Cores Humanas


Trabalho e família

Falavam sobre espíritos. O assunto era inapropriado, mas foi o que se pôde desenrolar naquela tarde de sábado. O churrasco abundava abandonado numa travessa entre moscas esverdeadas e um prato de farinha com pequenos e perdidos nacos de gordura torrada. Calor, pagode e, com os excessos de álcool aviltando a razão, alguém aumentou o volume a ponto de tornar o ambiente inabitável. Veio o funk com todo aquele prosaico vocabulário e suas estrofes repetidas à exaustão. Bel não parava de se mexer, parecia possuída. Raquel, fazendo tipo tímido, no canto, permanecia romanticamente abraçada com Henrique e comenta.

-         Ela recebe espíritos. – A batida é monótona, e a vocalista apenas reproduz alguns gemidos e diz, num insistente refrão, com a naturalidade que se pede um copo de água, “a porra da buceta é minha, e eu dou a quem quiser”. Henrique freqüentava a igreja aos domingos, tinha duas filhas adolescentes, e nunca antes havia ouvido algo semelhante a isso.

-         Isso é coisa do diabo. – ele diz, balançando a cabeça, pressionando os secos lábios e esboçando um certo olhar furioso de reprovação.

Raquel o beija, com a mão acaricia seu abdômen. Henrique dá as costas à libidinosa dança, e aproveita seu raro momento de prazer. Mas Raquel pára novamente. Bel continua dançando. O funk ali, debochado, frenético, e insistente na mesma estrofe.

-         Ela deveria procurar ajuda.

-         Deixa disso, vamos pro quarto.

-         Não, ela só pode estar mesmo possuída.

-         Reze por ela.

-         Não sou católica, sou espírita.

-         Porra, vamos pro quarto. Não quero perder tempo.

Raquel não tinha escolha. Fora paga para isso. Era a festa de fim de ano da empresa. Dezoito homens, vinte mulheres. Sítio com quatro quartos, mais sala, piscina e uma boa área verde. Orgia aos cumpridores do dever corporativo. A conta saiu por trezentos reais cada um, a empresa bancou uma parte e deu dois barris de chopp. As alcatra na grelha já parecia um pedaço estranho de carvão e exalava um cheiro de crematório. Raul, o gerente déspota, tirou Bel de seu encosto e a arrastou para um canto da sala de estar, jogou-a no puff e ela, extremamente profissional e obediente, tratou de facilitar as coisas livrando-se da mini saia e a blusinha rendada. A noite caiu suave, com o sol repousando tarde. Horário de Verão. Oito horas. Todos partem e largam um rastro triste de sujeira. Duas Kombi levam as garotas. Alice, filha de Henrique, serve o pedaço de pizza ao pai. A mãe, por hábito e não por crença, agradece a deus. Todos se benzem. Henrique demonstra cansaço, beija as filhas e a esposa, e se recolhe cedo. As moças, compreensivas, a despeito de ser sábado, preferem a leitura a ligar a televisão e incomodar o sagrado repouso paterno. Henrique é severo com elas, e ainda não as deixa sair com as amigas, tampouco namorar. A mais velha gosta de Edu, o rapaz mais valente do bairro e chefe de uma banca de fumo e toda tarde fica com ele em seu apartamento. Mas exigiu que, na presença dela, as armas fossem, “todas”, guardadas. A mais nova transa com Jairo, aspirante a trovador de rap, que nutre uma paixão secreta por Bel.     



Escrito por Mauro Cassane às 14h43
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Um ano terrível

Nosso fim é irreversível, contudo as coisas mudaram demais nesses tempos. E as pessoas perderam a noção de como podem acabar. Driblam a morte, zombam dela com toda essa tecnologia molecular. Não entendo nada dessa porra. Mas os humanos vão se tornando mais e mais lindos quando deveriam simplesmente definhar. Não sei se acontece com os outros, mas sempre que me vejo no espelho parece que não faço isso há um tempão. Então noto novas rugas, e elas vão aparecendo assim, criando sulcos em minha cara, enfraquecendo minha pele, novas manchas estranhas, cor de terra, como que me comunicando: seu fim está cada vez mais perto. Lembro de meus 20, 30, 40, 50, 60 anos. Mas não sei que merda comi no jantar de ontem. Caralho, 70 anos! Nunca me imaginei assim tão velho. E tão vivo. Me sinto mal. Pensei que chegaria nessa tenra idade com tesão e tudo mais. Bem, tirando o tudo mais, ainda me resta o tesão. Meus filhos fizerem uma festa pra mim no almoço de hoje. Era para ser surpresa, mas eu logo desconfiei. Quase mandei todos à merda. Pois odeio, já disse isso milhares de vezes. E eles insistem, fazem essas porras, acham que me agradam. Que droga. Odeio. Mas netos e filhos estão tudo ali, querem celebrar. Em 1985 eu sequer imaginava que o ano 2035 chegaria. Até o ano 2000 já era algo remoto demais. Pensei até que o mundo fosse acabar, mas estamos ai, o planeta todo bem firme e forte. E, deixando minha peculiar rebugentice de lado, tirando o cotidiano, as coisas estão relativamente melhores hoje. Temos ar, há rios limpos, florestas, mar e essas porras. Não rolou nenhuma catástrofe, e os caras aprenderam a preservar a natureza. Mas foram longe demais. Vou dizer o porquê logo mais. Resumidamente, tudo anda na mesma monotonia de sempre. As crianças são ludibriadas pela mídia, os pais ausentes e preocupados em ganhar mais grana, as putas estão presentes, os jovens contestam por qualquer tolice e o governo caga pra todo mundo. Nada mudou. Aliás, nada muda há milênios. Crianças, jovens, adultos e velhos cumprem à risca seu papel. Sempre os mesmos. Bem, há algo novo. E é isso que acho que tá estragando as coisas. Agora não se envelhece mais como antigamente. Mas eu estou resolvido, não por teimosia, mas por pura convicção, vou envelhecer e morrer como meu avô e todos os meus demais antepassados. Vou honrá-los. Inventaram umas coisas loucas que faz com que o sujeito de 60 anos pareça alguém de 40. Renova tudo, desde as células do rosto até as do cu. Virou mania mundial. Me dá raiva falar sobre isso. É uma aberração. Dizem que tem tudo de bom, e um único contratempo, o tal efeito colateral, é que perde-se o bom humor. Mas como nós, os velhos, nem temos mesmo humor, então todo mundo faz essa merda e nem liga. Vivemos agora na mais franca e déspota ditadura da beleza. E isso começou no Século 20. Um vírus que foi devorando a humanidade pelas bordas.

Engraçado, o que surgiu para começar a ser usado pelas pessoas de 50 anos, é agora largamente usado indiscriminadamente por quase todo mundo com menos de 40. É uma febre e fica estranho. Um amigo de meu filho, jovem ainda, com 42 anos, faz o tratamento. Ficou com cara de um garoto idiota de 22. Porém não ri mais. Está todo feliz com isso, mas nada é capaz de fazê-lo rir. Nem esboça um mísero músculo da boca para sorrir. Nada. Bem, está feliz, no quinto casamento, e com uma garota de 25 anos. Hoje em dia nunca se sabe. Pode ser que a danada tenha mesmo 45 ou 50. Ninguém mais se dá conta. Pois ela também não é muito afeita a rir. Muito embora, ando notando, ainda que saia bem pouco, os jovens não riem muito mesmo nesses dias. Ou são todos velhos travestidos e vítimas dessa loucura coletiva? Porra, não sei. Não era como antes. No meu tempo a gente ria de tudo. De 2000 a 2015 o riso era muito natural. Lembro disso. Estranho, mas não vejo mais isso Nem nos programas de tv. Será que ainda existe circo? Nunca mais ouvi falar nisso. Perto de meus conterrâneos, todos em franco tratamento, aparento um decrépito ancião de mais de 100 anos. Me enchem o saco pra eu fazer essa porra de tratamento. Dizem que os resultados surgem em semanas. Não vou fazer. Ainda rio pra caralho. Tem um detalhe. Já ia me esquecendo. Quem faz isso não pode, sob hipótese alguma, botar qualquer espécie de álcool na boca. Nem cerveja. Nada. O risco é dormir com cara de maçã e acordar parecendo um maracujá maduro. Até desenvolveram umas bebidas insossas à base de sintéticos, que gera uma tonteira atroz, fede pra burro, e tem gosto de borracha. Umas imitam uísque, outras cerveja, lançaram agora o sabor vinho e champagne. Um mercado promissor. Meus amigos já tomam essas merdas. Os caras cantam as vantagens e dizem que não faz mal e que as bebidas estão fadadas à extinção. Que balela. Que ano do caralho esse de 2035. Os jovens já aboliram os derivados de álcool em prol de uma vida mais longa e saudável. Agora apenas se drogam com essas porras sintéticas que os enlouquecem por algumas horas, depois voltam ao normal sem qualquer dano à mente ou ao corpo. Os pais aprovam. Tudo zen, tudo normal. Tudo legal inclusive. Que saudade dos traficas da ZL. Doces românticos.

Escrito por Mauro Cassane às 18h08
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continua...

Como todo velho, sou um chato saudosista. Mas me recuso a fazer essas merdas todas pra ficar com uma cara mais bonita. É bom ter 70 anos em 2035. Tive o prazer de trepar sem camisinha, fiz artigos para revistas em máquinas de escrever, curti muito som em discos de vinil. Depois veio o CD, ficou um tempo e morreu. E veio o computador, também se fodeu. Agora são essas frescas porcarias tecnológicas que obedecem a voz e tudo mais. O ser humano não precisa mais pensar. Não se faz mais esforços pra nada. Penso que, se Darwin estiver mesmo certo, daqui pra mais uns séculos seremos monstros disformes. As pessoas são brancas demais, todos com uma cara meio debilóide, magros e mirrados. A juventude está cada vez mais se parecendo com espectros fantasmagóricos. Antigamente Vinicius de Morais tinha tesão nas garotinhas, hoje é impossível. São deveras sem graça. Só as velhotas reformadas é que ficam interessantes. Mas insossas também. Todas com cara de maçã. Todo mundo faz quase a mesma coisa e, pior, na mesma hora. Porra, uma chatice sem tamanho. Regras demais, tecnologia demais. Vida de menos. E não entendo. Pra que o homem quer viver então até os 150 anos. Sim, dizem que meus netos vão chegar fácil aos 150 anos. Muito tempo para pouco prazer. Meus conterrâneos que fazem essas merdas de tratamentos chegarão aos 100 anos com aquela pele apenas um pouco amarelada, mas quase sem rugas. Pra quê viver tanto se acabaram com os cigarros, com as orgias e dizem que as brejas e vinhos e tudo mais vão pro saco também. Foderam com o sexo e faz tempo. Ninguém transa mais como antes. Começou a estragar tudo com aquela merda da Aids. Depois inventaram o Viagra pra deixar o pau duro diante da constrangedora situação brochante do uso forçado da camisinha. E, com esse tratamento, além de não rir, a turma perdeu o libido. Sim, tesão é coisa de velhusco teimoso e tarado como eu. Me chamam de homem das cavernas. Minha neta ri de mim ao ler meus contos. Me falam agora que o lance é uma troca virtual de fluídos e energia, que pode rolar em grupo, ou a dois, ou sozinho, entre homem e homem, mulher e mulher, e que gera prazer infinitamente maior que o sexo, principalmente se acompanhado das tais pílulas Reterex. Dizem que dá pra fazer isso com pessoas de todos os cantos do mundo. Ninguém mais fala de putaria. De camisinha. E, estranhamente, todos buscam a beleza plástica ditada pelas grandes marcas da moda. Pra que serve a beleza sem o tesão e sem o sexo? Não entendo. A gente envelhece e vai ficando burro com as coisas do mundo. O natural saiu de moda.  

Vejo Denise, minha vizinha. Uma mulher deliciosa. Deve mesmo ter mais de 70 anos. Mas corre, joga tênis, é muito ativa. Tem coxas lindas, peitos formosos, e dança bem. Se essa merda de tratamento fosse bom mesmo, a gente poderia até trepar. Ela me liga, me chama para jantarmos e tudo mais. Fui uma vez e fiquei puto. A desgraçada não fuma, não bebe e não trepa, sequer ri. Pra que merda serve essa velha do caralho? Só sabe exibir a bunda, os peitos e as coxas. Me falou para experimentarmos o Reterex que é mais limpo, mais saudável e melhor que sexo. Ela que vá se foder. Tá todo mundo com a mesma cara e as mesmas manias. Isso me dá medo. Curiosamente muitas dessas velhas apáticas e assexuadas bonecas de cera se interessam por mim. E todas me dão tesão pois exibem corpos e formas que, no meu tempo, era o que importava para uma boa foda. Mas ninguém mais trepa nesse mundo. Preciso urgente providenciar meu estoque de vinhos e cachaças. Caixas e mais caixas. Ainda se encontra coisas boas por aí. Basta garimpar um pouco. Vou tentar juntar mil litros. Meu filho me deu um grande presente de aniversário. Recuperou meu velho IBM com aquelas drogas retrógradas da extinta Microsoft. Funciona perfeitamente. Era tudo o que eu queria ter. Agora sim posso me isolar um pouco e viver em paz até morrer, escrevendo, fumando e tomando bom vinho e boa cachaça. Há um ano não vejo meu grande amor. Ela viajou de novo, velha vaca. E teimosa e orgulhosa como sempre foi e nunca vai mudar. Também se recusa a fazer esses tratamentos de merda. Porém ainda tem aquele lindo e contagiante sorriso puro, limpo e doce que só as crianças hoje conseguem ter. Minha grande e eterna musa. Aquele sorriso é meu elixir, meu bálsamo mais sagrado. Minha fonte da juventude. Outra coisa. Penso nela e fico excitado. A boca continua macia e carnuda. Ah sim, isso é bom dizer. Ela ainda gosta muito de foder comigo. E nem transamos o quanto deveríamos transar. A gente se ama mesmo. Vivemos juntos nesses últimos vinte anos. Dormíamos enroscados, eu com a perna sobre ela, e ela ali, ronronando, fazendo de meu braço o travesseiro. Sempre com aquele rosto de pêssego, aquele olhar mágico e peralta, meio cigana, meio louca. Meu grande amor. Nunca perdeu seus encantos selvagens. Um dia parte, outro dia, de repente, volta. Ela é assim. Me envenena com a saudade, e me cura com seus carinhos. E eu a adoro. Minha eterna Pequeninha. Santa e puta. 

 



Escrito por Mauro Cassane às 18h07
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