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Ela vai transar com outro
Porra de visão romântica que temos das coisas e de sentimentos. O amor acaba e ponto final. Nosso ser amado pode simplesmente morrer, ou não nos amar mais. É a realidade. Não tem essa de que o sentimento vai ficar ali, apodrecendo, e que os anos vão passar e aquela ternura permanecerá feito o que acontece em filmes e romances. Não é assim. A vida é mais crua e cruenta. O engraçado é que, a bem da verdade, tudo parece mais uma grande comédia pastelão do que drama ou romance. O amor surpreende sempre, e nasce de onde menos a gente espera. E isso me fascina também, assim como fico fascinado com as mãos do prestidigitador.
O cara morre, a mulher apaixonada chora, sofre e tudo mais. Mas o tempo se encarrega de apagar aquilo tudo e a vida segue em frente. E o tempo não tem qualquer compromisso com relógio ou calendários, nem datas nem porra alguma. Amei uma mulher, e ela agora está nos braços de outro cara. Vou morrer? Não. Bem, deu vontade de morrer e tudo mais. Mas só fiquei na vontade. Ainda bem. Sofri pra caralho e por muito tempo. Ainda bem que ela não sabe o rastro de merda em poemas que deixei por conta desse amor perdido. É mais fácil sorrir que chorar. Tivesse ela morrido acho que seria mais simples pra mim. Quando se morre, a gente tem certeza que não tem mais jeito. Os espíritas contam outra história. Mas hoje não to pra metafísica. E não sei se eu gozaria com um espírito. Também amor pra mim tem tudo a ver com sexo. Não consigo amar sem sexo. E o pior, também não consigo mais transar sem amor. Não dá. Me estrepei então. Talvez precise de um tratamento psicológico para saber como faço para gozar todos os dias sem ter um grande amor. Não deve ser fácil isso. Mas é mais próximo da loucura. Me sinto virgem, não transo há muito tempo. Um tarado virgem.
Na verdade o amor não acaba, apenas muda de endereço. Creio que ele tenha prazo de validade em cada endereço. Por isso alguns idiotas lançaram o termo “a fila anda”. Quando eu amava eu odiava essa frase. Ainda odeio. É tosca e pretensiosa. Não há fila alguma. Ninguém é tão amado assim. Pode ser desejado, mas não amado. Uma linda mulher pode ter uma porrada de caras afins de trepar com ela. Mas sou capaz de apostar que não há um sequer sinceramente pronto para amá-la. Não é tão simples amar, exige demais. É fácil gostar, desejar. As pessoas se movem pelo apelo sexual do corpo. E a moda segue essa tendência. A indumentária valoriza as formas e faz com que nós, homens, tenhamos cada vez mais libido pela mulher. E a mulher gosta disso. Quer se sentir desejada. Quer se sentir tesuda. E curte esnobar um pouco os olhares famintos que lançam a elas sem dispensar a calça apertada nem o decote oferecido. É tudo um jogo idiota e meio cruel. A hipocrisia grassa. Conheci uma garota que ainda não me conhece. E nunca vai me conhecer. Me apaixonei por ela. Acho que a amo. É melhor assim. Platônicos sentimentos são tão poéticos e efêmeros. Fugazes e intensos como os odores das flatulências. Tenho uma mórbida e sinistra propensão para amar o impossível, desejar o improvável e sonhar com quem nunca estará realmente comigo. A mulher que quero, meu ideal de mulher pode estar no Rio de Janeiro, em Natal, em Portugal ou tão perto que não consigo enxergá-la. Sei apenas que ela existe e é maravilhosa. Mas hoje ela vai transar com outro homem e é provável que pense em mim.
Escrito por Mauro Cassane às 19h03
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O brilho da fotografia
Muitas vezes nos basta uma foto para nossas estruturas ruir. Curioso isso, mas não raro me sinto como o protagonista daquele filme “em algum lugar do passado”. Uma foto me transporta para um outro mundo, uma outra dimensão. Quando vejo um retrato dela, com toda aquela luz, aquele brilho tão natural, algo em mim parece flutuar, sair de meu corpo. Porra, evito ver fotos daquela mulher. Mas muitas vezes não resisto. Vou lá, olho o álbum, recordo coisas, penso bobagens e lá estou eu feito uma gaivota rodeando um barco em busca de migalhas deterioradas. Somente outro grande amor para esquecer um grande amor. Essa é a verdade. Muitas vezes ao longo de um bom tempo tentei me convencer que amar mais uma vez seria uma grande estupidez, tentei ser o mais promiscuo que me fosse possível, fazer loucuras, mas a merda é que isso tudo não funciona comigo. Me revolto, fico puto, queria mesmo ser um cara largado, dar um foda-se ao sentimento, beber e sair com qualquer mulher por um bom tempo. Ser um puto mesmo. Mas não consigo. Lá está aquela foto. Vira e mexe ela aparece. E tudo fica freneticamente, ou apaixonadamente, insano dentro de mim. Um dia uma mulher que amei me disse que tinha dúvida quanto ao que sentia por mim. E eu tenho uma opinião sobre isso. A dúvida é a covardia da certeza. Não há dúvidas com relação a sentimentos. Bem, o sol continua a brilhar com toda sua intensidade sobre essa cidade de poucos amigos e muitos amantes. Caminho todos os dias cedo para manter a forma, pegar um bronze e me sentir o cara mais gostoso do mundo. Sou narcisista, me olho no espelho e fico me achando um tesão. Uma vez uma garota me disse que isso é um sintoma gay. E eu acho que esse mundo é tediosamente preconceituoso. Se achar bonito não tem nada de gay, e ser gay também não tem nada demais. Portanto não me ofende nem um pouco quando alguém me diz “fazer poesia é coisa de gay” ou “se gostar é coisa de gay”. Se é, se é mesmo, oras, benditos sejam todos os gays desse mundo. E à merda os babacas machos, esses sim, grandes veados. Não tenho qualquer atração por homens, mas não me resta qualquer resquício de dúvida que ter amigos gays é um bom negócio. Primeiro porque os caras entendem pra caralho de mulher, depois eles têm grandes e lindas amigas e, por fim, normalmente são grandes caras. Mas não estava nem falando sobre isso. Muitas vezes escorrego para outros assuntos sem uma lógica ou justificativa e acho que isso sepulta por completo qualquer uma de minhas pretensões literárias. Fui caminhar para manter a forma. É isso. E pensar um pouco na tal fotografia. De um jeito ou de outro, no banheiro ou na solidão do mar, ainda passeio com fugazes pensamentos naquilo que foi meu grande momento de amor. Talvez tenha outro, ainda que eu, sinceramente, duvide muito. Odeio ser tão cético, mas sou. Por ora, sou isso mesmo.
Nessas caminhadas reflito e algumas vezes cheguei à conclusão que, na verdade, nem amei como eu imagino. Apenas aconteceu algo fugaz e se acabou. De repente, pensando com frieza, foi uma paixão olvidável. E eu potencializei por mera carência. Nessas horas a gente sempre se apega a alguma coisa. Penso nisso. Creio que apenas para me sentir melhor, para justificar minha tristeza e ganhar força para uma nova vida. Se fosse mesmo um grande amor duraria uma quase eternidade. Se bem que não sei ainda, e talvez nunca saiba, o tamanho de uma quase eternidade. Será que se conta em dias, meses, anos? Não sei. A gente nunca não sabe de porra nenhuma. O que sei é o que sinto, simplesmente isso. Não consegui ainda me desvencilhar de um grande amor. E então, como alternativa desesperada, por um bom tempo, busquei outro. E sempre que se busca algo, geralmente não se encontra. Então, na praia, lá longe, entre fogueirinhas e canções idiotas dos tempos hippies, ao lado daquela linda grávida, com seus lábios tão carnudos quanto um rosto dramaticamente melancólico, e um andar sensual e tudo mais, pensei “e se eu a amasse?”. Bêbado é pródigo demais em sentimentos. Tem gente que bebe e gosta de foder, eu bebo e gosto de amar. Tudo falso e frustrante com a chegada da ressaca. Estou caminhando cada vez mais para aproveitar os amenos raios solares das manhãs azuis. Curto meu corpo. Que bom. Nenhuma outra garota atualmente desfruta do que eu posso curtir durante todo os dia. Durmo comigo, acordo comigo, tomo banho e gozo sozinho. Um tesão. Seria melhor estar com aquela maravilhosa garota de olhos brilhantes da fotografia. Mas ela tem um outro homem. E o sujeito é bem melhor que eu. Por isso acho que sou fã do cara. Assim, do mesmo jeito que Mark Chapman era fã de Lennon.
Escrito por Mauro Cassane às 12h46
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Passeio pelas escarpas mineiras e litoral paulistano
Por um momento tão ínfimo que não foi passível sequer de ser mensurado pensei no suicídio. Fiquei um tempo razoável distante de tudo e de todos. Longe até mesmo das coisas a nós tão caras. Sem luz elétrica e esses confortos todos. Picadas, insetos, noites em claro na mata, mas algumas harmoniosas e musicadas tardes com uma queda extraordinária de água precipitada de forma contínua, exuberante e violenta de uma rocha estranha e imensamente alta. Talvez dez metros. Não sei ao certo. Eu ali, ouvindo tudo aquilo, as árvores com seus cascos grossos e escuros balançavam suas copas finas como velhas bailarinas de pernas pro ar. É, eu estava ali naquele silencioso e imaculado recanto ainda preservado do planeta. Pensei em me matar. Não há uma razão especial para tal pensamento. Nem deprimido estava, apenas curtia aquele bucolismo natural e me ocorreu que minha vida poderia expiar ali. Passou. Depois pensei um pouco na logística para morrer naquele lugar tão significante e desisti. Bem, foi melhor. Afinal, estou vivo. E um dia morro de qualquer jeito. Não vou conspurcar um paraíso preservado com efêmeras e insanas vontades, ainda mais sendo eu um intruso. Se bem que, creio eu, todo mundo já pensou em se matar. Poucos o fazem. A vida, de fato, é boa. Esse é o ano em que viajarei mais, portanto passarei mais tempo pensando em coisas e fazendo quase nada. Isso sim que é bom. Nesse período viajando, carro e moto, normalmente por estradas pouco amistosas, criei alguns contos e dezenas de poemas. Não escrevi nenhum, esqueci todos. Longe de informática, de papel e caneta. Muito vinho, algumas cervejas com cachaça e só. Nem mulheres, nada de sexo. Estou me preparando para um grande momento. Minha existência agora está em jogo. Tudo está em jogo. Talvez não chegue, mas se acaso chegar, creio que estarei pronto.
O calor é insuportável e nos bota letárgicos. Não me ocorre nada além de desejos e pecados. Havia numa hospedaria instalada à beira de uma pequena estrada de terra, bem perto de uma cachoeira meio azulada e uma garotinha por perto. Danny, foi como se apresentou pra mim. Que nome estranho. Talvez fosse Daniela. Quem sabe Gabriela. Nossos pais nos batizam, mas nós escolhemos como queremos que nos chamem. Danny estava lá com seu macacão jeans e aquele rosto angelical dissimulando seu frenético e quase incontrolável libido. Me levou para ver os trilhos abandonados de uma antiga ferrovia. Levei minha máquina, fotografamos ferros, uma antiga parada de trem, alguns vagões. Há ruínas e tudo mais. Mas eu mais cliquei aquele rosto suave, e ela sorria faceira a cada vez que eu pedia para ela ficar em algum lugar. Sua beleza exótica me atormentava. Ela fala com um sotaque diferente, mas não me revela de onde é. Um português clássico, mas tem algo de nordestino. Não gosto de perguntar de onde a pessoa é. Na verdade não dou a mínima pra isso. Ela sabe dançar, mexe o corpo com uma insidiosa volúpia. A tarde caia rapidamente, o sol vai se afogando poeticamente por trás dos montes. Eu sugiro que a vista lá de cima deve mesmo ser extraordinária. Ela concorda com um sorriso que gelou meu estômago. Fomos de moto. Ela se comprime em mim dizendo que tem medo de velocidade. Acelero mais, ela me aperta firme e junta a face em minhas costas. Depois relaxa um pouco, e fica passeando com a mão direita entre meu abdômen e peito. Cacete, não era para acontecer mas acontece. Fico com tesão. Paramos lá em cima. O céu alaranjado, toda a mata toma um tom meio infernal, parece que é a hora do pecado. A hora em que deus perdoaria qualquer safadeza na face da terra. Tirei outras fotos. Ela não fala muito, apenas sorri. Fica numa pedra contemplando o visual. Sento bem atrás, e ela repousa suas costas em meu peito. Eu envolvo meus braços por cima. Parecemos dois amantes apaixonados. E acho que era isso mesmo. Ela me conta suas aventuras sentimentais. Presto atenção. E fico excitado com essas histórias. Ela me diz que as amigas a tiravam bêbada dos bares para ela não fazer besteira. Rio com isso. Pensei em beijá-la. E desta vez, neste ano, não deixei minha estupidez prevalecer. Beijei. Foi delicioso. Gosto de sentir o gosto do beijo, gosto de perscrutar lentamente a emoção e o paladar. E era tão fresco, quase gelado que me lembrava pureza, lábios macios e um sabor leve de frutas vermelhas. Toquei seu rosto. Ela me pressionou ainda mais. Porra, a gente perde na hora qualquer noção. Aquilo tudo virou uma profusão louca de carinhos e tudo mais. Na tarde anterior estava eu trepado numa rocha ao lado da queda de mais de dez metros de água e pensando em me matar. Agora veja, Danny me beijando com aquela explosão de desejo e eu tocando aquele rosto macio e refletindo sobre tantas coisas. Caralho, estava vivo. Felizmente não morri na tarde anterior. E Danny beija bem. A gente ia transar, acho que sim. Mas algo aconteceu. Sempre acontece. Creio que, ao beija-la tão apaixonadamente minha mente abriu uma estrada para o inferno. Pensei num amor que tive e perdi. E uma dor no meu peito suplantou todo aquele desejo, sufocou meu tesão. O sol já havia sumido sem que sequer o tivéssemos contemplado, não notamos sua partida. E o puto nunca se despede. Mas sempre volta. No fundo, acho que também sou assim. Não consigo me desvencilhar de certas coisas deveras profundas. A viagem continuou dias depois. Prometi voltar e é o que vou fazer. Ela dança balé, mas nunca tem tempo. Nesse litoral paulista ainda é possível ficar longe do suor e daquela gente untada de óleos se espremendo sob o sol. Não tenho qualquer afinidade com o verão, e nenhuma com praias lotadas. Mas estava ali, com minha moto flutuando por estradas de terras, descendo pelas escarpas de Minas Gerais e com Danny na minha mente em vez de minha garupa onde, claro, seria o lugar ideal para ela. Porém sua imagem estava totalmente tatuada em minha alma. Muitas praias não se vê sequer a areia, apenas bundas e imensas barrigas hirsutas. Aquela gente toda se protegendo com grandes e coloridos guardas-sóis. Muito barulho e garotas bonitas com seus óculos negros e caras esnobes. Bem, rumamos direto por uma miserável estrada de terra, percorremos a encosta da ilha e seguimos em frente por buracos, pedras e desfiladeiros. A moto vai bem, caímos algumas vezes. Chegamos cansados e suados à praia afastada de fantasmas e naufrágios sinistros. Restos de embarcações retorcidas pelas pedras, tudo oxidado, ferrugem e uma areia lá longe, meio amarelada. Sombras dos sombreiros. Ar sonolento. Pouca gente, fumaça de maconha. Umas bundas bonitas, uma grávida cabeluda ouvindo Hendrix. Pedimos uma cerveja que veio bem gelada. Ficamos ali por dois dias comendo arroz, farinha de mandioca e peixe. A grávida estava triste. Passei grande parte do tempo com ela. O cara a abandonou assim que soube que seria pai. Estava de três meses e há vinte dias acampada na praia com a irmã e o namorado. Antes de partir ela me disse para gente se ver em São Paulo. Mas nunca vemos ninguém em São Paulo. Aqui só vejo a tela de meu computador.
Escrito por Mauro Cassane às 16h48
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