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Solitária ave de rapina
A tarde vai caindo apressada e toda aquela gente anda mais e mais rápido voltando de seus trabalhos. Se esbarram, não se olham, e os estudantes sorriem em suas ruidosas rodas vagabundeando entre o tédio e os hormônios flutuantes que remexem suas pernas, peitos, paus e bundas. Sento um pouco na escadaria do prédio da Gazeta e fico ali, feito uma silenciosa ave de rapina, observando os passantes desesperados. Lembro de meu tempo de faculdade nessas mesmas escadas completamente alucinado, com medo de ser preso, ou então perseguido por cães, ou monstros fardados. Ficávamos morcegando pela noite na Paulista e depois nos largávamos pelas escadarias para assistir a passarela paulistana com suas luminosas criaturas desfilando e vagueando entre os mortais. E os anos passaram, tudo se perdeu, mas agora estou de volta ao mesmo puleiro empoeirado e encardido para assistir tudo e ver que as caras são as mesmas. Todos os estudantes ali, agindo da mesma forma, falando as mesmas coisas e com o mesmo tesão pulsante, frenético e inválido. A veia aorta da cidade gravita com seus puídos e rancorosos vermes envolvidos em aço cintilante. Se escondem sob negros vidros, ninguém os vê, tampouco eles conseguem se ver pois vão desbotando de tanto medo e ordinário receio humano de um simples afago. É bom se largar vadiamente um pouco assistindo o entardecer paulistano, quase num camarote urbano. E lá está Yara, a reluzente estudante de comunicação que sempre me pergunta coisas sobre jornalismo. O que diabos se pode aprender em jornalismo? Acho que nada. Ela me vê e sobe a escada eufórica, sorrindo, nem me dá tempo de levantar. Senta-se ao meu lado, me beija com tanta ternura que mais parece minha apaixonada namorada e começa a falar destrambelhadamente. Até que gosto, ela é uma suave morena com traços tão meigos e lindos que parece modelo. Cheira bem, produz suas próprias roupas e faz seu estilo. Escreve bem também, muito embora tenha um pouco de dificuldade para clarear suas idéias. E é um pouco confusa nas coisas, mas creio que, na verdade, isso ocorre porque insiste em escrever drogada. Cheira, fuma e bebe demasiadamente. Vive com uma renite fodida, e pigarreia, funga e fala sem parar. É um caralho entende-la. Mas é divertida, poética, tem uma boa voz sensual e uns peitos soltos e vigorosos que sempre estão visualmente insinuantes. Nunca fizemos nada, nem transamos, nem beijo, nem nada. Mas nessa porra de tarde vazia, desesperada, e na minha já perene solidão que devasta meus sentidos e multiplica minha angustia, comecei a alimentar desejos pela falante Yara que se debruça sem rodeios sobre mim, comprime seus peitos em meu ombro para me mostrar seus loucos textos impressos em amarrotado papel sulfite.
- Veja esse poema, que tal? O que achou?
- Sim, interessante...
- Mas como? Faça suas críticas!
- Oras, não sei fazer críticas. São legais...
- Não são estranhos?
- Como?
- Estranhos! Sei lá...desesperados!
- Ah, Yara, foda-se. São legais e pronto. Mostre para seu professor de literatura que ele faz uma análise crítica. Eu não.
- Tá vendo, você nem liga.
- Como não ligo, eu li, são legais. Já disse... - Você é um chato arrogante, isso sim.
Escrito por Mauro Cassane às 12h40
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continua...
Fica emburrada, faz bico e se vira de frente, mirando o frenesi dinâmico das pessoas e carros. Um bico lindo. Me lembra uma garota que amei muito. Em muitas coisas ela lembra essa garota. E isso me deixa triste, pois sempre que uma mulher me lembra Sofia, perco imediatamente o tesão por ela. E me dá melancolia. Deveria ser diferente, eu tinha que sentir mais tesão. Mas o efeito é exatamente o contrário e devastador. Fico mal, perco o interesse e penso em Sofia. Só nela. Além de tudo, meu humor se altera e minha paciência se exaspera. Uma merda. Ao pensar em Sofia, me esqueci de Yara ali ao meu lado fazendo caras e bocas e fingindo irritação comigo.
- Você não vai falar mais nada?
Ela me pergunta num sorrisinho maroto me tirando de minhas tolas recordações românticas.
- Vamos tomar alguma coisa. Que tal um vinho?
- Legal
Caminhamos até uma cantina italiana, cruzando a espremida floresta urbana com suas árvores sufocadas pela fumaça e percorrendo as reluzentes calçadas dos brilhantes prédios de vidro. Ela sempre saltitante ao meu lado e vibra com tudo, com os olhares, com as pessoas, com os ambulantes e conta suas histórias loucas e experiências sexuais risíveis mas excitantes. Enchemos a cara com duas garrafas de vinho. Ela mal comeu, pois não parava nunca de falar. Já alto, de saco cheio, e sem nem mais saber do que porra ela falava, acho que nem ela, acabei por dizer algo que nunca havia dito antes a ela: “estou louco de tesão por você”. E ela: “desde quando?”. “Oras, desde agora”, respondi. E ela “mas como desde agora?”. Porra, é uma merda isso. Só senti tesão, nada além desse simples e singelo desejo por uma boa trepada com uma garota interessante. E ali se iniciava, de maneira irreversível, uma estúpida discussão sobre as implicações do tesão na sociedade contemporânea e seus desdobramentos sociais e desmistificadores e blá blá blá. E isso tudo depois longas e encharcadas taças de vinho. Eu deveria apenas agir. Não precisava ter dito porra alguma. Era simples. Bastava pedir a conta e seguir para o canto dela ou meu. E pronto. Fácil, simples e até comum. É o que manda a regra mais elementar nesse tipo de lance. E fui abrir minha boca pra quê? Só mesmo para dar margem à devassas elucubrações filosóficas sobre o tesão. Eu e minha puta franqueza escrota. E tome Yara divagando sobre o tema e suas implicações sociais e o caralho. Me enchi o saco. Aquela voz começava a me irritar. Dormir sozinho é bem melhor. Cada vez mais me convenço disso. Que merda. Sou muito incompetente para praticar o fabuloso esporte do sexo casual. Poderia até discutir mais um pouco com ela, fazer esse tolo joguinho infame, mas minha impaciência é muito maior que a vontade de dar uma trepada com alguém que me interesse apenas num momento ébrio. Daí, foda-se. Encerrei o assunto já meio desinteressado em tudo. Acho que ela também se frustrou. Fez um muxoxo e tentou me convencer a tomar a derradeira garrafa de vinho na sua kitnet quadras abaixo. Pensei em como acordaria na manhã seguinte ao lado dessa louca falante. A gente nunca deve mesmo pensar no futuro. Desisti. Fui para meu soturno casulo solitário. Dormi pesado desta vez. Que bom, uma noite sem insônia.
Escrito por Mauro Cassane às 12h39
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Yellow, a balada
Muita sede e muito calor na madrugada de Primavera. Quente demais, e não venta. Mantenho a janela aberta, mas a cortina nem se move. Tudo em câmera lenta. Fico imaginando como se pode viver perto demais da linha do Equador. Aqui embaixo, no trópico de Capricórnio, o clima já é terrivelmente morno. Imagino a façanha que é estar ali no centro do mundo onde o sol esquenta até as sombras. Belém é perigosamente perto da linha do Equador. Caralho, um forno para os miolos. E vou pra lá. Eis meu destino. No Verão que entrar me jogo pela estrada e vamos ver o que vai dar cruzando toda a costa até lá de carro. Depois sigo em frente até a Guiana Francesa. Como deve ser a Guiana? Nem faço idéia. Tenho pavor de lugares quentes demais, mas vivo aqui, e não no Norte do planeta onde tudo é mais fresco e ameno. Gosto do frio, mas acho chato demais aquelas pessoas de lá. Aqui o clima não me agrada, mas as pessoas sim. Então prefiro suportar o clima. São Paulo já teve um bom clima, como Curitiba, mas agora foderam com tudo no planeta e virou essa bagunça térmica que ninguém entende mais nada. Passo a noite toda bebendo água e mijando. E pensando merda também. Se é para ficar sozinho, o melhor então é brincar com a solidão sempre conhecendo gente diferente. Daí é tudo meio superficial mesmo. E vamos tendo paixões e tudo mais ao longo da estrada. Onde caralho está o meu amor? Em algum lugar bem longe de mim. Talvez até esteja perto, mas ainda assim bem distante. A realidade e a fantasia vivem jocasamente cuspindo na minha cara. Fiz uma promessa a alguns santos. Não quero mais amar ninguém. Nunca mais. E também não vou cumprir essa promessa só para deixar os santos putos comigo. Uma vez prometi a meu amor que viveria com ela para sempre. E ela partiu, levando minha alma, arrasando meu coração e é assim mesmo que acontece com quem ama. Você vive comendo merda e se submetendo aos mais estúpidos vexames. Riem de ti e nem percebes. Sabe quando uma mulher diz ou escreve para outra: “caramba, o cara não desiste de mim?”. Não queira ser você o tal cara. Ah, não queira. Pois mesmo se um dia você estiver com ela, talvez até desfrutando do amor que tanto quis, ainda assim serás um paspalho. Tenho a impressão que poucas pessoas se amam de verdade. Um amigo me liga sempre eufórico quando a esposa viaja. Na frente dela o cara é o paroxismo do romantismo. Mas basta a tonta viajar pra ele correr atrás das iludidas que ele mantém com nome falso e tudo mais. Seu esquema sempre é bem sucedido pois a mulher não vive sem visitar os parentes distantes. Um outro conhecido me diz que está muito bem com a esposa, mas não abre mão de pegar umas putas de vez em quando. Meu ex-patrão, também muito bem casado, só consegue gozar com vagabundas de rua mesmo, aquelas bem baratas. Minha prima nunca dorme com o marido. Meu vizinho me disse que passa semanas sem trepar com a mulher. Uma amiga ficou noiva há pouco tempo mas vira e mexe me liga com aquela voz de pidona se insinuando toda pra transar comigo. Minha mãe vive com meu pai há quarenta anos mas dormem em quartos diferentes. Nunca vi minha irmã beijando meu cunhado na boca. Eu passei um tempão casado e sempre que transava não lembrava ao certo quando tinha sido a última vez. Minha cadela mordeu meu cachorro na cara e não pára de uivar para o labrador da casa ao lado. Quem eu tanto quero tem outro cara que certamente sai com outra garota que, por sua vez, deve ser amante de um sujeito que dá o cu para outro homem e esse, se não me engano, enfia hóstias nas bocas dos fiéis que nunca confessam completamente seus mais podres pecados. Puta que os pariu. Todos. Amor de cu é rola. É isso? Ah, não acredito mesmo. Mas sigo amando. Insisto nessa porra. A gente planta uma semente e cultiva com paciência. Não adianta querer colher o fruto antes de germinar. Muitas vezes nem dá fruto algum. Me sinto extremamente ridículo amando algo assim tão volátil, tão sem tato, quase sem vida. Madrugada quente é assim mesmo, não se dorme bem e se pensa em muitas porcarias. Pego o celular. Ligo para Luiza. Ah, grande vaca. Só dá caixa postal. Por que cacete ela me liga e diz que quer me ver e que não se esquece daquela vez que transamos no drive in na caçamba do carro? E quando ligo dá caixa postal. Só pode estar com aquele meloso namorado. Fico percorrendo os nomes da agenda eletrônica. Tem a Camila, que é uma morena deliciosa também, mas é casada. Não se liga de madrugada para mulheres casadas. Ah, na letra V tem a Vânia. Porra, nunca mais falei com ela. Onde será que anda essa moça? Dá última vez que saímos ela me disse que estava seriamente propensa a casar de novo. E que o cara era médico, tinha grana e tudo mais. Será que casou? Uma mulher insaciável. Ligo pra ela.
Escrito por Mauro Cassane às 19h33
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continua...
- Humm, alô, quem fala?
- Oi, desculpe te ligar a essa hora. É que me deu saudade.
Que papo mais furado. Ela ficou puta e nem reconheceu minha voz. Também, ligação às três da madruga depois de mais de um ano sem ver a mulher.
- Saudade o caralho, quem tá falando, porra. É você Raul?
- Não, sou eu.
- Quem porra. Fala logo senão desligo essa merda.
- Ah, vai tomar no cu.
Pronto. Desliguei. Ela ligou de volta. Vi pelo visor. Nem atendi, certamente me xingaria muito. Estava com voz de gorda. Uma voz horrível e cheia de celulite. Que horror. Apaguei ela de meu celular. Nem sei porque razão fui ligar. E diria o que depois de mais de um ano sem nem falar com ela. “Ah, meu amor, posso ir aí te ver?”. Não dá. Ela nem merece toda essa atenção. Ah, o calor! Que droga. Desligo o celular, tomo mais um gole de água e me deito. Penso em Sofia mais uma vez. Sempre acabo pensando nela. É sempre igual. Ela me disse que foi visitar um lugar lindo. Uma ilha tropical e, lá, no meio da exuberante natureza, pensou em mim. E, num outro dia, me mandou um beijo pela internet. Isso é bom na tecnologia. Dá pra mandar beijo com bichinhos imitando o beiço e tudo mais. Nesta manhã uma amiga me enviou a letra de uma canção pop chamada “Yellow”. Versos extremamente simples, quase infantis, mas uma boa melodia aliada às palavras simples causam um efeito devastador em meu pobre coração. Ultimamente sou capaz de chorar até quando ouço “Parabéns pra Você”.
Escrito por Mauro Cassane às 19h32
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Frios e brochantes fantasmas translúcidos
Cansei de dormir sozinho. Pro diabo com isso. Tem quem goste da solidão, de variações sexuais e tudo mais. Eu não. Definitivamente sou um pobre coitado que nasceu para viver ao lado de um grande amor. Ou seja, pensando racionalmente, meu destino é ser corno. Sim, porque é difícil pra caralho este lance de amor de verdade. A mulher está ali, ao seu lado, te faz afagos e tudo mais, chamegos, te enche de atenção e carinho, mas não demora a pintar um salafrário com o pau maior que o seu, ou mais bonito e charmoso, ou mais cheiroso, mais grana ou um papo melhor e fodeu. Há milhares de caras melhores que a gente. E aí já era. Vamos lá, convenhamos, mulheres não torçam o nariz, há sim, ainda que raras, mas há exceções. Muito embora não sei onde encontrá-las, mas há. Mulher é muito mais racional, vingativa e rancorosa. Homem, a despeito de ser mais infantil e ingênuo, também é um grande filho da puta. Tá lá com a garota, amando, ou achando que é amor, e tá tudo bem até que pinta aquela outra, a vizinha, ou a colega de trabalho, muito mais gostosa, mais puta, mais safada. E fodeu também. Se bem que cornice é coisa de homem. Chifre é pra homem. Mulher traída lava a alma na primeira esquina. E lava mesmo. Nem dá tempo de exibir chifres. Ah, sim, não estou aqui falando das feiosas. Essas, como os homens, têm que aceitar os chifres. E há os homens que parecem garotas, isso mesmo, aqueles cheios de charme e beleza plástica e simétrica. Esses também fazem a fila andar e não ficam com a cabeça pesada com portentosos cornos. O que me consola é que essas espécimes de homens que causam furor nas mulheres, via de regra, são apenas invólucros com péssimo conteúdo. Bem, que se foda toda essa vã elucubração de botequim.
O fato é que estou farto de dormir sozinho. Preciso de uma garota para dividir a cama comigo. Pra gente conversar, ir ao cinema, viajar e tudo mais. Não levo jeito para viver à margem da normalidade. Não gosto de fazer o tipo de ordinário vagabundo solitário andarilho pau no cu que sai por aí catando mulheres e fodendo com uma e com outra e tocando a vida ou uma punheta. Isso pode parecer romântico, ainda mais se o cara enche a cara e acorda diariamente com uma puta ressaca, e vive fodido e sem grana. Eu não. Sou normal. Gosto de ter grana sim, de preferência mais do que o suficiente, bebo como um simples mortal, não sei fumar cigarro mas curto charutos e ervas vez por outra e odeio dormir sozinho. Deve ser algum trauma de infância. Tenho medo de seres estranhos. Tenho medo de bicho papão. E não consigo dormir sem antes checar em baixo de minha cama pra ver se não tem nada escondido ali. Porra, sou um cagão sozinho. Por outro lado viro um impávido herói ao lado de uma garota. Ah, mas tenho que amá-la. Não abro mão disso pra virar herói. Ao lado de Sofia, por exemplo, eu seria um super-homem. Imbatível diante de qualquer monstro das trevas. Não sei explicar isso. Mas sozinho me sinto um reles e covarde serzinho indefeso e triste. Acho que a mulher me complementa. Deve ser isso. É minha outra parte. Meu lado mágico, minha energia e força. O marinheiro Popeye precisava de espinafre para exterminar seus inimigos e socar o Brutus. Eu preciso de Sofia. Sem ela sou um super-homem com um criptonita enfiado no rabo. Um marica medroso de merda. A gente dá nome a tudo. Inventa nomes. Os grandes caras da literatura universal gostavam de alardear uma vida bandida e solitária. Essa coisa do lobo solitário. Porra, isso não existe. Um homem sem uma mulher é um fracote. E esses caras que saem por aí comendo todas são mais propensos a dar o cu do que outra coisa. Odeio veados disfarçados. Gosto de gente que assume o que é. Pessoas assim merecem meu respeito e admiração. Tenho um amigo gay e o respeito muito. É assumido mesmo. Isso sim é ser macho. A gente tem que buscar o melhor. Sei disso. Sou praticante dessa máxima, ainda que abomine livros de auto-ajuda. Ah, isso não. Não existe nada mais deprimente do que essa nojenta literatura que se arvora a nos ajudar a sermos seres melhores. Vai se foder. E vende pra cacete. Os autores sim ficam numa boa com o rabo cheio de grana que ganham dos pobres incautos desesperados por uma vida mais legal. Que dó, ah que dó. Acordei ontem com uma puta vontade de dizer àquela doida “eu te amo”. Mas não disse. Tenho medo agora de dizer essas coisas. Parece tão careta e piegas e muitas vezes soa falso. A gente quer ser cult e parecer forte e tudo mais. E dizer “eu te amo” não soa muito bem. Além disso, pode ser algo extremamente vulgar. Que balela. E eu não disse. Mas, por fim, sucumbi aos meus conceitos de merda. E ao entardecer, os pássaros cantam incansavelmente perto de minha cabeça, tudo tão irritantemente poético que não resisti e acabei escrevendo pra ela “eu te amo e foda-se”. Acrescentei o foda-se não sei porque razão. Talvez por ter raiva de amá-la. Que sentimento mais idiota. Uma vez conversamos sobre filosofia e a vida. Ela não gosta de história e não se interessa muito. No meu tempo de escola só eu gostava. Ainda curto muito. Cazuza já dizia “a vida é um museu cheio de novidades”. As coisas se repetem demais. Conhecer um pouco da história é praticamente ler o futuro. O mundo gira exatamente por isso. As coisas simplesmente se repetem quase que tediosamente. Só mudam os personagem, o enredo é sempre o mesmo nesse espetacular circo chamado Terra. Penso nela agora e me dá um certo calafrio. Dormi mais uma noite sozinho. E mais uma vez a insônia e os fantasmas me assombram. Sair andando pela rua é pior. Daí aparecem assombrações de verdade como aquela asquerosa loira que encontrei no bar outro dia. Quanto tempo serei capaz de sustentar minha solidão? Ainda bem que não tenho depressão e toda minha vontade de botar fim à vida se resume a alguns lacrimosos versos. Sou sonhador demais para ser um suicida em potencial. Antes de morrer ainda preciso escrever uma louca história de amor contando, disfarçadamente, minha história com ela. Qualquer história de amor merece ser contada. Escrevo dois ou três capítulo por dia. E jogo fora um. Assim vai. Mandei os dois primeiros capítulos para Sofia. Nem sei se ela leu. Talvez tenha lido. Ou não. Um livro inteiro que fiz está nas mãos dela, com dedicatória e tudo mais, mas acho que ela também não o leu. Pensando bem nem com ela deve estar. Possivelmente guardou em algum canto esperando que embolore e se estrague com as traças. Na verdade me importo sim. Mas é inócuo. E essa noite, com frio ou calor, ficarei só com meus fantasmas. Se ainda pudesse transar com eles. Mas deve ser brochante demais tentar foder com um fantasma. Eles devem ser meio translúcidos e feios e chatos. Imaginem a gélida xoxota de uma fantasma. Credo. Uma fantasma gemendo de tesão? Humm, não sei. Deve ser horripilante. Mas ainda conto com meus crepitantes sonhos e suas alegóricas e tórridas cenas de amor com aquela puta insolente que nem liga pra mim. Ah, como é bom sonhar com ela e acordar de pau duro.
Escrito por Mauro Cassane às 11h15
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Uma gata parda na madrugada
Passei uma enigmática madrugada perambulando pelas obscuras quadras desta periferia buscando um pouco de ar fresco para desviar minhas atenções daquela mulher. Tanta solidão estava me dando nos nervos. Sem dar ou receber carinho, tudo nervosamente acumulado e a gente vai se transformando num pavoroso Strombolli pronto para a explosão. Sem sono, nem vontade de ler, tampouco escrever, cai para a rua. Todas as figuras pardas espreitam desconfiadas, os bichos e os homens se retraem ou se escondem protegidos na fresca penumbra com sua brisa suave. O olfato fica mais aguçado. Quero esquecer um pouco aquela mulher. Por que diabos penso tanto em Sofia se ela sequer lembra de mim? Me esforço para isso, mas a solidão só me faz lembrar daquele cheiro frutado. Caminho para uma grande praça onde as coisas acontecem sem cessar. Para lá se dirigem os notívagos vagabundos que não pensam no amanhã, nem no hoje, nem em porra alguma. Poucas sombras pelas ruas, as almas etéreas vão se desvencilhando pelas calçadas sujas sorrateiramente. Há música no ar. Uma horrenda melancolia nordestina, com aquele azucrinante toque de batuque e triângulo me causa náuseas. Entretanto, melhor, muito melhor do que acabei de ouvir de um estúpido carro que por mim passou. Sertaneja. Caralho, como alguém pode gostar disso. Pior ainda, como um ser humano pode meter um chapéu idiota na cabeça, esmagar o saco com uma calça jeans apertada e desfilar rebolando com um cinturão atado ao corpo feito arreio de potro. Odeio gente que anda de uniforme. Tediosamente iguais. Punks, sertanejos, roqueiros, grunges, yuppies e outros. A humanidade é assim mesmo. Curioso isso. As pessoas se identificam com alguma tendência ou movimento e pronto. Viram tolas fotocópias. Botam seus uniformes para se sentirem engajadas. Incluídas. Meu tio era hippie e se vestia como um imbecil igual a todos os outros hippies com seus cabelos longos e embaraçados, calça jeans bem desbotada e aquelas afrescalhadas camisetas floridas de paz e amor. Vai se foder. Os hippies amadureceram e tomaram o poder em um monte de lugar no mundo e fizeram as mesmas merdas que os caretas que mandavam em tudo no tempo deles. Deve ser muito fácil ser estilista de moda. Basta olhar um pouco para o passado, fazer uns adornos diferentes, e pronto. A receita é a mesma e serve para todas as épocas há cinqüenta anos. Como se vestiam os rebeldes de 1950? Muito diferente dos garotos de agora? Tediosamente igual. E o comportamento? Igual. As atitudes. Igual também. A sacanagem. Igual. O sexo? Ah, sim, neste sentido atualmente o pessoal anda mais careta. A galera usa complexas fórmulas químicas para ficar mais loucos, zoados ou com o pau mais potente. Antigamente bastava uns tragos de erva, ou o velho ópio, umas cachaças e era normal dar uma boa trepada, gozar e relaxar. Hoje o cara tem que atuar como um garanhão de filme pornô. E a mulher, coitada, via de regra tem que ser bombada. O sexo ficou bem mais careta, reacionário e mediocremente submisso a um padrão estético de academia. Cada vez mais postiço. O que a gente não pensa andando esvaziado de sentidos e com os colhões repletos de esperma pela madrugada.
Fui até a única porta aberta perto da praça. Um bar iluminado com um borbulhante bando estranho ali. Três da madrugada não há muita gente normal pelas ruas da periferia, muito menos numa espelunca daquelas. Duas velhas incandescentes, sentadas e arruinadas por um excesso de pintura carnavalesca, conversavam com três truculentos mulatos cujos braços pareciam marretas. Os três riam ruidosamente, e cuidavam de suas presas com excesso de zelo. Estavam sempre disfarçadamente preocupados para ver se outros não se aproximavam de suas conquistas. E elas sorriam embevecidas com tal cuidado e gentileza. Muitas garrafas de cerveja na mesa e um melado prato com restos de pão, óleo e papel ao lado. Numa máquina de karaokê um loirinho magricela se contorcia para cantar Raul Seixas, mas sua voz nem era notada, o som mais potente vinha do carro dos três brutamontes e era agora um incompreensível funk com umas moças gemendo e dizendo “me bate, seu puto, me bate”. E um tum tum tum tum de doer o cérebro. Bem, combina perfeitamente com uma madrugada suburbana. Uma gorda massuda, atarrancada, e com uma bunda desproporcional se balançava numa improvisada pista de dança chutando tampinhas de cerveja, e uns caras bêbados se chacoalhavam com ela. Todos num grande esforço facial para demonstrar prazer naquilo que faziam sem qualquer coerência ritmica. Uma loira com um corpo aparentemente bem esculpido, embora enfiada numa roupa estranha e dramaticamente apertada se fazia de difícil e ficava ali, calada, no balcão, fumando e com um copo de cerveja em mãos dando pequenos goles e tentando com esmero criar um clima charmoso. A névoa do ambiente lhe escondia os traços, mas parecia interessante. Fiquei um pouco parada na calçada assistindo tudo. A loira me fitou, e os grandalhões também esboçaram um apavorante olhar ameaçador com medo que eu tentasse algo com suas duas velhotas que, aparentemente, estavam no papo. Mas eram três machos sedentos e lambuzados de suor para duas alegres e bêbadas damas com seus cinqüenta ou mais anos passados. Deviam mesmo ter sido belas na juventude. O que faziam ali? A decadência é um castigo. Seja como for. Foda-se. A qualquer hora vem um desastre e acaba com tudo de qualquer forma. Tentei até imaginar aqueles três seres trepando com as duas. Como seria? O que fariam? O que, na verdade, conversavam? Que preconceito, não? Bem, pouco me importa. O preconceito é a grande falácia dos humanos e a maior hipocrisia da sociedade moderna. A loira me olhou e era gostosa e estava aparentemente desacompanhada. Não me custava ir ao lado dela para conferir e falar qualquer merda. Sou curioso, estava com tesão, então fui em frente. O bafo de vômito da filha da puta quase me botou a nocaute. E em sua cara havia tantas espinhas encardidas e avermelhadas como erupções cavernosas e pusilânimes que parecia que eu conversava com um furúnculo com olhos, boca e cabelo. Enxergo mal pra cacete de longe. Por isso ninguém chegava perto daquela criatura infernal. Classificá-la como feia seria até gentileza de minha parte. Não notei, mas tinha certeza que todos, inclusive o balconista, riam de mim. Até eu fiquei com vontade de rir. O funk ficou mais agitado. E uma das velhotas se levantou e começou a requebrar. Os três gentis gorilas fizeram o mesmo. E a segunda, talvez por timidez, ou sem condições mesmo, permaneceu ali, sentada, e não tirava o olho de mim. Como é bom isso. Me senti tão amavelmente desejado naquele lugar. Uma mistura nobre. Pus, funk, óleo e bafo de vômito. Fosse um pesadelo estaria eu numa situação muito mais interessante e higiênica. Fácil de resolver. Do jeito que entrei. Sai. Sem dar satisfação. Voltei me sentindo bem melhor. A solidão, no fim, nem é tão ruim. Minha avó já dizia, sempre ela, grande e filósofa velhinha, em seu indefectível tom professoral “filho, não reclame, as coisas podem ficar bem pior”.
Escrito por Mauro Cassane às 15h31
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Sua majestade e seu manto lilás
Eu vi um rei. É uma emoção fora do comum, ainda mais na zona leste, em meio a tantos estragos humanos e morais, nas esfarrapadas calçadas disformes, eis sua majestade solitária e esbravejante saindo de um soturno boteco e ganhando a rua sem se importar com os carros que dele humildemente desviavam, ou até paravam em reverência embasbacada. Ali, com seu manto lilás e florido e com franjas de algodão um pouco encardidas, apenas seguindo em frente ignorando seus súditos e fielmente escoltado por dois magros, porém valentes cães famintos. Um rei negro e sua longa barba grisalha, vestido em seu semblante irado, como é inerente aos grandes mandatários estava um tanto incomodado com algo misterioso. Mas quem sou eu, um reles passante, meio estrangeiro neste mundo, para perguntar o que havia de errado? Que soberba e rara imagem aquela. Onde mais se vê um rei assim, mesmo deslumbrantemente solene, e distante de seus súditos, mas ali, humano e visível a quem teve a graça de passar naquela esquina exatamente no momento em que eu passei. Minha pequena filha me perguntou “esse mendigo é louco, né?”. Oras, um rei. Todos são loucos. E eles podem, talvez até devam mesmo ser assim. Deve ser a liturgia do cargo. Foi o que respondi. Acho que ela ficou um pouco confusa. Mas eu estava demasiadamente inebriado com aquela visão surreal neste mundo tão real e cru que se desnuda diariamente para a gente. Enfim a magnânima presença de um autêntico rei. E na periferia. Que beleza. Nos caminhos de São Paulo já vi bruxos, gnomos, profetas, poetas e até papai Noel. Mas rei foi a primeira vez. Ah se ao menos eu estivesse com minha câmera fotográfica.
Essa visão me causou incontida alegria em um momento meio sórdido de minha vida. A gente fica muito tempo sem amor e acaba até contaminado, meio incrédulo, e vive achando que essa porra nem existe. Mas há sim, está por aí. Basta encontrá-lo. Não sei. Bem, pensando bem. Nem é assim. A gente o encontra, acredita nele, mas o bicho, arredio que é, escorrega entre os dedos feito resto de sabonete. Uma hora eu o pego, ah sim, o pego de jeito. Me escapou duas vezes, mas a terceira não terá chances. Eu vencerei. Vou capturá-lo em definitivo. O rei anda solitário, e está ali, com sua nobre presença e encantos. Não liga para essas miudezas da estúpida plebe. Não precisa de dinheiro, nem carro, nem amor, nem porra alguma. Por isso é bom ver um genuíno rei, a gente acaba aprendendo alguma coisa apenas com essa imperial visão. Imagino o que seria conversar com um ser assim tão iluminado. Creio que só há paralelo em minha emoção de hoje com o transe de uma beata dos trópicos quando tem a oportunidade de ver, mesmo que a centenas de metros, o papa. Não esse que aí está, com essa cara meio diabólica, mas o outro, o que morreu, o João de Deus. Aquele sim era um papa legal de se ver. E que se foda quem fica criticando as posições reacionárias da igreja católica frente a alguns temas polêmicos. Alguma força tem que ser reacionária nesse mundo, caralho. Senão vira uma puta zona. O equilíbrio está exatamente nisso: nos antagonismos e paradoxos. Caso contrário o mundo seria um lixo.
Depois da majestosa visão, parece que meus dias de azar me deram um alívio. Uma folga talvez. Sofia sorri pra mim com uma graça tão rara que sequer consigo acreditar ser isso obra de realidade. Que confuso. Um sorriso de Sofia? E dirigido a mim, com um olhar sensual e tudo. Ela ali, com sua cara doce, meio ingênua, meio puta, mirando meus olhos e lançando um sorriso penetrante. Foi um encontro casual. Na rua. Ela me cumprimentou com um “oi, tudo bem?”. Ah, que magia. Que grande filha da puta. Faz isso de propósito, apenas para me provocar. E sai com seu maligno andar insinuante, com aquela bunda esculpida de santa de altar, rebolando em câmera-lenta. Ufa, me dá até cãibras nas pálpebras. Observo o pequeno filete de suas costas de pele castanha descobertas. Que delícia, que delícia. Nada além disso. E, para mim, é o suficiente. Sinal de que as coisas começam a mudar. Eu sei que o pior está sempre ali, no canto, à espreita, te observando de soslaio, mas foda-se, o otimismo é nosso falso escudo. E um sorriso de Sofia é meu deleite. Houve um tempo em que só me contentava com uma boa gozada, hoje em dia já me dou por feliz com alguma risada. Coisa de velho, né? O caralho! A vida é assim mesmo. Os solavancos e as guinadas estão aí e seguimos em frente nesse campo minado. A cada explosão, uma reviravolta total. Um dia estamos bem e, no outro, chafurdamos no esgoto. Um dia ficamos por cima, e antes de qualquer celebração, podemos estar no mais obscuro abismo. Ninguém tem tanta sorte, nem tanto azar. É o grande ciclo da vida. As dualidades em constante combate e movimento. Minha avó, e um monte de outras avós por aí já diziam isso, “um dia da caça, outro do caçador”. É, grandes e sábias avós tivemos nós todos, heim? Pena que poucos souberam interpretar o que aparentemente eram apenas frases feitas e desprovidas de intelecto. Nada como minha inesquecível visão de um soberbo rei negro com seu florido manto lilás flutuando nervosamente pelas retorcidas calçadas paulistanas da periferia. Quantas coisas a gente aprende com isso. Deus do céu. Quantas coisas. Queria tanto escrever uma carta de amor. Mas acho que vou apenas ouvir um CD do Ben Harper somente para fantasiar minhas lembranças. Que nem criança, que nem criança.
Escrito por Mauro Cassane às 14h22
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Efemera sinfonia azulada
Entrei no apartamento dela com meio quilo de picanha sob o braço, vinho, pão italiano, queijo e alguns temperos. O azeite ela tinha, de boa estirpe, e ela andava de um lado para outro com sua rota pantufa de coelhinhos e sua desbotada blusa de moleton da Disney e uma calça velha de moleton meio rosa salpicada com disformes manchas de cândida. Que linda, que criatura era aquela que, mesmo desarrumada, sem qualquer adorno, era naturalmente tão sensual. Tentava desvendar de onde vinha tudo aquilo, aquele poder sobrenatural de me deixar louco, prostrado, inebriado. Como podia ela, tão simples, com sua voz gentil e adocicada, mexer com todos os meus sentidos de uma vez só como numa estúpida explosão solar? Arrumei as coisas na exígua cozinha e ela cuida do som. Ben Harper, Nina Simone, Beatles, The Police depois vem algumas brasileiras e outras, românticas, francesas. Ela canta junto, com sua voz rouca, e eu vou acariciando a carne com temperos indianos, degustando vinho e me deleitando no queijo brie. Ela se aproxima, se encosta em mim, me estremeço e sinto um arrepio que vem do estômago e vai percorrendo feito curto-circuito todo o corpo até os últimos poros da nuca.
Faço o melhor na cozinha, boto a mesa com esmero, preencho as taças com o vinho e sirvo a ela com todo meu amor. Não ficou tão bom, faltou sal. A carne estava meio dura. Mas ela sorri satisfeita e exibe seus dentinhos quase de leite, e suas covinhas marotas. Que mulher, que mulher. Me conta coisas e aventuras, lembra de outros amores e dores, e desfia histórias incríveis. Sabe falar, mas sobretudo, é a melhor ouvinte do mundo. Bebemos tudo, e eu poderia beber mais e mais, mas nunca fico bêbado ao lado dela. Pois meu cérebro não me permite perder de foco aqueles encantos todos. Mágicos encantos com cheiro de frutas cítricas, tão cítricas que me entorpecem a alma. Fosse ela uma puta daria a ela todo meu dinheiro. Se quisesse ao inferno me levar, iria com prazer e sorridente. Com ela, para qualquer lugar. Sem ela, quem eu sou senão um mero e solitário mortal entre outras almas tristonhas. "Eu te amo", ela me disse. Ah, que pequena e miserável frase essa. Há tempos de minha vida não escuto isso. Perdi até a noção de como é esse som. Uma efêmera sinfonia azulada proferida em segundos: "eu te amo". Não precisa nem de rima, nem de prosa, nem de nada. Só isso. E ela, somente ela, me disse isso. Mais ninguém.
Então, por isso, e só por esta razão, a ela dediquei amor eterno. Mas me disseram, e outros tantos comprovam, que o amor acaba. Oras, como? Não sabia. O meu não. O meu não. Por favor, quem disse isso? De onde tiraram isso? Ah, diabos. Como pode acabar? Agora me sinto assim tão desesperadamente só. Até o tesão, motor envenenado de meu corpo, me parece agora volátil e desajustado. Por que acaba? E como? Se mal o senti como queria. Sinto a saudade, outrora tão doce, agora envenenar meus sentidos. Mas aquele suave perfume, aquele sagrado aroma cítrico, não se afasta de mim. Uma voz, ou uma simples peça, me tira do eixo e da órbita terrestre. Eu deveria ter prestado mais atenção em Paulo Mendes Campos. Ou mandado Vinicius para a puta que o pariu. Velho filho da puta. O amor acaba? Não posso crer nisso. Não posso. Onde estão os poetas?
Dela, com sua pele, e seu jeito suave, me remete aos Versos do Capitão, de Neruda. Esse sim, e quando com ela, abraçado no sofa, assisti um filme poético. Tudo a mim tão inesquecível e perene. Deus, quem inventou o amor? Obra então do diabo? Não sei. Tampouco tenho consciência do que esperar. Não espero mais nada. Meus poemas perderam o viço, pois de minha musa apenas sinto seu cheiro quando caminho pelas manhãs selvagens desta cidade e ainda posso ver grama cortada e úmida. Ainda há pássaros, mas os ratos os comem. Por que eu, justo eu, não tive noção de que o amor acaba. E o que faço eu com ele agora? Pra que me serve? Ah, sim, me serve para descrever círculos no ar entre meus dias melancólicos e angustiados em uma solidão sórdida. E minha desvontade de tudo. Serve para me dar oxigênio e me sentir vivo mesmo sem vontade de viver. Agora entendo os que fogem do amor como o diabo da cruz. Eu não fugi. Caralho, não fugi. Que merda.
Escrito por Mauro Cassane às 19h14
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