Segunda-feira, o quarto e a musa
Despertei leve como há tempos não fazia. Manhã de segunda-feira paulistana entre sol, nuvens, chuvas esparsas, vento e algum brilho um pouco opaco. Pombos e pardais, feito ratos voadores, buscam desesperadamente comida e suas fêmeas para foder um pouco. Tenho medo de pombas, são bichos cagalhões e fedorentos, mas também representam a paz e toda a sensualidade de Vênus. Paradoxos loucos assim, e a manhã de segunda não é diferente de um despertar num manicômio, como dizia Lima Barreto, “cemitério de vivos”. Fui andar no cemitério dos mortos para pensar um pouco, relaxar e refletir. Sol fraco, mas calor úmido e denso, algumas nuvens parecem deixar tudo mais abafado como se enfiassem um manto sobre o céu e tudo fica demasiadamente morno. Os coveiros estão alvoroçados, passo bem na hora de um féretro estranho, muita gente sinistra, creio que centenas deles. Pergunto quem é para o grupo de ajudantes de jardinagem de cemitério. E eles me contam que era o Jocobina. Não sei nada do sujeito, mas pela forma como me contaram, quase todos falando ao mesmo tempo, com toda aquela assombrada intimidade, parecia se tratar de alguém famoso. Fiquei até meio sem jeito de perguntar quem era o cara. Na capelinha das treze almas, religiosamente, trabalha o Luizão. Um homem de seus sessenta e poucos anos, pacato, daquelas figuras taciturnas que nunca negam um bom dedo de prosa quando incitados. Gosto de gente assim. Depois do trivial bom dia é Luizão quem me chama ao assunto. “Você viu? Pegaram o Jacobina”. Bem, para o Luizão não carecia passar um lustro de sapiência, então disse. “Porra, não sei que é esse cara. É algum figurão da política ou algo assim”. “Qual o quê, é o chefão da favela do mata porco. Morreu ontem de emboscada lá perto de São Miguel”. Tinha até carro de imprensa e alguns jornalistas pareciam mesmo consternados, tristes. Poxa, comovente. Não conheci Jacobina, mas devia ser mesmo boa pessoa para ter tanta gente assim naquele enterro. Estava planejando buscar erva por lá nesta noite, mas nem vou. Quando acontece essas coisas a polícia faz as vezes dos seguranças e os negócios param por um tempo. Uma semana. Vou esperar uma semana. Depois tudo volta ao normal. Jabobina é como Bin Laden. Não é apenas um ser, trata-se de uma legião.
Quando nossa alma está bem parece que as mazelas do mundo são apenas telas abstratas e a impressão é que estamos flutuando por uma grande galeria nesse nosso pequeno universo. Tudo vira arte. Todas as desgraças. Esse meu momento zen é um tanto confuso e extremamente hipócrita. Mas quero preservá-lo ao máximo. A grande oração de minha vida foi feita para uma Vênus com seus olhos de esmeraldas cintilantes. Sim, ela estava sobre um altar de rocha, solenemente deitada, deslumbrante com suas ondulações corpóreas insinuantes que me sugeriam toques e beijos, apenas para que eu pudesse ficar ali em contemplações demoradas diante da pureza daquele ser. Como um turista que se depara com um milenar templo sagrado saquei minha velha máquina fotográfica e imortalizei aquela cena para sempre. A imagem se preservou, e nunca mais se repetirá. Quando em minha vida, ainda que eu viva mais umas dezenas de anos, vou presenciar algo parecido com a mesma milagrosa sensação? Nunca. Ali estava ela, Vênus de corpo e alma, ilibada alma doce, se alongando preguiçosamente sobre uma rocha, com a praia brilhante ao fundo, sob o sol ainda tímido com seus primeiros raios indecorosos incendiando aquela pele dourada. Vivi aquilo tudo com tanta intensidade, mas nem notei, naquele momento passado, o quanto aquilo seria a mim sagrado a ponto de, apenas ao lembrar, já me sentir leve e melancolicamente feliz. Parece sintomático, mas toda segunda-feira vem em mim algumas lembranças assim. Entretanto, nem sempre me sinto em paz. Mas o despertar de segunda-feira foi especial por outra razão insólita. Talvez um sonho. Ainda não me dei conta do que pode ou não ser realidade. O bom de escrever é que nos divorciamos totalmente de qualquer compromisso de ordem real. Ora, que se foda a verdade. Relatar isso é uma tarefa ordinária que cabe a jornalistas. E esses sim, por ética, deveriam fazê-lo. Os magistrados também. Mas não fazem, acho que ninguém gosta de se comprometer com a verdade. Por essa razão prefiro a protetora e aconchegante oca da fantasia onde tudo pode ser ou não ser. Ninguém se importa com um poeta ou um escritor. Tampouco eu. O fato é que me vi ali, num obscuro quarto, com uma mulher idílica. Linda, sua pele macia, parecia revestida da mais pura seda indiana, estava ali não para me prestar favores sexuais, mas para me amar. Com aquela mulher eu poderia cantar uma canção de Caetano: “meu bem, meu zen, meu mal”. E cantei para ela, talvez num outro sonho, bem na areia morna de uma praia quase deserta, quando estávamos recostados confortavelmente sob a sombra suave de uma grande e negra rocha, e ela me pediu para cantar e eu soltava minha voz vergonhosamente esdrúxula apenas para demonstrar o quanto eu a amava insanamente. Depois ela subiu na garupa de minha moto e saímos voando pelo caminho, nas trepidações eu sentia ela inteira acariciando com seu corpo meu dorso suado, sentia seus peitos imaculados afagando minhas costas, seu tesão incontrolável, e suas mãos tão leves de santa me tocando por todas as partes. O vento, talvez o próprio pai dessa criatura iluminada, me lançava suas lufadas com o perfume distante das velhas embarcações míticas de ciganos que navegam por esses mares. Era tudo isso que eu sentia, e por isso mesmo não permito que se desbote em minha memória.
Escrito por Mauro Cassane às 16h10
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continua...
O quarto quente e sem ar-condicionado, sem nada, nos fazia suar, como que derretendo, de tanto nos amar. Todos os músculos se desejando, todos os átomos em elétrico frenesi. Eu a beijava quase em franco desespero apaixonado. Buscava seus lábios macios, lapidados pelas mais elevadas entidades desse universo, e sentia aquele gosto selvagem de ninfa em gozo, sentia o diabólico néctar cítrico de sua saliva e tudo aquilo me transformava em alguma coisa diferente, misteriosamente soberba, talvez me metamorfoseando naquelas milenares canções vikings, ou me sentia um guerreiro huno, ou até o lendário Átila. Não sei dizer ao certo, mas aquele momento, perdido no tempo, sem noção espacial, se passava poderosamente em minha mente. Estar com aquela mulher, protegido pelas paredes, ou talvez tendo as silenciosas paredes como espectadores, eu me sentia também como um deus, um pequeno deus inexperiente descrente de seu próprio poder. As paredes também mudavam, ora eram muralhas que cortavam grandes montes no deserto, ora eram a suntuosidade do interior dos palácios egípcios dos tempos dos faraós. Sim, aquela mulher, apenas uma simples mortal, tão comum e humana em seu insolente caminhar pelas ruas, apenas chamando atenção de alguns homens mais afoitos, certamente por sua malemolência, por seu gingado malandro das gentes do mar, ou por seu corpo esculpido das fêmeas de Zeus, aquela mulher fez de meu coração um ordinário espetinho vagabundo de frango, desses que às pencas se oferecem em rodízios de beira de estrada. Coração? Sim, bota um alguns aqui. E o espetinho vai de mesa em mesa e o garçom despeja quatro aqui, cinco ali, meia dúzia lá. Assim está meu coração agora depois daquela tarde suada e sufocada dentro de um quarto obscuro. Amar nunca foi algo simples. Para mim é algo desesperador, mas acordei cedo e bem humorado nesta segunda-feira sorumbática. A chuva não tardou e banhou todo o asfalto podre, esburacou ruas e no horizonte já é possível ver novamente o arco-iris iridescente que corre do Tietê e mergulha despojadamente nas sensuais montanhas da zona norte. Assim como um junk busca seu remédio, busco eu outras tardes como aquela.
Escrito por Mauro Cassane às 16h10
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