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A beleza é uma bosta
Acho que todo homem já se imaginou mulher. Assim como quase todos já tentaram chupar o próprio pau. O foda é que é preciso uma manobra tão cruel e dolorosa que bota qualquer mortal frustrado. Precisaria extirpar alguns elos da coluna pra dar certo. Andando pela praça da Sé vejo um show circense e lá está o contorcionista que consegue quase enfiar a cabeça no rabo. Esse sim deve fazer uma boquete a si mesmo. Como chamaríamos isso? Não poderia ser punheta. Não sei a classificação. Mas me deu vontade de perguntar pro sujeito qual a sensação. Uma multidão ficou ali, na hora do almoço, ao redor dos dois caras que faziam estrepolias com o corpo. Jogaram capoeira, subiram um no outro, andaram em corda bamba, pularam em arco com fogo e depois, o mais elástico, e meio veado também, foi dobrando o corpo para trás de modo a enfiar a cabeça por debaixo dar pernas. Porra, o cara fez coisas estranhas ali. A turma aplaudiu e depositaram num saco uns trocados pra ele como recompensa. Fiquei impressionado, mas vejo esse truque desde garoto. E sempre me dá uma puta angustia em ver a que ponto o homem chega pra abocanhar seu cacete. Bem, ao menos ele consegue chupar o próprio pau. Acho que, pra ele, tudo começou com essa fixação muito inerente aos homens. Depois viu que podia lamber o cu também e daí pra ser artista é um passo bem pequeno. Quanto a ser mulher, essa é outra história, nem é coisa de travesti, mas de homem mesmo. O cara que tem um tesão muito exacerbado por mulher chega mesmo a imaginar como deve ser a sensação de ser uma mulher. Isso mesmo, ter uma buceta e tetas e tudo mais. Deve ser fantástico. Claro que estou me referindo às gostosas. Ou, no mínimo, àquelas que mexem de alguma forma com o libido dos homens. Mulher ligeiramente gostosa chama a atenção. Eu mesmo prefiro as normais pois todas têm seu charme saboroso. É interessante. No meio fio da avenida passou uma, bem feia por sinal, e um negrão gritou alucinado, de dentro de seu velho Fiat, “fala gostosa”. Ela ficou séria, continuou sua marcha indiferente ao repentino e deslumbrado fã, mas olha só, apenas uma simples mortal, desprovida de beleza facial, com uma bunda chapada de urso, e faz sucesso com um desconjuntado rebolado e algumas banhas pendentes nas laterais. Tem fã pra qualquer uma neste mundo. Um homem, em condições semelhantes, não chamaria a atenção sequer das putas do Largo do Paissandu que fazem o favor de mexer com os machos passantes independente da cor, altura ou espessura. Elas sim são um belo e harmonioso exemplo de humano desprovido de preconceitos. O que seriam de nós, homens, não fosse a divina necessidade das putas em ganhar o pão. O culto da beleza não é outra coisa senão uma prostituição barata. Pra mim, honestamente, nunca me diz nada. Tenho um certo nojo de garotas muito lindas. E não me dão tesão. Parecem estúpidas Barbies. Artificiais demais. Quanto mais lindas, menos interesse tenho. Gosto mesmo das mulheres normais. Aquelas tesudamente normais com suas lindas imperfeições.
Penso nisso tudo numa tarde úmida de calor, ouvindo Allegro de Ludwig Beethoven. Não dormi a noite, rolei de um lado pro outro, e fiquei esmagado por minha insônia infame. É bom quando o fato de não dormir nos deixa produtivos, vem uma onda criativa alucinada e a gente se põe a fazer coisas como pintar, escrever, esculpir, compor ou até cozinhar. Ou serve até pra gente levantar e ler algo, mas há a porra da insônia tola, que simplesmente nos deixa cansados, letargicamente putos e na cama virando feito um estúpido frango assado. Fiquei da meia-noite às cinco da manhã assim. E sem pensar em nada. O cérebro estático, a mente indócil, e tudo ali no escuro do quarto. Penso na estrada, numa grande viagem pelas Américas, mas é só. Sempre sonhei com isso acordado ou não. E tudo porque encontrei Sofia num bar na noite anterior. Ela paquerava um rapaz bem jovem e airoso, daqueles que qualquer garota olha e sente uma leve tonteira de desejo. Um cara realmente bonito. Há diversos homens e mulheres assim. Francamente belos. Agora o Allegro se faz sombrio e furioso. Caralho, como Beethoven navegava nessa linguagem fantástica que é a música. Que puta rock´n roll. O trecho que ouço agora, com os sopros quase chorando, os acordes se erguendo feitos monstros sagrados da terra, encantando nossos sentidos e confundindo cada neurônio, Deus do céu, parece um Deep Purple no álbum “machine head”. Grande e louco Beethoven. Nem era um cara tão bonito, mas eu, se fosse mulher, e vivesse naquela época, com certeza daria pra ele diversas vezes feito uma puta desavergonhada. Sofia se encantou pelo rapaz. E dou razão a ela. Ele é bonito. Mas eu a amo. E isso me deixa profundamente triste. Agora toca Alegretto e é algo como uma chuva que cai e me dá a sensação de lágrimas. É foda ficar sensível. O amor me confunde tanto. Mas adoraria vê-la dançar pra mim, remexendo seu ventre, observando sua pele macia e vertiginosa ornamentada com olhos tão puros e brilhantes. Que linda. Talvez o sujeito bonito a beije em breve. E eu vou invejá-lo, pois queria tanto sentir aquela boca tão poética deslizando em meus lábios, sentir tudo dela, cada gota daquela saliva, cada encantadora fragrância de seu tecido. Ah, Sofia, que se deslumbra pelo frasco sem nem notar o perfume. É provável que a beleza do rapaz nem o deixe perceber a doçura indescritível que seria beijá-la. Mas ele, por seus atributos físicos, por sua face cuja simetria a agrada, pode tê-la, e eu não. A vida e suas vicissitudes inexatas. Eu a desejo por tantas razões que nem sei como explicar a mim mesmo. Curiosamente eu não a tenho, mas a simples beleza plástica de um homem desconhecido pode fazê-la flutuar e suar desejosamente. Os humanos são assim. Movem-se por instintos meramente visuais. Mas eu sinto o cheiro dela, aquele ferro misturado com madeira e barro de seu sangue efervescente que se desgarra de suas veias vigorosas. Sinto aquele suor discreto com seus fluídos saltar de seus poros ouriçados, tudo isso mexe demasiadamente com meus sentidos. Vejo-a passar ao longe, sinto tudo e me arrepio. Me excito com seus passos lentos e cadenciados. Pra mim é possível imaginar tudo tão real que sequer preciso da presença daquela mulher. Mas ela combina tanto comigo que prefere não me notar. Ou, se percebe minha presença, escolhe mesmo olhar o belo rosto do jovem rapaz. Vou me estragando assim. Cada vez me importo menos. A vida é perversa com os sentidos, não se pode ser sensível sob pena de se perder. Com o tempo vamos nos tornando frustrados demais a ponto de sermos insuportavelmente chatos e feios. Não dá pra amar. O melhor a fazer é deixar o pau ditar as regras do jogo. Foder com aquela que te parecer mais gostosa e bonita e tudo mais. É assim que as coisas são. Não suporto isso, mas parece que preciso me encaixar nesse padrão caso queira fazer parte da sociedade e sobreviver. Cansei se ser um punheteiro marginal. Cansei de me mover por amor.
Escrito por Mauro Cassane às 19h26
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O despertador da madrugada
Deve ser um Boing, ou um avião de grande porte, não entendo nada de aeronaves, mas ele passa pontualmente sob meu espaço aéreo às três da madrugada. Um ronco seco e prolongado que vem de longe, ruge como um onírico dragão voador bem perto de minha cabeça e vai embora assobiando com sua turbina incandescente até desaparecer completamente na escuridão cintilante do horizonte deixando apenas intermitentes piscadelas alaranjadas na noite quase infinita da periferia. Segue para o Norte, com certeza se manda para o exterior com seus personagens esperançosos, ansiosos ou saudosos. Uma misteriosa ave aquela. Em noites mais soturnas e melancólicas cheguei a supor que fosse apenas uma aparição para me fazer lembrar de Sofia, pois sempre me lembro dela quando olho o negro manto noturno, me recordo daqueles olhos insanos que me inspiram e me ferem. Agora é diferente. Ouço o rugido, levanto e vou mijar. Sempre assim. Mas por centenas de dias eu simplesmente, ao ouvir aquele eco ruidoso vindo do céu, debruçava no parapeito da janela e fica ali, contemplando seja sob chuva, ou o vento ou a letargia quente da madrugada tropical, e imaginando Sofia ao meu lado, seu possível amor e suas eternas e dramáticas partidas. O avião representava a interrupção de meu sono, sonho e foi o símbolo maior das vezes em que Sofia me deixou indiferente a meus sentimentos. Hoje me dá vontade de mijar, mas sempre com muita tristeza pelo desprezo por aquilo que é tão profundamente sincero. Pegar o pinto e mijar na madrugada sabendo que a cama tá vazia é também outro de meus postiços signos da solidão. Ah, que diabos. Não gosto de ter saudade quando sei que não vai me valer de nada. É bom pra caralho ter saudade quando contamos nos dedos os dias faltantes para o retorno de nosso ser amado. Mas no meu caso não. Não haverá volta alguma. Apenas aconteceu a partida ou algo parecido com isso. Ou as despedidas. Ou nem isso. Não sei ao certo. Muitas vezes eu a vejo tão perto de mim, chego a sentir aquele perfume saboroso de frutas de estação, exalando aquela suavidade toda no frescor e na doçura do momento exato em que ela está no ponto de excelência e maturidade. Que sagrado momento este da fruta. Mas até mesmo nessas minhas confusas e complexas sensações, sempre no campo imaginário, ela me ignora de maneira solene. Sofia, ah soberba criatura, como você joga ao lixo um amor assim tão denso e quase sobrenatural? Mas mulher é tudo assim. Quanto mais a amamos, menos somos amados. Na verdade todo mundo é assim. De uma maneira geral, somos absolutamente idiotas nesse negócio confuso que é o amor. O fato de ser ignorado me é recompensador, mesmo remexendo o pus de minhas feridas. É bem doloroso, mas não deixa de ser uma lição. E nem toda lição, boa ou não, significa que aprendemos algo edificante. Meio confuso, mas é verdade. Não sei exatamente o que vou aprender com tudo isso, duvido até que seja coisa boa, pois certas vezes a vida nos ensina apenas porcarias vis e sujas. Esse é o grande segredo da sabedoria universal. Quem duvida, que fique preso por um tempo em presídios do terceiro mundo. Veja o que se aprende aqui. Eu nunca fui preso, mas um bom número de amigos de infância já puxaram cana brava nas mais diversas cadeias de São Paulo. Na ZL é assim mesmo. Você tem que se virar de algum jeito. Ou rouba ou se vira pra ganhar uma grana legal de outra forma. Eu me virei sem cair no crime. Até porque não tinha competência nem culhões pra roubar. E sou muito envergonhado e acho armas de fogo barulhentas demais. Ficaria com a maior cara de merda do mundo se alguém me pegasse roubando. E o estalo de um tiro é irritante. Odeio ruídos. Armas brancas seriam interessantes, mas tem que fazer esforço, suar, outras vezes lutar. E isso implica em agarrar um homem. Sempre achei esse negócio de agarrar homem pra brigar algo meio veado. Não me faz bem o cheiro de homem, tenho repugnância olfativa a isso. Por i isso mesmo não saberia como ser um sujeito ameaçador. Acho que foi por essa razão que não acompanhei alguns de meus amigos bandoleiros na adolescência em suas investidas para afanar toca-fitas e bugigangas nas lojas, ou até tomar coisas das pessoas. Tinha vergonha de ser pego. E, num estágio mais avançado do crime, não andaria com uma porra de uma arma enfiada na cintura. É desconfortável, me incomoda e se for apertar o gatilho faz muito barulho. Nem vou entrar no mérito de matar alguém, pois todo cidadão cristão de bem já sentiu uma irresistível vontade de matar alguém. E acho uma bosta roubar na periferia porque todo mundo é mais ou menos fodido. Seria legal se desse apenas para roubar os políticos sacanas. É verdade, seria até eticamente lícito. Bem, voltando. Uma boa parte dessa minha velha turma de infância não vejo há anos. Alguns estão pelas ruas e os encontro sempre, muitos deles em condicional. As autoridades fazem uma triagem e soltam alguns presos pra botar outros lá dentro. Não por justiça ou caridade ou alguma intenção mais humana, mas simplesmente porque chega uma hora que não dá pra espremer mais tanta gente naquela porra de lugar. É assim mesmo. O fato é que, uma vez enfiado por um bom tempo na carceragem, qualquer um vira uma versão demoníaca de gente. Algo absolutamente desumano. Encontro muitos deles na tradicional cervejada de domingo no boteco lá da rua. A gente bebe cerveja e falo de assuntos que temos em comum, normalmente lembranças de infância, e só. Mas os caras estão com uma estampa violenta, cruel e ressentida. Olhos opacos, meio cinzas, e uma raiva indisfarçável na voz, contida apenas porque, lá na vila, os amigos são quase parentes. O pessoal se gosta mesmo. Ninguém faz mal a ninguém. É um acordo tácito e muito respeitado. Ninguém o viola. E se um puto pisa na bola, como dizem, “vira bolsa”. Ou seja, tá fodido mesmo. Normalmente morre numa quebrada. Não sei como funciona em outros lugares, nem quero saber, não me importo, mas gosto de circular por onde nasci, pelas vielas de lá com seus cantos podres e becos imundos. Me faz bem. Encontro a turma, vou na roda, é legal. Enquanto estão ali, é tudo gente boa. É como lobo no covil. A vida é uma escola, e todo aprendizado, bom ou ruim, serve pra alguma merda.
Escrito por Mauro Cassane às 12h54
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continua...
O avião passa e fico com Sofia em minha lembrança. Parece que sinto o gosto frutado daquela boca delicada. Consigo imaginar o gosto sem nunca sequer sentir. Escrevia sempre pra ela, e escreveria eternamente se ela não fosse tão cruel em seu silêncio obtuso. Não sei ao certo porque diabos faço isso, quando me parece que ela nem lê ou joga tudo fora. Tampouco entendo a força que me move a escrever a tão imprevisível criatura. Outras vezes penso que tenho uma propensão insana a cair de amores por mulheres assim. Bem, foda-se. O tempo determina as mutáveis regras desse louco jogo. Carmem me ligou novamente, mas não atendi, só vi o recado no celular. Quer me ver. É uma mulher e tanto e só de pensar nela fico excitado. Mas aprendi muito bem a grande diferença entre tesão e amor. Acho que todo mundo sabe, mas poucos se interessam nisso. A vida vai se tornando instantânea demais pra se pensar em coisas assim. Tudo é muito prático e rápido, e tá ficando tedioso. A gente come, trepa, fotografa, manda e.mail ou mensagens e fala tudo numa velocidade estonteante. Bons tempos aqueles, e eu vivi por um período isso, quando a gente esperava alguns pares de minutos, na mesa, pra comer, alguns dias pra ver o resultado da foto clicada, mais de uma semana pra receber uma carta e transar era uma saborosa liturgia que começava dias ou meses antes com um fugaz olhar. Hoje é tudo instantâneo. Que merda. Tudo muito precoce. E ainda prolongaram a expectativa de vida das pessoas. Tanta tecnologia é um saco. Onde eu estava mesmo? Ah, sim, Sofia. Nunca vou entender porque eu a amo. Talvez porque ela represente o saudosismo dos bons tempos onde as coisas aconteciam sem pressa alguma. Ou é apenas minha inclinação ao sofrimento. Todos gostam um pouco disso, não? A felicidade plena é meio comum. Mas a tristeza é tão cheia de peculiaridades, que chega mesmo a fascinar os tolos. Acho que vou ligar para Carmem para uma orgiática noite sexual. Ela adora fantasias e é uma puta plena em todos os sentidos. Que maravilha. Sofia despreza meu amor, mas creio que é bem possível que um dia me ame. Eu acho a tristeza realmente deslumbrante, um cruel e amargo elixir para a inspiração dos seres mais desesperados. Mas às vezes prefiro a tediosa chatice de ser feliz.
Escrito por Mauro Cassane às 12h51
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