Cores Humanas


Uma morte sem foda e alguns ensinamentos

Enterramos Artur com uma salva de palmas, depois fumei um baseado com velhos amigos caminhando pelo cemitério. Grande Artur. Morreu sem realizar seu mais louco sonho. Queria transar com sua prima Adélia. Gostosa. A puta deu pra quase toda turma, menos pra ele. Dizia que não se sentia bem fodendo com um primo. Falava de castigo divino e tudo mais. Porra, agora o cara morreu e acho que ela deve ter ficado com dor na consciência. Ele contava pra todo mundo que era louco por ela e que se contentaria senão com uma relação, ao menos com uma boa foda. Mas mulher tem lá seus diabólicos caprichos. E olha que Artur era boa pinta, sujeito em forma, alto, cabelos negros e lisos, pele bronzeada. Viveria longos anos não fosse o balaço que lhe perfurou o tórax e lhe abriu um rombo nas costas. Não foi assalto. É raro roubar gente da perifa, ninguém tem grana por aqui. O comum é o acerto de contas. Artur passava coca pra rapaziada e vivia bem com isso. Era uma boa pessoa, e não era viciado. Mas o filho da puta fodia com quem demorava a pagar. Parece que deu um corretivo num garoto filho de um policial. E assinou sua sentença. Ninguém sabe das coisas. Nem eu. Era meu amigo de infância, tinha a minha idade. Pior que morrer é levar para o túmulo uma vontade não realizada. Penso nisso, fumando com meus camaradas. Dona Ziza, mãe dele, cearense forte e dura, pegou dois pacotaços de coca do estoque de Artur e entregou para a molecada da rua. Presente do falecido.

Vou para casa e fico no quarto tentando finalizar uma porra de romance que comecei. Mas cada vez que escrevo outras coisas acontecem, e outras, e não sei como acabar. O romance é algo sinistro e vivo, toma vida própria e muitas vezes me bota medo. Além de tudo me tira o sono. E tem um filho da puta fazendo um puxadinho na casa vizinha, mais um cômodo, e é um barulho infernal. To ouvindo Villa-Lobos, boto no último volume, assim suporto um pouco mais a porra da lixadeira cortando piso ou concreto e as marretadas nas paredes. Esse povo faz isso o tempo todo, marretam, derrubam, concretam, e levantam outras cômodos cada vez mais exíguos e quentes e sufocantes. E ali enfiam um novo casal, muitas vezes com dois ou três filhos. Quando eu era garoto tinha muita árvore na rua. Agora só na frente da casa de meus pais. Já me pediram para cortar, e mandei à puta que os pariu. Pobre não gosta de árvore, nem de mato nem de nada disso. Pobre curte concreto, cimento e asfalto. Pra eles o chique é não ver mato. Tudo que é verde, pra eles, lembra roça e miséria do campo. Então cimentam tudo. Fodem com tudo. Não podem ver um rio que confundem com vala para depósito de merda e lixo. Chove muito, mas o calor não diminui. Escrevo sem camisa, descalço e tomando cerveja gelada. Coitado do Artur, teve o tempo dele, o tempo que era ele o rei da rua. Andava armado, ditava as regras do jogo e tudo mais. Agora foi enterrado com um rombo no peito e sem comer a mulher que tanto desejou. Não deveria, sei que é algo machista, mas foda-se, tenho raiva da Adélia por conta disso. Até pra mim a vaca deu. E a gente, só de sacanagem, contava tudo pra ele. Era uma diversão comer a Adélia e depois contar pra ele. Acho que teve muitos que nem transaram com ela, mas contavam pra ele mesmo assim só para tirar um sarro. Isso entre amigos, é lógico. Nenhum estranho se atreveu a trepar com ela, nem aqueles que ela dava em cima. Tinham medo que caísse nos ouvidos de Artur e a vingança seria implacável. Talvez por isso mesmo que ela endureceu com ele. Pode ser. Tudo tem uma explicação.

Parei um pouco, tomei um banho gelado. A porra do barulho finalmente venceu Villa-Lobos. Cães ladram, mulheres gritam, crianças choram e as marretadas fazem o fundo apocalíptico da Zona Leste. A chuva dá uma trégua, e fica o mormaço e um cinza degradê no céu, com ranhuras lilás, é o sol lá atrás, abrindo fendas no azulado do céu. Ninguém na rua, incrível, os ruídos saem das casas feito fantasmas apavorados. Vou caminhar um pouco. Na rua paralela tem uma boca de fumo ordinária em que os vagabundos não sabem fazer negócio. Espantam a freguesia com brigas sem fim, se armam, formam suas gangues e ficam lá encarando todo mundo que passa. Porra, como alguém vai comprar alguma coisa desses otários? Ficam lá, com suas calças caídas e peitos estufados andando de um lado para o outro. Não gosto de passar por ali, mas Rutinha mora lá. Uma moreninha gostosa de uns dezenove anos. Mora com um bando de ladrões safados, mas é tudo da família, irmãos, tios e tudo mais. Todos espremidos num quarto e cozinha e banheiro. Durante o dia ela fica sozinha, cuidando da casa e exibindo seu corpinho escultural para os bandidinhos locais. Nas minhas caminhadas matinais encontrei algumas vezes com ela quando ia comprar pão e leite. Sempre lânguida e deliciosa com sua minúscula saia e uma surrada e negra camisetinha curtíssima que só cobria seus peitinhos empinados. Aquela pele jambo, toda brilhante de suor me excitava. Certa feita tomei coragem e puxei papo na fila do pão. Ela me contou seu cotidiano e eu disse que um dia passaria lá e beberíamos cerveja que nem namorados. Ela rio, e brincou. “Duvido que você vá”. É assim que elas dizem que sim. Então fui. Mas não levei as cervejas. Se levasse com certeza arrumaria treta com aqueles otários de merda que ficam lá vigiando o movimento. Mas os putos me viram entrar no cortiço dela. Fui direto pra última casa. Chamei com alguma timidez e em baixo tom pra não fazer alarde, nem sinal dela, tocava a porra de um pagode em insano volume. Elevei o tom. Nada. Gritei. A vaca saiu dando esporro. “Não grita, não sou surda”. Não dá pra explicar nada. Me chamou pra entrar. Agarrei-a na cozinha, estava com um short curto de elástico. Que maravilha. Só gemia, não refuta nada, não pede nada. Apenas relaxa e geme com a bunda arqueada e as pernas bem separadas. O som do pagode foi providencial porque a danada começou a uivar escandalosamente. Imaginei a princípio algo mais romântico. Mas nem foi preciso. Fodemos por quinze minutos na pia. Gozei, ela se arrumou. Joguei a camisinha no lixo. E aí veio o louco clímax. Ela me mandou embora. “Vá, vá logo que ainda tenho que passar roupa e arrumar a janta prum batalhão”. “Amanhã venho de novo”, eu disse. “Vem mais cedo cachorro, e traz duas geladas”. “Os caras vão tretar”. “ah, cacete, você é cabaço, bota as brejas num saco de pão porra, eles nem se ligam”. Já dizia meu bom e velho professor de filosofia. “A gente sempre tem o que aprender”.  



Escrito por Mauro Cassane às 15h11
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Um tedioso e longo dia de sorte

Tanto tempo sem transar transforma o homem. Não sei se para o bem ou para o mal, mas eu ando cada vez mais zen, ainda que muitas vezes não consiga fugir da terrível sensação de me sentir um grande idiota. Transferi o prazer do sexo para o da leitura, e às vezes até gozo com certos livros. Ontem fiz amor com um incrível conto de Garcia Marques, mas dormi antes do final. Era um conto excessivamente longo, melódico e saboroso, porém, sob efeito atômico de um remédio cujo nome tenho até medo de mencionar, durmo pesado minutos depois de duas ou três gotas despejadas na língua. Deve ter algum nocivo efeito colateral que vai me foder a vida em breve, mas por ora me faz dormir pesado. E é o que preciso, quando a gente não transa, o bom é dormir mesmo. Mas acordo cedo, um puta calor que parece que estamos na sauna do inferno, e vou caminhar. É bom, sem camisa, no pique, pego um bronze, mantenho a forma e penso por uma hora em bobagens. Seria bom caminhar em algum parque legal da zona sul, me exibir para aquelas mulheres que curtem essa coisa de homem preocupado com o físico, mas não dá, e ando por aqui mesmo, na alquebrada zona leste toda fodida sendo observado como um alienígena por pedreiros, vagabundo esfarrapados e, com curiosa atenção, pelos coveiros. Talvez me achem um Forest Gump e, em breve, é possível que eu tenha seguidores.

Nesse calor do caralho, resolvi não fazer porra nenhuma. Estava em dia com meus compromissos editoriais, e peguei uma piscina. Mais bronze, nadei um pouco e fiquei lá me curtindo, um autêntico e egoísta narcisista. E fiquei de bobeira tomando cerveja e olhando imensas e cinzentas paredes protetoras. Acabei de ler o conto de Garcia Marques, e ele fala de um árido mar tenebroso com salitre por todo lado e de um vilarejo todo fodido na Colômbia. Mas, de qualquer forma, eles têm o mar aprazível ao fundo. Aqui, nessa perifa, nem mar tem. Nem lagoa nem porra nenhuma e só alguns córregos fedorentos que percorrem ruas nuas de asfalto. Eu sou um privilegiado. Um rei ao meio do caos. E nem me sinto mal com isso. Ninguém se sente mal em ter o melhor, a gente só fica mal no meio da merda. Acabei a cerveja e me deu tédio. Meio alcoolizado sinto tesão e lembro quando transava assim que o pau me pedia. Agora não deixo o pau pedir nada, e se pedir finjo que não é comigo. Vamos lá, penso nos monges e tudo mais, e eles fazem voto de castidade e muitos até levam isso a cabo pro resto da vida. Eu hei de conseguir sair ileso dessa carência. Consolo-me e tento me convencer que essa é uma fase e é apenas por um período. Já chutei portas, bati cabeça na parede e fiquei deprimido e com insônia, agora pelo menos durmo torpedeado com uma química filha da puta que deve fazer coruja hibernar. Acordo com tesão, bato uma punheta e tá tudo resolvido. Vou andar pra me sentir um cara bonito, gostoso e desejado. Assim um dia acho uma mulher e vou fazê-la ficar louca por mim. Penso sempre nisso. É engraçado. A gente quer ficar em forma pra fazer uma mulher feliz. Ah, foda-se. Fui ao turfe apostar em cavalos só pra perder tempo e um pouco de grana. Não sou viciado nisso, nem gosto de jogos de azar nem nada, mas no jóquei de São Paulo, lá no Morumbi, é tudo tão agradável, e tem aquelas moças charmosas e cheirosas com suas roupas elegantes e também as madames perfumadas e maquiadas com suas caras dramáticas e aquele olhar desaforado de quem está louca pra cornear o marido rico. O garçom me dá uma boa mesa, peço chopp e uma cachaça mineira e está no terceiro páreo.

Tenho trinta reais, e mais nada. O chopp custa três, e a cachaça cinco pratas. Pelas minhas contas, posso tomar apenas mais um chopp. Assim tenho vinte paus pra apostar. A mulher que pega as apostas é gentil. Jussara. Deve ter uns cinqüenta anos ou mais. Mas é toda moderna, usa óculos com armação vermelha e ostenta uma boca generosa e sensual. Anda bem, rebola suavemente, é esguia e firme como uma égua velha. Acho que foi com a minha cara. Apostei no quarto páreo. Um real pra ver no que dava. O número cinco pagava seis por um. O bicho me deu a primeira alegria do dia. Ganhou. Jussara sorri e me traz seis reais. Me senti vitorioso e garanti o terceiro chopp. No quinto páreo errei feio mesmo apostando no favorito que pagava dois por um. E no grande prêmio, sexta rodada, arrisquei um pouco mais, dois reais, e também errei feio. Jussara me faz uma cara de dó. E eu avaliei se não seria o caso de convidá-la para beber algo mais tarde em algum lugar. Ela não usava aliança nem nada e nem era tão feia assim. A gente vê beleza no desespero. No sétimo páreo já estava meio puto com minha má sorte. Resolvi ir embora. Mas antes peguei dez reais e dei um foda-se e apostei no azarão que pagava 18 por um. Era o número nove. Fui mijar e nem quis ver a corrida que seria na pista de grama onde sempre há surpresas. Só ouvi a galera gritando. Porra, eis a merda da viciante adrenalina, meu cavalinho se matando por mim e eu ali mijando, que desrespeitosa sacanagem. Nem lavei a mão e fui correndo ver o final. Não deu tempo. O placar já anunciava o primeiro colocado. O número nove. Filho da puta de alazão voador. Me deu vontade de ir lá e beijar aquele focinho suado e aquele olhar desesperado que eles fazem parecendo não entender nada. Jussara me traz cento e oitenta paus. Acho que ela queria algo comigo. Puxou papo, disse que eu era mesmo um cara astuto, mas que não conseguia entender minha cara triste mesmo ganhando essa bolada, “você nem vibra”. Mas eu não queria mais nada com ela, queria mesmo era fumar um bom baseado. A conta foi 16 reais. Sai no lucro com cento e oitenta reais no bolso. Peguei meu carro e fui pra avenida Águas Espraiadas ali perto. Entrei na louca viela da favela, oito da noite, o céu lilás com o manto negro lá no horizonte, e a tradicional fogueira meio que bloqueando a rua, para avisar que ali é o submundo. Parei ao lado do lunático jovem nervoso que vende a marofa. “Quanto”, ele me diz, com sua peculiar antipatia. “Me dá duas”, e pronto. Dez reais na mão dele e dois singelos envelopes de plástico na minha com muita erva prensada dentro. Dobrei a rua, sai do inferno e já estava de novo em meio às mansões da zona sul. Tudo limpo e seguro com as viaturas policiais na rua.

Escrito por Mauro Cassane às 13h11
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continua...

Não gosto de cigarro, nunca gostei. E sou péssimo com qualquer coisa que exija habilidade motora com as mãos. Não sei bolar uma porra de um baseado. Nunca consegui. E por isso mesmo que acho que essa coisa deveria ser liberada, ao menos a Souza Cruz venderia isso tudo em maços com os cigarrilhos prontos e estaria tudo muito bem. Comprar a erva é simples, o foda pra mim é bolar. Uma namorada me dizia que o ex dela fazia isso de boa, dirigindo seu carro e bolando. Caralho, admirava o cara por isso. Eu não consigo nem se parar e me concentrar e ficar ali por horas tentando. Me sinto um débil nesse sentido. Mas ninguém passa perrengue quando tem bons amigos. Toquei o carro para o Jardim Tropical, um eco-puteiro na mais recôndita perifa da ZL. Bem no meio do mato mesmo. É uma espelunca com árvores e pés de mamonas e três imensas e centenárias seringueiras ao redor. Antigamente era uma estrebaria de porcos, depois virou um drive e agora é puteiro. Bem, meu propósito ali não era outro senão encontrar a Nelma, minha amiga de infância, grande amiga, e boladora profissional, além de puta, é claro. Perdi a virgindade com ela aos 11 anos. E ela perdeu o cabaço estuprada pelo padrasto bêbado quanto nem peito tinha. Um drama. É a vida. Virou puta, porém creio que não foi por culpa do tarado demente do padrasto. Ela gostava mesmo desse negócio. E sempre me pareceu muito mais feliz que eu. Além de tudo sabe como ninguém enrolar uma erva numa seda de modo a parecer uma obra de arte. Parece que puteiro deveria fechar às quartas-feiras. Não havia quase ninguém a não ser uns garotos ruidosos e desalmados que ficavam azucrinando as mulheres, e passavam a mão, abraçavam, dançavam e eram tão ordinariamente pobres que estavam todos imundos, acho que trabalhavam em obra ou coisa assim. Cinco jovens alucinados e beberrões, e não contei exatamente quantas mulheres tristes estavam ali, mas devia ter umas quinze. O lugar é um salão oval e nada mais além de um palco e mesas e bancos de alvenaria. Há quartinhos nos fundos que parecem vestiários imundos e insalubres, com o fétido córrego de merda passando pela lateral. Por isso o normal mesmo é foder com elas sob as árvores. Sai mais barato. Perguntei por Nelma, e ela não estava. Pedi uma cerveja pra fazer um tempo e não ir embora assim de supetão. Acho uma desfeita. Como eu era o cara mais vistoso dali, não demorou e chegou uma moreninha. Aline. Nome de guerra, é claro. Um corpinho de ninfa, toda certinha. Boca carnuda. Gosto de garotas assim. Como não a chamei me senti no direito de ser paquerado. Ela puxou papo, conversamos sobre aquelas bobagens que se conversa com putas. Dez da noite, ela se enrosca em mim, se insinua, esfrega os pequenos e duros mamilos em meu ombro e peito, e elas sabem mesmo fazer essas coisas a ponto de deixar o homem o mais irracional possível. Se bem que comigo nem precisava de muito esforço. Enfim falei pra ela de meu propósito ali. Ela me disse que era boa amiga de Nelma e que via na minha amiga uma verdadeira mestra nessa arte. Que bom, fiquei orgulhoso e me deu vontade de transar com essa pequena diaba. Falamos de grana. Ela pediu 30 reais por uma hora de foda e mais vinte pelo quartinho asqueroso. Perguntei se ela sabia bolar um beck. Ela sorriu e disse, “isso é cortesia da casa”. Insisti: “você sabe mesmo bolar essa merda, porque eu não sei e to afins de fumar um”. E ela: “deixa de ser besta, claro que sei porra”. Como me sentia rico e sortudo, fiz uma proposta pra Dona Iara, a cafetina. Duas horas com Aline no melhor quarto – descobri depois que eram todos iguais – por oitenta reais com direito a uma cerveja gelada. Feito. Dona Iara é uma astuta velhota bunduda e alegre. Boa de fazer negócio. Sai do quarto meia noite. Aline não sabia bolar como Nelma, mas tinha o dom de fazer um bom cigarrilho. Fumamos e transamos como namorados. Na segunda trepada, depois de matar a derradeira ponta, a tratei como a mulher de minha vida. Muita ternura, beijos, carinhos e abraços. Ela correspondeu com impressionante realismo. Dona Iara bateu na porta, “filhos, deu o horário, vamos lá”. Estávamos abraçados nus na cama, trocando carinhos. Aline sussurra com aquela vozinha meio rouca: “anota meu celular”. E me dita o número. Ela gostou mesmo de mim. Saímos outras vezes. E fomos até no cinema, depois jantamos algumas vezes juntos. Ela tinha um sorriso lindo e chegava mesmo a bolar um cigarrilho com o carro andando.

 



Escrito por Mauro Cassane às 13h11
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Uma viagem ao Rio de Janeiro

Estive no Rio de Janeiro, passei uns dias naquele calor insuportável. Cruzei de Sampa até lá de carro, percorrendo a velha e fantasmagórica Dutra e fui olhando toda aquela paisagem melancólica, passei por Aparecida com suas casas apinhadas em morros e a igreja soberana mirando a estrada. Em Queluz, a divisa. As escarpas rochosas à minha esquerda, o imenso vale do Paraída à direita e as curvas na frente, sinuosas como as cariocas. A sinistra silhueta das montanhas geladas de agulhas negras lá em cima me remete aos dias zen em que estive por lá com uma garota encantada. Faz muito tempo isso. Tempo demais, sinto ainda o cheiro daquele amor, mas não o sinto mais na pele e na alma, está apenas soterrado em meu coração. Sigo acelerando, deslizando pelo asfalto quente, a luz do fim da tarde é idílica e sempre penso nos campos, nas vacas e tudo mais. Há nuvens escuras para os lados de Penedo, é chuva mesmo. Aquela imensa cortina cinza em degradê lá no horizonte ao meu lado esquerdo. Um arco-iris vai atravessando meu caminho. Quarta-feira. Chegaria ao anoitecer. E foi o que aconteceu. Ao cair da noite o primeiro semáforo. Avenida Brasil. Nunca entendo direito qual a cor da linha. Amarela ou vermelha. Sei lá. O que sei é que se pegar um atalho errado posso me foder. Foi o que aconteceu com um amigo que foi ver um jogo de futebol no Rio. Não me importo muito. Passei a vida inteira na perifa de Sampa. Zona Leste. Barra pesadíssima. Tive uma puta sorte. Continuo vivo.

Estava cansado e fui direto para uma espelunca que me indicaram no Catete. Gosto desse bairro esmagado do centro. Estranho um pouco os carros estacionados pelas calçadas e as pessoas caminhando no meio fio. Mas não tem outro jeito, são ruas estreitas demais. Um bairro concebido para os tempos em que se locomoviam a pé. Um bairro clássico e meio dramático. Não vi ninguém sorrindo. O hotel alternava cheiro de mofo e naftalina. O quarto quente e opressivo em tom lilás. Me acomodei, fumei um basedo e cai na cama. Não dormi. Não me ocorria nada. Suei pra caralho. Às vezes é bom ficar vazio. Na quinta-feira fui ter com o sujeito que disse que me ajudaria num projeto para percorrer o Brasil. Uma repartição pública. O cara me fez esperar. Fiquei puto. Pensei em ir embora. Me fizeram entrar numa sala ampla, toda de madeira com vista para o Corcovado. E sentei ali numa cadeira macia. A visão me distraiu deveras. O Rio e seus monumentos naturais. Exuberância divina ali, de graça, e quase onipresente. Uma linda morena trabalhava numa mesa perto. Ela tirou minha atenção do Corcovado. Aliás, depois que botei os olhos nela não prestei atenção em mais nada. 

Olhos castanhos escuros, cabelos negros e longos e uma boca com lábios de impressionante textura. Naquele momento comecei a torcer para o babaca me deixar mais tempo esperando. Só havia eu ali. E, enfim, ela virou a cabeça buscando algo ou alguém e depositou, por uma miníma fração de segundo, os olhos em mim. Me viu e sorriu. Creio que foi por educação, uma espécie de cumprimento, ou até mesmo piedade por eu estar ali há tanto tempo. Eu sorri de volta. O filho da puta me atendeu em seguida. Foi um bom papo, auspicioso e tudo mais. Mas eu perco logo o interesse. Não parava de pensar naquela mulher. Descobri o nome dela. Andy. Acho que era apelido. Não sei. O cara a chamou assim e ela veio. Me olhou novamente. Eu tremi. Um frio intenso no estômago. Ela voltou para mesa e eu esqueci o sujeito. Ele brincou comigo. "Ela é casada, amigo, pode esquecer". "Desculpe", respondi assim, meio sem jeito e nem sei direito porque me desculpei.

Ela não usava aliança. Antes de sair, parei por um instante na mesa dela. Ela ficou quieta, continuava a escrever algumas coisas no computador. Eu ali, não sabia também o que dizer. Não havia nada a dizer. Mas eu tinha encontrado o amor de minha vida. Absurdo isso, estúpido e meio babaca até. Mas era ela. O amor de minha vida. Parecia que eu a conhecia há anos. Porra, parecia mesmo que ela tinha é que ficar feliz por ter me encontrado e que deveríamos nos abraçar e tudo mais e sair dali de mãos dadas. Pedi a caneta emprestado. Ela foi cortês. Me deu a caneta. Eu peguei o papel de rascunho da mesa dela e escrevi algumas coisas. Não lembro o que foi. E nem interessa. Escrevi pra ela. E, sem tirar o papel da mesa, arrastei-o até a mão dela. "Isso é pra você", eu disse. Meu dedo tocou de leve o dedo dela. Senti meu coração explodir em palpitações. Senti aquela pele sedosa, um pouco fria e quase doce. Não deixei fone nem nada ali. Apenas algumas coisas escritas. Voltei a São Paulo. Só penso nela dia e noite. Ontem recebi um telefonema. Era ela. Me disse que meu projeto fora recusado devido à sua dimensão e altos custos envolvidos. Disse que lamentava. E terminou a frase assim: "senti o mesmo por ti". Foi a notícia mais linda e feliz que recebi. Não sei o que vai acontecer. Só sei que a amo.



Escrito por Mauro Cassane às 17h26
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