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Heroína puta de coraçãozinho rosa
Decididamente acordar é um saco, como podemos rir com um dia em que temos que começar tudo levantando da cama na hora que estamos começando a pegar no sono. Vida de merda essa de insone. Há coisas piores. Sempre há. Ter tesão e não ter vontade de transar é uma delas. Pode acontecer isso? Ah, sim. Pode sim. Se não com os outros, pois não tenho qualquer experiência científica nisso, certamente comigo. Houve um tempo que achava a masturbação algo sujo e vil. Resquícios de minha educação cristã cheia de preconceitos e tudo mais. Mas, porra, não fosse minhas mãos, particularmente a esquerda, estaria enlouquecendo. Nunca fiquei tanto tempo sem sexo. Tem gente que nem liga. Pouco faz diferença. Conheci mulheres que passavam até anos sem uma boa trepada. Eu, em meus saudáveis tempos, não podia ficar mais que uma semana sem foder. Me sentia mal, e o humor, normalmente bem quisto, ficava a ponto de nem sequer existir. Passei agora pelas fases mais nojentas. Sem trepar há muito tempo. Primeiro comecei contando os dias, depois as semanas, daí parei. Não sei mais. Vai a puta que pariu. Uma amiga me disse que é fase. Que isso passa. Bem, espero que não esteja metido numa camisa de força quando passar. O fato é que não me falta com quem trepar. Isso há por aí aos borbotões. Meu grande problema é que procuro algo muito especial. Grande equívoco, eu sei. Sou cuzão. Devo confessar, procuro um amor. E amor, como qualquer idiota sabe, não se procura, simplesmente se acha.
Prefiro segundas-feiras, não gosto de sextas-feiras. Aliás, pra ser franco, odeio. Tampouco curto os finais de semana. Acho chato. As pessoas ficam frenéticas e excitadas demais. Os bares ficam lotados, tudo vira um caos. Sem contar que domingo é um tédio. A menos que você saia por ai para fazer aquelas porras de esportes radicais. Que pode até ser legal uma vez ou outra, assim, dando um imenso espaço de tempo entre uma e outra. Raramente, para ser mais exato. Mas vai se foder, quem tem saco de ficar fazendo esporte radical toda semana? Encher o cu de adrenalina pra ficar saltando feito macaco de galho em galho ou entre pedras cheias de lodo em cachoeiras. O homem enche o saco da natureza, isso sim. Ficam lá, aquele bando de gazelas, com suas roupas coloridas, e metidos a machos e valentes, se pendurando em cordas e dando seus gritinhos. Tem gente viciada nisso. Como pode? Vá cheirar coca que dá mais resultado e deixe os rios e a floresta em paz com seus habitantes naturais. Os ecologistas deveriam proibir esses chatos de entrarem na mata. Foda-se eles. Foda-se os domingos também.
Uma namorada do passado me disse que curtia ler meus textos, “mas são demasiadamente depressivos”. Deve ser isso mesmo. Por isso prefiro segunda, terça, quarta e quinta. Depois vira uma merda. Penso que a maioria das pessoas é depressiva. Se não a todo momento, pelo menos ocasionalmente. Como é clássico nos depressivos, aventei antes de sair da cama a possibilidade de por um fim à minha vida. Pensei nos métodos possíveis, avaliei o que tinha no mercado. Arma é um troço barulhento, e odeio ruídos. Pular de algum lugar alto pra esmagar os culhões no chão é vergonhoso. E estrangular o pescoço numa porra de uma forca é o cúmulo da pobreza de criatividade. Que merda. E enterro é outra coisa terrível. Tenho vergonha. Além do mais suicídio é para os felizes, não para depressivos. Os depressivos gostam de viver para curtir a tristeza. Senão qual seria a graça. Então, é isso. Sigo vivendo. Até porque meu fone tocou, era Fabiana. Ela sempre me liga nesses momentos ruins. E logo quando descartei qualquer chance de morrer por minha conta. Me disse que havia largado o marido novamente.
- Não agüento mais o cara. Até falei que tinha outro, mas ele se arrasta atrás de mim e fala do filho. Cacete, não quero mais. Mas nem tenho pra onde ir. E ele não me deixa ficar com meu filho.
- Quer ficar aqui?
- Mas você heim? Só pensa em me comer?
- Caralho, só te ofereci ajuda.
- Eu sei. Brincadeira. Mas até que seria uma boa ficar uns dias ai com você. - Então, pode vir.
Escrito por Mauro Cassane às 18h48
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continua...
No dia seguinte o porteiro toca e avisa: “a senhora Fabiana tá aqui”. Subiu com sua mini-saia jeans, camiseta preta com um coraçãozinho rosa estampado e uma sandália de couro em tiras pelas canelas. Um tesão. Casou com 20 anos, a grande idiota. Com 23 já tem um filho pra cuidar e um marido imundo, gordo e raivoso que não a larga nem a pau. Na verdade foi ele que a tirou da merda, da favela mesmo. Lavou, deu dinheiro, comida e trabalho. Mas isso ela nem reconhece. Na época topou ficar com o cara. Agora o sujeito virou um lixo. Tudo bem, ele é um fedorento medonho. Mas não ficou assim em três anos. Já era deste jeito desde o início. Bem, que se foda. Ali estava ela, toda lânguida, oferecida, abaixando aqui e ali para bisbilhotar minhas coisas. Aquela bunda arqueada e louca para ser brutalmente currada. “Bota uma música, vai, adoro dançar”, ela me diz com um olhar de puta. Peguei meu CD de reggae. Ela odiou, e eu também. Brochante demais. Coloquei um de música cigana. A vadia imediatamente se põe a dançar como puta de zona mesmo. Se esfrega na borda da porta da cozinha, remexe e exibe a calcinha preta com rendas confusas. Meu único pensamento é tentar fazer cálculos. “Caralho, há quanto tempo mesmo foi minha última trepada?”. Queria lembrar. Acendi um baseado e fico ali, fumando, assistindo aquela gostosa bêbada e puta dançando, enfiando o dedo na boca e depois sumindo com a mão inteira por baixo da pequena saia jeans. Ah, o amor. Maldito seja. Abdiquei da sacrossanta punheta. Por que não é Sofia que está ali. Ah, Sofia. Aquele bruxo olhar negro que estremece minha alma e me deixa sombriamente pálido. Não era ela ali, era Fabiana. Destino filho da puta, por que tanta demora? Por que não me traz Sofia agora? Fabiana trepa bem. Não é, e nunca será, alguém que eu amaria. Está no segundo ano de faculdade, acho que o curso é administração, ou algo parecido, mas é miseravelmente burra. Nem sei ao certo porque transamos. Acho que por eu ter acordado com vontade de me matar. A gente goza e dá uma boa sensação que viver é agradável. Principalmente quando gozamos com uma loira macia e gostosa. Para minha sorte ela já tinha onde dormir e me disse que não podia ficar até muito tarde. Fiquei preocupado, pois a gente quer ser gentil e sempre acaba falando merda. O melhor é se manter calado. É burra, mas é uma boa moça. Afinal, me salvou a vida mais uma vez.
Escrito por Mauro Cassane às 18h47
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Do azul brilhante ao cinza opaco ou a estranha maldição dos anos ausentes
Recebi um e.mail esquisito há uns dias. Antes de abri-lo, quando vi o nome, Cristina, me assustei. Era uma garota que não via há muitos anos. Acho que uns cinco anos, ou mais. Talvez seis. Não sei ao certo. Mas imediatamente me veio à memória uma sensação louca de quando eu via aquele nome na minha caixa de mensagens num passado remoto. Ficava extasiado e excitado. Enlouquecido mesmo. Eu a amava de um jeito intenso demais naquela época. Há um bom tempo não pensava sequer no rosto dela, apaguei tudo custosamente. Não lembrava mais dela, mas pensei nela por uns bons pares de anos até colocar aquelas lembranças no mais profundo e escuro limbo de minha memória. Realmente sou ruim para contar tempo. E acho mesmo péssimo fazer isso, particularmente quando precisamos dele para esquecer amarguras. Cristina foi o grande amor de minha vida e, quando partiu, deixou comigo um rastro doloroso de poemas angustiados de saudade. De nada serviram, naturalmente, mas era minha maneira de chorar copiosamente. Mandava diversos sonetos para ela, e ela os ignorava. Depois não enviei mais, porém os fazia sempre e a maioria guardei comigo. E toda vez que eu escrevi algo para ela fui solenemente ignorado. Acho que ela até me amou por um tempo, mas depois cansou, se encheu o saco e caiu fora. Passei um tempão achando que ela voltaria, porém não voltou. E nas vezes que tentei contato, fui quase hostilizado. Muitas vezes queria apenas saber se ela estava bem, mas via de regra, nada de resposta. Nada mesmo. Até que um dia, eu totalmente caído de amor, recebi dela uma mensagem em tom seco e quase sarcástico “não te amo mais”. Um tempo depois, por um amigo comum, descobri que ela estava num tórrido romance com um inglês. É complicado ou até impossível duas pessoas estarem na mesma sintonia em se tratando de amor. No meu lance com Cristina eu a amava demais, e ela, de menos. Foi dando certo enquanto era conveniente pra ela. Depois, ela me deu um pé na bunda sem nenhuma cerimônia, pois ficou afins de outro sujeito. Lembro que fiz de tudo por ela, mas isso não conta nunca. Em amores fajutos alguém sempre acaba se fodendo e qualquer pedra no caminho vira um obstáculo intransponível. No meu caso, eu fui o fodido. Quando descobri que ela estava com um filho da puta eu passei mal, me senti a mais desprezível bactéria e fiquei um bom tempo sem conseguir me relacionar com ninguém. Simplesmente não confiava mais em mulher alguma, nem sentia porcaria nenhuma. Levou anos para a ferida criar cascas mais grossas, mas não cicatrizou. Acho que essas coisas nunca cicatrizam. Consegui, com esmero fora do comum, esquecê-la, só não tive êxito em extirpar de meu estúpido coração aquele sentimento por ela. Bem, chegou o tal e.mail. Fiquei assustado. A princípio, ainda antes de abri-lo, imaginei que fosse uma cobrança, sei lá, de repente ela esqueceu algo comigo. Mas depois de tantos anos? Caralho. Abri e era um lance sucinto, bem ao estilo dela, mas com um conteúdo surpreendente: “Querido, tudo bem? Queria te dizer que há dias penso em você. E aproveito pra te contar uma novidade: vou voltar para o Brasil e ficaria muito feliz em te encontrar no aeroporto. Logo mais te dou data e informações mais precisas”. A princípio me deu uma grande alegria, fruto ainda da porcaria do sentimento que insistira em ficar em mim, mas depois me deu uma puta raiva. Me senti um idiota. A mulher sumiu, me enxotou da vida dela com cólera e desdém e praticamente me mandou à merda há muitos anos e depois nunca mais deu qualquer notícia. Nem sabia se eu estava ou não vivo, com ou sem saúde e me vem um e.mail assim? Como se tivéssemos simplesmente tido uma pequena discussão? Vai a puta que a pariu. Refleti um pouco e resolvi não responder nada. Ela mesma, no passado, deixou de responder dezenas de e.mails meus. Fiz melhor ainda: esqueci essa merda, como se não tivesse passado de um equívoco dela. Talvez ela endereçou o e.mail para a pessoa errada. Passaram-se uns dias. Uma semana talvez. E chegou outro e.mail de Cristina. Agora ela dava data, horário e número do vôo. Era questão de mais dez dias e ela voltaria com mala e cuia. No fim uma frase esquizofrênica: “por favor, venha me pegar no aeroporto. Eu te amo”. Minha vida enfim estava equilibrada depois de tantos anos perdidos. Tinha meu apartamento, fazia meus trabalhos e recebia minha grana. Viajava sempre, curtia e até estava me apaixonando por uma garota incrivelmente linda. Mais ainda, ela era sensível e inteligente. Era tudo o que eu queria. Por um tempo, carente de uma boa companhia, cheguei até a abrir mão do intelecto. Mas surgiu Sofia em minha vida. Indescritivelmente maravilhosa em todos os sentidos. Porém namorava um desgraçado que nem o amava. E era terrivelmente arredia, feito animal selvagem e muito fiel ao cara. Mas, na minha avaliação, quase sempre equivocada, havia sim uma chance de ficarmos juntos. Era o que eu mais queria. Sempre encontrava Sofia num café, falávamos por alguns minutos, ela me olhava de uma maneira diferente, e eu fazia o mesmo. E assim estávamos. Para não me acabar na punheta eu transava sistematicamente com a Erica, uma morena substanciosa, superlativa, linda, com 33 anos, um metro e sessenta e cinco de altura, cinqüenta e dois quilos, peitos exuberantes que pareciam confeccionados nas melhores clínicas de estética e uma bunda irretocável para os padrões brasileiros. Bem, perfeita não fosse o fato de ser casada. Mas isso não nos impedia de trepar duas vezes por semana. Erica só queria sexo mesmo, e estava demasiadamente bom para minhas necessidades. E gozava de forma radical. Uivava, gemia e chorava no fim. Porra, que delícia. Minha vida estava caminhando muito bem depois de ter passado por um longo período espectral onde me senti no esgoto do inferno.
Escrito por Mauro Cassane às 16h42
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continua...
Também não respondi o segundo e.mail de Cristina. Mas essa merda não me saiu mais da cabeça. Fui remexer minhas velhas coisas e vasculhei caixas antigas e empoeiradas. Lá havia um livro esfarrapado que havia escrito e publicado somente para Cristina, um insano calhamaço de poemas e algumas fotos. Li umas merdas do livro, e fiquei sentimental. Então parei. Respirei um pouco e comecei a ver as fotos. Péssima idéia. Chorei feito um tolo e parecia que havia cutucado a ferida e sangrava e saia pus. Lá estava ela em algumas viagens comigo. Linda, aqueles olhos azuis tão brilhantes como pepitas e aquele sorriso celestial exibindo duas covinhas delicadas. Meu coração parecia querer explodir e quase involuntariamente beijei uma foto com um close dela. Porra, ela estaria novamente perto de mim, e tudo dela, cheiro, suor, hálito e textura voltaram imediatamente, invadiam meus sentidos, me nutriram e entorpeceram. Não dormi direito a noite de tanto pensar. No dia seguinte abri novamente o e.mail. Cacete, mais dois dias e ela chegaria. Então decidi: iria buscá-la. Lá estava eu, britanicamente no horário que ela me passou. O vôo dela chegara. E uma turma ensebada começara a passar pela porta de desembarque. Meu estômago parecia congelar minhas entranhas quando vi aquela figura com um sobretudo negro e felpudo, uma blusa estilo peruana multicolorida, uma calça jeans surrada e justa e uma bota de couro rota e judiada se aproximando de mim. Puxava uma imensa mala negra e vinha em minha direção com um andar macio e sensual. Era ela. A uns vinte metros de mim ela me lança aquele mesmo sorriso lindo e meigo e eu estava a ponto de ter uma parada cardíaca. Por alguns instantes parecia mesmo que ela tinha apenas ido passar um feriado fora e que estava retornando e eu, seu namorado, a esperava ansioso e cheio de amor e saudade. Nem tivemos tempo de trocar palavras, ela me abraçou forte e eu a ergui no alto com tanta vontade, paixão e carinho que fiquei ali, por um bom tempo, meio perdido. O encanto se quebrou quando nos recompomos no minuto seguinte. Ela estava com uma cara dramática, meio amarrotada, talvez pela viagem, mas havia sulcos profundos marcando seu rosto. A pele judiada, ressecada e com diversas marcas. Pelos meus cálculos ela não podia ter mais que 30 anos, pois havia me despachado aos 24, mas aparentava muito mais que isso com indisfarçáveis rugas ao redor dos olhos, boca e até na face. Olheiras em tom marrom e o olhar perdera aquele brilho, estava melancolicamente desbotado. O azul virou um cinza opaco. “Deus, o que fizeram com ela? Ou, o que ela fez a si mesma?”, pensei comigo. Ela me falou “vamos tomar um café?”, e eu assenti com a cabeça. Mas até a voz era agora grosseira e com um tom desagradável, com um sotaque falso de não sei onde, quase vulgar. Ficamos bebendo sem conversar, e eu não sabia o que dizer. Nem tampouco ela. Talvez não havia mesmo nada mais a dizer. “O que será que aconteceu com ela”, eu pensava. Acho que o plano inicial seria irmos a meu apartamento. Mas estávamos desconfortáveis demais um com o outro. Ela apenas me pediu para levá-la à casa de uma prima, ou amiga, não me recordo. No caminho trocamos conversas vazias do tipo “e aí, o que você está fazendo de bom?”, e “ah, e você vai ficar mesmo em São Paulo?”. Tudo tristemente vazio. Não havia trânsito nesta silenciosa tarde paulistana. A deixei na porta do prédio. Ela agradeceu, pegou suas coisas e eu ajudei com a mala até a porta do elevador. Me abraçou e se despediu com um adeus do tipo “a gente se fala”. Nunca mais nos falamos. E eu enfim extirpei de vez aquele sentimento que me assombrava de vez em quanto. Não havia mais nada, nem carinho, nem nada. Assim é a vida. O que eu imaginava ser um grande amor, virou uma grande bosta ressecada devido ao tempo e ao desdém. Onde outrora eu só via beleza só consegui mesmo ver feiúra mesmo ela sendo ainda tão linda. Pelo menos acho que sim. Talvez eu não tenha enxergado direito. Sofia me ligou finalmente. Disse que estava sozinha. Marcamos um jantar e rolou o primeiro beijo. Acho que a amo.
Escrito por Mauro Cassane às 16h41
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Uma tarde ocre no velho centro paulistano
Uma tarde ocre com cheiro de umidade e bolo de fubá. É raro essa conjunção olfativa e cromática em São Paulo. Por isso aproveitei para caminhar. Segui andando sem pressa pelos antigos passeios da Praça da República, com seus lagos esverdeados e viscosos como pântano e aquele peculiar odor de mijo pelos cantos carcomidos. Mas há beleza, sempre há algo de belo nas feridas. Notei isso quando andava meio sem rumo pelas fantasmagóricas vielas de Berlim Oriental e me deu calafrios ao ver buracos profundos nas muretas de grosso concreto. Enfiava o dedo naqueles gelados orifícios maculados com sangue e dor. Tiros na altura do peito. Sempre nessa linha da morte. Me dava arrepios, mas havia beleza em tudo aquilo também. Me parece que tudo que é belo anda de braços dados com a crueldade. Até o macabro muro de Berlim, frio e seco, com sua arquitetura indócil e burra, guarda lá suas belezas em seus restos mortais. Há beleza em tudo, inclusive nas mais cruentas cascas de ferida. Olhe-as atentamente, observe-as com um microscópio, e é possível ver cores, gravuras e relevos curiosos sobre a crosta disforme. As coisas são assim. Muitas vezes o que é feio de longe fica lindo bem de perto, e o que é tão lindo de longe fica horroroso quando nos aproximamos para olhar com mais atenção. Gosto de ver o velho centro paulistano nas tarde avermelhadas e frias, com sua peculiar brisa úmida e garoa vadia, que é a gema desta cidade. As pessoas ficam taciturnas, franzem a testa e seguem seus passos obstinados a algum lugar, decerto buscando alguém ou algo para sobreviver. Fico um tempão entretido com os semblantes ora melancólicos ora assustados desse povo louco oriundo de todo canto do mundo. Estão ali os esfarrapados índios e caboclos pelo chão vendendo suas bugigangas e badulaques. Há os artistas árabes, os taciturnos judeus e os ruidosos nordestinos. Africanos caminham em passos desconfiados com olhos atentos a tudo, particularmente cuidando de suas costas como se pudessem, ali mesmo, serem esfaqueados. Coreanos vendem seus contrabandos e japoneses infestam tudo com aquele cheiro melado e oleoso de macarrão frito com banha de porco. As pombas cagam por todo lugar, e voam segundos antes de serem pisoteadas sacudindo suas pulgas e piolhos por nossas cabeças. Em Amsterdã também é assim, mas em lugar algum há essa harmoniosa miscelânea cultural com o mais pacifico sincretismo religioso.
Sei que muita gente detesta São Paulo, e eu mesmo odeio essa porra de cidade diversas vezes ao dia. Mas a amo também. Loucamente até. Afinal só não há amor quando há uma completa indiferença. Creio piamente nisso. Se alguém te odeia com força e coração, saiba que também o ama na mesma intensidade. O ódio nunca anda sozinho, anda ao lado do amor. E se uma garota te ignora por vontade própria, finge não te notar, também está em vias de por ti se apaixonar. Até dá boa rima isso. Bem, mas foda-se. Perto dos mistérios femininos, as pirâmides do Egito não passam de ordinários quebra-cabeças infantis. Prossegui sem pressa, andando como um genuíno vagabundo como sempre gostei de fazer. Olhando as lojas, as caras, as putas e os malandros todos ali, que sempre te observam de soslaio. Dia ocre é para se caminhar, não para trabalhar. Como paulistano tem fama de trabalhar demais, resolvi eu ser um pouco vadio, assim equilibro mais as coisas. Entro para dar um giro pela lendária galeria do rock. Aquelas figuras me encantam com suas roupas negras e todos fantasiados com pulseiras e pircings e outras coisas penduradas que nem sei como chamá-las. Compro dois CDs do Taj Mahal e vou desviando dos camelôs até em frente ao Teatro Municipal. Tenho boas recordações daquelas escadarias. Uma vez, quando garoto, transei com uma mulher balzaquiana ali já em alta noite. Linda morena, estava de saia, chovia a cântaros, e nós ali, sob a clássica cobertura, com seus rococós arquitetônicos, trepando alucinadamente sem nem nos dar conta de um mendigo que nos assistia e se acabava no que talvez tenha sido sua mais prazerosa punheta. Fui então em direção ao Viaduto do Chá. É agradável ver o formigueiro humano logo abaixo da gente no Vale do Anhangabaú. Fico ali, um bom tempo, debruçado nas rígidas barras de ferro. De um lado está o assombrado Joelma e, do outro, o vale em si. Puta merda, devia mesmo ser um vale lindo com um rio sagrado dos índios e animais pastando e tudo mais. Há um ruidoso tumulto logo a frente. Muita gente se aglomerando e se empurrando. Do posto policial correm dois meganhas desesperados. Caralho, apressei o passo e fui ver qual era o barraco. Sempre há essas coisas no centrão. Um sujeito, de uns 35 anos, estava do lado de fora das grades de segurança do viaduto, e dizia que ia saltar. Seria uma queda espetacular e estatelaria lá embaixo, no meio da avenida feito um pacote de carne moída. Guardas de trânsito já desviavam o tráfego logo abaixo. E alguns crentes levantavam folhas de cadernos com os dizeres “não pule, Jesus te ama”. Uma mocinha, se dizendo psicóloga, conseguiu se aproximar. E eu, sem dizer nada, e empurrando todo mundo, me pus a poucos metros do sujeito. Um verdadeiro camarote. O cara estava desesperado com a falta de emprego. Um motivo bem comum. E ela, travestida de anjo salvador, lançava argumentos cheios de chavões e mentiras para convencê-lo a não se matar. Não adiantava muito. A cada vez que ela se aproximava ele dobrava o corpo totalmente para trás e se virava em direção ao vazio e as pessoas gritavam apavoradas.
Escrito por Mauro Cassane às 16h23
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Mais alguns minutos de espetáculo e, como num segundo ato, parou uma Kombi do Corpo de Bombeiros de maneira até discreta para os padrões da corporação. Um negro de uns dois metros de altura, com uma cara bem simpática, como um jogador de basquete, desceu e, em passos malandros e cheio de cadência, foi abrindo caminho até o suicida pedindo licença a todos. Parou logo atrás da boa mocinha. Ao vê-lo, o sujeito desempregado ameaçou se jogar novamente. O povo mais histérico lançou alguns gritinhos mas perderam, contudo, a fé na coragem daquele sujeito em por fim à própria vida. O fato é que o bundão não estava mesmo disposto a se matar. Queria apenas dar espetáculo. Era evidente isso. Quem quer morrer não busca show. Morre logo de uma vez. A jovem psicóloga, gostosa por sinal, é que não percebeu isso, talvez por estar demasiadamente entretida em colocar em prática alguns de seus ensinamentos. Mas creio que o gigante negrão dos Bombeiros notou rapidamente que se tratava de um suicida incompetente. “Moça, posso tentar ajudar?”, ele disse com uma voz doce e educada. “Ele me disse que se você chegar mais perto ele pula”, respondeu a quase heroína já vertendo algumas lágrimas. O gentil bombeiro a surpreendeu com um sorriso e, imediatamente, lançou seu olhar fulminante ao festivo suicida e disse, de supetão: “amigão, vamos acabar logo com isso e pule logo de uma vez, porra. Você tá tumultuando tudo por aqui e não tenho tempo a perder. Pule logo que preciso dispersar essa gente toda. Vamos. Pule logo”. Foi dizendo isso e, em dois saltos largos como um canguru, agarrou o filho da puta pelo braço e, num único golpe, resoluto e firme, o tirou do lado oposto do viaduto, o trancou sobre os ombros e o levou para a Kombi sob aplausos atônitos e boquiabertos. Até eu aplaudi. Nunca vi nada igual. A jovem psicóloga ficou ali, estarrecida. Teve sua aula gratuita de psicologia de rua. A gente vê beleza em tudo, até mesmo nas tardes ocres e úmidas de Sampa.
Escrito por Mauro Cassane às 16h22
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Revolucionária dama de vermelho
Naquela manhã acordei um pouco melhor. Não exatamente possuído por uma alegria, mas com uma boa sensação apenas. Uma amiga psicóloga me diz que estou deprimido, que deveria me tratar. Fazer análise? Pagar uma grana pra ficar dialogando? Acho que não. A depressão, bem gerenciada, pode ser até uma boa ferramenta para a criatividade. Bem, foda-se. Eu sei perfeitamente o que me deixa assim nessa porra de angustia dos diabos. E o remédio não está nas farmácias. Está por aí. Em algum lugar. Ou até mesmo bem perto de mim. Minha cura tem olhos amendoados, pele lisa e sedosa. Ah, não vale a pena lembrar. Apenas acordei bem naquela sorumbática manhã cinza de sábado. Um dia para ficar abraçado, mas o travesseiro é tão disforme e tediosamente desprovido de vida. Decidi caminhar até a casa de minha mãe. Tomei café com ela.
- Tá tudo bem com você?
Ela sempre me pergunta isso. Desde garoto, e eu sempre detestei. Odeio quando me perguntam isso. Normalmente não estamos bem. Quase ninguém fica bem. O que me parece é que há uma conspiração muito grande para as coisas permanecerem meio mal mesmo. As pessoas sorriem, vão à missa, bebem, fumam, casam, cagam, trepam e se dizem felizes. Mas nunca estão bem. Se há amor, falta grana, ou sobra traição. Se há grana, falta saúde, ou grassa a corrupção. Se há ambos, falta alguma outra merda e transborda porcarias. Talvez seja esse mesmo o grande motor do mundo. A gente vive em uma frenética busca. Se acomodar é sentar na própria bosta e sentir-se confortável. Bem, à minha mãe, a despeito dessas considerações todas, sempre respondo: “tudo legal”. Na verdade todo mundo responde quase a mesma coisa. Como alguma coisa, conversamos um pouco sobre o evento do ano da vizinhança que é um casamento que vai acontecer no final da tarde. E o grande comentário é a luxuriosa atenção que a mãe do noivo enseja chamar a si posto que o vestido que alugou é de um vermelho incandescente. Não vi, e fico meio entediado com conversas que circundam um casamento. Acho muito legal o amor unir duas pessoas. Mas acho um cu a cerimônia de casamento. A minha não foi diferente. Não consigo entender como um padre pode celebrar um casamento. É muita cara de pau. O filho da puta é um eterno solteiro, não entende porra nenhuma do assunto de viver ao lado de uma mulher, tecnicamente não tem filhos, e se tem não os cria e as pessoas concedem a ele, um pobre diabo, a soberba autoridade para casar um homem e uma mulher. Quanta hipocrisia. E o sujeito, com sua bata engomada, lá no altar, tem coragem de dizer “o que Deus uniu, os homens não separam”. Ah, vai se foder. Sem contar o sermão e os conselhos ao casal. Padre deveria dar conselhos sobre punheta, ou dar o cu ou trepar escondido. Que autoridade tem o padre para dizer algo assim sobre Deus? Pois Deus criou uma porrada de coisas que o homem separou. É bem comum aliás. O homem fodeu com diversas criações que atribuem a Deus muito mais importantes, aliás, que o amor de um casal. A igreja mesmo se enfeita toda com o ouro que custou a vida de muita gente e a desgraça de grandes obras da natureza. Ouro devia ser coisa do diabo, no entanto é adorno da santa igreja.
Não pude faltar ao casamento. Era um grande amigo de infância. Muito mais esperto que eu, pois casou com 40 anos. Eu casei antes dos 30. Não sei ao certo o que é melhor. O melhor mesmo, independente de casar ou não, é amar e ser amado loucamente. O resto é bobagem. Estive lá, se acordei bem, fui ficando puto ao longo do dia. Mais puto ainda ao ouvir as tolices do padre. A igreja é um templo suntuoso e lindo. Bem diferente daquela história de pobreza e humildade que se prega na bíblia. Desde quando minha mãe me obrigou a fazer essa merda de primeira comunhão que eu não entendo direito esses paradoxos da igreja. Falam tanto de santos que doaram toda a grana, de gente pobre e humilde, do próprio Jesus Cristo com sua vida simples e desprovida de qualquer luxo, mas é infame ver tanta ostentação no altar. Bem, religião é um mal necessário. Deus deve rir disso tudo, sobretudo das tolices que perpetram em seu nome. Não vai castigar ninguém, pois deve ter coisas mais interessantes a fazer, mas deve rir sim. Acho que Deus criou os humanos para se divertir. Dizem que Deus está em todos os lugares mas, de acordo com os preceitos cristãos, se quiseres ser salvo você tem que ir a uma igreja e ser devoto, e rezar e tudo mais. Seguir toda aquela liturgia do tipo faça-o-que-eu-digo-mas-não-o-que-faço.
Escrito por Mauro Cassane às 12h20
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Coisa esquisita. Coitado do Luthero que brigou feio contra esses dogmas estúpidos da igreja católica, fundou a facção cristã dele, mas tudo virou uma grande merda ainda mais fedorenta e avarenta. Ah, Deus deve rir, com certeza! Só pode ser uma piada.
E foi uma hora de lenga-lenga a cerimônia para sacramentar o casório. O padre é simpático, ri, brinca, busca uma empatia com o público. Tem uma voz de embuste, horrorosa, e um cabelo negro com recorte repicado, jogado ao lado, parecendo um playboy fora de moda. Há algo errado com ele. Mas não prestei muita atenção e nem sequer me interessei em descobrir, ou ainda imaginar. A tradicional festa de casamento foi ali ao lado, no tal salão paroquial. Um lugar para duzentas pessoas mas para lá rumaram umas trezentas no mínimo. Um sujeito tenta ser engraçado ao teclado e toca aquelas desbotadas baladas do Ray Coniff. Enquanto isso as pessoas fazem um jogo engraçado na busca meio desesperada de um lugar para se alojar e aguardar a comilança. Os mais espertos disparam na frente e reservam mesas inteiras para seus familiares mais lentos. Minha mãe fica então numa mesa já tomada por alguns velhos conhecidos e vizinhos. Eu continuo ali, observando tudo. Lembro de meu casamento. Me passa coisas tolas na cabeça. Sai em minutos. Fui tomar ar e ver os pipoqueiros em seus carrinhos coloridos com luzes amareladas e opacas. Depois fumei uma erva. Dei a volta por detrás da igreja. O silêncio é sempre bonito e melancólico, o que há de mais santo na igreja. Fiquei de longe, assistindo amigos de longa data andando de um lado a outro. A gente vai atravessando as etapas da vida, e vamos nos preparando para morrer. Mas nunca ficamos prontos. Não gosto de parecer anti-social, mas a merda é que sou. Já me preocupei com isso antes, pois a gente pode parecer esnobe. Hoje não ligo mais. Detesto Ray Coniff, odeio caras que animam festa montados numa merda de um teclado, não suporto ver pessoas sendo ridicularizadas, ainda que mereçam isso e estava afins de fumar maconha olhando Sampa de cima. Assim, na sacada de meu apartamento. Fiquei mais dez minutos, me despedi apenas de minha mãe e fui embora sem dizer porra alguma. Estavam cortando a gravata do noivo e pediam dinheiro para os convivas. E outra turma arrastava a noiva com seu sapato branco sobre uma bandeja, também pedindo contribuições financeiras. De onde tiraram essa escrota tradição miserável? Queria dar um beijo na mãe do noivo. Ela realmente estava linda e brilhava com seu vestido exuberantemente vermelho. Uma autêntica revolucionária dos costumes, da fé e tudo mais no meio de cinzentos fiéis ensebados. Eu sou solidário a ela. Um bom cristão.
Escrito por Mauro Cassane às 12h19
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