Cores Humanas


O romântico Peixotinho e sua triste experiência

Peixotinho anda de um lado a outro sem conseguir disfarçar sua angustiante espera que sempre o incomodou deveras, assim como não agrada a ninguém, nem mesmo as grávidas. Já está na terceira latinha de cerveja, fica bulinando o celular e busca algo a se distrair. Liga a televisão embutida no alto da parede e se deita na cama redonda para tentar relaxar. Não gosta de ver sua mirrada imagem projetada no espelho do teto e muda nervosamente os canais, buscando aqueles onde possa assistir ao puro sexo selvagem. Pronto. Se atem no hot sexy. Dois caras fodem uma loira com peitos imensos que faz as mais brochantes das caras de tesão. Os sujeitos sacodem aqueles imensos paus oleosos e cerram os lábios murchos forçando também uma cara de prazer. Peixotinho fica ali um tempo, e com a mão esquerda aperta o seu falo que começa a ganhar mais volume. Se excita um pouco e, assim, esquece que já está ali há quarenta minutos à espera de Solange, a puta que contratou via internet e que combinou de encontrá-la às quatro da tarde no quarto daquele motel. Entretanto o tesão aumenta e ele tem vontade de tocar uma punheta. Tira o pau pra fora, mexe, puxa, faz alguns movimentos pra cima e pra baixo e se dá conta: “porra, não vou gozar assim, é muito deprimente, cadê aquela filha da puta?”.

Pega o celular e liga. Solange atende solícita. “Oi, meu anjo, já já chego aí”. “Porra, to aqui faz quase uma hora, não tenho muito tempo. Onde você tá?”. “Calma, fofo, to chegando, tá muito trânsito. Agüenta mais cinco minutos e to aí pra fazer tudo com você”.  Peixotinho sabe ser rude na mesma proporção que simula seu carinho às mulheres que conhece. “Oh, vem logo, senão vamos ter que mexer nesse preço”. Solange apenas ri com a peculiar delicadeza de todo fornecedor para com seu cliente. Fim de conversa. Peixotinho desliga ainda bufando e balançando a cabeça em desaprovação à falta de profissionalismo de Solange. Liga na recepção e pede mais uma cerveja. Já meio alterado faz recomendação peremptória: “mas é pra trazer gelada”. Aqueles gemidos na tv o irritam. Desliga e vai checar seus apetrechos que sempre lhe garantem uma boa performance em suas escapadas matrimoniais. Tudo corretamente acondicionado num pequeno saco de tecido. Cartela de camisinha, gel lubrificante, um vibrador, pilhas alcalinas, máquina fotográfica digital e um pequeno invólucro de plástico com dois comprimidos azuis. Peixotinho é metódico e respira aliviado, orgulhoso de seu absoluto gerenciamento das coisas. Pensa em sua competência e volta sua ira contra a até então desconhecida Solange, “uma puta de merda”.

Antes de estar ali, nestes dias de folga de seu casamento, pois sua mulher viajava a cada quinze dias para a casa dos pais no Sul de Minas Gerais, onde por lá permanecia entre três e cinco dias, Peixotinho havia consultado sua agenda secreta com dezenas de nomes e respectivos telefones de garotas que acreditavam se relacionar com um homem diferente, que só não podia namorar normalmente, ou até noivar, por ser obrigado a viajar a trabalho com desumana freqüência. Peixotinho era um exímio ator na arte de ludibriar mulheres ingênuas ou aquelas assoladas por reincidentes insucessos sentimentais, essas, naturalmente, as presas mais fáceis. Porém, nesse primeiro e exultante dia livre das amarras matrimoniais, não encontrara uma única “namorada” disponível. Raquel era aeromoça, e estava em trânsito. Priscila era dentista, e por dois dias ficaria trancafiada em uma convenção. Ludmila, a jovenzinha de dezessete anos, depois de ser esquecida por mais de vinte dias, estava fula da vida e saindo com um garoto mais contemporâneo. Margareth, a morena noiva, a mais deliciosa e fogosa de todas, tinha que fazer o papel de noiva já que o rapaz acabara de chegar do exterior. Peixotinho tinha amigos, mas jamais se contentara em sair com amigos apenas para prosear. Precisava foder todos os dias que sua mulher dava a ele esse fugaz gosto da liberdade. E é exatamente isso que fazia de modo metódico. Como não obteve êxito com suas mulheres, tratou de buscar ajuda profissional. Para ele dava no mesmo. Afinal, com suas mulheres, contabilmente, também gastava entre duzentas a trezentas pratas por noite. Pois era um homem dado ao romantismo, para compensar suas longas ausências presenteava e sempre brindava suas amadas com jantar antes de satisfazer seu intuito que era única e simplesmente foder. “Uma boa trepada requer preparativos, e essas coisas não são baratas”. Por isso mesmo, putas ou garotas normais não faziam qualquer diferença para Peixotinho, com uma ligeira vantagem às meretrizes que dispensavam a teatral etapa do jantar e iam direto ao ponto. Portanto, financeiramente, os dois tipos de mulheres, para ele, dava no mesmo, já que o preço do jantar mais um agrado normalmente era exatamente o valor cobrado pela cortesã. Entretanto Peixotinho era inclinado à galantear as garotas sonhadoras e carentes, e isso o excitava. Gostava mesmo da adrenalina da conquista, da farsa e da mentira. Só usava o cardápio dos prostíbulos eletrônicos em última e desesperada instância.

Escrito por Mauro Cassane às 17h15
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continua...

Essas descrições servem apenas para fazer os minutos passarem. Mas Solange ainda não chegou. E o leitor há de concordar que já cinco minutos transcorreram. Peixotinho desespera-se. Fica incomodado e fulo da vida em ter que tratar de coisas tão sérias com mulheres da vida. “Essas vacas não sabem o que é responsabilidade com horários, por isso que é uma merda sair com puta”, pensava consigo mesmo, andando de um lado a outro com o cigarro aceso e a lata de cerveja pela metade esquecida sobre o criado mudo acoplado à cama. Pensou em tirar a roupa, ficar à vontade e tomar um banho. Era o tempo da filha da puta aparecer e pronto, fodiam uma hora e já estava bom. Cento e vinte reais. Esse foi o preço acertado por telefone. Estava ali, no site, girl.com, morena, peitos fartos e duros, bunda redondinha e empinada e coxas roliças. Tudo isso por cento e vinte mangos. Uma pechincha. Peixotinho pensa nisso e, à simples imaginação dessa morena na cama, de quatro, com toda aquele experiência e exuberância, o exulta a ponto de não se estressar com o atraso. Seu celular toca. Um frio intenso atravessa seu estômago. Pelo visor digital avista o numero de Solange. Atende mais tranqüilo. “Meu anjo, já entrei e to aqui estacionando”, ela sussurra, como se brincasse. Ele apenas diz, meio apressado, meio embriagado por uma louca ansiedade que sempre o pega nesses momentos que antecedem uma nova transa, “tudo bem, vem pra cá”. Pega a latinha de cerveja, “porra, tá quente essa merda, filhos da puta”. Abre o invólucro preto, pega uma pílula azul bota na boca e engole com duas longas goladas na cerveja. Respira fundo, corre até o espelho, dá uma ajeitada no cabelo, alinha a camisa, resolve de última hora jogar uma água no rosto pra tirar uma raspinha de remela no olho esquerdo, se enxuga, averigua as fossas nasais pra ver se não tem nenhum vestígio de sujeira humana que possa causar asco na fêmea e pronto. Aguarda. A madeira da porta soa com dois suaves toques. Ele diz, já com voz teatralizada, “tá aberta, pode entrar”. E se põe em pé, rijo, com o peito estufado e barriga comprimida, braços soltos, e um ligeiro tique nervoso na extremidade direita da boca. Solange abre a porta, abre um sorriso e solta um olá de moça tímida, voz suave, meio rouca. Está com um vestidinho negro e um decote abrasivo que lhe expõe despudoradamente suas fartas mamas. Mas a minúscula e apertada vestimenta também escancara violentamente a grandiloqüência de todo aquele conjunto corpóreo que, parada à porta, sorrindo como um anjo alvissareiro, aguarda a avaliação de seu cliente. Suas formas superlativas e arredondadas tomam quase todo vão da porta, do pé à soleira, e suas coxas demasiadamente grandes destacam-se com tamanha brancura que parecem vibrar. São lisas e bem roliças como descrito no tal site, e era mesmo de um olhar negro e penetrante, cabelos fartos e bem penteados, e uma cara bonita mas ligeiramente inchada por excesso de gordura. Sem querer fazer troça, ela deveria valer um real por quilo. Decerto pesava quase cento e vinte quilos.  Peixotinho estava estarrecido, perplexo e algo queimava dentro de si. Ficaram assim por alguns minutos. Talvez nem isso. Solange, sapiente da impressão que causara, que certamente não fora das melhores, e talvez já acostumada com esses pequenos percalços de profissão, tentou resolver o mal-estar com um tratamento de choque. “Olha, não avalie o perfume pelo frasco. Você me achou gorda, né, mas nem faz idéia do que posso fazer contigo e como posso te fazer gozar gostoso”. E deu um passo apressado quarto adentro. Peixotinho fez uma cara de decepção indescritível. Sentou na cama e Solange, nesse instante, lendo as possibilidades, julgou que seu tratamento de choque fizera o efeito desejado, ou seja, deixara o cara sem ação. Mas foi aí que ela se surpreendeu. Ela já largara sua bolsa na mesa, e fora andando saltitante para o banheiro e falando que só não topava fazer sexo anal quando foi abruptamente interrompida por Peixotinho. “Olha aqui moça, me desculpe, mas nem perca seu tempo, visto que já perdi muito do meu. Pegue suas coisas e vá embora e eu pago essa porra de motel e ponto final. Não curti você, e eu esperava uma super gata morena e tesuda que nem a gente vê na revista e nesses filmes de putaria aí. E você deveria me dizer que é gordinha. Porra, ficaria muito mais honesto. Portanto, nada feito. Pode ir embora e não quero mais discussão nem papo”. Solange notou que ele se esforçava sobremaneira para manter o controle, pois por seus olhos saltavam faíscas de ódio. Nem tentou contra-argumentar. Em silêncio recolheu sua bolsa, vestiu o sapatinho de salto alto e deu o fora. Peixotinho ficou ali, sentado na cama. Já tinha tomado a porra do viagra. Ligou a tv. Tinha mais uma hora ainda. Os dois caras continuavam a foder a loira, e tinha mais uma morena vestida de enfermeira que se masturbava ao vê-los. Peixotinho com um puta ódio, não se perdoava por ter sido tão ingênuo. Agora carecia aguardar o efeito da pílula passar e isso demandaria, no mínimo, três punhetas. Olhou para o relógio, afrouxou a calça, agora os garanhões transavam com a enfermeira. Um tanto contrariado, segurou o pau com respeitoso carinho e tocou a primeira de uma série.

 



Escrito por Mauro Cassane às 17h14
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Alguns dias pelo velho centro carioca

Desconsolado, permaneci sentado no bar Carlitos entre a Mem de Sá e a Riachuelo. Calor com aquele mormaço fedorento e abrasivo em plena quatro da tarde. Quase uma semana no Rio e nada de trepar com ninguém. Pedi um chopp. Demoraram uma eternidade pra trazer. Um casal de gringos se empapuça com uma feijoada que parece pomada beladona bem na minha frente. Aquilo me vira o estômago. No circo voador passam o som, será o show do Nando Reis. Uma fila do caralho pra comprar um ingresso. Não sopra uma ínfima brisa e me sinto sufocado nessa estufa cercada de morros. Sexta-feira carioca. Começo a sentir saudade de minha terra depois de alguns dias fora, do vento que sopra da Consolação rumo ao Paraíso pelo corredor mais paulista de Sampa. Estou há seis dias no Rio. E parece que já moro aqui. Até agora nem vi praia, nem corcovado, nem Urca, nem Copacabana nem nada dessas merdas postais. O bom do Rio é exatamente por onde andava Lima Barreto. Gosto mesmo da Rua da Lapa com aqueles casarios sombrios e decrépitos, seus personagens bizarros e ambulantes que vendem na calçada tudo quanto é bugiganga e velharia. Não sei quem pode querer aquelas tranqueiras. Mas eles ficam ali, perto da fonte olvidada, na entrada da rua da Glória, vendendo aquelas tranqueiradas.

Tenho que pensar em qualquer coisa pra distrair a sede e esquecer o tesão. Fico contando os arcos e as bolas vazadas sobre eles. Minha garganta tá azeda e seca e o filho da puta do garçom dando total atenção ao casal de espanhóis. Ou argentinos, dá no mesmo. Mas acho que eram espanhóis, pois estavam rosados e gordos. “Oh meu, me traz o chopp porra, to com sede”. Assim mesmo que pedi, genuinamente paulistano da zona leste. Os cariocas adoram quando a gente fala “meu”, é uma boa deixa para gozação. Quem sabe me concedem a prerrogativa de ser tratado com a distinção de um turista. Se deu certo, não sei, mas o chopp chegou e estava realmente impecável. Bebi três, comi um lanche de pernil e fiquei ali esperando o frescor do crepúsculo. Pedi uma cachaça, mas o garçom fez cara de dúvida. Então desencanei disso. Acho que carioca não curte cachaça. Paguei a conta e fui andando para meu dramático aposento na Glória.

O hotel que fiquei tinha uma fachada limpa e clássica. Puro engodo. Foi uma das mais asquerosas espeluncas que já me instalei nos últimos anos de minha vida. Fedia a cândida. E o banheiro mal abrigava um encardido vaso sanitário. Rua Cândido Mendes. Um subidão que termina numa macabra escadaria ordinária com gente estranha espreitando. O hotel está espremido bem no meio do caminho e ostenta um nome eloqüente: Conde de Monte Cristo. Cobram descaradamente oitenta paus a diária. Não esperaria grande coisa daquele lugar. Paradoxalmente na mesma rua, fica o consulado suíço. Um primor de luxo e elegância ao meio do caos. Na recepção do Monte Cristo, como uma estátua, sempre encontrava uma ensebada senhora com ares militares. Era a atendente que parecia montar guarda ali. Parecia mesmo uma daquelas bizarras figuras do nazismo. Um olhar grave e austero e aqueles peitões caídos davam a ela uma feição tirânica, entretanto era uma senhora aparentemente higiênica. No estreito hall outra figura estranha era presença garantida e quase eterna. Também mulher só que demasiadamente gorda, relaxada e desbocada. Estava sempre a resmungar e com a mesma roupa e penteado de modo a parecer que nunca tomava banho. Sentia que as duas falavam de mim. E isso me dava uma prazerosa alegria. Gosto quando falam de mim, especialmente quando falam mal. Chego no quarto e Vince enrola uma bagana imensa com invejável habilidade motora. Eu não fumaria essas coisas se estivesse sozinho, não consigo bolar, por isso é legal viajar com maconheiros. A gente não tem que se preocupar com nada. Ligamos o ar e o ventilador e fumamos. Assim demos bons assuntos para as megeras da recepção. Sexta-feira quente, depois de fumar, cada um tomou seu bom e relaxante banho gelado e aguardamos assistindo jornal nacional às nove da noite pra jantar e sair pelas vielas da Lapa.

Escrito por Mauro Cassane às 17h28
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continua...

Parece que os seres notívagos da rua da Glória já haviam conosco se habituado. E nós com eles. Seu Gumercindo, bem de frente à Igreja da Lapa, é um personagem peculiar. Outra estátua com alma. Está sempre ali, na calçada, com sua miserável mesinha de latão, e duas cadeiras de plástico, uma de cada lado da mesa. Ele toma um desses lugares. Sobre a mesa, uma garrafa de pinga vagabunda e outra, daquelas de refrigerante de dois litros, com uma batida pastosa e com uma cor triste entre o bege e o amarelo. Durante quatro noites que por ali passei eu apenas o cumprimentei e ele respondeu com um quase imperceptível balançar de cabeça. Mas minha curiosidade é deveras incontrolável. Guardei na memória mais ou menos a linha do pastoso líquido que demarcava a garrafa de plástico. E não mudara nada nesses quatro dias. Sempre na mesma posição. Então, na noite de quinta, resolvi sentar-me ao lado dele. Eis o universo elementar de um homem. Não me apetece muito traçar perfil, nem perguntar idade. Mas de olho, na aparência, creio que montava mais de cinqüenta anos. Robusto, desprovido de pescoço, e dono de uma cabeça escandalosamente avantajada, Gumercindo não falava, grunhia. Fica ali, com sua larga bermuda e camisa social totalmente aberta de modo a expor sua barriga bojuda e dura. Seu Gumercindo é taciturno, e nunca te olha nos olhos. Ao que sentei, ele disse como no automático: “pinga ou batida, um real a dose”. Decerto ficou meio ressabiado com um cliente até então novo. Daí perguntei seu nome. Ele respondeu sem me olhar. Eu imaginava que aquele solitário vendedor, como se fosse aquela única mesa seu bar, se prestasse ao papel de analista de seus parcos clientes. Mas não, Gumercindo não é afeito às palavras. Mantém-se soberbo e indiferente a tudo, sem desprender gentilezas fica calado e imóvel. Resolvi pedir uma dose de pinga, pra não ficar chato e talvez assim abrir um diálogo e animá-lo um pouco. Ele me serviu uma dose generosa num copo de plástico que tirou de uma sacola. Seus grossos dedos  encardidos entraram dentro do copo. Me deu nojo. Mas álcool puro mata os vermes todos. Levei aquele líquido à boca, parecia metanol. Ruim pra caralho. “Essa batida é de quê?”, perguntei, tentando puxar assunto. “De coco”, respondeu lacônico. Bem, pensei em perguntar a quanto tempo estava ali. Mas acho que ele se ofenderia. Foda-se. Falei então se ele vendia bem naquele ponto. E a resposta foi monossilábica. “Sim”. Acho que não foi com minha cara de gringo. Mas depois, em outras vezes que o vi com clientes, seu Gumercindo permanecia imóvel e em silêncio enquanto o outro bebia e olhava para o nada. Me senti melhor com isso. Um bar ambulante de apenas uma mesa e um lugar e um barman sorumbático. Nunca tinha visto nada igual.

Nesta noite fomos beber e comer no centrão carioca. No bar tradicional chamado Amarelinho. Teatro municipal de um lado, câmara dos vereadores do outro e biblioteca oficial na nossa frente. Rio clássico e romântico. Uma incursão ao século dezenove. Na parda noite sob um luar discreto tudo pode ser como no passado, como nos bucólicos tempos de Machado de Assis. O garçom me aconselhou a não tomar a cachaça deles. Era pinga mesmo. Vagabunda. Carioca não deve mesmo tomar cachaça das boas. Eu e Vince estávamos chapados e famintos. Nas cercanias, numa mesa a uns dez metros da nossa, chega uma turma. Duas moças e um homem. Não vou perder tempo descrevendo o homem, que quase nem sequer o notei. Mas as duas eram como o retrato mais genuíno da mulher carioca. Morenas, esguias e com toda aquela malemolência insidiosa. Ao que parece eram amigos de trabalho e estavam ali para um happy hour tardio. Vince mudou de lugar para observá-las comigo, ao meu lado. Não estávamos muito preocupados com discrição. O sujeito que as acompanhava, para nossa sorte e deleite, sentou-se de costas pra gente. As duas, naturalmente, ficaram de frente. E nós, vadios lobos predadores, numa espécie de estupor depois de uma portentosa refeição, letárgicos e com aquele olhar indecente, mirávamos as duas como tarados descarados. Claro que elas perceberam. E, de imediato, demonstraram grande desconforto. Tanto e de tal modo que o sujeito chegou a olhar para trás algumas vezes com cara de poucos amigos. E nós ali, alheios. Acho que não estávamos muito bem. Tínhamos fumado excessivamente por duas horas. E não sei mais quantas tulipas de chopp já havíamos entornado.



Escrito por Mauro Cassane às 17h27
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continua...

É evidente que não se consegue nada quando um homem mira uma mulher com cara de maníaco. Olhei para a cara de Vince, e a expressão era essa mesma. Sob efeito da marofa cai na gargalhada. E acho que falei alto demais. “Porra, você tá com uma puta cara de louco” e no que ele me respondeu “e você com aquela cara de velho babão”. Começamos a rir. Foi uma benção. Elas riram também. As perdemos de foco e a expressão ordinária de desespero sexual se transformou numa certa leveza espiritual. Elas relaxaram. A morena, que me interessou, ajeitava o longo e negro cabelo e me lançava olhares lascivos. A outra, de cabelos também negros, porém curtos, sorria mais solta. Perguntei a Vince: “Você tem coragem de chegar lá e falar qualquer merda pra gente juntar as mesas e daí a gente fica todo mundo junto e se conhece e podemos ter uma boa chance”. E a resposta eu já sabia. Ele disse “nem fodendo”. Bem, nem precisa dizer que eu também não tenho esse recurso empreendedor. Foi então que a de cabelos longos se levantou para ir ao banheiro. Eis a clássica deixa para que eu aproveitasse minha única chance de abordagem. Fui atrás com o cuidado de não deixar o sujeito que estava com elas perceber minha alquebrada e tímida investida. Porra, um grande frio no estômago. Parecia que eu estava indo para o corredor da morte. Que merda. Algo tão simples. Apenas chegar ao lado de uma mulher atraente e dizer “hei, gostei de ti, queria te conhecer”. Simples, não? Pra mim não, um verdadeiro martírio, isso sim. Fico tentando planejar uma abordagem mais adequada, ou mais polida ou até mesmo mais criativa. Não me ocorre porra alguma. Então peço caneta e papel pro garçom. Escrevo rápido meu nome e fone e fico ali em angustiante espera. Ela sai. Olha para os lados. Permanece um tempinho na pia de fora do banheiro, lava as mãos, enxuga, ajeita-se mais um pouco no espelho. Porra, é perfeita e de uma beleza ímpar. Meu coração parece querer ser digerido pelo estômago. Ela já me viu e nota meu vacilo. Fico envergonhado pra caralho. Mas, enfim, ela termina e vem em minha direção sorrindo. Relaxo um pouco.

-         Vocês dois são loucos, né. Não pararam de olhar pra gente.

-         Ah, desculpe. É que não tinha nenhuma outra garota interessante pra olhar e daí vocês apareceram então resolvemos apreciar vocês. – eu disse e só depois de entoar a última palavra que notei a tremenda grosseria que acabara de perpetrar.

-         Porra, só por isso. Que horror. – ela me disse isso com uma cara de brava e indignada.

Eu não sei mesmo ser galante. Sou um desastre. Mas ela deve ter ido com minha cara. E eu ali, com o papel em mãos. Ela diz: “o que é isso, é pra mim?”. “ah, sim, isso, coloquei aqui meu nome e meu fone”. Dei a ela. “É meio convencional, né, mas agora pelo menos você sabe meu nome e fone”. E ela: “tá” e saiu andando com um rebolar hipnotizante. Acho que todas agem assim. Porra, mas esse “tá” foi desolador. Voltei arrasado pra mesa, com aquela cara de derrota. Vince ri. Bebemos mais. As duas não nos olharam mais e caíram fora em dez minutos. A morena, meu novo amor daquela noite, sequer me deu tchau. Fomos caminhando para a Lapa. Lá encontramos uma grande festa a céu aberto. Milhares de pessoas, dezenas de bares e uma mistura impressionante de estilos culturais. “Isso é o mais fiel retrato do Brasil”, dizia Vince exultante com todo aquele frenético movimento de pessoas. Compramos cervejas e seguimos andando pela Mem de Sá. Porém, muito abruptamente, a rua ficou erma e apenas um grupo ruidoso conversava bem no rumo de  nosso passeio. Eram travestis. Lindas e tesudas, com bundas esculpidas e peitos redondos e duros. Mexeram com a gente. “Ah, se essas coisas não tivessem um balançante cacete entre as pernas”, pensei comigo. Seis dias sem trepar e enfiados na mais pura boemia carioca. A libido fica insana e sedenta pelo gozo salvador. Voltamos para o agito normal. Vince dá melhor sorte no ensaio de um grupo de negros que tocam samba para uma pequena multidão predominantemente feminina. Uma mulata, sem qualquer cerimônia, se atraca com ele. Não preciso dizer, mas cabe constar, que puta mulher gostosa. Voltei sozinho caminhando pela madrugada até o Monte Cristo. Calor pra caralho. Tomei outro banho gelado e cai na cama miserável e deprimente que parecia cama de anão em seu leito de morte. O mormaço me tira cedo da cama. Ressaca e dor de cabeça. Tomo uma aspirina, outro banho frio e vou comer alguma coisa. Vince não voltou. Deve ter esfolado o pau de tanto foder. Que inveja. Era uma mulata maravilhosa. Nunca transei com uma mulata daquele estilo. Dez hora da manhã. Nada a fazer no sábado. Odeio praia no calor, mas mesmo assim peguei o metrô e fui até Copacabana. Muito contrariado, mas tudo bem, pelo menos veria bundas e tetas e essas coisas legais de se ver quando a gente passa dias sem foder. Caminhando pelo calçadão da praia para achar o melhor lugar pra ficar meu celular toca. Pelo visor vejo que é uma ligação do Rio. Atendo. “Oi, tudo bem?”, voz de fêmea maravilhosa, rouca e suave que me lembrou de imediato um amor que tive e que me levou à mais profunda e dramática tristeza quando a perdi. “Sim, tudo bem”, respondi com tom de dúvida. “Sou a Betty. Lembra de mim?”, ela me diz com meiguice brejeira e completa “ah, é mesmo, a gente nem se apresentou ontem”. Bem, tudo esclarecido. Meu novo amor me ligou. Parecia milagre. Combinamos de almoçar e ela me pegou meio-dia em frente ao Copacabana Palace sob olhares invejosos de putas e gringos. Uma boca carnuda e castanha e uma grande tatuagem de asas de anjo nas costas. Passamos a tarde no Monte Cristo. Por quatro horas me senti no mais perfumado, confortável e luxuoso quarto de hotel de todo o planeta.

 



Escrito por Mauro Cassane às 17h26
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