Cores Humanas


Um homem pontual

Com o resultado do exame em mãos Diógenes tremia, e não conseguia sair da sala de espera. Apenas sentia seus lábios e sua pele vibrar intensa e incontrolavelmente. Seus lábios secaram e rangia os dentes numa espécie de novo tique nervoso e permanecia sentado, olhando fixamente a parede branca em sua frente. Fazia também uma retrospectiva de sua vida. Era jovem ainda, apenas 34 anos, separado, pai de uma garotinha de cinco anos, um bom emprego numa multinacional, carro do ano e morando sozinho num confortável flat. Pensava nas suas orgias recentes, em Silvia, sua namoradinha, e no vinho que tomou na noite anterior com a jovem Daniela. Passou a noite com Daniela, transaram muito e tomaram café da manhã juntos. Nem se lembrou de Silvia, e nunca se arrependia. Mas agora, ao fazer parte de um seleto grupo de pessoas cuja vida estava em acelerada contagem regressiva, pensava em Silvia, em sua filha, nos tempos de namoro com sua ex-mulher e no colo de sua mãe. Diógenes foi um garoto estabanado, ia mal na escola, mas passou todos os anos no ensino público. Financeiramente sua família era de classe média, culturalmente era desclassificada. Formou-se em direito muito novo, numa faculdade caça-níquel da periferia mas conseguiu uma bolsa de estudo num cursinho de merda no exterior, ficou seis meses no Canadá, voltou e sempre, por sorte, não tanto por competência, obteve bons empregos.

Por essa razão acabou casando cedo, aos 25 anos, com Denise. Ficaram juntos por sete anos. Depois ela descobriu que ele a traia sistematicamente com Silvia. Denise era uma mulher virtuosa e linda, bem formada dos pés à cabeça, e mulheres assim não têm o hábito de assimilar traição. Desfez-se do casamento, tratou de arrumar um sujeito duas décadas mais velho e alguns milhares de reais mais rico e não quis mais saber nem de ver o ex-marido. Mas Diógenes,  como qualquer advogado, tratou da separação com esmero e cuidado para deixar tudo nos conformes da lei e assim garantiu seu direito, a contragosto de Denise, de visitar a filha. Além disso, para passar um lustro honroso ao seu pé na bunda, resolveu assumir publicamente seu relacionamento com Silvia. Se bem que Diógenes era homem de poucos amigos, ainda que de muitas amigas. Contudo, não por desvio de conduta, nem por defeito de caráter, Diógenes tinha por hábito sempre manter uma ou outra mulher além da titular. Gostava mesmo disso, e o fazia com quase sincero sentimento a ponto de dar presentes às amantes nas datas chavões, como dia dos namorados, Natal e aniversário. Era um sujeito zeloso, honesto, romântico e apaixonado por suas mulheres. Além de tudo, extremamente ciumento, particularmente com as amantes. Certa feita, enquanto ainda casado com Denise, quase esbofeteou Silvia no meio da rua por ela ter ido a uma festa com um amigo que, evidentemente, era interessado nela. Silvia jura até hoje, sob todos os santos, e até em nome dos pais, que não aconteceu nada. Mas de fato, e como narro em terceira pessoa, e quem narra assim sabe das coisas que acontecem com seus personagens, Silvia transou com o tal cara e até gostou. Mas era também uma garota romântica, e sabia que fora apenas uma curiosidade sexual bem peculiar às fêmeas, e ela preferia mesmo a doçura de Diógenes ao descomunal diâmetro do cacete de Leandro, o tal sujeito que, naquela fatídica noite, tirou dela, sob profunda confusão de dor e prazer, sua derradeira virgindade, a anal. Mas essa íntima história entrou apenas para o secreto diário de Silvia, ainda que, também inerente às mulheres, também fora relatada a duas amigas de longa data que, naturalmente, contaram para outras fiéis amigas e assim sucessivamente.

Escrito por Mauro Cassane às 14h56
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continua...

Teoricamente ninguém sabia de nada e Leandro até que tentou outras investidas, mas todas penosamente declinadas por Silvia que, acima de tudo, era séria, religiosa e conceitualmente fiel. Entretanto Leandro se deu muito bem com as amigas e amigas das amigas. Mas Silvia, a despeito deste compreensível deslize de conduta, ainda que justificável pois ela sabia da situação matrimonial de Diógenes, praticamente era uma mulher fiel. Diógenes e Silvia ficaram juntos e ela passou a ser a oficial. Obviamente que morando cada um em seu próprio endereço. Silvia nem desconfiava de Daniela e a pobre Daniela sequer sabia da existência de Silvia. Mas Daniela, também sem saber, era amiga de quinto grau de Silvia e, por conta disso, sobretudo pelos peculiares aumentativos quando algo se espalha no tal do boca-a-boca, também havia sentido uma forte pressão retal numa vertiginosa e orgiática noite com Leandro. Essa é a vida e Diógenes levava as coisas assim, bem administrado, tudo coordenado em agenda e até milimetricamente cronometrado no relógio. Era um homem pontual e não chegava nunca atrasado. Um cara correto e, como todo ser humano, nutria apenas um vício incurável: era apaixonado por essas tolices de karaokê. E freqüenta um ensebado lugar, religiosamente, bem no centro de São Paulo, todas as quartas-feiras. Lá ele fazia dueto com uma mulher estranha, com uma terrível cara de travesti, pesada maquiagem, cabelos com apliques meio encardidos, cara um pouco inchada, viciada em bezendrina, barriga com três dobras, usava cores berrantes e roupas colantes, mas cantava bem. Uma voz sedosa e rouca. Imitava bem a Perla. Diógenes, que sempre estava com lindas garotas, mantinha, apenas dentro da escuridão do karaokê, e regularmente às quartas-feiras, um estranho romance com Vanda, a gorda cantora, de 56 anos e que, por um insondável mistério, parecia que nunca saia de dentro daquela fedorenta e mofada espelunca. O lugar era por demais abafado, não possuía janelas, a ventilação não funcionava direito e eles transavam sempre no miserável, apertado e imundo banheiro masculino depois de muito uísque Old Eight e algumas performances musicais estilo flash back, cuja especialidade da dupla era um desbotado repertório de Wando e Paulo Sérgio. A mulher era uma risível aberração e o velho Junqueira, barman, técnico de iluminação, caixa e dono do lugar cobrava dez reais para ficar vigiando a porta do banheiro por quinze minutos enquanto eles se refestelavam na tradicional rapidinha. Vanda era realmente horrorosa, de proporções aberrantes, mas não asquerosa. Cheirava a algo doce, pois usava um desqualificado perfume genérico que o Chino, um vagabundo bêbado quase pedinte que dormia sob o minhocão, roubava das barraquinhas da 25 de Março e lhe vendia por três contos. E no banheiro eles se encaixavam perfeitamente, óbvio que sempre na mesma posição, pois Vanda ocupava 70 por cento daquele sujo e pífio espaço. De modo que bastava ele entrar primeiro, baixar a calça com cuidado para não molhar a barra nas poças de mijo do piso, encostar-se na parede lateral da privada tingida de marrom e ferrugem, e repleta de merda flutuando – pois a descarga nunca funcionava – e ela entrava de ré, daí ele baixava sua imensa e colada calça de moletón amarela, quando então surgiam balançantes, gigantescas e brancas nádegas cobertas de espinhas e cheias de ondas como neve derretida, vindo lentamente em sua direção. Era só ela dar uma remexida, ele abria espaço entre as gordurosas carnes e pelancas, e penetrava quase que instantânea e imperceptivelmente. Quinze minutos cravados no relógio. Ele não se mexia, apoiava-se naquela carne toda e agarrava com os dedos alguns pedaços mais frouxos e ela apenas soltava todo volumoso 124 quilos sobre aquele corpo franzido e rígido estampado na parede. Junqueira era criterioso e rigoroso com essa soberba e sinistra liturgia sexual. E Diógenes era um cara regrado. Fazia tudo certinho, e nem gostava de variações. Era assim mesmo que agia todas as noites de quartas-feiras. Não entendia porque caralho gostava daquele mistura de mar de banha o comprimindo na parede, cheiro de merda velha e a sensação louca de ser engolido por uma disforme bunda gigante. E esse era seu refúgio da vida corporativa no subsolo da cidade exatamente no meio da semana.

Mas agora Diógenes está na asseada sala de estar de um renomado laboratório que faz exames e análises e tudo mais. O resultado é inequívoco. Tumor maligno no cérebro e num tamanho impressionante que lembra um aparelho de celular. Tivera uma conversa franca e devastadora com o médico. Nem adiantava perder tempo com qualquer porra de terapia de choque. Seus dias estavam contadíssimos. Porém, não fossem as lancinantes dores de cabeça, principalmente nas tardes de sol, estava se sentindo absolutamente normal. A parede continuava ali na sua frente, branca e nula, apenas para deixar passar suas memórias como na tela de um cinema. Pensava demais em sua mãe e começou a associá-la à corpulenta figura de Vanda. Sim, eram parecidas. Diógenes rio um pouco, entre trêmulas lágrimas. “Quanto tempo vou viver afinal?”, argüiu a si mesmo. “Qual é o meu tempo?”. Enfim levantou-se e foi caminhando a passos perdidos e frios até ganhar a calçada, seguiu em frente, sem sequer prestar atenção no destino ou pensar sobre isso. Seis da tarde. Grande movimento de pedestres anônimos. Todos desconhecidos e apressados. “Será que alguém aqui imagina que vou morrer em breve?”, “Será que estão me vendo?”. Fazia isso encarando qualquer um que cruzasse com ele. Algumas pessoas o olhavam até meio desconfiadas. Naquele momento sentia uma vontade insana de ser visto pelas pessoas. Queria mesmo perguntar aos passantes “Sabia que vou morrer? Não é interessante isso? Você já conheceu alguém que vai morrer em breve?”. Mas não o fez. Era tímido demais. Pensou em estuprar alguém, sempre teve esse desejo inconfesso. “Porra, vou morrer mesmo, bem que eu podia pegar uma gostosa por aí e foder com ela na marra e dar uns tabefes e tudo mais”. Continuou seu caminho com seus passos automatizados, apenas refém de seu cotidiano. Pegou o metrô e foi direto e involuntariamente para casa de Silvia. Era terça-feira, dia de jantar com ela e não queria chegar atrasado. Sempre foi um cara pontual.  

 



Escrito por Mauro Cassane às 14h56
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Mistura brasileira

Conheci uma garota incrivelmente linda e estupidamente burra. Mas não era só beleza de rosto, era uma obra perfeita da natureza em termos estruturais. Possuía a insinuante cadência das baianas; e cintura, bunda e os peitos, assim como a barriguinha das cariocas. A simetria da face era algo bem peculiar às gaúchas, o encantador sorriso faceiro lembrava aquelas estranhas garotas de floripa e a pele de pecaminosa cor remetia em muito as brejeiras e silenciosas mineiras. Que corpo fascinante. Estava ali, na fila de uma espelunca de lugar que serve comida por quilo. Uma calça jeans baixa enaltecendo sua portentosa bunda e desconcertante cintura à mostra. Um filete da calcinha branca contrastava com sua pele de invejável coloração de bronze. E a camiseta também branca e minúscula destacava a inverossímel volúpia de tão soberbos peitos. Os cabelos, como pequenas e negras molas angelicais, pendiam soltos e pareciam elétricos a cada passo dessa criatura provavelmente confeccionada nas mais maléficas usinas dos infernos. Bem na minha frente, com aquela bunda vibrante, arqueada, oferecida e com suas proporções tão exatas e desconcertantes, me deixavam em estado de pura bobose. O rosto, observei logo depois, quando a danada deu uma olhadela para trás, não sei por que razão, creio que para conferir seu séqüito e se havia muita baba pelo chão, era de incomum beleza, rara mesmo, daquelas que são unanimidade entre homens e mulheres. Odeio filas, mas naquela, enfim, nem notei o tempo passar. Minha grande sorte foi um pequeno incidente. Acabaram-se os pratos. Uma gorda começou a reclamar. Pois foi justamente na vez dela encher o bucho. Devia estar faminta. Um executivo bem atrás da gorda, creio que gerente de banco ou algo do tipo, com seu terno azul escuro comprado em liquidação, e sapatos um pouco gasto mas brilhando, arvorou-se em cuidar da situação. E educadamente tomou as rédeas do que poderia virar um distúrbio incontrolável. “Calma, senhora, eles já vão providenciar mais pratos”. A gorda retrucou: “Porra, to aqui há dez minutos e ninguém diz nada”. O ensebado engravatado argüiu a um serelepe rapaz vestido de avental: “amigo, por favor, precisa repor os pratos”. E o rapaz quase com indiferença respondeu: “estão lavando, calma, calma, já tá chegando”.

Imaginei como deveria ser o processo de lavagem de pratos naquele lugar. Mas fiz isso apenas por alguns segundos. Me deu nojo. Mas tudo bem. Não tinha tanta fome, e se aquela morena não estivesse bem na minha frente eu já teria caído fora dali há tempos. Pensei em tecer algum comentário, dizer algo para a morena. Mas ela não olhou mais para trás. Decerto não havia se interessado por nenhum dos babões ali presente, inclusive eu. Dei uma olhada para trás e o sujeito atrás de mim, um cara magro como um etíope e com uma cara dramaticamente chupada, com imensos pêlos saltando de suas ventas arqueou a sobrancelha esquerda e piscou fazendo um gesto com o rosto que, entendi bem, queria que eu notasse a cena em minha frente. A morena deixou a caneta cair ao chão e, sem dobrar o joelho, abaixou para pegar. Caralho, que safada. Um tempão sem trepar, e aquela bunda tão insinuante bem na minha frente. Não resisti e fiz algo que jamais faria em uma situação de normalidade.

-         Hei, você acha que vale mesmo à pena esperar para comer aqui. Nunca almocei aqui. Mas essa coisa de esperar os pratos serem lavados me deu nojo. Você come sempre aqui?



Escrito por Mauro Cassane às 15h07
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continua...

Disse isso a ela, foi o que me ocorreu para puxar assunto. Não sei como fazer isso. Sou ruim demais nesse lance de abordar garotas. Fico com vergonha, me dá uma incontrolável timidez que chego mesmo a ficar meio tonto. Mas ali, ao menos naquela situação, havia uma desculpa. E ela foi surpreendentemente gentil. Se virou, e reitero, era realmente linda, com traços finos e delicados, parecia mesmo uma modelo internacional e me disse:

-         Ah, não. É a primeira vez. Mas acho que vou para outro lugar. Preciso ir pra casa logo e já perdi tempo demais aqui.

-         Bem, eu conheço um outro aqui perto que é bom. Até o ambiente é bem melhor que esse. Se quiser, podemos ir juntos pra lá.

-         Não é caro?

-         Acho que é até mais barato que essa porcaria aqui.

-         Legal, vamos sair daqui então. Esse lugar tá me dando nos nervos.

Saímos. Que emoção. Eu ao lado de uma beldade daquelas. Acho que devia ter uns 25 anos. Não sei. Talvez um pouco mais. O outro lugar ficava a duas quadras dali. Mas ao sair resolvi caminhar um pouco mais. Conhecia tudo por essas bandas. Andamos três quadras. E ela não chiou nem nada. O papo estava bom. Quer dizer, para uma preliminar, foi bem legal. Ela me contou que estava procurando emprego. Tinha ido a uma agência de emprego. Pela forma como me descreveu a entrevista só poderia mesmo ter sido um engodo. Pediram dinheiro pra ela para arrumar uma entrevista para ser secretária. Disse pra ela que só podia ser sacanagem. Ela ficou perplexa pois estava mesmo arquitetando um meio de arrumar os quinhentos paus que pediram para descolarem a ela uma entrevista e um teste. Era ingênua demais. Me perguntou o que eu fazia. Eu disse que era jornalista. Daí ela teve um momento de vibrante êxtase, parecia que estava diante de uma personalidade. “Nossa, então você é artista. Você trabalha em que emissora?”. Porra, pensei em mentir. Ela estava realmente fascinada com isso. Se mentisse minhas chances de trepar com ela naquele mesmo dia seriam inequívocas. Mas não sei mentir assim. Me sinto mal. Expliquei que nem todo jornalista trabalha para televisão e que eu nem gostava. E disse que escrevia para revistas. Mas resolvi não dar detalhes, pois certamente seria mais confuso pra ela. Bem, mesmo assim ela ficou maravilhada e me disse o óbvio: “sempre pensei em ser jornalista, mas nunca tive dinheiro para me formar”. E eu respondi o mais óbvio ainda: “ah, mas um dia você consegue”. Ficamos em silêncio. Pensei ter feito merda. E chegamos ao outro restaurante. Realmente mais limpo e organizado. Comemos juntos, numa mesinha minúscula que podia sentir o cheiro daquela pele macia e fiquei imaginando a textura e como deveria ser bom ter aquela mulher de quatro e alucinada de tesão. Ela não parava de falar. Falou de crentes, de comunidade da favela, das gangues e o caralho. Um tédio. Então toquei no assunto que me interessava.

-         Você namora? – perguntei sorrindo.

-         Ah, credo. Nem quero mais saber disso. – a resposta me deixou curioso.

-         Não? E por que?

-         Desilusões demais. Namorei dois anos e o cara me traia na maior cara de pau. Dei um pé na bunda dele.

-         Caracas. Trair uma gata como você. O cara era cego ou algo assim?

-         Era um idiota isso sim. – disse rindo, solta, mexia nos cabelos saltitantes e vez por outra arrumava a blusinha que lhe escorria pelos ombros.

-         Vou te dizer uma coisa. Se eu namorasse contigo nunca a trairia.

-         Ah, tá bom. Vocês homens são todos iguais. Uns grandes mentirosos.



Escrito por Mauro Cassane às 15h06
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continua...

Eu acho que se insistisse nessa história de namorar seria um desastre total. Mudei de assunto. Tentei falar de cinema. Nada. Nem pensei em literatura. Ela me falou de música. Gostava de sertaneja. Gostava não. Amava. Curtia uma dupla de merda que nem lembro do nome mas já tinha ouvido falar. Não tive coragem de dizer que eu odiava. Queria tentar transar com ela. Mas também não ousei dizer que gostava. Seria ir longe demais por uma trepada. Porra, ficamos conversando tolices sem ver o tempo passar por duas horas. Ela desempregada, eu vagabundo. Ficamos ali, tomando sorvete e conversando sobre os mais estapafúrdios e incoerentes assuntos. Senti que ela ficou afins de mim. Mas não era só uma mulher ignorante, pois a ignorância é a ausência de conhecimento, ou da oportunidade de conhecer as coisas. Ela era absolutamente burra. Ferozmente burra. Era tão bela quanto burra. Uma idiota completa que cairia fácil na lábia de qualquer um. Falei que gostava de fotografia e ela imediatamente se ouriçou e me perguntou se eu faria um book dela. Ah, como é foda ser honesto. Eu poderia dizer. “Sim, faço sim. Vamos fazer isso hoje mesmo num quarto legal de motel”. E ela iria. Bastaria dizer somente isso. Saímos dali e fomos caminhar um pouco. Um calor infernal e ela estava úmida de suor. Até que cheirava bem.

-         Hei, que tal tomarmos uma cerveja? Estamos de bobeira mesmo. – eu disse.

-         Boa idéia. Nesse calor vai cair muito bem.

Sentamos numa simpática mesinha bem na calçada. Quatro da tarde. Bebemos até as seis cinco garrafas de cerveja e duas doses de cachaça. A moça mandava bem. E era resistente. Mas amoleceu. Como qualquer uma. Meio bêbada ficou entesada e toda safada. Começou a contar suas aventuras com homens. E eram realmente dignas de filmes pornô. Toda gostosa tem coisas interessantes a contar. Fiquei incontrolavelmente excitado. De lá fomos direto a um motel. Trepamos por cinco frenéticas horas. Um lance meio selvagem. Eu que não sentia uma mulher por tanto tempo estava sendo apaixonadamente acariciado por uma das mais belas criaturas da terra. E cai de boca de forma insana e esfomeada por todo aquele corpo. Ela pirou e gemia como uma gata de rua no cio. Gozou alucinadamente algumas vezes. Me elogiava de forma quase profissional, como fazem as putas. E isso me deixava pronto para mais uma. Que corpo perfeito. Que fêmea insinuante. Gozava fácil e escandalosamente. Levei-a para casa no limite da periferia mais afastada de São Paulo com outra cidade. Quase uma hora de carro passando por becos e morros, favelas e ruas estranhas e com figuras fantasmagóricas e ameaçadoras. Mas estávamos leves demais. Quase apaixonados. Os vidros semi-abertos permitiam que nosso cheiro de gozo e sexo pairasse no ar. Isso afasta qualquer mal. Nos despedimos com um longo beijo e foi os lábios mais carnudos que jamais antes vi ou senti em minha vida. Fiquei apreciando pela janela aquele corpo esplendoroso se afastar num caminhar cheio de sensualidade, abrir a carcomida portinha de madeira e desaparecer na melancólica penumbra do barraco. Ela não tem telefone, nem e.mail, nem nada. E eu jamais vou saber chegar naquele buraco outra vez.   

 

 



Escrito por Mauro Cassane às 15h05
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O brilhante appeal que desbota sem que notemos

 Um amigo me escreve e diz que ficou olhando uma arma carregada e, não me disse, mas sugeriu que, angustiado que estava, sentiu vontade de dar cabo à própria vida com um tiro em si mesmo. Talvez na cabeça, que é o lugar mais apropriado para se ter êxito nessa louca empreitada. Na carta ele me explica que está assim por um amor frustrado. Caralho, nós os estúpidos românticos. Já pensei em me matar também. Acho que muita gente já aventou tal tolice. Mas continuo achando a morte vergonhosa. Não exatamente o suicídio. Mas a morte em si. Ficar no caixão, aquele cheiro horrendo de flores murchas e quase podres, todos te olhando com cara de misericórdia e dó. Ah, vá se foder. Deixemos que a natureza cuide disso. Cedo ou tarde morreremos mesmo. Não tem jeito, nem salvação. Morreremos. Daqui cem anos tanto eu como qualquer amigo meu, amante, puta, leitor, inimigo ou seja lá quem for que estiver convivendo comigo estará irremediavelmente morto. Não tenho dúvidas disso. Seremos saltitantes almas de luz ou de trevas ou sei lá de onde. Mas não estaremos mais nesse mundo. E, o que é pior, o mundo estará muito melhor sem nós. Isso mesmo. O mundo vai melhorar, e nem vamos ter o prazer de desfrutar de tais melhorias.  Não se trata de otimismo ou pessimismo. Mas a realidade é que as coisas sempre melhoram quando estamos fora delas. Mulher abandonada fica mais linda. Emprego largado fica melhor. Quando deixamos de torcer para um time ele acaba se destacando na temporada. Não sei ao certo com os outros, mas comigo sempre funcionou assim. Era só eu largar uma namoradinha caipira e tonta para ela imediatamente, como num passe de mágica, se transformar na filha da puta mais tesuda e linda do pedaço. Então, tenho certeza, assim que eu morrer o mundo ficará melhor. E talvez para onde eu for, ou o que restou de mim, se é que isso é mesmo possível acontecer, vai estar passando por alguns problemas. Mas, vão me dizer, ah isso vão mesmo, “olha, aqui já foi muito bom”. É sempre assim.

Bem, não vale à pena se matar por um amor não correspondido. Ou por frustrações de amor. Ou por caralho nenhum. Sofri um tempão por amor e isso não me valeu nada. E outra, ainda amando, e sendo amado (acho que fui amado, pois a gente nunca tem certeza) fui traído por diversas vezes. O que me leva a crer que o amor é um passo certeiro para a cornice. Mas posso estar enganado. Talvez nem tenha sido amor. Como disse, a gente nunca sabe ao certo. Lembro de uma vez que estava ali com ela. Passamos um dia inteiro juntos. Estava tudo indo muito bem e era só carinho, beijos e sexo e gozo e tudo mais. Um primor romântico, sempre nos tratando com doces palavras e juras de amor. Tudo muito certo. A noite ela sairia com uma amiga. E saiu. Era uma festa. Bebeu, fumou encontrou um sujeito boa pinta e de bom papo. Conversaram por horas. Daí passaram a noite juntos. Simples assim. Outra vez, antes de uma romântica viagem, exatamente no dia anterior, e eu ali todo animado com nosso passeio, enquanto preparava as coisas e tudo mais, ela transava com um cara num quarto de motel. Não consigo também me esquecer de uma noite em que a esperava na cama, louco de tesão por ela. Ela me disse que precisava terminar um trabalho. E, na verdade, a despeito de realmente ter dado umas pinceladas no tal serviço, trocava picantes conversas com um cara nessa porra de papo on line que hoje em dia é possível fazer na maior cara de pau, ou serenamente, diante de um computador. Alguém sempre trai numa relação. É normal. Muitas vezes ambos traem. Por isso o importante é não amar tanto, pois quem ama muito é corno. E ponto final. Você tem apenas que amar razoavelmente. Ou comedidamente. Manter a relação na superficialidade o maior tempo possível. Mas nem toda mulher é assim. Ainda que quase a maioria dos homens o seja. Mulher que costuma dar uma traidinha é aquela que tem um appeal acima da normalidade. E tenho uma propensão estúpida a morrer de amores por essas donas que vivem o tempo todo sendo loucamente desejadas. Elas não fazem sequer esforço pra isso. Simplesmente exalam sexo pelos poros, pela boca e até pelas narinas. Onde vão, por onde passam, há homens prostrados e dispostos a qualquer sacrifício para foder com elas. Nem que seja por uma noite apenas. Melhor seria por diversas noites. São mulheres maravilhosas, inteligentes, sensíveis, sérias e profissionais. Mas têm a porra do appeal exasperado, ou seja, a maldição do cio constante. Um certo furor uterino descomedido. Aquele cheiro indescritível que contamina e enlouquece os homens mais putos do mundo. E elas simplesmente não resistem a tantas investidas. Acabam relaxando, baixando a guarda e se divertem e gozam com isso. Algumas vezes amam, outras apenas curtem, e a fila vai seguindo adiante. Normalmente são garotas com pouca memória romântica, não ligam muito não. Seguem adiante e deixam um rastro de lágrimas atrás delas. Sabem que podem encontrar homens por onde passam e é tudo muito simples e fácil para elas. Levam a vida sem muitas preocupações com amores passados, são imunes às cicatrizes românticas e não se abalam com recordações ou grandes momentos compartilhados a dois. Simplesmente esquecem, pois estão sempre vivenciando uma nova e fantástica paixão. A vida é assim para elas. São deusas e musas para uma porção de homens. Realmente inspiram a gente. Invariavelmente são sedutoras e trepam muito bem. É fácil amá-las, porém é quase impossível manter esse amor por muito tempo. Elas mudam ao sabor dos ventos. E são desejadas, sempre intensamente desejadas. Porém, como disse, há uma espécie de maldição e há, claro, o lado negro e cruel disso tudo. A outra face da moeda. Ou, talvez melhor explicando, o grande preço a se pagar por isso. Pois nada nesse mundo é só bonança ou só glamour. Essas mulheres têm grande dificuldade para diferenciar amor de tesão, amigos de verdade de amigos de conveniência. E vivem num idílico mundo totalmente à parte da realidade. Fazem amizade num estalar de dedos de uma maneira tão normal quanto cagar ou comer. Mas o tempo passa sorrateiramente, e chega um ano que de repente o appeal simplesmente some. Desbota e murcha junto com a pele, os cabelos, a bunda e as tetas. A maioria das pessoas normais encara muito bem isso. Mas elas costumam entrar em desespero e buscam uma forma de remediar isso até mesmo com os melhores cirurgiões. Outras sucumbem a qualquer idiota disponível. E quase todas terminam na mais desolada tristeza e solidão. Hoje em dia estou mais vacinado contra garotas assim. Elas brilham sempre mais que as outras. Mas não é bom amá-las. É legal apenas entrar na fila e curti-las sapiente de que a fila anda. Mas o tempo também segue sua marcha. E é bem mais rápido do que se imagina.   



Escrito por Mauro Cassane às 12h39
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