 |
|
|
Meu feriado
Acordei cedo hoje, apenas para ver esse dia especial, apenas para senti-lo na pele. Apenas para lembrar que havia acordado exatamente assim, e sozinho, no ano passado. Acordei assim, tão cedo, apenas para pensar naquela criatura brilhante. Naqueles olhos tão indecentes e angelicais, nas caminhadas loucas onde percorríamos ruas escuras, e nos perdíamos de carro, muitas vezes apenas porque eu queria mesmo me perder com ela. Quando procuramos a avenida Santo Amaro, e eu feliz por não achar, por não saber nada dessa São Paulo mesmo sem nunca ter saído daqui. Mas sempre me perco com ela, pois não sei os caminhos a seguir. Apenas quero ficar ali, ao lado dela, ao lado de um anjo. Não é sempre que encontramos um anjo. Assim, tão puro, filha de um grande deus, aquele que faz o mundo girar, que nos esfria do calor, que traz as tempestades e leva as sementes para outras florestas e deixa os campos tão verdes e balança a juba do leão. Sim, filha desse deus tão poderoso, eu a amo ainda sem mesmo uma razão real para isso. Mas hoje é um dia onde a manhã foi úmida, havia lágriamas que gotejavam do céu um tanto triste por ela não estar ao meu lado. Porém senti aquele cheiro cítrico ao passar por uma banca de frutas, toquei um pêssego com carinho, e eis que ali também havia a ternura de tempos que nunca voltam, mas de certo outros tempos há de vir, e outros ainda, e sei que a terei em meus braços, ainda a beijarei com amor. Sim, hoje acordei pensando nela, e ontem adormeci em lembranças tão loucas e fascinantes, nas nossas incursões mágicas pelas montanhas tão cheias de rochas silenciosas e misteriosas, quando ela percorria tudo aquilo na escuridão, sob chuva, apenas para me trazer um vinho. Que linda criatura, filha divina dos uivantes gritos da natureza. Hoje é o mágico dia 26 desse sagitariano novembro. Meu feriado pessoal. O dia que o mundo simplesmente pára e eu sinto o vento me fazer um carinho de maça. Te amo, sim, te amo.
Escrito por Mauro Cassane às 11h06
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Pão, pecados e o Verão
Fiquei a manhã inteira amassando massa para fazer pão. Esse ritual me deixa bem. Gosto de cozinhar e muitas vezes acerto. Não sigo receitas, o tesão é criar coisas interessantes misturando sabores e especiarias. O foda é que nunca sei repetir um prato que sai legal. Vai na sorte. Se acertar, bem. Se errar, tudo bem também, pois não vou conseguir nunca repetir o erro. O pão não deu certo. Virou uma massa disforme e petrificada depois que saiu do forno. Mas me dei por satisfeito por desfrutar desta experiência. Tive a oportunidade de curtir um momento onde me concentrei somente no pão e em mais nada. Nem amores, nem viagens, nem grana, nem porra alguma. Era eu e a massa. Ela se movimenta, vai se contorcendo, meio viva, meio morta, e querendo me dizer coisas. Como é bom isso de simplesmente não pensar em nada. O resto do dia perambulei por aí. É realmente dignificante para o homem essa sensação de vagabundo remunerado. Ganhar algum dinheiro fazendo pequenos serviços que demande quase nenhum esforço. E tem outra vantagem. Normalmente ficamos sozinhos. Eu gosto. Me sinto bem. Nunca fui de andar em grupo. Acho que não me encaixo. E também penso que, em grupo, a gente se torna ainda mais solitário. A massa nos sufoca, nos oprime, e nos tolhe. Nunca há total liberdade quando você se junta com mais alguém, seja amigo, amante ou qualquer outra merda. É sempre assim.
A tarde estava excessivamente quente, úmida e melada. O suor escorre, ficamos letárgicos, a calça gruda nas pernas, e tudo fica muito pesado. Meu compromisso era para depois das cinco horas. Uma coletiva de imprensa de um importador de sorvetes premium. Esses caros e gostosos pra caralho. Isso sim que se pode chamar de vida mansa. Meu trabalho consistia apenas na entrega de um artigo sobre o tal novo sabor oriundo da Suíça. Ah, que beleza. Uma da tarde, comi em casa mesmo e sai andando por aí. Melhor seria se estivesse de bermuda num calçadão de praia. O litoral fica perto, quarenta e cinco minutos de carro, mas a gente nunca tem saco pra ir até lá só pra ver o mar. E a perifa anda chic e bem vestida, os bares limpos e modernos e há mulheres por todo lado no Verão. Lânguidas e tesudas com suas coxas e peitos à mostra. Uma amiga me dizia que paulistano é babaca por ficar olhando garotas de mini saia. Bem, sou um desses estúpidos babacas então. É muito bom ver uma mulher em parcimoniosa indumentária. Muitas vezes fico até excitado, em outras, geralmente diante de fêmeas que esbanjam libido, me dá vontade de mandar a boa educação à merda e disparar qualquer impropério. Nunca fui muito crente nesse lance de que cada povo tem lá suas características. Tenho sérias dúvidas quanto a isso. Não entendo quando alguém diz: “paulistano é assim ou assado”, “carioca tem esse jeito”, “isso é coisa de mineiro”, “ah, bem típico de baiano”. Vai à merda. Que besteira. Ser humano é igual em qualquer lugar do mundo. No Rio, em Paris, Tóquio ou Havana. Tirando algumas coisas essencialmente culturais e econômicas, o resto é tudo igual. Ou um cubano, por viver com o rabo salgado do mar, nem se importa em ver um belo par de coxas? Ou será que os cariocas agem diante de uma vibrante bunda e barriguinha à mostra com peitos empinados com a naturalidade de um ginecologista? Que balela. Agimos por impulso. É inerente ao ser humano e isso quem nos deu foi a natureza sem discriminação de raça, credo, cor ou ambiente geográfico. Acho que minha amiga estava errada. Mas ela fazia parte desse seleto grupo de gostosas que, no Verão, se tornavam atração. A mulher adora ser reparada por homens que lhes interessam, mas ficam tiriricas da vida quando, na mesma condição, chamam a atenção dos pobres coitados. São cruelmente preconceituosas. Penso em tudo isso caminhando pelas ruas estreitas do lado mais nobre da Zona Leste. Paro na igreja Nossa Senhora alguma coisa. Nunca sei o nome. Entro, faço o sinal da cruz e penso em rezar um pouco. Na verdade, apenas trocar uma idéia com Deus. Jogar conversa fora. Mas tem uma dessas espécimes ali, ajoelhada, com uma bunda arqueada e bem desenhada. Porra, é foda isso, não dá nem para ser um pouco cristão no Verão. A blusinha se interrompe a um dedo da saia, e fica aquele tênue filete de pele dourada, lisa e fresca à mostra. Há uma música sacra deliciosa, um canto gregoriano e isso me inspira e me excita. E aquela diaba ajoelhada, rigidamente empinada, os peitos eretos, uma cintura de bailarina. Não consegui me mover. Fiquei ali, em meu doce momento de babaca, apenas apreciando aquele belo exemplar da raça humana. Claro, pedi perdão a Deus. E acho que ele me entendeu. Ou não. A gente nunca sabe. Mas me imaginei abraçando aquela linda mulher por trás, beijando e mordiscando aquele pescoço alvo e sereno, segurando com as duas mãos aqueles peitos vigorosos e até indecentes por serem tão protuberantes e vivos, parecendo sedentos por sexo. E a bunda? Incrível. A imagem em minha mente era apenas essa. Eu grudado naquela diabólica criatura, ergueria sua saia de seda vermelha, puxaria sua calcinha branca para o lado, e transaria ali mesmo com ela. Porém, naquela minha infame e instantânea fantasia, ela permaneceria naquela posição: de joelhos, orando, talvez pedindo perdão também, ou quem sabe, agradecendo aquela inesperada dádiva, soltando pequenos e surdos gemidos.
Escrito por Mauro Cassane às 15h24
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
continua...
Tanto pensamento impuro me deu até calafrios. Olhei para os lados, não vi ninguém, apenas o vidro de água benta. Fui até ele, toquei o dedo no buraco, e passei as gotinhas na testa, no pescoço. Refrescante. Que pecador eu sou. Mas agora um pecador benzido. Me acalmei um pouco. A puta permanecia rezando. Que porra de mulher era aquela que ficava ajoelhada assim numa igreja por tanto tempo. Na certa queria mesmo foder com a vida dos outros. Minha fé é inabalável. Me distanciei. Fui para mais perto do altar. Não gosto de ficar muito perto das imagens dos santos, pois vou à igreja para me sentir sozinho. E quando me aproximo demais das imagens me sinto vigiado. Aqueles olhos todos parecem sempre reprovar o que fazemos. Uma merda. Mas no fundo havia a vaca gostosa ajoelhada. No meio umas velhotas beatas rezando freneticamente e isso me irrita e penso besteiras também. Tenho vontade de dar com um candelabro naquelas miseráveis cabeças empoeiradas. Odeio barulho. E me irritei com a igreja também. Sai, mas antes de chegar no fundo da igreja para alcançar a rua, a porra daquela diaba se levantou. E em pé ela se mostrou ainda mais perfeita. Mais linda e insinuante. Parecia mesmo a imagem da besta provocando os fiéis. Mas eu sou um cara civilizado e, além de tudo, buscava um comportamento mais zen. E também disfarço bem. Fingi indiferença, assim mesmo, como fazem os europeus. Fingem que não notam nada. O problema é que eu não passei despercebido. Ela me olhou, e me lançou um daqueles estranhos olhares pidões. Me aproximei com cara de solícito. Ela me perguntou qual a estação mais próxima do metrô. Não é de meu feitio, nem sei ao certo como fiz aquilo, talvez por puro milagre, indiquei a ela onde ficava a estação mas fiz um gracejo qualquer. Se bem me lembro foi algo assim: “bem, então agora acho que vou conseguir rezar um pouco, pois não estava conseguindo, só pensava em você”. Sim, um comentário tão idiota quanto inoportuno. Reconheço isso. Mas colou. Aliás, inegavelmente, coisas idiotas sempre colam. Na semana seguinte saímos. E daí entendi, depois de uma noite de sexo sem freios, porque a danada rezava tanto. Só não consegui realizar minha grande fantasia com ela. Até tentei, mas ela ficou escandalizada e me passou um sermão veemente. Há tempos não a vejo. Agora estou tentando fazer um singelo bolo de fubá. Gosto mesmo de botar a mão na massa.
Escrito por Mauro Cassane às 15h23
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Uma augusta caminhada
Os submundos, ah soberbos e tão poéticos e eu tão indiferente a tudo isso, tão ausente em uma opção ou apenas um passageiro tímido, talvez um estrangeiro, que nada faz além de observar. Caminhei pela Augusta na suave noite de quinta-feira com a luz silenciosa da grande lua esverdeada, ali brilhante e soturnamente quieta, apenas balançando minha sombra pelas calçadas ocres. Desci pela Paulista e fui andando, com aqueles excêntricos odores dos bruxos pulverizados em cantos obscuros. As bichas fumando e a fila das salas de cinema cheias. Os alternativos ali, todos eles coloridos ou escuros demais. São as tribos tão endêmicas a Sampa, mas há os que são unicamente reproduções de outras cópias que, por sua vez, imitam outros de velhos tempos que também fizeram o mesmo. Um processo melancólico e contínuo. Bel segura minha mão para atravessar as ruas congestionadas, e ficamos assim, gostosamente atados por um tempo, em nossas contemplações humanas. Mas não temos nada além de boa amizade e um ligeiro tesão quando perdemos um pouco os alicerces da mente. A velha Augusta me traz recordações. Uma noite, no carro, Sofia me beijou loucamente e nem nos importamos com ninguém. Ela me disse “amo simplesmente ficar ao seu lado”. Eu acreditei, pensei que fosse eterno. Era verdade em partes. Mas nada é perene, nem a vida, nem tampouco a morte. O que é bom a gente quer prolongar ao máximo. E o ruim pensamos em finalizar na maior brevidade possível. E é o contrário o que realmente acontece. Passamos em frente ao Sarajevo, uma casa estranha, com boa música. Ela quis entrar. Eu sabia. Não gosto de certos imprevistos, e há dias que sou avesso à mudanças de planos. Queria apenas continuar andando até o centrão, ver as putas, passar pelo Itália, e ir até a República. Era o que eu desejava, porém acho que nada disse a ela. Bem, e também não estava para discussões. Entramos. Um imbecil sempre ronda por lá. Lisamente careca com uma cara ignóbil e coberto de tatuagens. Não sei ao certo, mas creio que seja o dono daquela semi-agradável espelunca subterrânea. Bel gosta, admira o sujeito escroto, mas não o conhece. Talvez já tenha fantasiado alguma foda com ele. Sei lá. Muitas vezes as mulheres se encantam com esses tipos. Pedimos cerveja. O lugar não tinha mais que trinta dramáticas almas estranhas. Sentamos num canto qualquer no fundo e uma banda se preparava para tocar. Esqueléticos músicos com seus cabelos rigorosamente desgrenhados e suas barbas bem cuidadas e suas roupas escolhidas a dedo para passar uma mensagem o mais desleixada possível. Tudo assim meio previsível e padrão. O mundo é assim mesmo. As pessoas cuidam para se exibir ou se encaixar em algum grupo ou tribo ou sei lá o que. Bel buscou mais duas cervejas. Sorvemos. E eu busquei mais duas. Daí me dá asco das substâncias da cerveja. Fica um gosto leitoso e nojento. Não tinha cachaça. Só cerveja e uísque e energéticos com vodca. Nada de vinho. A banda toca. São bons. Gosto do som. As pessoas entram em transe, como contaminadas ou tocadas em suas mais íntimas e miseráveis e reprimidas vontades. Não dá pra dançar freneticamente como em boates. Mas as garotas se mexem fazendo uma coreografia desconexa e esquisita. Mulheres sempre dão um jeito de fazer isso sob qualquer tipo de som. Os homens, via de regra, não. Somos bárbaros. Mulher sim tem o dom da dança. É lindo. São capazes de dançar divinamente até mesmo ao som de uma britadeira. Os acordes me animaram, e fui demovido da idéia de dar o fora dali. Acho que a namorada de um dos caras da banda, uma branquela linda e com uma bunda incrível, vez por outra, lançava um olhar pra mim. Olhos castanhos escuros. Um rosto suavizado com traços finos e enaltecido com um batom escuro e me parecia triste com seu amor. Havia frustrações naquele rosto meio mágico. Acho que estava com o trompetista e o sujeito tocava muito bem mas não dava a mínima pra ela. Além de tudo o cara era bonito, do tipo que realmente chama a atenção das garotas. E certamente muitas ali transariam fácil com ele. Por isso mesmo não levei muita fé que aquela delicada criatura pudesse ter me dado alguma bola. Não há como competir com um cara apolíneo e, ainda por cima, num palco. E eu ali, sentado, careca, distante, jeans e camiseta, meio rústico e com minha eterna cara de tio bêbado. Aos quarenta anos ficamos assim, vamos perdendo graça e formosura. Eu não me importo. Gosto de ser assim. Nunca fui popular com garotas, e prefiro isso mesmo. Os caras começaram a tocar um jazz contagiante, o bacana do trompete era virtuoso nas notas, firme, e levava a banda ao paroxismo e as pessoas, garotas principalmente, à loucura. Genial. Um sujeito realmente de destaque e que agrada às fêmeas. Mas a sua fêmea me olhava agora com alguma insistência. Sou meio boçal com essas coisas. Não sei abordar ninguém. Tenho vergonha. E acho meio idiota um homem chegar numa mulher e puxar assunto. Não sei o que fazer nem como agir. A contra-gosto me levantei e fui buscar algo pra beber, para me distrair um pouco e desencanar daquele flerte postiço e improvável. Uísque mesmo. Foda-se. Fui até o bar. Claro que a moça não me acompanhou. Não é como em filmes onde a garotinha vai atrás do cara charmoso e dá um fone ou os dois transam escondidos no banheiro. Voltei com o copo cheio. Bel deu uma golada descomunal, levantou-se e foi direto em direção a um tipo estranho que estava em pé a uns três metros da gente. Chegou lá e beijou o cara com volúpia. E se atracaram. Fiquei aliviado, pois o cara era feio. A gente se sente bem quando nos vemos fisicamente melhores que outros. Caralho, que grande bobagem. Me surpreendi com Bel. O que mulher faz com algumas doses a mais. Isso sim é atitude. A banda parou a performance. As pessoas se desagruparam. O trompetista suado desceu e beijou sua garota. Ela ainda lançou mais um olhar profundo pra mim e me enviou seu derradeiro sorriso quando saia abraçada com o cara. Acho que tirou uma da minha cara. Sei lá. Mas me pareceu tão meiga. Permaneci sentado, lambendo as últimas gotas de gelo com gosto de uísque. De qualquer forma esperei Bel por mais uma hora. Ela havia sumido com o tal cara. Mulheres se agrupavam ao meu redor. Feias, gordas e bonitas. Umas nos olham, outras apenas querem ser olhadas. Bel voltou antes de minha disposição em buscar uma segunda dose. Caímos fora. A levei pra casa. Ela me convidou pra entrar. Acho que queria uma noite de sexo para terminar o que começou. Não topei. Ela quis saber se eu havia ficado chateado com o lance da boate. Eu disse que sim. Mas fui um sacana. Menti. Nem me importei. Ela me escreveu uma carta imensa justificando tudo e me dizendo que só ficaram mesmo nos beijos e que estava bêbada e blá blá blá. E eu nem me lembrava mais daquela noite. Nem mesmo da garota do trompetista. Estava pensando no olhar brilhante de Sofia. E numa noite em que andamos por toda a Augusta e não conseguimos encontrar esse maldito bar.
Escrito por Mauro Cassane às 10h42
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Beth, Beth. Porra, só pode ter ido embora de novo. Ali estão suas coisas. O notebook brando da Aple no canto do quarto. Ainda aberto, mas apagado. Ela passou por aqui. Beth, Beth, puta merda. Por que sempre foges de mim? Pergunto pra quem? Devo estar louco. É um delírio. O sofa continua encardido e azul, a cama grande mas o colchão tão estreito porém abrigava sempre nós dois nos obrigando a dormir atados. Beth, Beth, volta logo. O bule tá na boca do fogão, mas tá frio. A pia tem louças sujas, duas taças com restos de vinho sobre a mesa. O candelabro, foi eu quem deu a a ela. Os cds do Ben Harper, ela já tinha, mas tocava pra mim. Beth, Beth. Hei, a estante de grossa madeira e a pequena tv tá ali ainda. Os índios pelas paredes, e seus selvagens cavalos. Há uma cadeira de balanço coberta por uma seda em tom vinho. Tem pimenta no armário, eu fiz, eu fiz. Beth, a luz tá fraca, vamos embora. A mala é grossa, grande e negra. Tudo ali dentro, menos eu, menos eu. Ela vai partir, e as pessoas que partem é pra sempre. Ninguém nunca volta, de uma maneira ou de outra, nunca tem retorno. Não fica igual. Nada fica igual. Beth, Beth, não vá. Por que não fica? Sim, precisa mesmo ir? Seu box tá quebrado, mas eu não me importo. Gosto de usar sua escova de dentes pra sentir sua saliva doce. Beth, você me ama? Não devemos perguntar isso a essa hora. Aliás não se pergunta nunca isso. Há uma fêmea que me deseja, há vários machos que a querem. Todos tão mais lindos e melhores que eu. Escrevi em alguns lugares eu te amo. Acho que num pedaço de couro também. Talvez chora, preciso cuidar de ti em sua ausência. Mas sentirei saudade. Porém você em breve me esquecerá. A gente sempre esquece. Porque diabos não consigo te esquecer. Volte logo. Ah, sim, ia me esquecendo, cuido de suas coisas. Mas te devolvo tudo intacto, apenas com um bilhete dentro, mal escrito, meio trêmulo, coisa da doentia saudade, apenas dizendo o que você já tanto sabe, "eu te amo". Eu sei, não vai voltar. Sempre tem outros por aí. Os lugares são tão lindos de se ver. Viajar é bom. Mas penso em ti sempre. Talvez consiga esquecer de alguma coisa. Queria saber do que. Sua voz ainda habita meus sentidos, seu cheiro me faz voltar às terras distantes das montanhas rochosas. Beth, hei Beth, você não sabe, mas eu não consigo deixar de te amar. Mas preciso transar com algumas mulheres. Ou apenas com aquela puta barata. Minha grana acabou. E não consigo mijar com aquele viado me olhando. No cinema a gente se divertiu muito, e te beijei pela primeira vez, apenas na ponta de seu dedo indicador. Beth, Beth, naquela velha e solidária cama de solteiro do hotel. Ali sim você me beijou com um prelúdio de seu amor. Sei que não se lembra mais de mim, mas também sei que nunca mais me esquecerá.
Escrito por Mauro Cassane às 01h07
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Eu a encontrei um dia. Ainda brilhava, e seu sorriso me fascinava da mesma forma como daquela primeira vez no fim do último grande Verão de minha vida. Senti seu cheiro de forma dissimulada, toquei suas mãos com obséquio e respeito, senti a pele de seu rosto com a licença de uma santa. Mas não a beijei, nem poderia. Apenas um abraço. E uma partida mais morrida. Logo veio a noite. E outras manhãs surgiram vazias. Mas eu a encontrei um dia.
Escrito por Mauro Cassane às 22h13
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
 |
| [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |


|
 |