Antes da taça de vinho
Seres de espírito néscio julgam piegas qualquer referência artística que expresse o amor. Contudo tal sentimento é a mais comum matéria-prima de todas as artes desde os tempos mais remotos da humanidade. Apenas aqueles que, de alguma maneira, em algum dia, amaram, conseguem entender as lamúrias de um poeta, a melancolia de um contista, a dramaticidade sonora de um músico, a inquietação angustiada de um pintor, o desespero alucinado de um escultor ou a vibrante agonia de um cineasta quando, todos esses, em seus tempos, à sua maneira, no passado, presente e no futuro, retratam o amor. Acontece que este é um sentimento que deveria ser banido. Não o amor aos entes queridos, ou aos amigos, ou à raça humana, tampouco o amor às coisas da natureza, mas sim o amor que envolve sexo, paixão e, sobretudo, a dor. Ao que parece, observando-se com mais atenção o comportamento humano, ou mais metafisicamente a alma que nos dá a graça da vida, é deveras impossível, para não dizer improvável, a viabilidade do amor. Não existe alma gêmea, pois não há qualquer ligação de uma com outra. Não sei de onde tiraram essa tolice. E ainda tenho minhas dúvidas quanto a existência de almas. Porém, se existem, não se combinam nunca. Se fisicamente duas pessoas se dão bem, espiritualmente se digladiam sistematicamente sem que nem percebam. E se por acaso, e isso é mais raro, dois espíritos se entendem, os corpos se repelem. Ainda que, valendo-se da curiosa regra das exceções, dois seres se entendam física e espiritualmente, mesmo assim, essa comunhão é fadada à fadiga em curto espaço de tempo. Não sei exatamente porque diabos escrevo essa merda toda, sem rascunhar, apenas digitando no macio teclado de um notebook enquanto espero o gentil garçom me trazer a taça de vinho. Pra isso serve a tecnologia, senão estaria rabiscando num papel amarrotado e logo depois o jogaria fora. Pois o mundo está farto de tantas bobagens escritas. Hoje tive uma ligeira recaída, bem agora, no aguardo da primeira taça de vinho e única, pois ando sem verba. Assim como todo idiota, também amei. E sem fugir à regra geral, me fodi. É inevitável. Se sofri por amor por alguém, é natural que esse alguém não sofreu por mim, porém, tão simples como a rotação terrestre, alguém por mim também já sofreu e aquela por quem sofri, por alguém certamente sofrerá. Eis aqui o céu e o inferno em perfeita harmonia enquanto nossos salvadores trocam gentilezas na mesa de chá com nossos algozes. Chegou meu vinho. Agora sim o efêmero momento de prazer que nós, os românticos devassos, procuramos eternizar em cada gole.
Escrito por Mauro Cassane às 20h15
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Eu a matei, mas morri primeiro
Gostava de vê-la escrevendo naquele notebook branco da apple. Não era dela, mas vivia atracada com ele. Era de seu bom amigo japonês. Quando a matei tínhamos acabado de fazer amor. Foi um drama de longos dias, creio que meses. Eu chorei muito, mas nunca fui inocente. Por isso o inferno desaba sobre a gente, e nos amordaça com suas ataduras quentes. Mas quem morre vai para o céu, e os sobreviventes, padecem no inferno. Lembro-me bem daquele computador branco, e ela com seus óculos sensuais, toda compenetrada, atenciosa e serenamente doce. Muitas vezes angustiada e nervosa, mas sempre linda e cheirosa, ouvindo suas músicas do mundo. Fazíamos alguns planos em conjunto, e eu adorava ouvi-la, saber suas opiniões e tudo mais. Por fim, a matei. Não sei, creio que temos medo de amar de verdade. De uma forma ou de outra, acabamos por matar esse amor. Porém ela continua tão viva como nunca antes esteve em todos os sentidos de minha existência. Há formas diversas de amar, e outras tantas de matar. A morte não é apenas a putrefação da carne, o decretado fim do estado de estar vivo, ou a ausência do espírito, é sobretudo, também, o derradeiro olhar diante do ser amado.
Agora o vento resvala por meu corpo, desvia-se de mim, mexe com minhas células, traz cheiros irracionais, e tento seguir meu caminho em sorumbático silêncio, apenas tentando identificar, quem sabe, um sussurro lá adiante. A ressurreição deve mesmo existir, mas nunca ninguém viu nada parecido. O fim é sempre o fim, independente do início ou do meio, fim é a morte. Senão não o seria, não passaria de um intervalo. Mas eu a matei, e decretei assim esse insano final infeliz totalmente fora de meu controle e arbítrio. Minhas razões são impuras e abstratas demais, porém em meu íntimo sei exatamente o tamanho de meu arrependimento e o peso de minha culpa.
Não se pode mudar nada de nosso passado, entretanto é passível fazer alguma coisa no presente. Mas eu não consigo fazer nada. Talvez ao matá-la tenha eu mesmo me privado de minha vida. Na verdade foi um suicídio. Abri mão desse prazer tão natural de morrer como qualquer humano deve morrer de morte morrida ou matada. Me sinto agora uma alma penada buscando consolo em mesas encardidas, em sarjetas miseráveis e na solidão das palavras sôfregas que desenham a arquitetura inexata de meu inferno. Busco aquele brilho intenso em outras mulheres, mas tudo me parece tão deprimentemente opaco e grotescamente derretido, como se me deparasse constantemente com fantasmas gosmentos e ensebados que normalmente são ao mesmo tempo gélidos e tristes. Tenho consciência de minhas alucinações, mas inadvertidamente sou eu escravo de todas elas. Diariamente, hora a hora, como um castigo perene, insolúvel e cruel, o martírio se repete. Aceito-o com a maior dose possível de resignação humana, busco compreender que para todo crime há um castigo ainda que não seja sequer sob a égide racional das leis dos homens que, decerto, eu iria deveras preferir ser punido. Matar um grande amor é o pior dos crimes, pois é um mergulho irrevogável ao seu próprio inferno. Ilações e choraminganças de um corno, eis minha mais exata definição.
Tento não pensar mais nela, naquela pele macia, no seu andar genuíno e naquele inebriante cheiro cítrico, mas a solidão me assola e me tira dos eixos, desarmoniza minhas forças e me torna refém de uma punição devastadora. Busquei como fuga o sexo metamorfoseado apenas em prazer, nada além disso, e notei que apenas açoitava ainda mais minhas feridas, como se deitasse nelas metanol. Encontrei, no entanto, nas viagens solitárias um pouco mais de paz, nos caminhos percorridos, na contemplação das grandes montanhas negras, em antigas estradas reais das Américas, em velhas cidades fantasmas onde os espíritos dos garimpeiros pairam pelas esquinas devastadas pelo tempo. Mas tudo isso, agravado pelo cheiro da terra úmida, da grama pisada, e com o vento oceânico, tudo isso me traz também a brilhante imagem daquele rosto melancólico, beatificado, puro e de sorriso pueril. Como foi aparecer esse ser assim tão iluminado em minha vida? Eis minha questão mais intrincada e insolente a que me deparo incessantemente. Certas pessoas, não por ojeriza, mas por excesso de sinergia, deveriam ser evitadas. Existe, de fato, a porra da química do amor, e pode ser o mais letal dos venenos. O calor persiste, e há ainda aqueles que dançam animados no dia santo após o Carnaval, essa orgia rítmica e de sensações loucas. Essa grande e litúrgica ode à alegria descompromissada, ao fácil e simples, ao barato e popular. Queira eu me deixar contaminar, ser conduzido freneticamente como por um bloco de alegria, sair embalado, sorvendo tudo, ou todas, e desfrutar desses tão fugazes prazeres que a vida nos dá. Eis o gozo gratuito, quase divino. Nada disso deu certo, e me aprofundei mais ainda numa lama lamuriosa e fétida. Porém hoje cedo tomei um banho demorado e frio, comprei uma loção com aroma de laranja, uma espécie de sabonete líquido, alaranjado, e o usei. Foi um cosmético caro, certamente utilizado por pessoas mais abastadas, mas a mim fez um efeito maior que o esperado pela estética e vaidade. Sim, apenas quis curtir por um tempo aquele cheiro tão familiar por alguns instantes tatuado em minha pele. Para esquecê-la de vez, eu preciso recordar de cada vão momento com ela. Denise me ligou, combinamos de sair para bebermos a noite, ela me disse que quer mostrar as marquinhas do biquini. Oras, quer é foder. Preciso comprar camisinhas mais confortáveis. Ela merece boas horas de sexo. Porém vou dormir sozinho. O mundo é perverso, e já me importei mais com isso. O que queria mesmo era passar dias e dias no Rio de Janeiro. Isso sim me faria bem.
Escrito por Mauro Cassane às 16h21
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