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Não morremos, mas sepultamos
Levei muito tempo para esquecer aquela mulher. Na verdade ainda não a esqueci. Mas vou sobrevivendo. A gente não morre quando perde o grande amor de nossa vida, apenas sentimos apodrecer nosso melhor pedaço. E, ainda como uma espécie de lição, ou castigo, ganhamos mais vida. Seja como for, ressinto-me, pois fiquei profundamente arruinado por mais de ano por ter perdido aquele amor. Deve ser mesmo um deleite ser amado e dar um foda-se a quem te ama. Já passei por isso também. Essa é a vida. Um dia somos a privada, no outro cagamos em alguém. E assim vai. No fim, contabilizando tudo, todo mundo se esmerdeia nessa coisa de romance, amor e o caralho. O bom é manter-se distante, alheio e avesso a qualquer uma dessas idiotices demasiadamente humanas. Só mesmo um semi-imbecil consegue amar, pois um imbecil completo tem um pouco mais de discernimento. Tem tesão? Trepe. Procure uma boa puta. É melhor. Guarde grana. Se envelhecer e ficar fodido e sozinho, contrate alguém pra cuidar de ti. Ou mate-se. Dá no mesmo, pois quando estamos nos derradeiros momentos da vida, na porra da senilidade, sem muitas vontades ou atitudes, é mais aconselhável uma boa dose de veneno. Ou então mergulhe sua mente na fantasia do ópio e feneça contemplando o absurdo. Talvez seja melhor. De hoje para mais cem anos estaremos todos mortos. E se há alguma merda de vida depois da morte, espero que eu não a encontre.
Agora ando por aí. No meu quarto tenho tudo do que preciso. Muitos livros, um computador que funciona, filmes clássicos, música, telefone, bebida, comida, uma cama imensa e banho. O que mais é necessário para felicidade do homem? Ah, sim. Sexo, viagens, aventuras e tudo mais. Sim, isso é fácil. Muitas vezes supérfluo. Ando perdendo o interesse por transar. Tenho tesão por mulheres, mas não vontade. Prefiro a punheta. É até mais higiênico. E depois do gozo é tudo a mesma coisa. Com punheta ou com mulher. Tudo igual. A gente relaxa e descontrai, adormece. Acendo um baseado e leio “Almoço Nu”. Quantas esquisitices escreveram nesse mundo. Gosto do Burroughs, mas às vezes acho que esses caras simplesmente não pensavam em nada e escreviam. Deve ser assim mesmo. Escrever é esvaziar a mente. É um vômito literário. Por isso prefiro os músicos. Que criam suas obras e nos oferecem sensações. Ou os pintores. Escritores são idiotas punheteiros. Todos eles. Qualquer arte é melhor que a escrita. Até culinária é mais nobre. Grande e efêmera arte é a culinária. Que beleza. Queria muito saber pintar. Mas nem tento. E violão toco feito um débil. Arrisco alguma coisa na cozinha. Mas nem penso em submeter a amigos nem inimigos essas minhas incursões culinárias. Bem, por isso apenas escrevo. E é isso que me restou para manifestar minhas mágoas. Para cagar minhas tristezas. Botar o lixo pra fora. Muitas vezes, principalmente sozinho, penso em Sofia. Lembro de coisas passadas. Mas ultimamente isso anda me dando náuseas. E fico feliz. Método Pavlov. Nada mais eficiente. É pensar nela e sentir vontade de vomitar. Que bom, que bom. Cada dia que surge no alvorecer é mais raro pensar dela. Principalmente quando me sinto desejado. E descobri que as garotas gostam de caras como eu. Passei um tempo me achando um lixo. Agora me sinto bem pra caralho. Mas, estranhamente, não passo por uma fase onde me esforço para trepar com uma garota. Talvez precise fazer análise. Pensei até que estava virando veado. Ainda bem, não é isso não. Nem tenho nada contra e acho até que homem é um ser mais amável que mulher. Ao menos mais intenso, porém menos sensato. Mulher é mais racional. E dizem aí que as mulheres são mais sentimentais. O caralho que são! Sentimental é o homem. Se bem que nem entro nessas discussões. Não sei o que pensam os homens, nem tampouco as mulheres. Nem também quero saber. Falo apenas por mim. Não me interessa o que os outros pensam. Não suporto machistas nem feministas. Toda garota que conheci, e aquela que amei, percebi uma extremada racionalidade que, neste tópico, eu poderia comparar a mulher a uma rocha. Bem, que se foda. Outra constatação: a gente aprende com as mulheres. E agora não ligo mais. Não me faz falta, nem diferença. Não penso em amar, nem em ser amado. O sexo puro e simples, feroz ou meigo, com ternura ou aos tapas, já me satisfaz plenamente. Quando eu quiser um bom papo procuro bons amigos. E se quiser desabafar, falo com algumas amigas. Amizade é eterna, amor é efêmero. E, pior, quando a gente perde o amor também perde aquela amiga. Isso acontece sempre. Prefiro agora manter a amiga.
Dias desses sai com a Sandra. Uma morena maravilhosa e lânguida, com um olhar ao mesmo tempo penetrante e doce. Boca linda e carnuda. Não transamos. Bebemos, e ela ficou no cio. Fomos caminhando pela rua. No meu carro nos atracamos. Ela tem a pele macia, os peitos volumosos e firmes e gostosos e uma bunda dura e robusta. Isso me enche de tesão. Fiquei louco para transarmos. Sugeri um motel. Mas ela não podia ou não queria ceder logo no primeiro encontro. Não sei o que ocorre comigo. Gostei dela. Linda. Continuo com tesão e com desejo por ela. Mas as coisas se esfriam. Perco o entusiasmo rápido demais. Preciso ser motivado constantemente. Algo morreu em mim quando perdi meu amor. Não sei ao certo. Creio que sentimento também pode se atrofiar. Queria ligar para Sandra de novo. Queria sair com ela. Penso nisso. E por que diabos não faço isso? Não sei, não sei. A gente não morre quando se perde um grande amor. Entretanto sepultamos tantas coisas na mais profunda e sinistra cova de nosso coração. E isso nos muda. Ah, muda mesmo.
Escrito por Mauro Cassane às 14h59
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Sangue de Sofia
Gostava do cheiro de ferro exalado pelo sangue de Sofia. Aquele odor bruto, selvagem, me envolvia e causava estragos profundos em minha decência. Me entesava e me fazia passear entre a vida e a morte com ar de gozo. No início fiquei meio nauseado. Mas depois, aos poucos, senti que aquilo me dava um estranho prazer. Aquela insana mistura de fluídos me fascinava. O sangue escorria por aquela pele macia e brincava com o suor e as lágrimas. Fluídos de Sofia, malditos sejam todos eles, pois penetravam pelos meus poros, misturavam-se aos meus, e nos untávamos satanicamente com tudo aquilo de uma vez e com uma voracidade incompreensível. O sangue era o mais selvático e sinistro de seus inúmeros venenos. Suplantava os demais odores, e ria deles até com um certo escárnio. O ferro era preponderante, mas a composição era ainda rica em madeira crua, zinco, pétalas de jasmim, um pouco de folhas de laranjeira e terra molhada de tempestade. Era o sangue de Sofia que sentia em mim, no algodão de nosso abafado quarto, e pelo ar quase rarefeito daquele ambiente ao mesmo tempo inóspito e amável. Eu não conseguia entender aquilo que tanto poderia ser uma cerimônia sagrada como a completa sublevação de meus mais rebeldes sentidos. Eu falava. Ela gemia. Eu a beijava, ela me mordia. Os sons se confundiam. Parecia que eu ouvia Vivald, ou profanos poemas de Baudelaire. Sentia seu sangue correndo, vertendo, me inundando, mas continuava ali, frenético, alucinado, suado, febril. Não parava. Não sei explicar o porquê, nem sei ao certo descrever todos os momentos. O fato é que estava possuído por algo estranho. Violento, e vigoroso, como um selvagem. A trilha sonora “Quatro Estações” apenas soava em minha mente. As paredes do quarto se estreitavam, havia uma névoa, e num determinado momento, parei um pouco. Ela soluçava, me estendeu a mão esquerda. Agarrou meu braço, apertou com força. Parecia implorar por algo. Murmurou palavras desconexas. Dei-lhe a taça de vinho. Ela sorveu devagar. Primeiro molhou os lábios, depois tragou. Jogou a cabeça para trás, e expôs aquele lânguido pescoço esculpido pelos mais putos dos deuses do amor. Ali estava ele, doce, com suas fibras, a jugular pulsando, o peito estufando e cedendo compassadamente para buscar ar. Suava, estava lisa, e brilhante. Não resisti. Matei o restante do vinho. E a comprimi inteira em mim como se fosse estampá-la em meu corpo. Ela gemeu novamente. Lançou um suspiro. O cheiro de sangue era ainda mais forte e envenenava todo o ambiente. Sangue e vinho. Ferro e cabernet. Uma mistura de extraordinária sensualidade. Os anjos nos visitam nos derradeiros momentos da vida. Ou era apenas o cheiro de um fim iminente. Não sei ao certo. Sofia me deixava alucinado. Seu cheiro invertia minha lógica. A conduzi novamente, virei-a com delicadeza. Ela me lançou um olhar estranho, acho que de súplica. Não entendi. Poucos entendem o olhar feminino. Eu suava demais. Estava muito quente. A música me veio novamente. Ela agarrou-se com violência em mim, cravou as unhas nas minhas costas, apertou com força, senti dor. Filha da puta. Me escraviza ainda assim, tão sob meus domínios. Eis a inescrutável magia da mulher. Nos fazem sentir senhores quando somos apenas servos de seus caprichos. Iniciamos o ritual ainda mais selvagem. Agora sentia o sangue invadir e dominar todo o ambiente. O pescoço dela me seduzia. Eu o mordia. Ela gemia, e eu cravava os dentes com mais impetuosidade. Ela uivava e tentava se desvencilhar com carinho. Se contorcia, mordia os lábios. Se debatia um pouco, e se largava depois. Nada mais importava ali. O cio feminino. Ah, que magnífico deleite. Tudo aquilo fazendo o mundo perder importância. Enfim Sofia relaxa. Exaurida, deixou-se vencer. Suas fibras se amansam, solta-se mortalmente na cama. Sua respiração vai perdendo vigor. Eu assisto a tudo entre assombro e fulminante sensação de fraqueza. Como se minha alma estivesse se ajeitando novamente em meu corpo pusilânime. O silêncio chega devagar. Noto algumas luzes se esquivando pelas frestas da janela. As coisas parecem girar lentamente. Cerro os olhos por alguns minutos. Talvez por uma eternidade. Vivald novamente. Uma ilha, um campo, pássaros, elefantes, savana africana. Tudo assim, meio rápido, outras vezes demasiadamente lento. Árvores, montanha rochosas e uma longa estrada. Um pôr do sol ao contrário. Um canto gregoriano ao fundo. O som de um violão. E alguns acordes estranhos. Um apache me olha com um incrível luar projetando sua fantasmagórica sombra em minha direção. O odor de ferro me desconecta de meu delirante sonho. O sangue me devolve à cena do quarto fechado. Ao meu lado aquele corpo de bronze com suas curvas e desenhos. A toco com a ponta dos dedos. Está quente. Uma ternura incontrolável toma conta de mim. Faço carinhos. Ela está viva. Apenas dorme feito criança depois de incontáveis horas de travessura. Um anjo. Talvez mais. Uma deusa em seu repouso sagrado. A imensa mancha de sangue no lençol me devolve à realidade dos dias. Saio um pouco daquele mundo inebriante preservado pelas tênues paredes do apartamento. O amor estava me sufocando. Precisava tomar ar e ver a luz. Tomo um bom banho. Abro a janelinha do banheiro, respiro. O barulho dos carros me apresentam novamente a insensata vida urbana. O medo está ali, zunindo e faminto. Me apresso e volto ao opaco quarto. Adormeço atado a ela e novamente lambuzado naquele sangue cabernet. Não é bom amar assim. Dias antes ela havia me expulsado de sua casa. Mas tudo passa. Até a tpm.
Escrito por Mauro Cassane às 14h36
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