Cores Humanas


Pelo amor de Deus

Ando perigosamente sensível. E isso me faz parecer um completo imbecil. Já aprendi, na mais cruel das formas, que amar é um melancólico mergulho no mar da crueldade. E a gente se afoga sempre. Mais cedo ou mais tarde, vai pra lama. Ou esgoto, que seja. Dá no mesmo. Fede igual. Penso em uma garota muito especial. Mas apenas penso. O que mais posso fazer além disso? Nada. Sou um romântico estragado, assim, que nem uma fruta podre no meio das boas. Há aquelas feridas imensas e esverdeadas, e moles, e amargas. Com o tempo fui perdendo o jeito com as mulheres. Na verdade nem sei se eu tinha algum. Acho que nunca tive. Pensando bem, não levo muito jeito com os seres-humanos de uma maneira geral. Mas eu sou um deles e não consigo me imaginar amando uma anta. Já me peguei chorando algumas vezes e isso é a coisa mais idiota que um homem pode fazer. A outra coisa é amar. Ou tentar ter um grande amor. Dá no mesmo. Uma vez uma grande mulher me disse, “não seja tão romântico”. É verdade. Não nos vale de nada. O melhor a fazer é ser frio, não se importar com porra alguma e tocar a vida pra frente atropelando e dando uns solavancos nos outros. Foda-se. No fim, bem ou mal, todo mundo que ama se fode uma hora. É assim mesmo. A gente vai criando uma grande a amargurada raiva com tudo isso. Por isso agora tento ser zen, pensar menos na mulher que quero, desejá-la menos até esquecê-la de vez. Depois de curado, vou me tornar um genuíno safado. De corpo e de cara sou até que interessante e dá pro gasto. Isso. A gente se vale disso. Um bom corpo, uma cara razoável, e aí basta uns trocados e um papo meia boca que é o suficiente pra mandar ver em muitas garotas por aí. Fácil pra caralho. Por que diabos tenho que amar se isso é um mergulho na merda? Por isso escrevo. Assim jogo isso na minha cara e leio enquanto escrevo. E entendo tudo. Não concordo comigo. Mas entendo. A vida é assim mesmo. Se eu amo quem não me ama certamente o mesmo vai acontecer com ela uma hora e assim sucessivamente. Essa é a humanidade e suas perenes vicissitudes repletas de frustrações sentimentais. Todo mundo bem fodido.

Meu celular toca. Fernando de novo. Porra, o cara tá sempre bem. Fico com raiva disso. Não é inveja, mas penso que deveria eu ser como ele. Me conta que vai ficar noivo da Luiza, uma garotinha de 19 anos, mas que ontem saiu com a Lúcia, a aeromoça que ele come há dois anos, e hoje vai pro apartamento da Ruth, a ricaça casada cujo marido viaja toda semana. O cara não acumula porra nunca. A mulher dele não sabe de nada. É uma santa. E é fiel de verdade. Daquelas que morrem pelo bom marido. Ah, que vida filha da puta essa. Sempre que penso em ser um cafajeste, puto mesmo, me ocorre que não levo jeito pra coisa. Sou incompetente demais pra isso. Também não gosto de fumar. Na verdade não sei fumar. Engasgo com a fumaça. Só consigo tragar maconha que é ilegal, e me joga na marginalidade. Então também é uma merda. Encontro uns caras legais que escrevem, outros jornalistas, e alguns poetas, mas todos bebem de cair e acham isso batuta. E eu apenas entorno uma garrafa de bom vinho. Não suporto a tonteira de ficar bêbado. Tenho nojo de bebedeira. Não me agrada a sensação de perder a noção das coisas. Sou careta. E, por isso, por norma, dentro das convenções intelectualóides, e no conceito de certos panacas, nem levo jeito pra escritor. Que se foda também. Meu único grande vício é buscar loucamente viver um grande amor. Isso sim me enlouquece. Mas me faz mal. Me destrói. Bem, devo admitir que é assim com todo viciado. Os defeitos foram jogados pelos deuses e cada um pegou o seu. Ninguém escapou. Eu não sou o sujeito certo para a mulher que amo. Jamais serei. Ela tem certeza disso. Eu não tenho certeza de porra alguma. Nunca tive. Isso é outro de meus defeitos. Sou fácil demais. Qualquer um me convence de qualquer coisa. Basta argumentar. Só não suporto burrice. Se bem que ninguém é tolo ou burro. As pessoas apenas perdem o hábito de pensar. Ou discutir. Tudo acaba sendo excessivamente mastigado. Há tempos é assim. Não é uma prerrogativa desta geração atual, ou da anterior, ou da outra mais antiga. Isso vem das mais remotas e bárbaras civilizações. O homem vem dotado de inteligência suficiente pra pensar, argumentar e discutir, e saber das coisas, mas prefere ser burro. É mais confortável, mais seguro e até mais rentável, mais sensual eu diria. Inclusive, além disso, se gozar de algum bom atributo físico, ainda faz um imenso sucesso na vida sentimental. Ando excessivamente cansado. E amargo. Mas ainda alimento esperanças. Sou um incorrigível romântico otimista que hei de me foder muito mais ainda nesta vida por conta desse meu lado doente e estragado.

Agora estou sozinho e penso que assim ficarei por um bom tempo. Um zen sem muito conhecimento de causa. Um monge. Tenho tesão recrudescido indômito e furioso diariamente que não me serve pra nada. Há uma imensa vontade de fazer carinho no rosto de uma mulher. Também pra nada me serve. Para a merda com essa coisa toda de carinho. Pedi para uma mulher guardar todas minhas escritas caso eu morra repentinamente. Talvez ela não guarde. E aí tudo se perde, e é o que deve acontecer. Quase tudo que escrevo guardo nessas pastas estranhas que o computador nos oferece. Tenho a impressão de estar enfiando tudo no lixo. Escrevo compulsivamente, e apenas coloco alguns textos na internet. Nem sei porque caralho faço isso. Sabia antes. Hoje não sei mais. Gosto quando imprimo um livro. Um único e singelo exemplar. Um ou dois. Sei lá. É gostoso ler as coisas no papel. Tem vida e alma. Na tela do computador, com esses irritantes pontinhos brilhando, parece que a gente lê um romance em uma merda de uma vitrine fria. Lembro de uma garota linda ao meu lado numa pequena e capenga capela feita de madeira. Mas odeio ter lembranças. Também não me serve pra nada. Deus criou o homem ou nós que criamos deus por pura covardia? Sei lá. Acredito em Deus. Prefiro assim. De resto, acho que não acredito mais em merda alguma. Mas ainda sei rezar. Cansei de escrever.  



Escrito por Mauro Cassane às 19h40
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Vida de artista

Sempre que vou tomar um chocolate quente pela manhã encontro com um ceguinho safado que segue seu caminho brejeiramente tateando com sua bengala pelo chão e andando serelepe com a desenvoltura de um motoboy em meio ao caos do tráfego paulistano. O cara vende flanela e tá sempre cantarolando coisas ininteligíveis e me parece feliz. Onde deve morar? Fico pensando. Vendendo aquilo sua renda não deve ser maior que dois salários mínimos. Talvez um. Então deve mesmo morar numa ordinária espelunca e passar fome. Vez por outra dá umas trombadas em vasos ou placas, tropeça, se recompõe e nem se importa. Ao contrário, se diverte com seus infindáveis percalços. Vive rindo o filho da puta. Além de cego e esfarrapado, ostenta uma feiúra ímpar de fazer dó. Tem a cara meio torta, um cabelo pixaim dramaticamente desacertado com tuchos feito moitas aparadas a facão enferrujado, é coxo e bojudo e fede a um suor azedo. Talvez se não fosse cego seria traumatizado com tamanha assimetria física. Bem, lá está ele cantarolando, rindo e fazendo troça de si mesmo com suas trombadas. Não me parece tão tolo a ponto de ignorar sua triste condição, se não física, certamente social. Um miserável a mais no mundo, uma aberração. Mas não se importa. Segue em frente.

Entrei no boteco encardido da periferia, um lugar solitário e vagabundo, e fico bebericando meu chocolate ao fundo, com uma dose de conhaque. Há uma morena deslumbrante, que não sei de onde surge, e fica apoiada no balcão, com uma xícara de café, bem perto da porta, de cochicho com a simpática loirinha que nos atende. A morena é perfeita dos pés à cabeça. Bonita mesmo. Não dá a menor bola pra mim e fica ali, meio esnobe até, ciente de sua beleza desconsertante, toda dissimulada, mas premeditadamente exibindo suas luxuriosas formas aos fregueses. No caso, só a mim. Pois nunca vejo ninguém nesse lugar perdido. As mulheres têm prazer nisso. Ela está de costas para a rua e o ceguinho entra no bar, rindo e cantando, e tateando o chão com sua ruidosa bengala de aço, e a encocha de propósito fingindo um acidente. “Hum, que cheiro bom, com certeza é mulher bonita”, ele diz num largo sorriso e voz de cantor de blues. “E você deve tá a perigo pelo que senti”, ela responde às gargalhadas. “Ah, não resisto, só de sentir cheiro de mulher bonita fico louco”, ele retruca. “Louco e tarado, né. Seu safado”. O ceguinho usava uma rota calça social e, pela conversa, a moça sentiu o volume de um cacete nitidamente avantajado e duro feito pedra. “E vê se pára de encostar essa bengala dura nas pessoas, seu exibido”, ela diz se curvando de rir. “Ah, meu amor, esse é meu maior tesouro, minha riqueza”, ele responde cantarolando. A morena enrubesceu, mas me pareceu disposta a continuar a brincadeira ou, então, muito curiosa em conhecer o real tamanho do instrumento do cego. No bar só havia eu, ao fundo, apenas um mero coadjuvante, a loirinha com cara de puta, a morena deliciosa e o cego. A loirinha já me conhecia bem e falou algo no ouvido da morena cujo teor deve ter sido algo do tipo “vá em frente, a barra tá limpa”. A morena me lançou um olhar impressionantemente lúgubre, depois piscou e sorriu como se me pedisse licença para prosseguir com sua brincadeira, virou-se para o ceguinho e disse:

-         Você tá excitadão, né seu safado?

-         Vichi, e não é pra tá com um mulherão desse bem na minha frente?

-         Ah, cabra mentiroso. Tu não é cego porcaria nenhuma. Como sabe que sou gostosa?

-         Oh, não sei não. Mas que tu tem uma bunda das boas e um cheiro de cio danado de bom.

-         Ah, me respeita, seu miserável. – ela ralhou com ele, mas rindo copiosamente.

-         Ih, respeito sim. Você me desculpe.

      -    Seu zíper abriu...e você tá com esse troço duro ainda é?

Escrito por Mauro Cassane às 12h25
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continua...

O ceguinho começa a fazer uma pitoresca coreografia batendo com a mão no meio das pernas e dizendo “vão dormir, meteoro, vamos, vá dormir seu safado”, e desferia uma série de tapas no pau ainda guardado sob a calça. As duas riam, e a loirinha jogava seu corpo inteiro sobre o balcão para vê-lo estapear o pau. E se divertiam muito com aquilo. A loirinha estava com a bunda pra cima, numa posição excitante. A morena, sentada no banco do balcão, curvara ligeiramente o corpo pra trás e lambia os lábios entre risos e cochichos com a loira. A loirinha então, certamente a mais curiosa e excitada, disparou:

-         Vá, seu Zé, mostra esse meteoro aí pra gente...

-         Isso, parece que ele não abaixa....acho que é falso! – emendou a morena.

O ceguinho não vacilou um segundo. Deixou a bengala de lado, apoiada no balcão, colocou as flanelas sobre um banco vazio, e disse: “vocês querem mesmo que eu mostre o meteoro?”. As duas apenas riram, e a loirinha reforçou “mostra logo, seu tarado, aproveita que não tem ninguém aqui”. Ele abriu a braguilha e sacou seu pau que era, verdadeiramente, algo assombroso em tamanho e largura. Minha avaliação, a uns cinco ou seis metros dali, era de uma jeba de aproximadamente trinta centímetros e um exagero em espessura. Não sei ao certo, era muito grande, escura e cabeçuca. Ele balançou aquilo, segurando pela base, pra conferir maior volume, e as duas afoitas, fingindo assombro, mas lambendo os beiços, fizeram um certo reboliço soltando gritinhos de pavor diante daquela sucuri petrificada. O sujeito entrou em êxtase incontrolável e as moças o estimulavam com seus gritinhos e comentários do tipo “uau, que coisa impressionante”...”nossa, imagina isso gozando”. E ele começou a masturbar-se frenética e desesperadamente. As duas ali, bem perto, e a loirinha vez por outra olhava meio preocupada para a porta pra ver se entrava alguém. Ninguém entrava naquela espelunca. O cego se animou, estava já com a cara meio desfigurada, com sua horripilante cara comprimida, enrugada, transtornada, e tocando uma febril punheta ali, bem na frente das duas. Batia com as duas mãos, e ainda sobrava um bom pedaço de pinto à mostra. A morena já não estava mais recostada pra trás, e sim curvada pra frente, hipnotizada no cacete do cego e, sem notar, quase o enfiava na boca pois sua cara estava a centímetros daquela imensa glande, além de ficar o tempo todo lambendo os lábios, e enxugando a baba que descia pelos cantos de seus grossos lábios. A loirinha continuava com seus gritinhos e tomando conta pra ver se não entrava ninguém. A morena no seu silêncio contemplativo e desejoso, certamente imersa em fantasias, esfregava uma perna na outra e apertava a cocha com as duas mãos, cravando as unhas na sua apertada calça jeans. O ceguinho aumento o ritmo, soltou um uivo horripilante, comprimiu todos os velhos músculos de sua face e em segundos disparou um portentoso jorro que atingiu a máquina de ferver leite, alguns copos, a pia e não fosse a morena sair de seu estado alfa seria ela também banhada por uma quantidade descomunal de porra. Pensei que elas fariam um escândalo diante de tanto esperma, mas ficaram caladas, impressionadas, francamente admiradas e, me arriscaria a dizer, cheias de vontade de sentir aquele troço vibrante e vigoroso. Um verdadeiro show. Notei que a loirinha, como se estivesse também gozado, só de ver, passou o peito da mão na face, depois um pano úmido, pois havia porra na cara dela, mas ela nem se importou. Até gostou. As duas ficaram quietas. Começaram a se recompor. O ceguinho botou tudo pra dentro, ainda meio duro. Ajeitou com zelo, puxou o pau para o lado, fechou o zíper, apanhou sua bengala e seus paninhos, nada mais disse, virou-se e saiu cantarolando. A loirinha limpava febrilmente os esguichos de porra por todos os lados. A morena me olhou e acenou timidamente coma mão. Foi embora muda. Deixei sobre o balcão três reais e também sai. Fim do espetáculo. O artista se foi em silêncio, sem aplausos, nem gratificações financeiras, nem nada. Um verdadeiro artista, genuíno em sua arte, não precisa de nada disso, basta apenas o silêncio estupefato e atônito de seu público.  

 

 

 



Escrito por Mauro Cassane às 12h24
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