Cores Humanas


Duas garotas

Ficamos tomando cerveja até tarde no bar mais asseado que já estive na vida. Até o banheiro era higiênico e cheirava bem. Um lugar confeccionado para turistas. Jaílson e Fernando, dois seres antagônicos e beberrões, me convenceram a ir nesse lugar. Topei porque são meus grandes amigos de datas olvidadas. Nunca soube direito como se conta o tempo. Apenas deixo-o passar. Na verdade, prefiro até esquecer. Jaílson é fiel à sua esposa. Fernando é fiel às suas convicções. Por isso tem esposa, namoradas e até uma noiva. Ambos são decentes, trabalham e ganham bem. Nossa conversa invariavelmente descamba para o sexo à medida que se agrupam garrafas de cerveja sobre a mesa. Prefiro cachaça mineira, e peço umas doses que nunca consigo degustar sozinho até o fim. E, por essa razão, o gentil garçom trás outras e outras. No fundo, ninguém é imune a uma trepada à toa. Dessas que acontece de repente, e nua de qualquer sentimento. Jaílson diz que não procura, mas também não negaria fogo numa hora assim. Fernando, claro, está sempre à caça. Há garotas ao redor. Algumas desacompanhadas. E elas conversam animadamente, mexem no cabelo, se ajeitam na cadeira, empinam a bunda, vão ao banheiro naquele diabólico caminhar que só elas sabem fazer. Os garotos são mais afoitos, naturalmente mais airosos, invariavelmente estúpidos. Falam e gritam bobagens. As mulheres se retraem, algumas gostam. No jogo da sedução há a inefável lei da compensação. Tem as imaculadas ninfas que se atracam com os imberbes varões imbecilizados e as mulheres, adornadas pela experiência, que perscrutam o ambiente com aquele olhar felino e avassalador buscando homens de melhor estirpe. Essas não são presas, são caçadoras. Ana é um genuíno exemplar dessa espécime. Estava ali, com sua amiga Lisa, estudando o movimento de cada uma daquelas loucas almas. Morena frenética, olhos felinamente puxados, com coloração perolizada, cabelos negros e ondulados. Linda e charmosa. Sua amiga, Lisa, com sua pele branca e sedosa, olhos de um castanho selvagem, sorria com doçura e sensualidade. Por um momento esqueci os velhos amigos que discutiam agora futebol. Um assunto que realmente não me interessa. Nessas horas daria tudo para ser um galante conquistador. Mas sou tímido demais e acho tolo abordar uma mulher. Lisa percorre com os olhos as mesas, simula que está à procura de algo ou de alguém, e descansa suas pupilas serelepes em mim, lá do outro lado. Não sei como agir nem ser simpático. Fico ali, com cara séria de otário. Ela sorri. Sempre acho que não é pra mim. Para não ser desagradável olho para qualquer outro lado. Talvez não fosse mesmo comigo. Mas ambas estão em minha visão periférica. Presto atenção nas duas. São maravilhosas. Ana se levanta. Em quase tudo se parece com essas top model, exceto pela sua contagiante simpatia que a humaniza e a enche de graça. De imediato minha racionalidade dispara advertências contundentes: “hei, caralho, essa mulher não é pra ti. Fica na sua”. Mulheres assim, deslumbrantes, combinam com caras também apolíneos. Fernando e Jaílson me chamam para a conversa e enchem meu copo. Procuro esquecer as duas.

Ana volta. Passa perto demais de nossa mesa. Agora é Fernando que a vê. Ele não resiste. Pára a conversa e decreta. “Essa mulher tá com outra gata e as duas estão sozinhas naquela mesa. Ninguém chegou junto até agora. Vou lá pra gente juntar as mesas”. Era o que eu temia. O pior é que ele fala e faz. Se fosse o Jaílson eu saberia que se tratava apenas de brincadeira. Mas é o Fernando. O filho da puta se levanta. Eu o seguro. “Fica aí e pára com isso, não tem nada a ver”.  Ele me ignora. Vai até lá e isso é a coisa mais idiota do mundo. Sempre imaginei, até porque nunca fiz, que porra que se fala para uma garota desconhecida numa abordagem dessas. Ele fez isso diversas vezes e sempre que questionei, ele me respondeu. “Oras, digo como vai, e aí, tudo bom, a gente pode se conhecer?”. Nossa, acho que sou orgulhoso demais, ou tímido ao extremo. Não conseguiria nunca. No fundo é bem simples. Mas nem sempre o simples é o fácil. Bem, de qualquer modo, lá estava Fernando puxando uma cadeira e sentando com as duas. Apostei com Jaílson em quanto tempo ele seria delicadamente expulso dali. Falei dez minutos. Jaílson é um sujeito de poucos arroubos. Analisou por instantes a situação, creio que estudou a expressão das duas e disse. “Sabe o que vai acontecer? Daqui a pouco ele vai chamar a gente”. Eu não quis nem olhar. Já estava nervoso com aquilo. Me sinto exposto e sempre gosto de ser incógnito. Não deu outra. Fernando acena, e faz um sinal pra gente ir pra lá. Tive que pagar cinco cervejas, pois perdi a aposta. De perto as duas eram ainda mais lindas e perfeitas. O sorriso de Lisa era contagiante. E a beleza de Ana simplesmente deslumbrante. Isso eu já sabia. O que não sabia, e sequer imaginava, era a intimidade das duas com poesia, cinema e literatura. Não me pareceu verniz cultural, nem nada. Era natural. Lisa era de Natal e Ana, só para rimar, de Portugal. Longe pra caralho. Ficamos até às três da madrugada em animada conversa sobre tantas coisas que poucas me ocorrem agora. Jaílson se despediu às duas da matina. Fernando, óbvio, ficou até o derradeiro copo. O acaso sempre brinca com o absurdo para satisfazer os incompreensíveis caprichos do destino. A vida não é como nos filmes de mocinhos, nem como nas histórias de homens encantadores e irresistíveis. Pelo menos não a minha vida. Fui dormir sozinho. Mas algo profundo aconteceu ali. Sentia os sintomas idiotizantes dos etílicos, porém a força do hábito nos deixa quase sóbrios. Um olhar, silencioso, discreto e sedutor, penetrou em minha alma. O avião partiu. Não pude me despedir. Mas sei que vou encontrá-la. Ela também sabe. Essas coisas prescindem de palavras ou acertos. Tenho mais medo de amar do que de morrer. Pois a morte é simplesmente o fim de um sofrimento. O amor, ao contrário, é o princípio.    



Escrito por Mauro Cassane às 12h38
[   ] [ envie esta mensagem ]




Delicada luz de outrora

E ela veio, não esperava que viesse. E veio. Se aproximou de mim. Me beijou. Um beijo fulminante. Desconcertante. Seria apenas um sonho? Não sei. A gente nunca sabe nada ao certo. Apenas conjecturamos. Mas senti tudo. E foi incrível. Lisérgico beijo desesperado. Lábios macios, envenenados. Sincero beijo desalmado. Senti seu hálido citrico, imaginei cores. Senti o pulsar de seu sangue, minha respiração cessou por segundos. Fiquei ofegante. Puto desalmado. Pensei bobagens. Acho que a mataria. Talvez morresse também. Eu não esperava. Ela chegou bem perto. Me tocou. Foi um arrepio e tanto. Pensei em ignorá-la. Mas apenas esqueci de todo o passado. Bombas fumegantes no céu escuro e tropical. Cantos e sorrisos sonoros, algumas danças. Alegria fácil é bobagem. Tudo tão fugaz quanto aquele beijo impressionante. Divisor de lágrimas. Então morri um pouco. Pensei em não acordar tão cedo. Mas não me deram a graça de morrer. Vi a luz novamente. Possível pesadelo. Melhor que fantasmas que não existem e que nos assombram. Efêmero beijo esmaltado. Lábios mordazes, imaculados. Fiquei doente. Puro. Nada pensei depois. Apenas respirei para ver se ainda vivia. Vivi. Amenheceu tão cedo. Acho que a matei. Ela sumiu de novo. Senti tudo. Ainda não sei descrever. Mas os cantos sagrados ressoam. Alguns anjos dançam sacudindo suas penas e espalhando um perfume curioso. As coisas são fugazes demais. Há fumaça no quarto. A bituca contina acesa. E a chama me traz alucinações. O vinho acabou. O sol ainda dorme, mas a luz espantou a noite aconchegante. Ela não volta. Nem eu.



Escrito por Mauro Cassane às 20h29
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]


 



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 36 a 45 anos, Livros, Arte e cultura
MSN -
Histórico
  15/10/2006 a 21/10/2006
  01/10/2006 a 07/10/2006
  03/09/2006 a 09/09/2006
  27/08/2006 a 02/09/2006
  20/08/2006 a 26/08/2006
  13/08/2006 a 19/08/2006
  06/08/2006 a 12/08/2006
  30/07/2006 a 05/08/2006
  23/07/2006 a 29/07/2006
  16/07/2006 a 22/07/2006
  09/07/2006 a 15/07/2006
  02/07/2006 a 08/07/2006
  18/06/2006 a 24/06/2006
  28/05/2006 a 03/06/2006
  14/05/2006 a 20/05/2006
  07/05/2006 a 13/05/2006
  30/04/2006 a 06/05/2006
  23/04/2006 a 29/04/2006
  09/04/2006 a 15/04/2006
  02/04/2006 a 08/04/2006
  26/03/2006 a 01/04/2006
  12/03/2006 a 18/03/2006
  05/03/2006 a 11/03/2006
  26/02/2006 a 04/03/2006
  19/02/2006 a 25/02/2006
  05/02/2006 a 11/02/2006
  29/01/2006 a 04/02/2006
  22/01/2006 a 28/01/2006
  15/01/2006 a 21/01/2006
  01/01/2006 a 07/01/2006
  25/12/2005 a 31/12/2005
  18/12/2005 a 24/12/2005
  11/12/2005 a 17/12/2005
  27/11/2005 a 03/12/2005
  20/11/2005 a 26/11/2005
  13/11/2005 a 19/11/2005
  06/11/2005 a 12/11/2005
  30/10/2005 a 05/11/2005
  23/10/2005 a 29/10/2005
  16/10/2005 a 22/10/2005
  09/10/2005 a 15/10/2005
  02/10/2005 a 08/10/2005
  25/09/2005 a 01/10/2005
  18/09/2005 a 24/09/2005
  11/09/2005 a 17/09/2005
  04/09/2005 a 10/09/2005
  28/08/2005 a 03/09/2005
  21/08/2005 a 27/08/2005
  14/08/2005 a 20/08/2005
  07/08/2005 a 13/08/2005
  31/07/2005 a 06/08/2005
  24/07/2005 a 30/07/2005
  17/07/2005 a 23/07/2005
  10/07/2005 a 16/07/2005
  03/07/2005 a 09/07/2005
  26/06/2005 a 02/07/2005
  19/06/2005 a 25/06/2005
  12/06/2005 a 18/06/2005


Outros sites
  UOL - O melhor conteúdo
  BOL - E-mail grátis
Votação
  Dê uma nota para meu blog