Noite covarde salva por um sonho
As sombras não eram, como de costume, lançadas à sarjeta encardida. Desta vez as luzes silenciaram. Por um momento um calafrio intenso percorreu todas minhas entranhas, e olhei de soslaio para tentar identificar alguém, ou algo, em minha visão periférica. Nada, apenas o opaco som de meus próprios passos medrosos e vacilantes. O que fiz foi acelerar-me um tanto mais afim de transpassar no menor tempo possível essa viela a mim tão familiar sob a claridade dos dias e assim, como naquele sombrio quarto de nossas infâncias, assombrosamente misteriosa à simples ausência da luz. Um arredio roedor aponta nervosamente sua cabeça para fora do bueiro. Assusta-se pelo infortúnio de flagrar-se diante do iminente perigo de meus pés apressados e enfia-se num instante em sua escura toca retangular de concreto. O gato cinzento, recolhido à minha direita sobre escombros de madeira e latas, frustra-se e me olha com um jeito um tanto emputecido porém não menos ressabiado com esse vulto de proporções assustadoramente maiores que as dele. Prefere dar o fora a tirar satisfação. Mas da mesma forma que é sorrateiro e dissimulado em sua elegante espreita, é também desengonçado e ruidoso quando em fuga apavorada. Prefiro o rato que é silencioso nas duas ocasiões, ainda que me irrite com seu tique nervoso incontrolável. Tivesse eu menos acabrunhado, e se me dessem a oportunidade nessa noite insalubre, creio que degolaria ambos. Muitas vezes temos uma irresistível vontade de matar sem qualquer razão sana. Mas nessa sinistra madrugada me sentia a presa em desesperada retirada diante de um indócil inimigo invisível, talvez apenas imaginário. Meu pai me ensinou a jogar xadrez quando eu mal sabia escrever e repetia sempre a mesma frase: “se não conheces seu inimigo, evite-o, mas nunca deixe de estudá-lo pois é imperativo que você o vença um dia”. Um outro ensinamento foi ter coragem, mas nessa solitária noite sem brisas me senti tão covarde como aquele odioso rato do bueiro. Me sentia a gazela no vale perdido diante do astuto cerco do lobo voraz. Acho que foi efeito da bebida, ou excesso de amor que nos amolece e tira demasiadamente nossa brutalidade. Precisamos de um pouco de brutalidade para sair pelas ruas.
Prossegui vacilante até dobrar a esquina onde, finalmente, havia postes com algumas luzes intercaladas. Se a princípio tive um alívio, basicamente em função da luz, em segundos o pavor foi recrudescido pela avassaladora visão que se descortinava por todos os lados. Pequenas fogueiras feitas com restos de sofá e armários, além de caixas de papelão, iluminavam espectros humanos em farrapos. Um imenso estacionamento de carroças tracionadas por gente e todos aqueles seres miseravelmente famintos pareciam desfalecidos no mais melancólico submundo. Ariscos por natureza, meus passos largos e pesados de medo os despertaram. Pareciam me dissecar com aqueles olhos flácidos e escuros. Tenho mais pavor de fantasmas do que de gente, mas ser observado daquela forma me perturbou. Eram centenas de estranhas almas penadas vestidas de dejetos humanos alijados de tudo que fosse socialmente aceitável. Aprendi desde pequeno, convivendo muito perto desse tênue limite da loucura das castas, que as regras nesse universo são bem diferentes daquelas que regem o chamado mundo civilizado e tampouco se parecem com outras, ainda mais surreais, e não menos cruéis, que normatizam o crime. Por fim toda regra é desumana e cruel, inclusive as mais civilizadas. Conhecia bem a lei que imperava na perifa paulistana, sob a égide dos capitães traficantes e, de certa forma, me adaptava. Mas todos temiam os conhecidos mortos-vivos, esses zumbis soturnos que viviam à margem de tudo. O bom era evitá-los. Mas é por onde eu passava nessa madrugada, e com o espírito abalado e triste, transpirando o pior: o suor do medo. Eles, como cães, eu diria hienas, farejam esse seu estado. Hesitariam diante da coragem, mas não vacilam um segundo quando se deparam com a fraqueza. O que pretendiam, não sei. Não estava muito disposto a descobrir. Começaram a se levantar. Bem, havia ainda alguns metros para vencer a rua. Me senti num horripilante corredor-polonês. Eu com jeans, camiseta e tênis. Acho que doze reais no bolso, e minha carteira de jornalista. Nada além disso. Comeriam meu cu a força? Caralho, aperto o passo com essa possibilidade na cabeça. Os putos grunhem coisas, parecem traçar um terrível plano instantâneo para me abater. Se correr eles podem gritar e os que estão mais à frente certamente me bloqueariam. Num embate seria perfeitamente simples destroçar, no braço, alguns deles, mas não tantos assim. Malditas hienas urbanas. E que merda estava eu fazendo ali. Isso é uma questão que me ocorreu na hora. Resolvi correr. Em vez de gritar, ficaram em silêncio. Não olhei para trás. Pulei uma proteção de aço da avenida principal, cruzei-a e segui meu caminho pelo passeio central.
Entrei em casa quase amanhecendo. Cinco da manhã. Um galo miserável canta sem parar. Tomo um banho rápido e quente, me jogo na cama e tudo aquilo fica flutuando em minha mente como bolhas de sabão. Não consigo pegar no sono. Quase sete horas, a claridade é azulada e raios do sol transpassam os buracos da pesada cortina. Meu quarto ganha incríveis tonalidades fantasmagóricas, e me entretenho com o balanço das luzes que se movimentam à medida que o vento sopra a cortina. Faço uma oração zen, agradeço a deus por estar ali tão vivo, presenciando tanta magia matinal e não ter pego no sono mesmo porque nem estava com vontade de dormir, talvez fosse apenas força do hábito. A gente precisa dormir, e aí sim peguei no sono. Logo vi velozes cavalos alados sobre as pradarias de Agulhas Negras. Num frio intenso e névoa profunda avistei uma delicada silhueta delgada e morena cheia de volúpia. Como uma aparição santa, veio a mim, com seu fino véu translúcido de seda que me permitia, graciosamente, observar sua incendiária vulva e peitos sagrados. Havia algum som mágico nisso tudo. Ou apenas barulho das asas dos eqüinos cujas idílicas penas despencavam sobre nós. Não lembro de mais anda. E ao despertar duas horas mais tarde resolvi não trabalhar. Mais um dia de vadiagem.
Escrito por Mauro Cassane às 12h18
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