ali, fodendo com a gente. Tentamos ser amigos e tudo mais, mas o que queremos mesmo é ela bem nua, de quatro ou sorvendo nosso pau com os lábios. Queria descobrir que homem que nunca imaginou Angeline Joe, essa gostosa estrela do cinema, com aqueles lábios carnudos, fazendo uma portentosa chupeta. Homem vê mulher gostosa, se aproxima, joga aquele papo furado – muitas vezes bem articulado – e por isso nem tão furado assim, mas os objetivos finais são os mesmos tanto para os tolos como para os mais soberbos intelectualmente. Deve ser mesmo desastroso ser uma mulher bonita e gostosa. Deve mesmo ser uma sina filha da puta não ter como discernir o picareta daquele bem intencionado. Pois a única diferença entre os dois é que o bem intencionado guarda consigo um tesão mais comedido por ela.

Nesses dias encontrei novamente meu amigo dono da loja. Fomos beber e, como sempre, enchemos a cara com cachaça e cerveja. Não é de meu feitio, pois tenho ojeriza a perder o controle, mas estava deveras chateado com diversas coisas, entre elas haviam os problemas financeiros e também sentimentais, e daí não me impus qualquer limite. Além do mais estava de carona, e então fui em frente com os copos e as infindáveis doses de cachaça. Uma vez ébrio desenterro de minhas entranhas espirituais meu ser mais obscuro que busca apenas o prazer no sexo. E isso me parece ser um lance que invariavelmente acontece com as mulheres. Qualquer garotinho sabe disso, mulher bebe é fica fácil, é trepada na certa. O álcool libera nossas ganas, tira nossos freios. Por isso mesmo deveria ser recomendado por psicólogos, analistas e o caralho. Lá pelas tantas, digo tantas porque não tínhamos relógio, mas era tantas sim, pois o bar estava quase vazio, resolvemos dar o fora. Mais uma noite de solidão na cama, pensei comigo mesmo. Isso não costuma me incomodar tanto, mas naquela irracional situação alcoólica me pareceu um disparate, uma afronta à minha natureza. Meu amigo é casado, e já havia desfiado pra mim sua triste situação sexual onde trepava com a mulher uma vez a cada dez dias ou mais. Nos prolongados intervalos se acabava em punheta ou com putas quando lhe sobrava alguma grana. “Putas baratas deixam nossa conta hospitalar muito cara”, ele costumava me explicar professoralmente. Eu concordava sempre, mesmo porque nunca fui muito afeito a transar com quengas. Tenho um grande bloqueio com esse lance de pagar para trepar. Mas ele sempre contra-argumentava que, no fim das contas, a gente sempre paga caro pra ter uma boa mulher na cama. Pra transar nesse lance de romance tem que se pensar no preço dos presentes, do vinho, do restaurante, do cinema e, equacionando tudo, segundo ele me dizia, fica até mais caro. E não é amor porra nenhuma. Sempre pensei, “tem fundamento”, mas nunca sai disso.

Nesta noite, porém, tudo mudou. Ele mais sóbrio que eu e reclamando pra caralho que não trepava fazia uma semana, e eu dizendo que fazia mais de um mês. Porra, dois seres ignóbeis envergonhando o próprio pau mijador. A gente tem um caralho bonito e bem tratado só para mijar? Que porra. Esse foi nosso brado veemente dentro do carro. Nosso destino não foi outro senão a Ilha de Afrodite, o puteiro mais luxuoso da periferia paulistana da Zona Leste.

Escrito por Mauro Cassane às 17h10
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continua...

Madrugada de quinta-feira dois homens sórdidos e cambaleantes entram no obscuro palácio do prazer. As primeiras mulheres que nos avistam já deviam estar bem acostumadas com tipos como a gente. É grana fácil. Cliente certo. A iluminação entre penumbra e luzes azuladas dissimula as imperfeições da maioria das garotas de poucas vestes e grandes carnes cintilantes à mostra. Em estado normal tudo aquilo me levaria à depressão, mas naquela noite eu queria foder com uma mulher seja ela qual fosse. O importante é que tivesse ao menos boa bunda, boas tetas e uma cara razoável. Foder simplesmente, como um animal diante de uma fêmea no cio .Tinha ainda oitenta e cinco reais no bolso. E só. A cerveja era cinco reais. Ele ainda tinha talão de cheque e mais sessenta em dinheiro. Dava para se divertir. Pedimos uma cerveja. E daí em diante os deuses do acaso entraram em ação. Meu amigo foi convidado por uma loira muito alta e corpulenta, com uma dramática cara de vadia, para dançar na pista. E foi, e se agarravam, se alisavam em movimentos incrivelmente vergonhosos. Uma outra, parceira desta loira, tentou fazer o mesmo comigo. Mas mesmo perdido de minha sobriedade não consigo dar tamanho vexame. Recusei educadamente, e entornei um pouco mais de cerveja. O puteiro estava cheio e ela não perdeu tempo comigo. Foi chamar outro. Então aconteceu o inacreditável. Parada em minha frente, com um sorriso quase pueril, perto do suave, e não fosse pela liturgia do lugar, eu diria até meio apaixonado, estava Miriam com a mão na cintura e simulando um louco contentamento, e pura surpresa, ao me ver ali. “O que você tá fazendo aqui, seu sem-vergonha?”, ela me diz parecendo uma velha amiga troçando de minha cara ao me flagrar num puteiro. E pela forma que ela me disse, agravado por minha embriagues, até me pareceu isso mesmo. Me levantei, e a abracei e beijei como velhos amigos. Porém agi rápido, o patrão dela, agora ex patrão, estava na pista de dança e ainda não a tinha visto. Aquela gostosura toda ali, parecia me desejar. Conversamos sobre a situação inusitada. E foi um papo rápido. Se entendi bem, e como não sou muito versado em argumentações de putas, ela tinha largado o noivo há pouco mais de dois meses e, por influências de amigas da faculdade, resolvera ganhar grana alta e fácil nesse negócio de trepar profissionalmente. Me parecia até que a voz tinha melhorado bastante, com uma entonação mais sexy e agradável. Ou eu estava mesmo muito bêbado, ou era apenas alguém seguindo à risca a cartilha da boa puta. Não sei, e nem vem ao caso. Eu estava já febril de tanto tesão, particularmente naquela hora, diante de uma mulher como aquela. Ela usava um vestidinho meio indígena, com rendinhas e era um tecido de algodão cru ou coisa parecida e suas coxas rijas eram sensualmente musculosas. Sentou-se de maneira quase santa ao meu lado, pernas fechadas e coladas uma a outra, porém o vestido se encolheu e dava para avistar bem um bom palmo acima do joelho roliço. Meu amigo nem retornou, se arrumou com a loiraça. Então me senti mais à vontade, relaxei um pouco. Mas não era hora para muito papo. Numa tacada seca e talvez um pouco deselegante, perguntei quanto ela cobrava para uma boa sessão de amor. Falei assim mesmo, amor. Ela rio feito uma adolescente diante de uma gracejo do amigo de classe e me disse o valor. Cento e cinqüenta paus. Porra, eu com oitenta no bolso e uma imensa vergonha de pechinchar com aquela mulher deslumbrante. Então me veio em mente dizer a verdade. “Olha, Miriam (depois ela me alertou para chamá-la de Katie ali) eu sou louco para transar contigo desde a primeira vez que te vi e to aqui me martirizando porque só tenho oitenta reais no bolso, mas eu te juro que volto aqui semana que vem com cento e cinqüenta e nem vou escolher, nem pedir cerveja nem nada, vou te procurar direto”. Bem, conheço bem pouco de putas, mas sai dali as considerando seres superiores. Transamos por oitenta reais num quarto higiênico e confortável que ficava no andar de cima. Ali, na cama, nua, sedutora, ela era a mais brilhante atriz de toda história das artes cênicas. Me senti importante, feliz e apaixonado pela mais bela mulher do mundo. Me disseram que não se beija prostitutas, mas eu a beijei loucamente, com desejo mesmo, com meu coração frenético e pulsante, e me demorei em tenros carinhos com minhas mãos que percorriam lentamente cada milímetro daquele corpo maravilhoso. Não sei se ela gozou comigo, apenas me pareceu que sim. E me inclino quase a ter certeza pois adormecemos juntos, bem abraçados e despertamos com uma abrupta sessão de batidas na porta. Time is over. Me troquei nitidamente contrariado, e me pareceu que ela fazia o mesmo. Puta atriz, pensei, mas paquerando cada um de seus movimentos ao se trajar. Então, um tanto constrangido, enfiei a mão no bolso e dei a ela meus oitenta reais. Ela pegou a nota de cinqüenta e me devolveu as três notas de dez. Fiquei com cara de idiota e estendi a mão novamente pra ela. “Tome, não tem troco”. E ela: “pra fazer amor aqui, a gente só tem que pagar o quarto”. E me deu um beijo que ainda agora sinto o gosto de amoras selvagens da mata atlântica. Caralho, não paro de pensar em Miriam. Essa vida é realmente uma louca equação entre a miséria e o prazer, mas o gozo é tão fugaz que parece que só serve mesmo para nos enlouquecer.               

 



Escrito por Mauro Cassane às 17h09
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