Cores Humanas


Lisa, Carmem e Kafka

Conheci Lisa por acaso. Não lembro bem aonde. É uma jornalista, escreve em site e tem um olhar incrível, meio atormentado, mas profundamente sensual. Um jeitinho saboroso de garotinha, e um corpo perfeito com seus trinta e dois anos. Mulheres com mais de trinta são maravilhosas em todos os aspectos. Com mais de quarenta ficam ainda melhores, um genuíno paroxismo da sexualidade. Mas não são todas. Algumas pregam bem antes, caem, se perdem física e espiritualmente. Ficam horrorosas. Eu e Lisa saímos algumas vezes, e ela me dizia coisas estranhas. Falava que tinha medo de se apaixonar por mim. Caralho, eu não teria medo de amar mesmo tendo me fodido tanto uma vez. Até porque é algo meio natural. Acontece com qualquer idiota. E a gente sofre e tudo mais. Bem, tivemos um caso curioso e louco que durou um tempo. Ela adorava me excitar em público, queria que eu tirasse o pau pra fora em bares. E se masturbava, se contorcia toda, e uma vez ficamos ali, no fundo de um pub, e a banda tocando, gente pra caralho dançando e bebendo, ela já bem alta se debruça no sofá, solta meu cinto, abre minha calça com fúria sedenta e bota tudo na boca com volúpia. Que puta. Olho para os lados, as pessoas se balançam e ninguém nem liga. Ou se notam, talvez até curtam. Sei lá. Relaxei. Quem não gosta de uma chupada? Um puta rock tocando, luz feroz e fantasmagórica hipnotizando a multidão. Bom, muito bom. Mas desta vez ela exagerou. Abriu a blusa, levantou a saia, e em um segundo jogou a calcinha na bolsa, se ergueu, me beijou, lançou a perna por cima de mim e foi rapidamente encaixando meu pau para transarmos ali mesmo. Isso já era demais, mas o tesão emburrece o homem, e acho que enlouquece a mulher. Bem, não deu tempo de qualquer discussão sobre moral ou ética, e ela soltou a saia, cobriu tudo, nos encaixamos perfeitamente, ela ficou de frente pra mim e começou a dançar no ritmo da galera, num gostoso sobe e desce com sutis reboladas e eu ali, já completamente envolvido naquela exótica trepada, fui em frente com direito até a uns tapas bem dados na bunda. Foda-se. Uma vez trepando, o gostoso é fazer bem feito e completo. Ela delirava. Acho que a situação meio estúpida de se exibir a excitou de maneira fora do comum, mas me travou um pouco. Demorei muito pra gozar. E ela deve ter achado bom. A banda era estilo hard rock, ou coisa do tipo. Ainda bem. Um exagero de batidas sem parar. E a turma pulando alucinada. Que bom. Ela saltava ainda mais, e se remexia. Um tesão. Mas eu não gozava. Fechei os olhos para me concentrar. Ela já tinha gozado. Era uma ninfomaníaca e continuava freneticamente. Queria mais. Não sei ao certo o que houve, acordei com ela dando um puta salto pro lado e um silêncio estranho penetrou em minha mente. Porra, os putos dos roqueiros de merda pararam abruptamente de tocar. A luz voltou à normalidade para um respiro. E ela percebeu tudo isso com, talvez, uns dois minutos de atraso. Pulou pro lado, e me deixou ali, com o pau apontado pra cima, olhos fechados, e com cara de idiota. Certas coisas precisamos mesmo esquecer. Me lembro desta cena quando penso em Lisa. Acho que me apaixonei por ela. Mas ela também partiu um dia. De uma forma ou de outra, todos partem.  Por isso mesmo não é bom se afeiçoar. O legal é manter tudo a uma fria distância.

Esses dias ela surgiu novamente. E trouxe uma amiga. Carmem. Uma mulher baixinha, tipo mignon. Olhei-a e fiquei excitado. Estava com um vestido preto de alcinha caída e os joelhos lisos e lindos à mostra. Fomos a um bar. Ficamos conversando amenidades e essas tolices que se fala quando não se tem muito o que dizer. Lisa apareceu do nada. Me ligou e me disse “vamos tomar umas hoje”. Eu fui. E ela aparece com essa amiga muito gostosa. Não sei porque porra o assunto resvalou para literatura. E odeio isso. Não tem coisa mais chata. Literatura? Que brochante. Discutir quem? O que os caras escrevem? Que merda. Carmem era entendida em Kafka. E falava demais sobre o cara. Falava e bebia. E isso me entediou muito. Lisa permanecia calada. Mas a baixinha tinha uma boa voz, e cruzava a perna meio displicentemente, ou de propósito, não sei. Mas ficava demasiadamente séria falando da porra da vida de Kafka. E me falando de Praga, e Max Brod e o caralho. Nessas situações sempre solto merdas verbais. E foi o que fiz. “Pra mim o Kafka dava o cu pro Max Brod, ou então comia o cu desse babaca”. A mulher me lançou um olhar de fúria que me estremeceu. “Como você, que também escreve, me diz uma coisa estúpida como essa?”, me vociferou completamente alterada. Porra, acho que exagerei, pensei. Mas sou orgulhoso demais pra pedir desculpas e como estava entediado resolvi ir em frente. “É evidente que havia uma relação homossexual entre eles. Você nunca leu Um Médico Rural?”, disse isso com um ar sério e cheio de razão. E ela respondeu já um pouco mais calma e com uma certa dúvida. “Não, não li”. Bem, foi minha deixa. É bom mentir nesses casos. Inventei tantas tolices que nem me lembro, argumentei, dei voltas, mas sempre falando merdas, até que ela sorriu e disse, “bem, Kafka podia até ter transado com o Max Brod, mas isso não macula o grandiosa obra dele”. E eu amenizei: “claro que não, claro que não, eu mesmo, por exemplo, neste momento, estou com uma incontrolável vontade de transar com vocês duas e isso também não vai corromper ou estragar minha obra”. Elas caíram na gargalhada. Lisa, apenas simulou uma cara de reprovação. Mas Carmem se soltou. Entretida que estava em seu monólogo sobre Kafka entornou diversos copos de cerveja e cachaça também. “E você daria conta das duas?”, me perguntou. “Ah, não. Acho que não. Conheço bem essa mocinha aí (apontei pra Lisa) e você me parece ser do mesmo estilo”. Elas riram. É bom dar uma de fracote. É um desafio pra elas. Daí começaram a me provocar. Ficamos nesse joguinho por meia hora ou mais. Não lembro. Terminamos a noite num quarto de motel. Lisa continuava linda, tesuda e insaciável. Carmem era ainda mais louca. Transou comigo, com Lisa e ainda propôs para mantermos esse triângulo para sempre. Foi um lindo romance a três por um ano. Depois as duas sumiram Sempre somem. É assim. Já me acostumei. Ou sou eu quem dou o fora. Nunca sei. Um dia saberei.



Escrito por Mauro Cassane às 19h34
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Noite bêbada e solitária no litoral

Dificilmente fico bêbado, mas já exagerei nos etílicos algumas vezes. Não sei muito bem qual a sensação da estupidez alcoólica. Acho que me controlo às custas de minha auto-piedade, ou medo do ridículo. Porém na ensebada Guarapari, um balneário meio bizarro cujo centro mais parece um subúrbio cheio de puxadinhos, na completa ausência do que fazer nas noites quentes e chuvosas, caímos para um antigo e decadente restaurante que, conforme dicas do taxista, a gente encontraria ali a melhor muqueca do mundo. Ufanismos à parte, comemos muito bem rodeados de encardidas mesas vazias com suas rotas toalhas esfarrapadas e assistindo uns velhinhos se ajeitando num palco para tocar serestas que se prolongariam madrugada adentro para um grupo de terceira idade que chegaria mais tarde. Vince apertou a derradeira ponta, na mesa mesmo, seria nosso digestivo, e tomamos algumas boas doses de cachaça mineira e cerveja, e lá fora caia água torrencialmente no deserto das ruas escuras, o garçom bem gentil nos enchia o copo sempre com gentil sorriso e solicitude. O cheiro de maresia vem com o vento, aquelas loucas coisas do mar, suas histórias e dramas, vem tudo junto a sapecar nossa cara com o salitre e a melancolia marinha. Tomamos cachaça com o circunspeto ar silencioso dos velhos marujos. E algo fantasmagórico nos rodeava naquelas mesas tão assombradas a vazias, ficávamos apenas ali, matando a lariquenta fome febrilmente, molhando pão amanhecido no suculento e oleoso molho da muqueca. Sim, um sabor lustroso que deixava a cachaça descer suavemente, mas não sem antes queimar nossas entranhas. Apenas ali, perdidos e solitários tolos, depois de boas doses, começamos a conversar sem parar sobre mulheres, amores e se deus tem mesmo tantos poderes como a ele conferem os crentes e ateus. Formulamos uma teoria, que na verdade compactuo com ela há anos, e acho mesmo que o universo é finito. Isso mesmo, tem fim. Cada sistema solar deve ser apenas uma simples e desprezível célula. São diversos deles, milhões e milhões, e daí forma-se um grande corpo. E depois não tem mais merda alguma. Ou talvez cada grande corpo também seja uma miserável célula de algo ainda bem maior. Nesse caso, caralho, a Terra, azul e tão assustadoramente imensa para nós, não seria nada além de um insignificante átomo. Bem, estávamos bêbados, acho que sem muita noção das coisas. Mas discutimos com peculiar seriedade essas coisas todas porque simplesmente não havia outra coisa a fazer. Milhões de planetas Terra por todo o corpo, e as coisas se repetindo com triste monotonia. Eis a vida. Os espíritos também existem. Mas não têm muito tempo a perder, nem inferno pra ir, nem céu, nem porra alguma, apenas trocam de lugar exaustivamente no moto contínuo exacerbado e confuso. Mas extremamente simples. Eis o mundo. “E deus?”, me pergunta Vince tragando sua amarelada pinga mineira. “Ah, sim, deus cuida do todo, não do particular. Nem se importa com isso. Cuida da máquina toda, da engrenagem, e o resto acontece por conta própria”, respondo com a humilde ressalva que é assim que creio nas coisas. Tudo a nossa volta é extremamente insignificante. É bom pensar assim. Acho que os grandes cientistas devem também acreditar nisso e, neste caso, não se fodem tanto nesse lance que é o amor humano. O que são mil anos dentro da jornada de nosso planeta? Porra alguma. E nosso planeta, o que significa, dentro do grande corpo universal? Também não quer dizer nada! Neste caso, desculpem-me analistas de plantão que cuidam dos suicidadas, mas tenho que admitir isso, pois é puro silogismo, nossa existência, vida ou coisa do tipo, não significa merda alguma. Morrer e nascer é algo tão absolutamente mecânico, tão padrão, desprezível e ordinário, tão sem graça e sem qualquer peso ou importância, que acho que deus sequer toma conhecimento disso. Ah, mas acredito, em deus e peço perdão e agradeço e vou à igreja. Menos em missa. Tenho medo de aglomerações humanas. Mas sim, converso com deus. Agora, se ele me escuta, ou sabe de mim, realmente não tenho idéia. Pela minha lógica estúpida não deveria acreditar que deus me ouviria, mas é bom crer em deus. Tomara que sim. Espero mesmo que sim. Mas devo admitir que duvido. A despeito de nos sentirmos supremos, algozes do planeta, donos de tudo, seres superiores e inteligentes e tudo mais, somos, dentro da grande loucura motriz que rege o universo, um bando de nada. Isso mesmo. Nada. Junte tudo, os intelectuais, cientistas, estadistas, pode botar no mesmo saco grandes artistas, santos e aproveite e pegue os sábios da humanidade desde os tempos de Homero, e ainda assim, aglomerando tudo, não vai valer um peido desse grande corpo que é o conjunto dirigido por deus. Vou ao cemitério e vejo um monte de covas com aqueles nomes e datas e tudo mais. Todos ali, mortos, podres, e o fim de todos nós é ali mesmo, servindo de adubo. Amaram, foderam, trabalharam, fizeram coisas boas ou ruins, e acabaram ali, nojentamente devorados por vermes. Quanto tempo vivemos? Em média 60 anos? Bem, e daí? Que merda é 60 anos? Nada também. Eu e Vince ficamos assim na melancólica e sinistra noite de Guarapari.

Escrito por Mauro Cassane às 11h48
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continua...

Depois pegamos um táxi e pedimos a dica de um bom puteiro apenas para assistirmos umas gostosas stripers. Havia duas opções pitorescas: Casa Blanca e Scorpions, nomes, inclusive, bem sugestivos para uma zona. O taxista jogou uma lorota dizendo que o Casa Blanca era melhor. Sim, decerto, pois era o que ficava muito mais longe e, claro, renderia uma corrida mais lucrativa. Negociamos arduamente, e o valor ficou interessante. Caímos para lá. Uma estrada salpicada com curvas, beirando a negritude do mar, percorria para o sul e com longos trechos desertos, fomos ouvindo algo que eles chamam de congada, e as histórias curiosas contadas pelo motorista. Estávamos há dois dias sem ver uma única mulher interessante. E no puteiro, que era antes uma pousada, mas notaram que se ganha mais dinheiro vendendo sexo, era algo dramaticamente submundo. Imundo e fedorento, ficava numa grande laje coberta por telhas de zinco que, com a chuva, parecia que estávamos sob fogo cruzado. As putas gritavam, gordas e esmagadas em coloridas roupas de brechó, a cada filho da puta que por lá aparecia. E, contando comigo, Vince e o motorista, se somavam mais seis ruidosos caiçaras, bêbados e descontrolados, tentando a todo custo convencer algumas delas a trepar na base do amor. Elas ralhavam com eles e, ao nos avistar, com nossas caras avermelhadas de turistas, ficaram alvoroçadas e se ajeitaram afastando-se dos fanfarrões. Um salão cheio de ecos, vazio, mesas frias de alvenaria cobertas por um azulejo triste entre verde e vermelho, chão cheio de areia, e aqueles caras com suas bermudas e chinelos encardidos. Ao todo, contabilizei dez homens, contando com a gente, dois garçons, e umas quinze putas. Os caras não estavam afins de pagar por nada, ou nem tinham dinheiro pra isso. E elas então se voltaram, todas mesmo, pra gente, e sobrou até uma enorme loira para o motorista que nos levou. Que merda. Eu e Vince no centro de tudo aquilo. O motorista já apalpava a bunda da loira. Nos trouxeram uma cerveja com dois copos de plástico. E nos ofereceram solicitamente a mesa e os bancos feito de cimento pra apreciarmos aquela Casa Blanca, o melhor lugar da cidade. Ah, cacete. Minha vontade era dar o fora dali antes mesmo de tomar aquela cerveja. Imaginei que seria um puteiro cheio de gente, que entraríamos despercebidos, e ficaríamos ali, bebendo, e vendo strip e tudo mais, meio incógnitos. Sequer tínhamos grana pra trepar com puta. Não era esse o plano. E mais um pouco e as putas começaram a assobiar. Os caras foram para um canto. E eis que viramos mesmo a atração daquele perdido canto de Guarapari no meio do nada, entre mar e mato, a porra da Casa Blanca. Falei ao taxista: “Caralho, você nos sacaneou. Vamos embora daqui”. Ele estava lá, agarrado com a loirona, e se desculpou com a velha história de sempre, “não sabia que estava tão ruim assim”. Mas logo as coisas se acalmaram. Acho que notaram nossa disposição de sair correndo dali. Ou alguém botou controle nas putas. Tudo normal. O garçom nos diz que o show vai começar em breve. Uma linda negra cruza o vazio do salão. Linda de verdade. Uma bunda dura e vibrante, um rebolado forçado e tesudo, e aquela cintura que só as negras podem ter, e os peitos empinados e soltos, sem nada que os sustentassem, apenas firmes e vigorosos peitos, naturalmente assim deslumbrantes. Divinamente belos. Passou, fez o óbvio, que foi nos lançar um sorriso e um olhar lânguido, e foi para um canto isolado e escuro. Claro, fosse uma garota normal, em algum bar ou coisa do tipo, e não um puteiro, nem nos notaria. A vida real não é como filme ou novela ou romance desses grandes autores que comem todas só com o olhar e com o charme. Na vida real a gente não come ninguém assim tão fácil. Vince ficou pilhado, usou um termo estranho do tipo, “estou na vaipe de fazer uma putaria, e essa deliciosa mulatinha é tudo o que eu precisava neste momento”. Não sei que porra significa “vaipe”, mas ele me explicou depois que tem a ver com vibration, do inglês, e é um termo da moda. Bem, termo do caralho. Mas entendi. E ele foi lá. Não sei fazer o que, já que nossa grana só dava mesmo pra pagar aquela cerveja e a corrida do táxi. Não ouvi o diálogo, ou flerte, ou sei lá como se chama isso. Mas em dez minutos Vince volta consternado, triste e derrotado. Não deu certo. E ela ali, com cara de puta, não de zona, mas puta da vida. Pois surgiu tão disposta a ter lucro e se depara com dois gaiatos durangos. Mas ela era mesmo a mulher mais linda de todo aquele estranho balneário. Fomos dormir.

Mas a insônia é minha fiel parceira. Rolo na estreita cama do hotel encardido na úmida madrugada capixaba. Uma imagem se desenha em minha mente. Um louco e fascinante olhar de uma mulher especial sobrevoando minhas angustias e alucinações esfumçantes. O olhar meigo e misterioso de uma mulher linda que amo sem saber ao certo o que exatamente me leva a amá-la. Apenas aquele olhar, profundo, exótico, e que me diz tantas coisas sem nem ao menos dizer nada a ela. Preciso transar para esquecê-la, para ao menos fugir do que sinto por ela. Preciso de coisas fúteis. Tento me entregar à promiscuidade. Ou flertar com coisas assim. Mas me volto sempre para aquele doce e imaculado olhar. Sou fiel apenas a um enigmático olhar, entre o negro, o castanho, o azul e o verde. Tudo junto, como a noite que cai num florido jardim primaveril. Aquele olhar me diz tudo, mas ela não fala comigo, me ignora. A chuva cessa de vez, pela janela aberta entra a insinuante brisa marinha, leve, suave, e me afaga os poros com carinho de anjo. Penso na pele macia de Sofia, no singelo toque que dei naquela face, apenas com a desculpa de sentir a temperatura dela e que me arrepiou até as entranhas. Um pequeno toque nessa mulher me leva ao paroxismo do prazer. Nem quero imaginar o que seria transar com ela. “Por que você fez isso?”, ela me diz. “Para sentir sua temperatura”, minto sem jeito. Queria apenas sentir a poesia e a textura daquela pele sagrada e trocar instantâneos fluídos mágicos com ela. Uma vez toquei seu pé, ou apenas o dedão daquele lindo pé delicado, e estremeci, um frio prolongado foi cortando meu estômago em direção ao peito. Apenas um leve e sutil toque e eis o resultado em mim. Vou à janela no térreo, o vento joga aquele sopro aveludado na gente, como se todos os espíritos viessem feitos cachorros alegre a nos saudar. Que delícia. A solidão tem essas vicissitudes saborosas. Sofia está em algum lugar. Talvez em outros braços. Mas fica comigo em minha imaginação. Bem ali, ao meu lado, naquela janela estranha e fria, sinto-a na enigmática brisa selvagem que vem das terras distantes, das savanas africanas, e das ondas gigantes do Atlântico, tudo ali, trago aquilo, deixo penetrar em mim. Isso sim é uma “vaibe”, tesuda vibration. Não acredito em amor à primeira vista, mas apenas em amor até a derradeira luz da visão.  

 



Escrito por Mauro Cassane às 11h46
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