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Sorte de fim de ano
O cemitério não é o lugar onde a gente espera encontrar pessoas à toa. Por isso me exercito caminhando por lá. Tem os coveiros ruidosos e alegres, e os féretros melancólicos com seus dramas e lágrimas. Algumas vezes encontro macumbas e cabeças de bote extirpadas e fedorentas. Normal, é cemitério, lugar dos mortos e cultos estranhos. De resto, os pássaros fazem a algazarra matinal, o vento sopra e as arvores lançam suas folhas perfumadas. Nos parques tem aquela coisa chata de olhar, ver e ser visto. Flerte banal. E odeio. Não me sinto bem. Acho meio idiota. O fim do ano está bem perto. Resolvo caminhar no silêncio, nas ruas mais afastadas das covas, perto dos muros que guardam ossos e restos humanos. Me incomoda um pouco o cheiro de velas e flores podres. Mas me agrada a solidão. Olho o horizonte da rua plana, e nada, apenas muro e velas e flores murchas. É uma alameda sinistra. Bem adiante tem alguém parado. Não é um fantasmas, acho que fantasmas não param nunca. E de manhã não há clima legal pra fantasmas. Vou me aproximando. É uma loira vestida com calça bem colada, preta e uma camiseta regata branca, e um tênis sofisticado e vistoso. Demasiadamente humana, porém uma cena muito incomum e ligeiramente surreal. Ela está ali, parada, tentando acender um cigarro. Me pareceu algo bizarro. Toda aquela indumentária atlética e tentando acender um cigarro? Estranho. Quando me avista, a uns vinte metros de mim, chacoalha os braços, finge que vai fazer um alongamento, tenta idiotamente disfarçar. Bem, a filha da puta só poderia mesmo estar ali tentando acender um baseado. O engraçado é que acendeu. O cheiro é flagrante. Não tem como esconder. Ela é bonita e gostosa, tem peitos vistosos e sardentos. E uma cara boa, e não esnobe. Digo bom dia, ela sorri aberto, me responde um bom dia agradável. Brinco. “Cheira bem esse seu cigarro”. Ela dá gargalhada. “Po, não dá pra disfarçar né, que mancada”. Tem sotaque carioca. Que maluquice. Uma carioca em plena zona leste de São Paulo em véspera de ano novo e num soturno cemitério da periferia. Cheguei a crer que pudesse mesmo ser algum espírito zombeteiro. Mas que se foda. Zombam da gente o tempo todo. E eu com tesão recolhido de dezenas de dias. Quarentena sexual. Fiquei com tesão por esse ser meio assombração meio mulher e meio irreal. Ela não deu bola pra mim, apenas foi simpática. Nós homens, que sempre entendemos tudo errado. Ela relaxou e me ofereceu um trago. Traguei e devolvi a ela. Ela puxou fundo. Lábios rosados, bonitos e sadios. Os óculos grandes e da moda escondiam um pouco o olhar. Não gosto de não ver os olhos. Mas talvez fosse mesmo uma assombração. Cheirava bem, a banho matinal, com cremes e tudo mais. Passou o beck pra mim de novo. Antes de tragar perguntei o que caralho ela fazia ali no cemitério. A resposta foi simples: “to de visita na minha mãe, vou passar o ano aqui com ela”. Bem, normal. Eu poderia perguntar se a mãe dela morava no cemitério, mas seria muito tolo. Traguei com cara de bobo. Ela completou, talvez pra me deixar mais tranqüilo. “ela mora aqui perto, como não tenho praia, caminho por aqui. E sempre gosto de fumar unzinho nas minhas caminhadas, pra ficar mais relaxada”. Ah, sim. Perfeito. Derradeiras horas de 2005, um ano ruim na minha vida sentimental, bom em outras coisas. Mas meu pau foi subutilizado. E isso me deixa muito puto. E uma loira tesuda bem na minha frente, fumando maconha comigo. Ficamos ali, falando bobagens. Acho que ela queria ou esperava que eu fosse fazer perguntas sobre o Rio de Janeiro. Não perguntei. Não me interessa. Pra mim, tudo é muito igual. Lugares e pessoas. Tediosamente igual. O assunto escorregou para cinema. E ela entende do traçado. Eu não. Mas gosto. Daí falamos de filmes cults e coisas novas, Tarantino, Parker, Jarmurch, Allen e até Glauber. O de sempre. Na verdade eu queria transar com ela. E estava imaginando isso mesmo. Não sei porque cacete a gente tem que conversar em vez de trepar logo de uma vez. A gente tem que se mostrar um cara legal e tudo mais. É um saco. Aquele cheiro de erva me deixa libidinosamente insano. Queria ser mais sedutor. Mas o problema é que viro um tarado, ou maníaco sexual. Fiquei com vontade de dar uns tabefes nela e foder com ela ali mesmo naquele muro imundo e cheio de velas e flores podres. A puta nem estava suada, e exalava um perfume de banho e óleos frutados. Cariocas falam muito. Passamos por outras ruelas do cemitério. Cada vez mais ermas e distantes. Só nós e as covas agora. E algumas árvores imensas. Ela falando que faz curso de roteiro e mora em Ipanema. E que é muito legal caminhar de manhã na praia. Porra, me ausentei por alguns instantes e só ouvia o som daquela voz boa. Parei para beber água num cano que soltava água corrente perto da cova de um tal de Sebastião alguma coisa. Devia ser um velhote. Tinha uma espécie de asterisco no ano de 1908 e uma cruzinha em 2004. Lavei o rosto, me refresquei e daí ela abaixou e fez o mesmo. Bem ali, ao meu lado. Aquele rosto e cabelos molhados me enlouqueceram. Puxei ela pelos cabelos e trouxe aquela boca tesuda pra junto da minha. Nos beijamos ali, eu sentado no chão e ela debruçada sobre mim. Encostou os peitos em mim. Eu os tirei pra fora. Eram rosados, com sardas e com bicos duros. Chupei. E isso a deixou fora de si, gemia e pressionava minha cabeça mais ainda sobre os peitos. Segurando-a firme pelos cabelos puxei sua cabeça pra trás, ela lambia os lábios. A puxei para perto de uma pequena árvore. Ela se agarrou no tronco, arqueou bem as ancas e eu fiz o que deveria ser feito. Estávamos num lugar mais elevado do cemitério de modo que nos permitiu um bom visual do movimento que, àquela hora, era nenhum. Dei-lhe alguns tapas na bunda, ela gritava de tesão. E gemia, e pedia mais. Gozamos juntos. E nos lavamos ali no cano ao lado do velho Sebastião. Gozei rápido, estava há muito tempo sem transar. Acho que ela também. O ano de 2005 acaba assim pra mim. A gente se despediu no portão carcomido de ferros retorcidos. Não peguei telefone nem nada. Sempre me esqueço. Talvez tenha sido mesmo uma puta assombração. Não me importo. Ao menos gozei e to mais relaxado. Ainda bem. Seria muito deprimente terminar esse ano como comecei. Na punheta.
Escrito por Mauro Cassane às 13h54
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Uma noite inolvidável
Dormira pesado demais e acordou com as odiosas buzinadas matinais do pára-e-anda defronte de seu prédio. Sentia dores generalizadas e uma puta sede infernal. Muita bebida e a garganta até meio ferida com as tragadas gulosas que dera no baseado na louca noite que passara com Alfredo. Lembrar dessa trepada era suficiente para minimizar as dores agora já lancinantes. Terríveis mesmo. As costas pareciam estraçalhadas. Esquecera a cortina aberta e aquela claridade demasiada ofuscava sua visão e a fazia cerrar sobremaneira as pálpebras. A sonolência parecia lhe soterrar as pupilas com enormes grãos de areia. Tentou virar de lado. Não conseguiu. Ficou irritada. Não queria abrir os olhos. Os dois ombros doíam demais agora e uma vontade incontrolável de mijar a deixou furiosa. Soltou um grito de ódio. E lançou o corpo para frente de modo a ficar sentada para ir ao banheiro. Um violento tranco a devolveu à condição de deitada. Tomou um susto. Os pulsos doeram também. Ficou por alguns instantes sem entender porra alguma. Tentou mover seus braços que estavam esticados para trás. Não conseguiu. As coisas começaram a clarear. Estava presa na cabeceira de ferro da cama. Algemada. Pegara no sono na madrugada depois de gozar freneticamente com Alfredo. O puto dormiu e não lembrou de desarmar as algemas. Pior. Acordou cedo e se mandou para o trabalho e esqueceu-a daquele jeito. Onze da manhã. Calor, sede, dor e vontade de mijar. Adriana força os braços, comprime as mãos de modo a tentar se livrar das algemas. Mas eram de verdade, dessas que se prende delinqüentes. As tentativas, entre cuidadosas e desesperadas, não têm qualquer êxito. Tinha um almoço com um cliente a uma da tarde. Vira o corpo e atira as pernas para fora da cama. Mija assim, torta porém evita que a urina se espalha pelo colchão e lençol que já estavam encharcados de suor. Por sorte estava sem calcinha. Devagar volta à posição inicial. A dor aumenta, o pulso está ferido e sangra um pouco. As costelas parecem em cãibras. O celular estava em cima do criado-mudo e começa a vibrar. Ela nada pode fazer. Consegue apenas ver a hora no relógio analógico que fica sobre a penteadeira. Quase meio dia. Ela está suada demais, e com sede. Tenta manter a calma para refletir e buscar uma saída. Mas quando pensa na situação entra em desespero. Era uma sexta-feira e a empregada só aparece às terças e quintas. Seu quase namorado, Juan, faz rali todos os sábados e só dá as caras aos domingos. E Alfredo é casado, não vai aparecer mesmo nos próximos dias. Morava no décimo quinto andar. O apartamento ao lado estava vago há meses. O outro, no fim do corredor, morava sua arqui-rival que vivia reclamando de suas ruidosas festas. Era uma velha viúva antipática e soturna que recebia uma gorda pensão do governo. Nem se cumprimentavam quando se encontravam no elevador. Adriana começa a chorar. Pressente algo trágico. Não sabia, nem nunca notara, mas devia ter claustrofobia. Estava soluçando, sentia falta de ar. Os pulsos gotejavam sangue, não conseguia vê-los, mas estavam em carne viva. Como foi acontecer aquilo? Era o que mais pensava e se lamentava. Estava nua e, com algum esforço com o pescoço, conseguia ver alguns hematomas imensos por suas pernas e as queimadas de velas pela barriga e peitos. Fora uma noite e tanto. Agora estava na mais profunda desgraça depois do mais tesudo dos gozos. Filho da puta do Alfredo, pensava consigo. Como fora fazer aquilo com ela. O celular vibra novamente. Insistem. O fone da casa também. Tocam juntos. Isso a deixa ainda mais em pânico. Decerto é seu chefe ou seu cliente querendo saber do almoço. Faltam quinze minutos para uma hora. E ela ali, naquele fedor de urina e suor, com dor e sede e em prantos e soluços. Teve um pensamento ainda mais idiota. E se sentisse vontade de cagar? Onde caralho cagaria? Isso a deixou ainda mais aterrorizada. A situação ainda tendia a ser catastrófica. O que certamente seria motivo de risos num futuro, agora lhe parecia praticamente o fim mais dramático de sua existência. Por suas contas e cálculos, poderia morrer de fome e sede naquela situação. Com certeza seus amigos a procurariam, afinal era sexta-feira. Mas normalmente eles combinavam tudo por telefone. E ela não tinha a menor condição de falar ao fone. Teve uma idéia. O negócio era berrar e se chacoalhar na cama de modo a fazer barulho suficiente para alguém aparecer por lá. Gritou, mas o som era rouco e abafado. Seu quarto estava com a porta encostada e janela fechada com o vidro só permitindo a entrada dos brilhos do sol que incidiam diretamente sobre ela e a estavam castigando ainda mais. Ainda assim se esguelou gritando. A secura da garganta, e a lesão do fumo a calaram em segundos. Não conseguia sequer falar, quanto mais gritar. Nada. Não apareceu ninguém, e sabia que sequer tinham ouvido qualquer coisa. Começou a se balançar na cama, do jeito que dava, erguendo e batendo a bunda na cama com bastante força. E ajudando com os pés também. Fez algum barulho, mas nada de escândalo. A cama era firma e forte, e mal se movia. O resultado foi apenas aumentar as feridas em seus pulsos com os trancos do corpo. Olhou para o relógio. O almoço de negócios já era mesmo. Uma hora e vinte minutos. Era seu fim. O celular toca novamente, balança, vibra. Parece também desesperado. E, na seqüência, o fone da casa solta seu grito a chamando. Adriana fecha os olhos. Tenta dormir. Era o que restava a ela. O calor aumenta, a sede a deixa num estado lastimável de letargia e pusilanimidade. Começa a ficar faminta também. Agora a cabeça dói, sente pontadas fortes na nuca por não conseguir ficar de lado. As costas rangem e parecem estrupiadas. Os braços estendidos à força intercalam cãibras com dores nos ossos. Não consegue dormir assim. Chora mais ainda. E pára com medo. Esta se desidratando rapidamente. Sabe que não pode chorar. Duas da tarde. Fica em silêncio. Procura manter a calma. Tenta se enganar e busca uma forma de retirar apenas uma das mãos da algema. Comprime os dedos da mão esquerda. Ela era destra e resolveu sacrificar a esquerda. Comprime o máximo que pode, estica-os e começa a forçar o braço e a fazer pequenos movimentos de compressão nos dedos para tentar desvencilhar ao menos um braço. Começa a dor muito. Sente a pele sendo rasgada com a força que faz para retirar a mão. Fecha os olhos, respira fundo, e não cessa. Vai puxando de maneira lenta e firme o braço e comprimindo os dedos. Parece que daria certo. Sente que sua mão, agora untada pelo sangue, começa a escapulir. Mas trava nos ossinhos dos dedos. Não tem mais como ir em frente. Ela força e só sente dor e nada de transpassar mais nem um milímetro. Não tem coragem de enfiar a mão de novo, mas era a única coisa a fazer, senão sangraria ainda mais e não dor não cessava. Contrariada, totalmente derrotada, enfia novamente a mão para dentro daquela maldita argola de aço. Sente o cheiro de sangue. Mas agora não se importa mais com as dores. Afinal doía tudo. Até sua alma.
Escrito por Mauro Cassane às 17h13
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continua...
Assim, submersa completamente na mais profunda dor, pensa no martírio de Cristo. Em todas aquelas chagas. Sentia seus pulsos dormentes e umedecidos com sangue. Tivera a noite de seus sonhos com irrefreável prazer e gozo, e agora agonizava. Talvez fosse castigo divino, ou simplesmente o preço que se paga pelo prazer. Estava envergonhada também. Continha a bexiga, pois sentia novamente vontade de mijar. E se o fizesse perderia todo líquido do corpo. Também não tinha mais força para mover seu corpo para fora da cama com os braços naquela posição tal como o fez da primeira vez. Teria que mijar na cama mesmo. E foi o que fez. Mais uma hora e o ar ficou pesado, sufocante e fedorento. O sol castigava mas por fim aliviou um pouco os raios diretos em seu corpo. A tarde, entretanto, estava ainda mais quente e pesada. Adriana agora daria tudo para uma fresta na janela, por uma ligeira brisa que fosse. Queria sentir um ventinho ao menos. Mas nada. O vidro freava o suave sopro vespertino e só permitia a entrada do denso mormaço. Passava a língua pelos lábios e já os sentia secos e rachados. Quatro e meia da tarde. Começa a delirar, tem ligeiros sonhos e geme intensamente. Pensa e deseja coisas simples. Banho, um copo de água, ar fresco, caminhada, televisão, amigos, bate papo. Sua cama é seu cárcere agora, seu quarto transformou-se em sua masmorra e seu tesão, que era tudo de tão maravilhoso, virou seu mais terrível algoz. Quem a acharia ali naquela condição deplorável? Quem? Adriana começou a pensar em como uma simples coisa estúpida pode virar completamente ou até ceifar uma vida. Na madrugada, algemada, louca de prazer, pedia para seu amante aplicar-lhe bons tapas, ele a queimou com gotas de vela, e trepou com ela violentamente. Ela delirou e gozou muito. Era seu momento de prazer, na realização de uma bizarra fantasia, nem pensou em nada e apenas dormiu pesado até ser despertada nessa terrível metamorfose. Era um ser prestes a definhar até a morte.
O entardecer foi lento e cruel. Adriana não conseguia dormir castigada pela agonia e pela dor. Porém, às seis da tarde apagou desmaiada. Acordou duas horas depois com a campainha se esguelando. Alguém ali. E insistindo na porta. Ela da um sobressalto. Grita. Não sai a voz, suas cordas vocais estão ressecadas e sua garganta parece uma lixa retorcida. Desespera-se. Solta grunhidos. Silêncio. Se era alguém, desistiu. Adriana não tem mais forças para nada. Apenas fica olhando para o teto. Já é noite, ao menos há um certo frescor, porém o fedor é intenso e asfixiante naquele quarto. Só não é insuportável porque ela está ali, presa, e não tem a felicidade da opção. A fome aperta, e a sede a deixa nauseada. De repente ouve um som que nunca imaginou que a deixaria tão feliz. Sua porta do apê sendo destrancada. Estava tonta demais mas decifrou a voz que a chamava. Era bem familiar. Sua mãe. Uma mulher linda apesar de seus cinqüenta e poucos anos. A mulher quase desmaiou ao deparar-se com Adriana naquele estado. Ficou zonza, entrou em pânico e gritou. Adriana só pediu água. Sua mãe tremia desesperada. Não encontraram a chave da algema. Adriana ficou presa mais uma hora. Sua mãe limpou o quarto, a vestiu com um moleton e chamou o zelador para cerrar um elo da corrente. O homem não perguntou nada, fez o serviço em minutos e deu o fora. No domingo, com curativos nos pulsos, disse a Juan que num momento de depressão tentara o suicídio. Parece que colou. Juan nunca questionava coisa alguma. Alfredo ligou na terça-feira. Sugeriu chicote e uma coleira. Adriana respirou fundo. Queria dizer poucas e boas para aquele filho da puta. Mas foi um acidente. Topou a fantasia. Porém decretou peremptoriamente: essas coisas, de hoje em diante, só no motel.
Escrito por Mauro Cassane às 17h12
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Fantasia e realidade
Antes de se preocupar com isso, e evidentemente sem qualquer sinal da velhice, Núbia já escondia a idade. Uma atitude estúpida que cultivava desde há muitos anos. Herdou da mãe, uma perua assumida, vaca descarada que fora abandonada pelo marido quando Núbia tinha apenas cinco anos. A mãe nunca casara novamente. Mas saia sempre. Era uma morena vistosa com cara e corpo sedutores. Aos 30 anos estava separada e com uma pequena filha a tira colo. O pai de Núbia era estranho, meio covarde, e deu o fora. Mandava dinheiro sempre, mas nunca aparecia. Ninguém sabe ao certo porque deixou a mulher. Dizem que era porque ela era safada. Sai com um cara de um bairro vizinho que era casado também. Apenas especulações das bocas ordinárias e ociosas do bairro. O certo é que depois de ser abandonada, a mãe de Núbia nunca mais festejou aniversário algum e guardou total segredo sobre sua idade. A outra certeza: depois de descasada trepou com quase todos os casados da rua, do bairro e do distrito. Fodeu muito mesmo. E descaradamente. Era uma espécie de vingança perpetrada contra as fofoqueiras que a difamaram. A mãe de Núbia foi sistemática em sua revanche. Era uma mulher de opinião. Seduzia mesmo, e quando havia resistência fazia marcação cerrada. Houve um, casado de novo, que se desvencilhou das investidas dela por um tempo mas sucumbiu quando praticamente ela o encurralou numa erma esquina. Consagrou-se em pleno êxito quando, quase uma década depois da batida em retirada do marido, trepou com o pastor local num terreno baldio numa nebulosa tarde de domingo. Ali foi sua a glória máxima. Era o último resistente de sua lista. Não gozou com quase nenhum. Mas voltava sempre satisfeita para casa. Rindo, linda e descabelada. Gostava de foder na rua, não na cama. Seu leito era imaculado. E sempre dizia às amigas, e depois professava à filha, que cama era lugar de se fazer amor. “Sem-vergonhice a gente faz na rua”. Curiosamente, depois que começou sua empreitada em foder com todos os casados, ninguém mais falou dela. Parecia um respeitoso acordo tácito daquela comunidade que, resignada, deixara-se castigar. Morreu do coração. Sem muito sofrimento. Apenas tossiu demasiadamente numa madrugada, suspirou fundo, e apagou. Núbia já era adolescente e estava na casa do namorado. Tinha 17 anos. Achou a mãe morte na manhã seguinte. Passou mal, foi traumático ver a mãe dura e gelada. Aquela imagem nunca mais a abandonou. Porém sua mãe, mesmo morta, ainda ostentava serena e contundente beleza. Núbia herdou a pele firme e morena da mãe e os olhos delicados e vacilantes do pai. Dez anos se passaram. Núbia virou uma morena de fulminante olhar esverdeado. Não ostentava aquele corpão voluptuoso da mãe, mas sim uma delicada composição esguia e de formas suaves, com uma cintura fina e uma bunda bem delineada, porém nada em grandes proporções. Chamava a atenção os cabelos longos e cacheados que vibravam no seu andar cheio de sedução, e lábios incrivelmente carnudos. Não gostava também de festejar aniversários, nunca dizia a ninguém a data e preferia mesmo esquecer a celebrar. Formada em administração, ocupava um cargo de gerente numa grandes instituição financeira. Cuidava da conta dos executivos de multinacionais. Profissionalmente era severa, dura, bem articulada e pedante até. A ponto de marcar reuniões com início às seis da tarde e que se prolongavam até quase dez da noite. Chefiava um grupo de vinte e cinco consultores especiais. Era muito respeitada e tinha até alguns artigos publicados em revistas especializadas e também em jornais de negócios. Estava, enfim, no auge da carreira. Profissionalmente era uma vencedora, sentimentalmente desencontrada. Amou por um tempo e, como todo mundo que ama, se estrepou feio. Apenas mais um gato escaldado no mundo sentimental. Núbia tinha uma estranha compleição incontrolável para o sexo diferente do convencional. Sentia desejos alucinantes e viscerais que se iniciavam pela manhã e se prolongavam até o fim do dia. Trabalhava muitas vezes sem mesmo almoço ou um simples cafezinho para ocupar sua mente e resistir ao máximo ao seu efervescente furor uterino. Muitas vezes, escrevendo relatórios, começava a esfregar uma perna na outra e a ficar molhada e gozava assim, discretamente. Parava, respirava, fingia calor ou algum mal súbito ao ser notada e levava a vida desta maneira. Em sua casa, tinha insônia. Imaginava-se transando com dois homens, ou numa casa de swing, ou com outra garota. Suas fantasias eram impressionantes e nunca acabavam. Seu namorado a abandonou por conta disso. Ela queria realizar tudo com o pobre sujeito formado em curso no exterior, educado em família de classe alta da zona sul e sob uma orientação extremamente machista. Não deu certo. Saia com outros homens. Mas nenhum se mostrava aberto às suas fantasias. Era sempre taxada de pervertida ou simplesmente puta. Mas Núbia tinha sentimentos, queria amar e ser amada. Entretanto também queria gozar sendo chicoteada, esbofeteada, humilhada e escravizada.
Escrito por Mauro Cassane às 16h15
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continua...
Quando encontrava algum filho da puta que topasse fazer isso tinha que pedir e isso já a colocava na mais bizarra das situações. Muitos a enchiam de porrada. Outros não entendiam direito sua fantasia e cuspiam nela. Um chegou a cagar em cima dela depois de amordaçá-la ao chão. Núbia retraiu-se. Envolveu-se mais e mais com o trabalho. Andava estressada, deprimida e angustiada. Mas seu cheiro, seu caminhar e seu olhar eram demasiadamente inebriantes aos homens. Não passava um dia sequer sem ser cantada descaradamente. Sentia vontade, ficava enlouquecida, queria trepar só por trepar mesmo. Mas nunca em seu ofício. Ali ela era a gerente soberana. Não agiria como sua mãe. Não conspurcaria sua imagem corporativa construída com luta e abnegada dedicação ao longo de anos. Transava nos bares, nas boates com os homens da noite. Mas não encontrara nenhum que a fizesse gozar de verdade, pois para tanto, necessitava da realização de suas fantasias. O problema não era exatamente com quem ir, uma vez que remotamente um homem diria não a uma insinuação sua. Sua frustração maior residia no fato de que ela queria, e muito, sentir algo pelo homem com o qual realizaria suas mais soturnas loucuras sexuais.
Como tudo o que queremos um dia sempre acontece. Com Núbia não fora diferente. Numa quente e insone madrugada de quinta-feira, cheia de tesão, postou-se defronte ao micro e buscou, em salas de bate papo, algum conforto sexual no insosso mundo virtual. Encontrou um sujeito que, depois das primeiras conversas idiotas, começou a se interessar. Ele parecia compreender suas angústias e, mais do que isso, as tinha também. Ela sentiu um frio cortante no estômago. Eis ali seu homem ideal. Tudo naquela conversa a levara a crer que ele também queria uma mulher para fazer mil coisas sexualmente fantásticas mas queria, além disso, uma paixão. Não era apenas um puto em busca insana pelo gozo. Núbia ficou ali com ele, em conversa cada vez mais lânguida e quente, por duas horas. Depois tomou coragem e enviou seu número de telefone que, incrivelmente, tocou em segundos. Era ele. Uma voz macia, suave e atenciosa. Não tinham mais o que falar, até porque, no computador, já haviam dito quase tudo. A gente sempre diz coisas que não deve nessas conversas com estranhos. Mesmo assim ficaram por mais uma hora ao fone. Núbia estava fascinada por aquele jeito galante e doce. Ambos esqueceram o sono. Era imperativo e urgente um encontro. Marcaram para a noite seguinte. Sexta-feira. Núbia resolveu levantar um pouco a guarda. O rapaz propôs um quarto de motel. Afinal fantasias são para isso mesmo. Mas Núbia gelou. Bateu um certo receio recheado com terror. Aquela loucura poderia ser a ela prejudicial. Argumentou que o melhor seria num bar. Um lugar público. A velha história de conhecer antes. O cara topou de maneira gentil e sem reclamar. Núbia chegou nervosa ao bar. Pensou em desistir antes de entrar. Mas já estava ali, com o coração aos saltos. Respirou fundo e entrou. Lá estava ele. Um belo homem. Bem vestido, tomando água com gás. Ela se aproximou, ele se levantou feito um autêntico cavalheiro. Os dois se olharam de maneira discreta e fizeram um cumprimento tolo e formal. Não havia muito o que conversar. Tinham falado por horas na madrugada anterior. Ela estava com excesso de libido e ele notara e estava excitado e um pouco sem paciência. Aquela boca carnuda o seduziu de imediato. Mas Núbia estava acostumada com isso. Ele deu um gole na água, ela levou o copo de guaraná à boca. Ao baixar, ele se curvou em sua direção e a beijou. Era um sujeito resoluto. Ela esperava por isso. Aceitou o beijo demonstrando, com a língua, desejo ardente. As mãos se perscrutaram. Ela não gostou do beijo. Não sentiu a química que sabia há tempos ser imprescindível. Mas foi em frente. Afinal estava ali o homem que, mesmo sem ser o ideal em termos de química e pele, era o mais adequado para lhe suprir os mais loucos desejos. Ele rio e disse que sua vontade era pedir a conta e cair fora dali com ela. Ela sorriu com o olhar e fez um gesto sutil assentindo. Era um homem experiente do alto de seus quase 40 anos. Pediu a conta. Faltava resolver dois detalhes. Apartamento (em qual dos dois) ou motel. Ela não teve coragem de perguntar nada. Ele tomou as rédeas da situação. Sugeriu um motel e que fossem em ambos os carros. Sim, era tudo o que Núbia queria. Respirou aliviada. Não entraria jamais no carro de um estranho e nem sequer cogitou ir nem a um nem a outro apartamento. O manobrista trouxe o carro dele primeiro. O dela na seqüência. Ele lançou a ela uma piscadela, que ela achou cafona, e fez um ligeiro movimento com a cabeça do tipo “siga me”. Ela apenas rio sem graça. E o seguiu. Entraram em um motel barato. Núbia piscou o farol antes dele parar o carro em frente ao guichê. Ele não notou e foi em frente. Pediu o quarto Luxo. Foi a opção mediana. Nem o mais caro nem o mais barato. Quarenta reais por três horas. Sem banheira, apenas chuveiro. Núbia parou no guichê já com vontade de fazer meia volta e cair fora daquela espelunca. A recepcionista tingida de loira sorriu e a orientou “suíte 22, segunda à esquerda”. Núbia começou a ter calafrios e não conseguia mais disfarçar o nervosismo. “Que merda que to fazendo aqui Deus do céu”, pensava consigo. No corredor o carro com o pisca-alerta ligado. O sujeito, sempre cortês e atencioso, havia deixado a vaga da garagem da suíte para ela. Núbia não sentia mais tesão. E sim pavor. Era o instinto feminino. Ele não desceu do carro. Estava ali dentro. Aquela luz piscando gotas de vermelho e laranja na noite. Um pavor incontrolável tomou conta de Núbia que engatou a ré. Fez uma manobra brusca. Bateu a traseira na mureta de proteção. Depois, já meio em desespero, bateu novamente a parte dianteira. O cara desceu do carro atônito e ficou assistindo aquelas ligeiras e nervosas manobras e choques de frente e de ré. Pedaços de cascalhos despencavam. Enfim Núbia posicionou seu carro no sentido contrário e acelerou forte. Chegou na saída ofegante. Baixou o vidro e determinou aos gritos. “Abra que to com medo desse cara, quero ir embora daqui agora”. O portão automático começou a abrir lentamente. Pelo retrovisor Núbia avista o farol se aproximando. Era ele. Já deixou o carro engatado. A porra do portão abrindo devagar demais. Ela com um olho no portão e outro no retrovisor. A porta do cara se abre. É o sinal para ela arrancar sem esperar o portão se abrir completamente. Bate forte o teto do carro no portão. Um estrondo. Seu teto quase é arrancado, o pára brisa faz uma trinca imensa. Ela arranca embora acelerando fundo. O homem pára no guichê. A recepcionista avisa. “O senhor vai ter que pagar por esses estragos”. O portão não fecha mais. Um segurança armado já encosta na lateral. Outro pára na frente do carro. Ele saiu de lá praguejando depois de deixar um cheque de trezentos reais. Núbia passou dez dias apagando seus recados na caixa postal do celular. Mas continuava profundamente angustiada e louca de vontade de realizar suas fantasias.
Escrito por Mauro Cassane às 16h14
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