Cores Humanas


O principe encantado

Beatriz mora sozinha com seu filho de nove anos. Está com 32 anos, mas muitas vezes sente-se com 50, porém tem as feições de uma garotinha de 20. Não sai muito, ocupa as horas vagas cozendo, ajudando o garoto com as tarefas escolares e assistindo novelas. Seu príncipe encantado é um jovem ator que aparece na novela. Não gosta de ler, mas adora música, porém não escuta nem rádio, nem compra cd, nem porra nenhuma. Seu dinheiro é contado, sobra quase nada. Faz uma poupança. Sonha visitar alguma capital Nordestina. Quer conhecer o carnaval de Salvador. Mora num quarto e cozinha de fundos nos confins da Zona Leste, numa rua de terra com esgoto correndo pelas canaletas de erosão, quase no limite com outra cidade satélite de Sampa. Um lugar tão miserável e ordinário que lembra aquelas cidades dos antigos bang bang. Beatriz completou os estudos básicos, fez o colégio, estudou magistério e tudo mais e agora trabalha como ajudante numa metalúrgica que faz panelas. Não chegou a casar. Começou a namorar com 18 anos com Rodrigo, um sedutor moreno metido a malandro que, à época, tinha 28 anos e não deixava escapar nenhuma garotinha. Era o ídolo. O fodedor. E se gabava disso. Andava com seu Opala quatro portas brilhante, ostentando um som ensurdecedor, e vendia qualquer merda de droga para os garotos abastados dos bairros de classe média. Fazia uma boa grana com isso. Era forte, musculoso e, naturalmente, violento. Se divertia quando espancava os desafetos. Tinha um segredo inconfesso. Gostava de chupar pau de ricaços. Não fazia mais nada, apenas gostava de enfiar o pau de garotos ricos na boca e chupar. Não dava o cu, nem nada, e se insistissem descia a porrada. Só chupava. Havia seus fornecedores fixos. Muitas vezes ele oferecia cocaína àqueles que o deixassem curtir sua exótica fantasia secreta. E fazia isso bem longe de seu pedaço. Afinal era o macho, e não colocaria sua ilibada reputação em risco. Era um sujeito bruto, impaciente, mas extremamente zeloso com sua imagem. Engravidou Beatriz e fez de tudo para convencê-la a abortar. Ofereceu dinheiro e uma clínica de confiança. Nada feito. Ela não topou e o mandou à merda. Ele a esbofeteou, simulou um certo descontrole emocional para, com isso, esmurrá-la na barriga e acabar com aquilo tudo. Mas Beatriz, apesar de parecer frágil e tonta, segurou o braço de Rodrigo e o fulminou com um olhar avermelhado de puro ódio feminino: “olha aqui seu filho da puta, se eu perder meu filho com essa sua covardia do caralho eu te corto o pau e depois te mato. Se for me bater, é melhor me matar, senão é você que mato depois”. Ele não teve culhões. Deixou-a e nunca quis saber da criança. Beatriz criou o filho sozinha e não revelou a ele quem era seu pai. Mas os vizinhos diziam. Rodrigo morreu há um ano, ainda com fama de macho. Foi baleado no boteco do Nico, um alemão velho e rabugento. Morto pela irmã de um de seus clientes viciado que havia levado uma surra por não pagar pela droga. O corretivo foi exagerado e botou o rapaz aleijado. A menina menor de idade foi presa. E as coisas continuaram tranquilas.

Escrito por Mauro Cassane às 18h53
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continua...

Uma tarde Beatriz estava ali, na pequena área comum do cortiço, lavando roupa e jogando tudo na bacia. Seu filho na escola. O sol jogava luz apenas cinco metros acima de sua cabeça. Abaixo, entre emboloradas paredes dos sobrados vizinhos, a luz nunca chegava. Mas estava calor, umidade elevada, e Beatriz suada e com a barriga molhada com a água suja do tanque. Luizão se aproxima. Era o velho que morava no quarto e cozinha ao lado. Um homem forte, rústico, pele cinzenta, unhas amareladas e dentes pequenos e podres. Era pintor de parede, e vivia embriagado. Por isso nunca trabalhava e só fazia bicos para pagar pelas pingas. A comida era fácil, era só pedir. Cachaça ninguém dá, por isso batalhava seus trocados para garantir seus tragos diários. Morava sozinho, sessenta e oito anos, não fosse a cara sofrida e carcomida pelas rugas, o corpo esbelto e ainda musculoso o presenteava com uma certa virilidade jovial. Tinha filhos espalhados por aí. Não sustentava nem ligava pra nenhum. Chegou perto de Beatriz, lançou uma escarrada de lado, o cigarro balançando nos dedos e sendo filmado de soslaio por ela.

-         Vá pro seu canto, velho. Não vê que to fodida aqui com essas roupas. E não jogue essa fumaça fedorenta nas roupas do varal porra!!!

Luizão a amava. Voltou uns passos, sorrindo, de costas, apagou a metade do cigarro no muro e enfiou no bolso da calça. Abanou as mãos, ajeitou a camisa aberta, enfiou as mãos na larga e rota calça jeans que comprou no brechó, dois números maior que o seu de forma a lhe conferir uma silhueta ainda mais magra e, em dois saltos, a agarrou por trás. Seu pau era seu orgulho. Custava um pouco a ficar em pé, firme e duro, levava um tempo ainda maior quando se atrelava com a viúva Alzira, que morava no cortiço em frente com os três netos. Uma negrona banhuda de cinquenta e dois anos, com fartos cabelos em pé, brancos e fedorentos. Os netos vendiam maconha e davam a ela certo conforto. Dos seis filhos, apenas dois ainda estavam vivos. Mas na cadeia. Luizão fodia sempre com ela, e aproveitava para garantir seu prato de arroz e fritas ou bife, além de um baseadinho de brinde sempre depois de fazê-la gozar. Não era sempre que conseguia. Porém nunca deixava de tentar, se não com o pau, que muitas vezes não respondia a tão parcos encantos, certamente com seus calejados e imensos dedos. Alzira gostava, era ruidosa, gritava “Luizão, vem pra cá comer, véio safado”. A rotina, sempre a rotina. Mas agora estava ali o viril Luizão com o pau duro e pulsante, ainda guardado sob sua calça, dando pequenas estocadas na rígida bunda de Beatriz. “Pára, porra, você tá me vexando”.

-         Ah, sua putinha. A culpa é sua, você que me deixa assim.

-         Saiu daí, vá pra lá. Não vê que to ocupada. Porra!

Beatriz estava com sua encardida calça azul de moletón. Sempre lavava roupa com ela. A camiseta “Vote em Quércia” estava rasgada, aos trapos. Seus peitos eram rijos com bicos grandes. O choque do calor com a água fria faziam-nos ficar duros, arrepiados. Sentir um pau duro picando sua bunda também lhe dava agradáveis sensações. Fantasiava que ali, cheio de tesão, estava o galã da novela das oito. Era ele. Fechou os olhos por um momento. Era o seu momento. A torneira ligada. Largou a roupa, relaxou um pouco. Sentiu duas mãos firmes pegando suas ancas com alguma força. Beatriz respirou fundo, empinou um pouco mais seu glúteo de forma a oferecer a buceta ao seu ídolo da telinha. Era ele, lindo, jovem, de olhos brilhantes de um azul turquesa. Sim, estava então na Grécia. Podia ouvir as ondas do mediterrâneo. Porra, onde caralho é essa Grécia. Foda-se. Ela não se importaria agora com geografia. Sentia sua velha calça de moletón sendo delicadamente abaixada. Até os joelhos, depois levantou a perna esquerda e, em seguida, a direita. Estava livre daquela imunda calça velha. Sentia-se bem, flutuando. As duas mãos na fria água corrente que percorria sua barriga, formando, no transbordo, uma exuberante cachoeira com espuma e tudo. Sim, estava numa cachoeira. Podia até sentir a umidade das rochas com as mãos. Ela se arrepia ainda mais com o membro rígido de seu amor pressionando sua bunda. Beatriz abre as pernas, bem abertas, se debruça sobre a rocha, sente a água massageando seus cabelos, seu rosto se acomoda, sorri um pouco. Agora é possuída com ferocidade. Leva uns tapas na bunda. Dói, é uma mão pesada, áspera e bruta. Ela geme. Ele faz com mais ritmo, mais força. Aplica-lhe mais uns tapas fortes, ela grita e geme. Dor e tesão. Goza e recebe um jorro na bunda. Suas pernas amolecem. Se dobra. Vira-se e fica de cara com aquele pinto à meia força. Beija com carinho e abocanha tudo. Beija de novo. Lambe. Se abraça naquelas pernas grossas. Fica ali por um tempo. É o seu mais doce momento de ternura depois de tantos anos. Um minuto depois ele a desperta com um tranco. A põe de pé pelos cabelos.

- Caralho, muié, vem vindo gente. Se veste aí.

Luizão, arriba em segundos sua larga calça e a deixa firma com um nó no barbante. Beatriz fica um tempo ainda abobalhada, com seus castanhos olhos orbitando. Demora ainda um pouco mais a botar a calça. Luizão acha que estava tendo um ataque epilético. Dá-lhe uma forte bofetada. Ela cai para trás, bate a cabeça de raspão no tanque. Começa a sangrar. Mas ficou tudo bem. Apenas cinco pontos no pronto-socorro no dia seguinte. A vida continua no cortiço. Beatriz passou a se interessar ainda mais pela novela. E agora ela deu para chorar sempre que aparece aquele jovem ator com cara de estúpido. Sente saudade.     

 

 

 



Escrito por Mauro Cassane às 18h52
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Os comedores

 

Fernando me ligou logo cedo. Estava ansioso para falar do novo amor. O sujeito ama com uma impressionante facilidade. Minha insônia me tira o sono pela madrugada e se estende até as primeiras horas da manhã. Vou ter sono nas tardes que, no meu ponto de vista, é o melhor momento do dia pra dormir. Durante as manhãs é legal respirar, falar, produzir. Tem toda aquela brisa musicada pelos pássaros. A tarde, o bom é dormir. E a noite é para se perder por aí. Isso é o recomendável. Não o que faço. Perambulo nas tardes, e peno na noite. Raramente saio. Estou apenas me enclausurando. As fases humanas são como estilos musicais. Passei pelo jazz, samba, bolero, rock e agora estou nos blues. Melancolia pura, mas com um forte pulsar nervoso e insano com aquela vibrante alma negra e africana com seus balançantes espíritos solitários.

-         Cara, conheci a mulher de minha vida. – ele diz isso sempre com algumas variações silábicas, mas normalmente é isso mesmo. Já respondi coisas diferentes, mas há tempos resolvi padronizar as respostas.

-         Ahn, legal. Fico feliz por isso.

-         To falando sério. Agora é amor. Ela é meu número. Linda, inteligente, sensual. To apaixonado.

-         Você já comeu?

-         Hei, pára. Respeita. É coisa séria.

Bem, o resto é sempre o mesmo blá blá blá. Ele faz isso com todas. Diz que ama, e desconfio que ama mesmo, trepa uma, duas ou três vezes, depois já tem outras que ele conheceu em bares, internet, amigas de amigas, puteiros e por aí vai. É isso. Tenho inveja desse cara. Não por ele transar com tantas. Mas pela incrível capacidade de amar e deixar de amar. Tirando o exagerado Fernando, conheci diversas garotas e caras assim também. Amam, depois não amam mais. Bem normal, simples. Puro cotidiano sentimental. Como tudo nessa porra de vida, pra mim isso não funciona. Sou, mais uma vez, a exceção. E sempre sou exceção em coisas não tão positivas. Tento, mas nunca consigo deixar de refletir sobre o amor. Porém caminho, me esforço até, para nunca mais amar. Pessoas como eu, classificadas erroneamente de românticos, o nome que dou é tolo mesmo, que seja, não deveriam amar. O certo era os cientistas inventarem algo contra o amor. Já criaram a aids, mas isso não foi tão eficiente, pois não tem nada a ver com o amor. Queria filosofar mais sobre o assunto. Mas isso me irrita profundamente. Amar é fácil, difícil mesmo é deixar de amar. Esse é meu caso. Bati o olho naquela criatura brilhante, algo balançou em mim, gelou minha espinha, um aperto no peito, o estômago estremeceu. Caralho. Sintomas físicos do amor. Me fodi. Nesse negócio, pensando matematicamente, ou seja, com a cabeça dos caras que fazem estatísticas, é burro amar. Você se fode mais do que tira proveito desse sentimento. Não falo do amor entre pais e filhos e coisas do tipo, falo do óbvio e filho da puta amor entre sexos. Aquele amor diabólico que alguém deseja alguém pra ficar juntos. Talvez isso nem seja amor e convencionaram chamar de amor. Acho que é isso. Talvez amor seja mesmo só aquele lance lindo entre parentes e, algumas vezes, entre amigos. O resto poderia até ser chamado de satanismo. Porque é bom, ah sim, é bom. Dizem que o inferno é cheio de boas intenções.

Deus deve ter criado o tal amor entre parentes. E daí colocou o sagrado tesão nas pessoas. Pra rolar aquela gostosa trepada. Daí o filho da puta do sete peles foi lá e resolveu foder com tudo. Criou o tal sentimento que chamamos de amor. Sim, aquela coisa que une dois seres estranhos, diferentes, nada a ver, não parentes, numa porra de uma coisa só. Aí rola medos, intrigas, ciúmes, incompreensões, cobranças, traições, possessões e vem a inevitável ruptura. Bem, então é a vez da dor, trauma, angustia, depressão, saudade, solidão e estupidez. Shakespeare e Neruda que me desculpem, mas esse amor que eles descreveram com tanto lirismo é coisa demoníaca. Não pode ter sido criado por Deus. Apenas estou fazendo uma análise cristã. Ou nem tanto, pois a igreja tem a cara de pau de sacramentar o tal casamento e envolvê-lo com pompas sagradas e tudo mais. Caralho, pensando bem, igreja, deus, demônio, inferno e céu tá tudo no mesmo saco ou em nefasto conluio pra nos confundir ou foder mesmo.

Fernando desligou. Vai encontrar o novo amor nesta noite. Decerto vai trepar. Eu não vou encontrar ninguém. Não sei, mas desconfio que homem que come todas chega uma hora que fica com vontade de dar o cu também. Fico pensando nesses caras famosos, tipo astros de bandas de rock. Porra, os caras comem quem querem na hora que quiserem sem qualquer esforço. Homens sob holofotes atraem as mulheres. As fêmeas gostam. É algo primitivo. Na selva também é assim. Os machos que se destacam traçam mais fêmeas. No mundo dos homens é a mesma coisa. Então, voltando aos astros. Li numa revista idiota que um fulano aí, vocalista de uma dessas bandas da moda, já contabilizou mais de quinhentas garotas na cama dele. Como to com mania de fazer contas. Fiz uma estatística simples. Ele deve comer cinqüenta garotas diferentes por ano. Isso dá uma média de quase cinco por mês. Mais de uma por semana. Deve-se descontar aquelas que mereceram uma segunda foda. Bem, deve chegar uma hora que o sujeito fica afins de dar a bunda. É o que aconteceu com o Bono Vox, do U2. Tudo que é fácil perde a graça. Penso nisso por culpa desse salafrário de merda do Fernando. Mas é um bom sujeito. A gente nunca escolhe os melhores amigos e, infelizmente, também não escolhemos a quem amar. 



Escrito por Mauro Cassane às 12h19
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Eu vejo gente viva

Das grandes bobagens que dizem por aí, acho que vivencio agora uma das maiores. Eis que me vejo morto. Não é pesadelo, ou talvez o seja, tanto melhor seria se realmente fosse. O problema é que não consigo despertar. E também não me sinto tão agoniado como suporia se me visse mesmo morto. É curioso isso. Em meus pesadelos, quando conseguia me livrar da insônia, eu sempre despertava nos momentos de maior agonia. Agora não. E agora consigo me ver. Mas não estou assustado, nem desesperado. Apenas um tanto desconfortável, não me sinto muito bem vendo meu corpo ali, inerte, insolentemente apagado, meio com cara de tonto. Apático até. Os olhos fechados é um alento. Pareço dormindo. É uma maca. Ainda bem, não lembro de nada. Mas creio que devo ter pifado em um hospital. Tanto melhor. Seria vergonhoso morrer na rua, ou no trabalho, ou em casa. É engraçado, mas tudo é deveras confuso. Não vejo névoa alguma, nem anjos nem demônios. E sou curioso, olho para os lados, não tem nada. Um vazio. Ah, detalhe, há um chão. Nada parecido com o que, quando vivo, eu me habituara. Mas um piso apenas para eu ter a sensação espacial de estar de pé sobre algo maciço. Mas é incolor, porém não transparente. Esquisito. Sempre achei que a ausência de cor fosse a transparência. Mas não. E não tem nada de branco por aqui. Apenas sinto que apóio meus pés numa espécie de chão, meio leitoso, meio azulado. Bem, foda-se. Não há outra coisa a fazer senão apenas ficar me vendo. Pensei em sair, pois é meio deprimente ficar olhando nosso próprio cadáver, mas não tenho opções de ir a parte alguma. E venta um pouco aqui, é meio frio, não há uma sensação térmica desagradável, mas é meio frio. Também não sei se posso mesmo ir a outro lugar, ainda estou muito curioso com relação ao que caralho farão com meu corpo. Se bem que faço idéia. Todos fazem. Afinal é o que fazem com todo morto. No entanto, mesmo sabendo, por incontrolável curiosidade, vou permanecer por aqui. Deve fazer parte do processo. Se estou aqui é porque de uma forma ou de outra, cedo ou tarde, me conduzirão a outro lugar. Definitivamente não irei por minha própria conta. Vou aguardar. E se for pesadelo, hei de acordar. Se isso tudo for real, então faz parte da liturgia da morte assistir o fim da carne.

Pegaram meu corpo e o conduzem com displicência. Uma mulher descomunalmente forte o faz com tamanho desrespeito que me dá vontade de esbofeteá-la. Filha da puta. Mexe em mim com desaforo, como se eu fosse um saco de lixo. Nossa, ai, ai, ai. Me jogaram numa espécie de buraco de cimento. Mas que queda. Ah, não posso suportar isso. Que horrível. Como os humanos tratam seus semelhantes mortos é deplorável. Como é feio os bastidores da morte. E eu aqui, um lugar bem melhor que essa porra de hospital. E desfrutando de um agradável aroma cítrico. Esse perfume de laranja me perseguiu durante um tempo grande demais. Lembra a mulher que mais amei. Mas não posso pensar em amor agora. Descobri um lance interessante. Posso simplesmente não ver coisas desagradáveis. Que bom. Basta virar a cara. E há outras coisas pelas paredes. Telas imensas, muito parecidas com aquelas caríssimas de plasma, onde posso assistir coisas que se passaram em minha vida. Não pedi isso, e me oferecem, mas é divertido. Melhor que olhar praquela direção e ver os caras me rasgarem inteiro e arrancarem minhas entranhas como se eu fosse um saco de merda. Vou deixar os médicos me arruinarem o corpo, e esperar para a próxima etapa apenas assistindo esse longa metragem. Me parece mais interessante. Agora são diversas telas. Não sei direito em qual prestar atenção. Todas me chamam a atenção. Tem uma que estou com meus amigos, eu bem crianças. Porra, eu era uma figurinha. Há uma comigo já no ginásio. Que bundão. Olha só, um covarde com medo de todo mundo. Ah, uau, essa outra tela é mais tesuda. Minha primeira transa num camping com a gordinha da Marli. Olha, tinha me esquecido dessa garota. Onde diabos deve estar essa mulher agora? Viva ou morta? Sei lá. Nossa, como eu trepava mal. Porra, é mesmo. E era sem camisinha. Há cenas por todo canto. As telas se multiplicam. Começou com cinco ou seis imagens, agora são dezenas, ou centenas, sei lá. Todo canto tem algo. Que confusão. Não consigo me ater a uma, pois posso perder coisas legais em outras. Seja lá quem for que faz isso deveria, ao menos, ser um pouco mais organizado. Ou eles têm pressa? Não sei. A gente passa a vida sem saber das coisas e, na morte, continuamos a boiar tontamente feito garrafas velhas de plástico em enxurrada de chuva. Confesso que ainda tenho dúvida se realmente estou morto ou se isso não passa de um pesadelo. O melhor que tenho a fazer é deixar rolar. Sempre fiz assim, e o farei agora também. Vou assistindo o que dá. E me atenho por um tempo em cada tela. Trepadas, beijos, escola, cagadas, paraísos, agonias, medos, atos de bravura, bebedeira, trabalho, covardias, amor, mentiras, verdades. Hããã, isso deu certo! E, putz, essa foi uma grande cagada. A gente esquece de tudo. Olha lá, eu não deveria ter dito isso para a Jussara. Coitada. Nossa, meu fusca. Porra, olha só. Era meu sonho de carro. Queria tanto ter um carro e meu pai me ajudou a ter esse fuca bala vermelho. Meu pai era duro comigo, mas não reclamo. Adorava meu fuca. Eu o encerava todo final de semana. Era minha Ferrari. Depois, veja só, duas décadas depois eu cagava para carros. A gente muda. Que confusão. Isso tá me dando enjôo. Tenho vontade de vomitar, mas to com fome e sede. Não tem ninguém nesse lugar do caralho. Queria abaixar os volumes desses filmes, quando deixo de prestar atenção em uma tela fica um ruído intenso e insuportável com todos os sons mergulhando em minha mente. E se presto atenção em uma tela, ouço apenas o som dela. Bela e cruel tecnologia essa que me obriga a prestar atenção em uma das telas o tempo todo, sem descanso. Mas em vida também era assim. A gente se entende em meio ao caos das multidões, mas nunca pode relaxar completamente senão os ruídos te aporrinham.

 

 



Escrito por Mauro Cassane às 14h48
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continua...

Agora as multidões são compostas de vários eus. Todos se agitando, agindo e falando ao mesmo tempo. De certo modo isso tudo me tira a atenção do horripilante bastidor daquele hospital. Talvez a idéia fosse apenas me poupar de cenas que me fariam mal. A gente pode até ter consciência da morte, podemos até mesmo ser um espírito e tudo mais, mas nem assim é fácil ficar impassível diante da profanação de nossa carne que cuidamos com tanto zelo. Será que sou um espírito? Nunca acreditei muito nessas coisas. É verdade, sempre fui extremamente cético com isso. Porém, também nunca desdenhei. Então, se isso existe mesmo, creio que não mereço um castigo. Nesse tema permaneci criteriosamente em cima do muro. Não tinha conhecimento científico suficiente para ter uma opinião a respeito. Tampouco sabia muito bem sobre essas coisas de espírito. Nunca fui a centros de umbanda, ou fiz qualquer estudo espírita, nem me aprofundei em qualquer teoria da metafísica. Pra ser bem sincero, sempre achei tudo isso uma grande baboseira e perda de tempo.  Provavelmente me interesse agora, que estou morto. De fato, agora sim, é um bom momento pra pensar a respeito. Creio que não haja hora mais apropriada de se pensar na tal vida após a morte do que nesse exato momento em que já estamos no pós-morte. Penso nisso e levo a mão esquerda ao pau. Um gesto feito de maneira automática, apenas para constatar se meu cacete ainda estava lá. E estava. Vou mudar um pouco o tempo verbal. Pois agora mudo um pouco o estilo da prosa. Não há estranheza nisso. Apenas me ocorreu algo instantaneamente a creio que já sei de tudo. Posso, claro, antecipar. E se for falso também não tenho nada a perder, pois nunca tive compromisso com a verdade enquanto escrevia. Passou alguém por aqui, um ser bem simpático até, com todo jeito de um humano mesmo, nada de anjo ou criatura feia com foice e tudo mais, nada disso. Um cara. Apenas com uma feição meio assustadora, pois era branco demais, meio andrógino, e me disse: “você é um espírito de boa luz, apenas aguarde”. Frase curta não? Tudo bem. Não me senti mal por isso. Ele sorriu, foi simpático, e aqui tudo cheira bem. As telas continuavam. E agora sei que não preciso ter pressa em ver todas. Pois elas se repetem também. Não há razão para pressa alguma. Não sei muita coisa. Mas se tudo isso não for uma grande armação para meu lado, se não me foderam e me drogaram e estão me fazendo passar por uma situação kafkana, estou oficialmente morto. Aprendi a desconfiar de tudo. Voltando ao pau, sim ele permanece no lugar. Bolinei-o um pouco, como fazia em vida, e ele fica duro. Tanto melhor, fiquei bem mais tranqüilo. Então, primeiro relato de um recém desencarnado, me sinto ainda bem humano. Bonito, saudável, e com tesão. Só não me masturbei porque estava deveras distraído com aquelas telas todas passando freneticamente imagens de minha vida. Algumas me pareciam autênticos filmes de foda sempre comigo como ator principal e mereciam uma punheta. Mas não havia tempo para tão saboroso prazer. Deixei para depois. Essa coisa de se ver não interessa a ninguém senão a si mesmo. É como álbum de fotografia ou vídeo caseiro. Só interessa a quem participou. Por isso sempre odiei mostrar fotos minhas a amigos, e não o fazia nem por insistência. Muitas vezes as pessoas pedem pra ver mas só por educação. Ninguém se interessa por ninguém. A menos que você tenha imagens fodidas de alguma sacanagem ou flagrante. Aí sim. Nesse caso, diante da sujeira humana, o interesse é imenso. As pessoas gostam mesmo de ver merda. Fiquei meio entediado com essas imagens todas e com meus pensamentos. Me volto à algo que havia esquecido por um tempo. Aliás, outra curiosidade deste mundo estranho, ou dessa dimensão pouco conhecida, aqui não temos a menor noção do tempo. Apenas um detalhe. Há outros, diversos mesmo. Mas não vou relatá-los. Não por contrato ou promessa, não firmei compromisso com ninguém, mas por sacanagem mesmo. Oras, quem quiser saber tudo que morra. Aqui ninguém conta nada. É igual na prisão, onde os bandidos não falam de seus crimes. Aqui ninguém comenta como morreu. Outra curiosidade: não sabia desse poder adquirido, mas estou usando um sujeito para escrever tudo isso. O cara tá meio à toa, pensando em escrever um e.mail para sua amada que o abandonou, e eu me vali dessa fraqueza momentânea, tomei o corpo dele emprestado, e to aqui escrevendo. Não, queria fazer uma correção. Não tomei o corpo do cara, apenas as duas mãos. Ele é ele mesmo, não eu. Dá pra fazer isso. Porra, sério, dá pra fazer uma porrada de coisas legais aqui. Inclusive vi Sofia tomando banho. Tesuda ela. Onde eu estava mesmo? Essa é a merda. A confusão. Ah, sim. Queria voltar a me ver. Estava curioso sobre o andamento dos últimos dias de meu corpo entre os vivos. A gente simplesmente tem que mentalizar isso e, com algum esforço e concentração, a coisa funciona como se gente tivesse um controle remoto em mãos. Pluft. Vem a imagem. Sintonizo em meu velório. Que babaquice. Falei mil vezes para não fazerem isso. E lá estou eu, numa porra de um caixão, com flores e tudo mais. Filhos da puta. Ainda bem que não sinto o miserável cheiro de flores mortas. Há uma porção de gente ali. Ah, muitos choram copiosamente, outros fazem piadas e outros ficam com uma pálida cara triste apenas porque isso é educadamente correto em enterros. Noto tudo isso com estarrecedora facilidade. Tudo muito interessante. Não tenho raiva dos que cochicham impropérios a meu respeito. Não ligo muito pra nada. Queria somente arrumar um meio de dar um alô a meus filhos, dizer que tá tudo bem. Que é legal aqui e tudo mais. Não sei também como se faz isso. Mas me parece que, uma vez aqui, tudo é possível. Basta querer. Ainda sou muito novato. E não sei se tudo é assim tão legal.

 

 



Escrito por Mauro Cassane às 14h47
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continua...

Desculpe, oh dedos emprestados, mas vou utilizá-los por mais alguns segundos. Estão me chamando, não sei quem é, e soa a coisa boa. No mínimo é outra putaria. Não contei sobre isso, e disso não contarei, pois sobre isso, empenhei minha palavra de manter algum sigilo. Talvez eu tenha que parar de escrever. Deixo registrado que odiei ser velado. Não que isso me faça mal, nem tampouco vou ficar puto por muito tempo, realmente não estou. Mas eu pedi tanto para não rolar essa porra de velório que eu teria vergonha. Pensando bem, não senti vergonha alguma. Fiquei o tempo todo assistindo meus filhos. Perto deles. Queria dizer a eles que tá tudo bem. Como? Não sei. O vento, ah sim, o vento. Bom condutor. E se eu soprasse algo a eles? Tentei sem achar que daria certo. Mas deu. Os cabelos dela flutuaram um pouco com uma brisa suave, e os dele também. Ela sorriu. Que lindo sorriso. Me arrepiei. Ele a abraçou, e os dois caíram na gargalhada. Sem parar. Ah, que legal. Meus filhos sorrindo entre lágrimas de felicidade que, sério isso, têm um sabor de licor. Também não vou me estender para explicar como caralho consigo sentir o gosto das lágrimas. Acho que entenderam. Me sinto bem. Deu certo. Deus existe? Ainda não sei. Talvez não tenha como saber. Mas prefiro acreditar que meus filhos sentiram meu sopro, que receberam minha mensagem. Se deu certo com eles, imaginei que pudesse dar certo com os demais ali presente. Enchi o peito de ar. Fiz o máximo de esforço que pude, estufei bem, fiquei vermelho, as bochechas inchadas, tomei um puta fôlego, e vrummmm, soprei com tudo. Depois tossi pra caralho. Me recompus com alguma dificuldade e fui olhar o resultado. Que interessante. Virou uma comédia. Os coveiros confusos e atônitos, o pároco intrigado com aquilo. Parecia uma contaminação demoníaca. Todos rindo alucinadamente. Meus amigos deixaram a porra do caixão desabar no chão pois perderam a força com o acesso de riso. Se dobravam de rir. Choravam e passavam mal. Eu ri também. Que delicioso séqüito de loucos. O caixão no chão, meio rachado, e a turma o pegou rindo. Do racho vazavam pétalas murchas formando um engraçado rastro que tornava tudo aquilo ainda mais hilário. "Porra, um caixão com vazamento", repetia jocosamente o velho Vince. Sim, apenas os mais chegados riam. Os outros ainda mantinham um discreto desconforto na face cheia de interrogações medíocres diante do inusitado. Muito bom. Seguiram em frente. Os coveiros se contaminam com isso. E receberam o caixão sorrindo. Brincando. Os piadistas de plantão estavam lá, e riam também. Até o sisudo padre, sei lá quem o chamou, e nunca nem o vi em vida, acabou gaguejando e gargalhando antes de proferir seu ensebado discurso. Um belo réquiem. Me senti bem pra caralho. Nunca imaginei um enterro assim. E consegui isso com um puta sopro que quase me matou. Ah, desculpe, isso não foi piada. Mas aqui há essa sensação de quase morrer. Bom, é isso. Ocupei demais os preciosos dedos desse sujeito gentil. Agora vou deixá-lo escrever à sua amada que o deixou. Mas se eu pudesse, ah se eu pudesse, eu o aconselharia a não perder tanto tempo com isso. Quem ama não deixa, mesmo quando deixa. Dá pra entender isso? Não me importo. Há tantas coisas legais a fazer antes de morrer. E a gente só enxerga tudo isso depois de morto. Meu pau ficou duro. Só para constar, rola muito sexo por aqui. E ninguém usa camisinha. O foda é que nunca temos certeza de nada. Há fumaça, acho que é isso que o cinema sempre quis mostrar. Sabe, aquela névoa? Pois é, é maconha. A galera aqui fuma muito. Não sei de onde vem a erva. Mas tem de sobra. Não falta vinho dos bons. Vira e mexe ficou intrigado com tudo isso. Não sei se estou sonhando, fumando demais ou se morri mesmo. De qualquer forma, estou curtindo. E transo diversas vezes com quem eu sempre quis. Acho que fui pro céu.   

 



Escrito por Mauro Cassane às 14h46
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