Cores Humanas


Carne branca, morena, mulata

O calor é uma merda. A gente fica grudento, asqueroso demais. Tenho nojo de tanto suor. Tomo um monte de banho gelado e não adianta nada. Caralho. Ainda bem que não trabalho com terno e gravata como fazia antes. Passei bons anos uniformizado assim. Era terrível e degradante. O bom é que eu transava bem mais. Ah, isso eu não tinha do que reclamar. Passei quinze anos engomado, perfumado e suando feito um jumento, mas transava com as garotas mais lindas e tesudas. Claro, nenhuma que valesse à pena qualquer consideração a mais depois da segunda gozada. Algumas eu me esforçava para ir até uma terceira. Mas nada além disso. E suor bom, e até cheiroso, é aquele do sexo. Aquele fluído todo, que escorre, fervilha e que nos deixa untados como gosmas. Dois corpos gosmentos que se entrelaçam e se esmagam. Tesão isso. De resto a vida corporativa é uma grande e medonha merda. Reuniões que não dizem nem resolvem nada, documentos sem importância, e muito papel. Puta que pariu, nunca vi produzir tanto papel como nesses escritórios de empresas. E os caras falam de ecologia e tudo mais. Balela pura. Bem, homens engravatados trepam mais que caras como eu que vivem tomando banho a toda hora. Mas ainda prefiro assim, ou seja, banho várias vezes ao dia. Gosto de cheirar bem. Amo mulher que acabou de sair do banho. É bom. Tem quem prefira mulheres fedorentas e suadas e sujas, eu não. Gosto de mulher recém-saída de um banho, preferencialmente demorado. É legal esperar. Daí elas vêm com aquela fragrância toda, cremes e óleos. Gosto mesmo. O cheiro natural também me apetece. Mas carniça de suor nem a pau. Me repele, me brocha. Porra, e no calor então? Não dá. Fosse no inverno, naquela freaca nórdica, ainda vá lá. Mas aqui? Nesse insuportável calor úmido? Não, não e não.

Esse preâmbulo tem justificativa. O calor está irracional, meio irreal até, passei por um relógio de rua depois de ver a hora, 16h20, daí apareceu a temperatura, 39 graus. Estamos na primavera e na terra da garoa. Quase quarenta graus. Não dá pra pensar numa temperatura assim. Não dá mesmo. Só se consegue fazer merda. Ou axé, ou pagode ou versos para duplas sertanejas. Camus esteve no Brasil e ficou seriamente propenso a se matar. Teve vertigens e confusão mental. Como o cara ia pensar ou filosofar nesse puta calor do caralho? É bom ser pensador e escritor na França. Aí sim. No frio faz frio de verdade. O outono é suave, a primavera é doce. Ah, que poesia. E o verão europeu, que meigo, faz calor. E até esquenta. Eles se fodem com isso mas só por menos de três meses. Aqui não. É 350 dias de calor, 10 de frio e chuva e vento e poeira. Os outros cinco dias restantes as estações se alternam bagunçadas de manhã até a madrugada. Ou seja, temos apenas quinze dias para brincar de ser escritor. Os resto do tempo nossos miolos derretem e só dá pra fazer axé, pagode e, com algum esforço criativo, talvez no ar-condicionado, acaba saindo uns versos primorosos para serem utilizados em bailes funks. Não sei como se escreve isso. Poderia ser fuck que daria no mesmo. Tá muito calor, caralho, e não consigo pensar direito. Andei pela rua para ver as pessoas. Respirar um pouco. E o sol queima e arde. A gente tira a camisa e aí sente o câncer se instalando na pele. É bom ver as garotas e suas camisetinhas e mini-saias. Fui tomar um caldo de cana no japonês. Bem gelado. E aproveitei e pedi uma tigela de açaí. Pra refrescar. Mas não refresca. Definitivamente não dá pra andar por aí. Fico no meu canto, escrevi um discurso e entreguei. O ventilador é barulhento e sopra um bafo mais quente ainda. Tiro a camisa e fico aqui sobrevivendo. Dá tesão, o pau fica pressionando, chamando, puto com a gente. Mas me faço de desentendido.  Vince traz duas cervejas geladas. Ah, isso é bom. Beber. Duas garrafas em uma mão e dois copos na outra. Os dedos encardidos dentro dos copos deixa até a marca ensebada. Porco do caralho. Mas estamos nos trópicos, tá calor, os micróbios estão por toda parte. Foda-se. Um brinde.

Há nem sei quanto tempo não trepo. Mas agora estou numa fase estranha, meio zen, meio estúpida. Não sinto mais aquela gana febril por uma buceta. Passou a vontade. Fiz um exercício para chegar nesse estágio. Me imaginei preso. Isso mesmo. Dentro de uma prisão. Não naquela porra fodida de xilindró abarrotado de filhos da puta. Mas apenas idilicamente preso. Alma encarcerada. Bichice? Ah, sim, pode ser. Porém foi o meio que encontrei para não me angustiar tanto com falta de sexo. As opções estão por aí. Tem as putas caras e baratas. Tem as garotas que curtem uma boa trepada. Tem as baladas onde tudo pode acontecer. Há também as casas de orgias, swing e tudo mais. Ficar sem foder em uma cidade como São Paulo é algo que, honestamente, só pode ser uma opção mesmo. E foi isso. Opção minha. Sofia não pensa em mim e transa com outro. Tem prazer nisso. Se sente completa de corpo e alma tansando com aquele cara. E eu nem penso mais em sexo com ela. Pensei um dia. Mas não mais. Agora sou zen. Um idiota zen-budista desconectado dos prazeres carnais. Afinal o sexo nada mais é que uma miserável sensação natural que leva o homem a transar com a mulher só para gerar mais homens, para procriar, para fazer mais gente habitar o planeta e foder com tudo. Há algo de muito maligno no tesão. E agora me sinto mais puro. Abstinência. Tem gente que evita comer carne vermelha. Eu preferi não comer carne branca, morena, mulata. É assim mesmo. Tem um nefasto efeito colateral. Ando com um abominável mal-humor que me dá nojo de mim mesmo. Não me suporto. E parece uma doença mental. Me confundem com um depressivo. Até consigo rir, mas normalmente me pego chorando diante de qualquer tolice que vejo. Fico com os olhos marejados de ver uma criança miserável no colo de uma mãe esfarrapada e pedindo esmola no farol. Fico mal com isso. É falta de sexo. Só pode ser. Ao mesmo tempo tenho vontade de matar a dentadas um cara que me dá uma fechada no trânsito. São os efeitos colaterais da abstinência. Sou um cara cujo metabolismo exige sexo, no mínimo, uma vez por dia. Estou agora numa batalha frontal e execrável contra minha natureza. Zen, sim, muito zen. Nem os putos padres devem agir como ajo, assim como um anjo assexuado.

Estava falando do calor dos infernos e acabei por abordar minha vida sexual que, na verdade, dá no mesmo. O sexo tem a ver com o clima. Aqui embaixo a gente sente mais necessidade de trepar. No lado de cima da linha do Equador nem tanto. O calor minimiza as vestes, e faz a mulher exibir libidinosamente suas curvas e pele. O frio cria um charme, mas esconde o tesouro. Lá se compra inversamente lebre por gata. No inverno qualquer baranga pode ficar bonita. Nesse aspecto o verão é mais honesto. Mas Sofia é linda em todas as estações. Ela tem a cara do Brasil mas vive em outro mundo. Ela tem a ginga da mulher brasileira, mas se faz de européia. Ela tem o cheiro e a bunda da morena graciosa, mas gosta de brincar de sueca, fingindo indiferença, requebrando com cuidado tímido e quase frio. Ah, Sofia, sua filha da puta. Um dia ainda te pego pelos cabelos e te beijo até todos os seus poros chorar o sagrado suor do tesão.    



Escrito por Mauro Cassane às 19h05
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Um domingo chuvoso na cidade

Uma tempestade com fortes rajadas de vento e raios desaba na região central. A enxurrada arrasta sacos de lixo, caixas e restos da feira, levando tudo para a parte mais baixa e pobre da cidade. Aquelas porcarias todas entopem as bocas de lobo e um pastoso aguaceiro marrom é represado impedindo a passagem dos carros. O trânsito só não vira um inferno porque é uma melancólica tarde dominical e, perto do prédio de Raul apenas os carros dos fiéis agüentam heroicamente estacionados com suas rodas atadas ao meio fio. Àquela hora o culto já estava encerrado, mas os crentes não tinham como sair sob aquela torrente de vento e água. Ficavam ali, espremidos na porta, protegendo seus rotos ternos amarrotados e coloridos vestidos compridos das fortes gotas, num misto de encanto e preocupação com a fúria divina. Raul gostava de observa-los de sua janela. O mundo lá fora, com sol, chuva ou frio, tiro, gritos ou gemidos, era para ele uma espécie de atração à parte. Bem ao lado do templo estava o grande salão decrépto, com alguns tijolos à mostra e diversas parte de adornos meio destruídos, carcomido pela crueldade do tempo, mas ainda ostentando orgulhosamente sua arquitetura imperial dos áureos anos de glamour quando a nata da burguesia paulistana saia para suas dançantes noites de gala e champagne e tudo estava tão certo que até parecia perene. Agora os grandes mastros romanos da entrada humilhavam-se para dar suportes às placas de madeira propagandeando Chico Festeiro, o rei do forró que animava as noites de domingo ali mesmo. Do oitavo andar Raul se sentia protegido de todas as mazelas daquele miserável e decadente centro. Sempre degustando vinho branco chileno, vez por outra um francês, e ouvindo Chopin em seu pequeno aparelho de som. Sua televisão era antiga, portátil, e pegava muito mal. Mas raramente assistia tv. Almoçava frugalmente, bebia vinho, fumava sua erva e ficava ali, em seu sofá de frente para a grande janela de vidro, como diante de uma tela plana de plasma, observando o incrível espetáculo das coisas vivas lá fora. Ficava horas assim, inteiras tardes de domingo regadas a bom vinho, erva, Chopin e, quando a noite caia, folheava sua revista semanal. Tudo ergonomicamente disposto de modo a lhe permitir o mínimo esforço e o máximo conforto. Naquela kitnet exígua podia ligar a tv com o dedão do pé, do lado esquerdo cuidava de sua trilha sonora e, no direito, uma mesinha com revistas, livros e um espaço para taça e garrafa de vinho dava a ele o prazer de desfrutar as coisas boas da vida. Eis o mundo de Raul. Durante a semana fazia seu trabalho aborrecido e burocrático numa multinacional como relações públicas mas, do alto de seus 53 anos, sendo 16 deles dedicado à mesma companhia, já sabia muito bem que o mancebo aprendiz recém-contratado seria seu sucessor em questão de meses. Ou até semanas. Era um jovem bem-apessoado, com olhos brilhantes e esverdeados, negros cabelos minuciosamente puxados para trás e sempre vestido de maneira impecável e na moda, e ostentava diploma, cursos no exterior e essas merdas de MBA e tudo mais. Mas era demasiadamente tosco. Não sabia nada de vinho, nunca lera Neruda ou qualquer outro poeta e conhecia alguns nomes dos grandes magos das músicas apenas porque qualquer semi-idiota sabe esses nomes. O garoto até se esforçava numa doentia busca por algum verniz cultural que os reluzentes institutos de ensino não lhe deram. Mas era estúpido demais para ter êxito. Raul era ensebado e antigo para a função, insistente em suas indumentária antiquada e, ainda por cima, anacrônico corporativamente falando. Desses que vêem um computador como um monstro devorador de almas. Não tinha mesmo como se sustentar mais tempo no cargo. E sabia disso. Além de tudo, e isso era um agravante, não suportava mais o fato de ter que esconder por mais tempo sua homossexualidade de todos aqueles abutres machistas da empresa que, nos corredores, e sempre à boca pequena, o chamavam de bâmbi. “Que bando de imbecis”, pensava consigo enquanto observava as nuvens cinzas se abrindo e a tênue claridade do crepúsculo voltava fugazmente ao velho centro. Sobe uma névoa cristalina, o cheiro de concreto úmido o deixa extasiado e feliz. Se dobra e abre a janela, respira fundo. As pombas aproveitam para a última refeição do dia vasculhando todo lixo espalhado pelas calçadas. Os crentes correm para seus desengonçados carros maltrapilhos, outros lotam o ponto de ônibus e todos anseiam retornar a seus pobres lares na periferia para assistir Silvio Santos e preparar a janta e a marmita de segunda-feira. Raul segue sua rotina rigorosamente sem pressa. Todo domingo é assim. Às nove da noite toma seu banho, depois come um lanche natural, passa creme de amêndoa por todo o corpo e sai para buscar seu grande prazer por entre os soturnos becos centrais. Sua vida é regrada. Enseja sempre estar de volta às duas da madrugada para ficar disposto na manhã de segunda-feira.

Escrito por Mauro Cassane às 15h26
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continua...

Vai caminhando e, inexplicavelmente, sempre que anda pela rua, o faz de maneira apressada e olhando para os lados. É um tique nervoso. Não tem nenhuma razão para isso, tampouco nada o assombra, nem ladrões, nem putas, nem nada. Apenas se comporta nervosamente pelas ruas. Segue para o Bar dos Ventos, subindo a Angélica, dobrando a rua Maranhão e seguindo até o final. Aquele perfume fresco de noite úmida o remete à infância, quando brincava pelas ruas do Brás e fazia troca-troca com os garotos. “Bons tempos aqueles, ah, bons tempos”, pensava enquanto prosseguia a passos largos. Às 10h20 chega ao bar. Havia três reluzentes garotos conversando alegremente na porta. Raul os achou elegantes e bonitos. Estavam todos iguais com camiseta preta, calças jeans surradas e coladas no corpo. Raul apenas olhou de soslaio como era sua mais marcante característica de flertar. Sempre discreto e educado. Dentro do bar, com suas mesas de escuro mogno, e puídas cadeiras revestidas em couro, alguns soturnos gatos pingados com caras aborrecidas, mas todos bem conhecidos de Raul que os cumprimenta apenas com um ligeiro balanço da cabeça. Pede ao barman uma tônica com limão e gelo e pergunta, quase num sussurro, quem eram os três estranhos garotos ali conversando na frente do bar.

-         Raul, deixe esses caras pra lá. Nunca os vi antes.

-         Ah, claro. Mas que são bonitos e atraentes, isso são mesmo, heim?

-         Nem notei direito. Chegaram há meia hora e nem entraram. Devem estar esperando outros e provavelmente vão ao Rick´s.

-         Humm, aposto contigo que estão apenas tomando coragem pra entrar e tomar uns tragos aqui com a gente.

O barman apenas balançou a cabeça negativamente e sorriu. Foi para o outro lado do balcão, na pia, lavar uns copos. Era um ambiente silencioso o Bar dos Ventos. Sequer tocava música. Apenas conversas baixas e risos educados. Onze da noite. Os garotos continuavam animadamente conversando na porta e, de dentro, podia-se ouvir suas ruidosas risadas e, vez por outra, um deles dava ligeiras espiadelas para dentro. Raul permanecia sozinho e apenas cumprimentou seu parceiro de cama da semana anterior. Um senhor alto de 60 anos, corpo viril e atlético e abundantes cabelos brancos bem penteados, com um rosto magro e reto adornado por um grosso bigode que lembrava Stalin. Raul estava encantado com os rapazes e agora não disfarçava mais seu desejo a ponto de, entre os freqüentadores habituais, rolar uma velada aposta para saber se Raul teria ou não êxito na empreitada com algum dos três saltitantes jovens que permaneciam frenéticos do lado de fora. Onze e meia, Raul deixa uma nota de dez reais sob o balcão, faz um aceno de despedida ao barman e sai andando com seu velho passo apressado em direção à porta de entrada. Todos o observam, mas ele não olha para ninguém, apenas mira os três ali fora como um predador diante de sua presa. Momento de expectativa e apreensão. Afinal Raul, que há 20 anos freqüentava o bar, jamais abordou ninguém e agora se lançava, direto e ligeiro, para uma investida não em um, mas em três garotos estranhos. Abre a porta e, sem vacilar, fala algo aos três. Eles silenciam, entreolham-se, não riem, fazem caras de dúvida. Dentro do bar, como diante de um filme de mistério, se podia ouvir até a respiração de cada um. Todos estavam atentos apenas vendo gestos através dos vidros da porta que estava fechada. Raul falava baixo, com as duas mãos enfiadas no bolso e os três jovens cochichavam entre si e um, mais inquieto, gesticulava para os outros dois como se estivessem discutindo uma espécie de proposta de Raul. Ficaram um pouco alterados na discussão, mas diferente de ruidosos, agora gesticulavam abundantemente, porém falavam quase ao pé do ouvido e olhavam o tempo todo para dentro do bar como que tentando dissimular qualquer ação ou decisão. Raul permanecia pacientemente quieto, com a cabeça baixa, apenas aguardando a decisão do grupo, e com as duas mãos metidas no bolso. O garoto mais falante, depois de olhar bem nos olhos dos outros dois, e gesticular muito, voltou-se para Raul e, com o braço sobre seu ombro largo, disse algo em seu ouvido. Raul apenas consentiu com a cabeça, virou-se de costas e começou a andar, agora de maneira diferente, bem lentamente. Os garotos olharam para todos os lados, especialmente para dentro do bar, e o seguiram. A inusitada cena despertou uma grande discussão no bar e gerou apreensão entre todos. O velho de bigode do tipo Stalin chegou a propor que um grupo fosse atrás deles apenas por garantias. Mas o dissuadiram. Ninguém desperdiçaria uma boa noite de domingo com especulações. Raul nunca mais apareceu no Bar dos Ventos. Nem tampouco no trabalho. Havia uma boa grana a receber e ficou tudo retido com o governo já que ele não tinha família. A polícia encontrou a kitnet fechada do mesmo jeito que ele a deixou. O pessoal do bar se esmerou para descrever em minúcias os garotos que seguiram Raul para os agentes da lei. Não deu em nada. Apenas um personagem a menos na grande e velha metrópole.    

 

  



Escrito por Mauro Cassane às 15h24
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