Cores Humanas


Sofá azul

A cada dia que passa acredito mais em algo que me pareceria um impropério até há bem pouco tempo. O amor entre um homem e uma mulher é tão volátil quanto um peido. E, fique certo, se lhe parece perfume ao descobri-lo, saiba de sua efemeridade, pois o fedor virá e se instalará em ti até a decomposição de suas entranhas. Quando a relação dura muito, o amor acaba antes afundado em algumas merdas. Se a relação acaba antes do amor, neste caso não havia porra alguma. Sorte de quem deu o fora, azar de quem ficou com a porra do amor de tolo. Isso acontece com todo mundo. Um dia você é a vítima, na outro, o algoz. Definitivamente não acredito mais. O lance é ir levando em frente, trepando e tudo mais. E seguindo sozinho. Quando estamos com alguém, o melhor a fazer é simplesmente blindar os sentimentos quanto a arroubos românticos pois uma hora termina, a podridão sai do esconderijo e fede. O amor é bonito vivo, mas ao morrer cheira a cadaverina.

Um lado sempre acaba cedendo e se mandando. Ninguém agüenta amar por muito tempo. E eu acreditei nisso por quase toda minha vida. Certos equívocos perduram. Não dá para ser muito esperto a toda hora, somos apenas razoavelmente vivazes, de resto temos que nos acostumar com nossas tolices. A questão é que os defeitos humanos são como carniça, não conseguimos esconder por muito tempo. A gente até consegue mascarar muitas coisas pra se dar bem com alguém. Mas cedo ou tarde a podridão vem à tona. Passei um tempo louco de amor, sofri pra caralho, mas sobrevivi. Agora, felizmente, não acredito mais. É fácil namorar e casar. Parece até amor. Ou morar junto. Fica algo tão doce. Mas é tudo falso. Sai o casal de mãos dadas, fazem juras de amor, transam bem, gozam legal e parece que tá tudo numa boa. Então ficam juntos. E o inferno, sempre na espreita, uma hora bate à porta. O filme se repete, igual e monótono. Quando um amor parece em vias de dar certo. Ploft. Um gigantesco martelo o enterra ao chão. Pronto. Fim. Bem, foda-se. Nada de bom foi construído neste mundo em nome do amor. Pensando racionalmente, só fizeram merda mesmo. Basta pegar os livros de história.

Penso nessas coisas todas apenas para me consolar. Temos que ser francos e não podemos acreditar piamente em nossas fantasias. Tenho cada vez menos paciência com minha solidão, pois estou me tornando amargo, iracível e chato. A gente vai se brutalizando com a solidão. É algo perverso demais. No meu caso, foi por opção, creio que esperava alguma coisa boa acontecer. Mas não se pode esperar porra alguma. Seria mesmo muito melhor estar ao lado de uma garota especial. Mas da próxima vez que isso acontecer, vou procurar não amá-la tanto. O melhor a fazer é nada dizer, ir levando, deixar as coisas tomarem um rumo qualquer. E simplesmente não se importar. Já é assaz suficiente estar vivo.

-         Você me perturba. Fico estressada demais com o que sentes por mim. Me sinto mal cada vez que penso que vou encontrar você.

Ela me disse isso num tom grosseiro, meio nervosamente. Fiquei assustado com essas palavras. Vejo um cara recém assassinado em minha frente, a facadas, e continuo impassível. Mas certas palavras proferidas me destroçam a alma. Não sei como explicar isso.

-         O fato de eu gostar de ti te faz mal?

-         Sim. Muito.

-         Posso saber a razão?

-         Não sei explicar. Você não deveria nunca me dizer que gosta de mim desse jeito.

-         Desculpe. Apenas quis ser sincero.

-         Não me diga mais isso.

-         Posso te fazer uma pergunta?

-         Sim.

-         Você ama?

-         Gosto.

-         Queria saber se ama...

Já te respondi. E não me pergunte mais nada.

Escrito por Mauro Cassane às 11h46
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continua...

E assim encerramos a conversa. Meu celular tocou. Era Cíntia.

-         Oi, queria saber se você tá bem.

-         Se eu estivesse mal mudaria alguma coisa?

-         Tentaria te ajudar.

-         Hum. Se ajuda resolvesse eu pediria.

-         Grosso.

-         To brincando. Estou bem.

-         Quer tomar um vinho em casa hoje. Peguei um filme legal: “O Carteiro e o Poeta”, já viu?

-         Nunca mais quero ver esse filme na minha vida.

-         Você odiou? Conta uma passagem de Pablo Neruda. Você não gosta do Neruda?

-         Adorei o filme. Mas não quero mais ver.

-         Filme bom é legal rever. Por que não quer ver “O Carteiro e o Poeta”?

-         Me lembra coisas que preciso esquecer.

-         Ih, que merda. Ainda tá nessa? Então vamos tomar só o vinho.

-         Tá bom.

Uma linda mulher. Tomamos vários vinhos. Transamos a noite toda. Não sinto nada por ela. Acho que um pouco de tesão, mas só na hora que ela me toca. E é isso. A gente se dá bem na cama. Depois ela fica carinhosa, fica ronronando ao meu lado. Me faz carinho, diz coisas românticas. Põe uma porra de cd do Sting. Sinto uma mistura de impaciência e melancolia. Gosto de olhar seu corpo nu, é perfeito. Cintura bem delineada, bunda macia e bem formada, cochas roliças e firmes e seios sublimes, rijos e com bicos rosados. Seria a garota perfeita se por ela sentisse algo. Fico ali, ouvindo Sting, ela com a cabeça repousada em meu peito e passando a mão em mim. Mãos aveludadas. Cheira a óleos de uva. Amanhece e pegamos no sono. É bom dormir com ela, mas não vejo a hora de ir embora. Acontece que ainda tem o café da manhã, conversa lenta, carinhos domésticos, e coisas que gostaria de fazer com outra mulher. Que diabo. Ela é um pouco insaciável. Quer transar de novo. Sobra tesão, mas não sinto vontade. É lindo observá-la andando de um lado para outro. Pisa macio, requebra suavemente e tem uma barriguinha de modelo. Ela me puxa para o sofá. Ligo a tv. Ela trepa sobre mim, tira minha camiseta, e começa a me acariciar o peito. O sofá é azul, pequeno, mas confortável. Gosto de passar as duas mãos em sua bunda. Um programa idiota me tira da órbita sexual. Volto ao chão. Começo a me entediar profundamente. Certos elementos me fazem lembrar de outra pessoa. Acho que era a Xuxa na tv. Desliguei aquela porra. O sol já brilha alto. Me deu vontade de caminhar sozinho. Queria tanto ser como as mulheres, simplesmente dizer o que sentem sem receio de magoar ou não. Ficamos ali e transamos mais uma vez. Ela gozou, eu não. Me vesti e fui caminhar, mas não há nenhum cemitério perto da casa dela.        

 



Escrito por Mauro Cassane às 11h46
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Cor de merda humana

Estou amando um garoto e uma garota. Essas dualidades da vida são foda. Mas é uma realidade. Constatei isso de uma maneira meio assombrosa. Não consigo viver sem eles, e penso em ambos diariamente. Inexplicavelmente não penso nos dois juntos. Ora em um, ora em outro. Me relaciono com os dois. Ela é linda. Uma pele morena, cabelos cacheados, um jeito meio subterrâneo, adora rock alternativo e tem um estilo potente para falar, mas um olhar tímido e suave. O rapaz é bem mais jovem. E carinhoso. É extremamente ativo, anda de um lado para outro, é viril, meio feroz, e faz o perfil macho mandão. Autoritário mesmo. E ciumento. Até admite meu amor pela garota. Mas demonstra um ciúme virulento se a vê comigo. Porra, já brigaram por mim. Tive que apartar. Mas me senti bem. O ego foi às alturas. Nunca pensei amar um cara. Mas ele é lindo. Seus traços são perfeitos. E quando me abraça, juro mesmo, fico arrepiado. Quando durmo com ela, me sinto muito bem. Ela se encaixa em mim. E nas noites que fico com ele sinto vontade de permanecer ali, apenas fazendo carinho naquele rosto tão simétrico, invejavelmente angelical. É amor de verdade. Amo ambos na mesma intensidade. Com certeza morreria por eles. E que pai não morreria por seus filhos? Acho que todos. Sinto sempre que minha vida só não descarrilou por conta dessas duas criaturas. Também pelos dois fiz as coisas mais acertadas e as mais equivocadas de minha vida. E faria tudo de novo. É uma experiência muito caralhal ser pai. Se nos falta aquele amor tão importante, de um a fêmea mesmo, da mulher que nos acolhe e espera, que sente saudade e que se entrega a carinhos e afetos, sobra sempre o carinho dos filhos. Pelo menos enquanto são crianças. Depois a gente vira adolescente e adulto. Daí fode tudo mesmo. A gente nasce bom, mas conforme essa máquina diabólica chamada cérebro vai se desenvolvendo, ligando suas conexões, vamos nos tornando criaturas cruéis, desesperadas, angustiadas e injustas. Monstros perigosamente pensantes. Quanto mais desenvolvemos o cérebro, pior ficamos.

Não tenha dúvida, com exceção das crianças, os seres-humanos, todos mesmo, são nojentamente ruins. É bíblico isso. “Quem não tem pecado que atire a primeira pedra”. Oras, Jesus disse isso. Não foi? Ninguém atirou. Nem ele. Pecado é uma metáfora simpática. Somos filhos da puta mesmo. Com todo respeito às putas, que são humanos ligeiramente melhorados. Mas, via de regra, somos maus. Não se trata de uma classificação de cor, raça, sexo ou lugar onde nascemos. Somos lixo em qualquer lugar do planeta. Pouco importa se primitivos ou super-desenvolvidos. Índios e universitários, padres e executivos, políticos e ativistas pela paz, ecologistas e xiitas, católicos e protestantes, somos moscas em merda. Todos. O problema não é corrupção, ou algo cultural, ou social, porra nenhuma. Não adianta qualquer estudo antropológico, filosófico ou sociológico para explicar mazelas humanas. Basta simplesmente entender que somos uns merdas. Deveríamos, isso sim, respeitar, talvez até canonizar, todos os bobos do planeta. Isso mesmo. Os bobos clínicos, não os tontos que grassam por aí no mundo corporativo, governamental ou showbusiness. Falo dos débeis mesmo. Aqueles cujo cérebro não desenvolveu. Lesados de verdade. Esses sim merecem meu respeito. Nem fazem idéia de quão bom são. Excluo desse grupo os psicopatas que, em vez de parafuso a menos, têm alguns a mais. Por isso são capazes de botar em prática aquilo que nós, os normais, apenas fantasiamos contida e silenciosamente. É verdade. Noventa por cento das pessoas que dirigem carro no mundo são potenciais assassinos. Os outros dez por cento são assassinos confessos. O sujeito entra no carro e se transforma, imediatamente, num boçal da pior espécie. Ali está ele, em sua máquina de matar, todo orgulhoso, sorridente ou não, mas pronto para trucidar seu semelhante. Preferencialmente, por instinto covarde, aqueles que estejam a pé. É assim mesmo. Acontece com todos e em qualquer lugar. Débeis não dirigem nem carro, nem empresas, nem países. Crianças também não. São, sem dúvida, o que há de melhor na humanidade. Eu os venero.    



Escrito por Mauro Cassane às 12h05
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Branco frio e verde quente

Acordei no meio da madrugada e fazia um frio desgraçado e moribundo. Desses de te pregar na cama e te deixar ali, puto da vida, insone e com vontade de mijar, e simplesmente sem coragem de se erguer para enfrentar alguns passos até o banheiro. Rolei de um lado a outro. Nada a fazer senão tentar pegar no sono de novo. Mas não foi possível e resolvi acender a luz e ler um pouco. Esse é um dos grandes problemas de dormir sozinho. Somos obrigados a ler quando perdemos o sono. O certo seria transar, seria muito melhor e até mais natural. O relógio marca cinco da matina. E logo vai amanhecer. Mais um dia. As páginas do Burroughs são incendiárias demais para quem quer pegar no sono. Mudo de livro. Pego Neruda. É bem melhor pra dormir. Nada como sonetos de amor. Mais cedo o mais tarde todo romântico se torna um punheteiro solitário. O sono não vem mesmo, mas os versos do capitão me levam para umas lembranças idílicas. Talvez também entorpecido pela vontade de aquecer o rabo em uma praia. Lembro de Recife com suas ruelas estreitas e canais emporcalhados, mas com lirismo. Tudo ali se parece demais com versos tropicais. Encontrei uma mística louca branca que me disse ser descendente de índia com europeu. Se apresentou como Lisa. Simples assim. O nome era outro, mas não guardei. Olhos verdes intensos, como os arrecifes mesmo, e estava ali a passeio. Vinha do Norte, das terras amazônicas. Falava demais, bebia muito e saltitava alegre, bêbada e solitária entre os bares do centro velho. A conheci num desses botecos e conversamos madrugada adentro. Fomos ao pontilhão, avistamos o mar acizentado com brilhos salpicados produzidos por embarcações dos pescadores. E ali ficamos. Ela cheirava bem, parecia folhas úmidas e irradiava tesão. Nos abraçamos, ficamos aos beijos e transamos até o limiar da manhã. Ventava muito e um frio tênue soprou sem parar durante a madrugada. Mas é quente em Recife. Clima, noite e mulheres quentes. Não entendi ao certo, mas ela me disse, entre sussurros: “te amo”. Lembro bem disso. Eu disse: “o que”. Ela reiterou: “te amo”. Me tirou o tesão na hora. Poderia dar mais uma. Havia tempo e pouca luz. Mas ela me disse “te amo”. Por que diabos me disse isso? Não sei. Talvez ali, na doideira do tesão e bebedeira, ou seria dela um hábito antes do gozo? Ela era gostosa e inteligente. Gostei dela de verdade. Ficaria mais três dias. E ela mais uma semana. Mas não a vi mais. Neste frio do cacete não consigo me lembrar porque não fiquei com o telefone dela. E nem tampouco como nos despedimos. Me lembro apenas do “eu te amo” sussurrado em meu ouvido. Ou ela me disse outra coisa e eu queria entender “te amo”? Pode ser. Cansei do Neruda. Agora a manhã já tá aí com suas luzes invadindo as frestas da janela. Me deu fome mas preferi sair para caminhar a comer banana. Penso nessa fruta e lembro de uma mulher louca que a odiava. Mas devo esquecê-la sempre. E a banana também.

Uma vez disse para uma garota. “Eu acho que te amo”. Grande erro. Não se acha isso. E se tens mesmo certeza, então não o diga. O destino nos coloca diante de uma mulher. Mas a crueldade da razão nos bota a milhas dela. E vice-versa. Ando por ai e ninguém na se mete pela rua assim tão cedo, com exceção sagrada dos caras que seguem pendurados em suas lotações rumo ao trabalho. Deveria eu também ser um trabalhador de verdade. Fazer serviços de homem. E fico escrevendo merda e fazendo reportagens. Isso é coisa de vagabundo. O bom mesmo seria ganhar a vida sendo um escritor. Ai sim seria um genuíno vagabundo. Mas o legal é ser um vadio razoavelmente bem remunerado. Essa coisa romântica de escrever poesias e contos e ficar na merda bebendo e comendo lixo não é pra mim. Na verdade, deixando as besteiras que dizem por aí, ninguém gosta de ficar na lama. Muitas vezes leio alguns escritos de caras mais underground e noto que é comum entre eles um certo jeito bandido ou miserável. Parece que, na literatura, é charmoso ver o personagem na mais imunda amargura. Preferencialmente abaixo da linha da pobreza. Uma falsidade torpe. Um cara que publica uma porrada de livros não pode comer merda sempre. Isso nunca aconteceu na história. Até o louco do Dostoiévsck tinha seus luxos e Buckowisk também. Bem, não me importo muito com isso. Artistas nunca tiram a máscara. Gostam de se exibir fantasiados. Cantores, atores, escritores e o caralho. Fazem um puta tipo. Nem sei porque to falando disso. Caminhar faz a gente pensar e não é bom pensar muito. Às vezes temos que ficar no vazio, assim, meio tolos e letárgicos, apenas ocupando espaço, curtindo nossa inutilidade. Lembrei porque falei dos artistas. Foi apenas para dizer que seria bom ganhar dinheiro sem ter que ralar e suar por aí. Até para ser jornalista é foda. Tem que suar. Ir atrás e ficar perguntando coisas, depois escrever tudo feito um relatório de merda e burocrático. A gente floreia, bota um pouco de vida e poesia, mas não passa de um mero relato de um fato. Nem podemos mentir. Além do mais acho o clima de redação uma merda. Só vale à pena pelas garotas. Nos últimos dez anos um monte de garotinhas se formou em jornalismo e aí estão elas todas, gostosas, deslumbradas, rebolando pelas redações. E os velhos tubarões tarados ali, à espreita, prontos para a temporada de abate às focas. Me enjoei de tudo isso há tempos. Acho tudo muito falso. Mudei um pouco. Mas temos que ir sobrevivendo. Volto da caminhada e penso novamente em Lisa. Aquela bunda linda esfregava-se em mim e gostava de transar de quatro no píer mesmo. Foi uma vez só e parecia que éramos grandes e eternos amantes. O mar brilhava como uma exata réplica do céu e suas estrelas. Sua pele branca me enlouquecia, e havia as sardas na face, e as costas eram lisas e macias. O suor a deixava toda molhada mas o sereno esfriava aquele corpo que me buscava ofegante. Fui um idiota. Nunca mais vou achar essa mulher. Muitas vezes perdemos as melhores oportunidades de nossas vidas por pura tolice, orgulho e teimosia. Temos vertigem do novo, medo de amar. O que percebo, e isso é demasiadamente humano, é que temos um grave erro de projeto. Não sabemos amar, nem nos deixar amar e tampouco temos idéia pra que porra serve essa coisa que batizamos de amor. Volto pra dormir mais um pouco. Faz frio e não sou mais funcionário. Era uma grande merda aquela época. Mas ganhava bem e tinha uma garota que me dizia, claramente, “te amo”. E desconfio que ela até amava mesmo.

 

 

 

 

 



Escrito por Mauro Cassane às 20h26
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Vinho, frango e sabores olvidados

Fiquei com um puta desânimo ao ver aquela bagunça toda e pensar que eu teria que arrumar tudo aquilo de qualquer maneira. Tudo lambuzado, pratos e panelas e copos imundos e gosmentos sobre a pia. A gente pode fazer algo maravilhoso na culinária, mas se não limpar toda sujeira, fica escroto comer ali naquele ambiente. Acho que tudo que é bom nasce sujo. Ou gera uma grande porqueira para ser criado. Pedi para a coreana da avícola tirar os ossos do frango e o bicho ficou num estado impressionantemente horripilante. Parecia uma imensa e enrugada rã. Então o incrementei por dentro com um recheio gordo feito à base de carne e miudezas, untei com mel e botei no forno. É legal fazer coisas assim na cozinha. Alivia o estresse, me sinto mais humanizado. Entorno um bom litro de vinho só no preparo. Na terceira taça vem a inspiração. Nunca sigo receita alguma, vou fazendo as coisas meio alucinadamente, como se possuído por um espírito cozinheiro dos bons.  Cozinhar é uma grande arte. Acho que a maior de todas. Nada se compara a um bom prato feito ali, iluminado, tenro, saboroso. E a gente pode comer aquilo. É um tesão mesmo. Pra mim um bom restaurante, não os caros, que acho uma grande sacanagem, mas os honestos, são uma autêntica galeria de arte. Pra comer bem não precisa ter muita grana, basta ter respeito pelos ingredientes. Dias desses, fazendo uma reportagem na periferia, comi num barraco um arroz com carne seca e feijão feito na banha de porco e foi uma deslumbrante experiência degustativa. Tirando a horda de miseráveis, cuja fome não permite qualquer prazer, é possível ainda comer no Brasil. Nunca vi tanta comida na vida. No Ceasa de São Paulo são filas intermináveis de caminhões lotados de comida. E o desperdício daria pra alimentar centenas de famílias. Porra, fosse eu um faminto, mendigo fodido, ficaria por perto de uma dessas centrais de abastecimento. É comida pra caralho que jogam fora diariamente. Frutas e cereais ali, esmagados, na sarjeta. Feira de rua é a mesma coisa. Quando garoto, em fim de feira, a gente brincava de guerra e as munições eram tomates, mamões, melancias, laranjas. Andei por esse sertão todo, no meio da terra carcomida pela seca há imensas fazendas irrigadas, tudo verde, e ali vicejam frutas que mais parecem modelos para propaganda de sorvetes. Porra, mas ao redor, crianças com suas barrigas cheias de bichas e carne colada nos ossos. Não entendo mesmo. Volto ao meu mundo egoísta e suculento. Tanta merda e eu aqui puto da vida com a louça que tenho que lavar e cuidando pra não queimar meu rango. O frango tá dourado, cheira bem. Abro mais um vinho, e a solidão me faz companhia. Vivemos no meio de tanta fartura e há milhões passando fome. Vai tomar no cu. No mundo inteiro é assim. A história é uma grande janela para observarmos o futuro. É uma tediosa repetição de fatos que beira à obviedade. Ninguém se importa com porra alguma, apenas fingem. Hipócritas. 

Fiquei assim, xingando o mundo, dando uma de revolucionário burguês e solitário, e esperando o frango ficar no ponto. Demora. Queria estar ao lado da mulher que amo. Porra, sempre penso nisso. Certas coisas a gente não esquece. Se ela estivesse comigo ao menos me ajudaria a lavar a louça. Tenho um puta nojo de sabão com gordura. O segundo vinho é sempre melhor que o primeiro e assim sucessivamente. Agora é um cabernet. Maravilha. Deixei tudo boiando na pia. Foda-se. Parti um pedaço do frango, peguei o vinho e fui assistir tv. Ao menos não vejo aquela pilha de imundices. Em poucos minutos passeando pelas emissoras me parece que a asquerosa pia seria uma distração mais interessante. O frango ficou ótimo. Mas a solidão é uma merda. Às vezes sim, confesso que sim, é bom ficar sozinho. Mas não tanto assim. Há uma mulher que vive me escrevendo, me liga, me chama para isso e aquilo. É evidente que está afins de mim. Ou de sexo mesmo. Parece que trepar nos deixa mais limpos, mais saudáveis e puros. Deve ser isso. O problema é que me sinto enclausurado, um prisioneiro de minhas convicções absurdas. Acordo sempre puto com a ausência de uma garota. Entretanto me esquivo delas por ora. Que merda isso. Sou fiel a quê? Ou, pior ainda, a quem? Largo os pratos todos sujos ali. Acabou o vinho. Saio para a rua para arejar um pouco. Pensar em nada é bom e as ruas suburbanas me dão uma certa alegria. Ver as pessoas ali, nas suas calçadas, coçando o saco, discutindo e limpando merda dos cães. Tem uma favela perto. Gosto de andar por lá. Na rua um grupo de adolescente joga bola e fuma crack. Umas garotas sensuais, bem novas, andam por lá. Desfilam com suas saias curtas, gingado premeditado, e camisetas coloridas e esfarrapadas. Suas pernas firmes, seios duros e vibrantes e aquelas caras tristes com seus sorrisos descarados e provocantes me comovem mais que excitam. Não se importam muito comigo, estão acostumadas com minha presença. Algumas até me cumprimentam. O cheiro reinante é meio adocicado. Quando estamos meio bêbados tudo fica assim entre o belo e o doce. Essas garotas devem trepar muito. Todos os dias. Acho até que, novas como são, devem ter trepado bem mais que eu em toda minha vida. São bonitas. Miseráveis e sensuais.  A tarde vai caindo, e o manto denso da noite está ali, tão perto, que nos exibe sua negritude celestial. Não há pássaros nesse pedaço de mundo, apenas cães, ratos e gatos magros e feridos. As crianças gritam, sempre alegres, e os homens voltam a seus bares para sonhar. Ou tomar aquela dose de coragem para sobreviver mais um pouco. Há carros desmanchados, outros incendiados. Os traficantes espreitam e fingem te ignorar. A gente tem apenas que flutuar por ali, mas não podemos deixar que farejem medo. Se isso acontece, te trucidam. É um playground comunitário aos viciados dos bairros mais abastados ou um simples teatro aberto para aqueles que gostam de ajudar a pobreza a ser sempre pobreza. Pra mim é uma ferida que posso coçar de vez em quando até sangrar. Lembro da pia fodida de louça pra lavar. Caralho. Como seria bom voltar pra casa e encontrar aquela moça, com sua pele macia, aquele cheiro cítrico e beijo cujo sabor deve ter gosto de amora. Imaginar sabores é um segredo na culinária. Os sabores são olvidados, mas as sensações permanecem, apenas para nos atormentar.    



Escrito por Mauro Cassane às 14h13
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Desbotadas cores de um amor enterrado

Houve um período muito grande em minha vida que acreditei no amor. Na verdade, confesso, botei imensurável fé nesse sentimento até há bem pouco tempo. Quando adolescente, não fosse por minha contumaz taradice por mulheres, eu poderia até ter alguma dúvida com relação à minha sexualidade, pois alguns amigos me chamavam de veado por meu caderno ser repleto de poemas criados por mim. Escrevia poesias compulsivamente. Os caras que admirava na época, e hoje também, eram Drumond de Andrade e Vinícius de Moraes. E tinha todos os vinis do Caetano Veloso, com seus poemas musicados que ainda me parecem geniais. Naquela época, dos 17 aos vinte e poucos anos, não amava ninguém. Ficava desfilando de pau duro e louco para enfiá-lo mecanicamente em qualquer buraco quente que alguma garota permitisse. Queria apenas trepar. Não sabia o que porra era o amor, mas entendia que devia mesmo ser algo sublime por tudo que lia. Para os padrões morais e sexuais dos anos 80, pós liberação sexual, e anos antes da mórbida castidade da Aids, eu até que ia bem. Só não usava camisinha. Acho que poucos da minha época tinham por hábito transar com essa desconfortável e fedorenta lula enfiada no cacete. Não dou a mínima aos politicamente corretos, por isso até hoje acho um desastre usar camisinha. Prefiro, nesse caso, e sou assim mesmo, transar com uma garota que amo. Só com ela. Mas livre dessas tranqueiras de vestir o pau com um plástico gosmento e brochante. Por isso que Viagra faz sucesso por ai. Não é simples vestir o pau com aquele troço odioso e meio humilhante. Como se nosso falo fosse um criminoso e a xoxota, coitada, uma vítima indefesa. Odeio camisinha e, por isso mesmo – nem vale mencionar outros motivos – prefiro então ser monogâmico. Nada como transar com uma garota que você ama, curte, é apaixonado, e estar ali, só com ela. Porra, digam o que quiserem os putos e afins, chamem-me de careta ou tonto, foda-se, ainda prefiro um grande amor à tesuda promiscuidade. Façamos os exames médicos e tudo mais, toda essa burocracia também bem brochante, mas é uma única vez. Daí é sexo puro, saudável, cafajeste, puto, animal. Um vale tudo a dois, soberbo, pecaminhoso, troca de fluídos alucinada. Mas sem essa de camisinha. Pra mim, quando rola uma coisa boa entre um casal, vale tudo. Chicote, vela, algemas, cordas e toda sorte de acessórios ou utensílios, mas o bom mesmo é a carne na carne. Primitivo assim mesmo, que é bom. Que o digam os naturalistas.

Porém, por obra do destino, ou alguma trama ignominiosa da natureza humana, me deparo cada vez mais com a triste realidade de vestir meu pau a cada vez que vou transar. Nunca nem fui um cara de muitas mulheres, sequer posso me inserir no grupo de conquistadores. Namorei um tempão com apenas uma, e com ela casei e assim permaneci por mais de uma década. Ou seja, até o momento, mais de noventa por cento de minha vida sexualmente ativa foi desprovida de preservativo. Nem pensava nisso, tampouco havia necessidade. Para evitar filhos preferia a quase infalível tabelinha ou o coito interrompido mesmo. Há outros lugares e formas legais para ambos gozarem. Agora não sou mais casado e me sinto um peixe totalmente fora do contexto aquário, rio ou oceano. Me sinto um peixe se equilibrando num galho de árvore, olhando os pássaros, e confuso, sem saber onde me agarrar e nem sei se esse lance de voar por aí é algo seguro. A certeza que tenho é que, cedo ou tarde, assim exposto, e aqui parado, vou ser devorado. Há pouco tempo fiz uma seleção de meus poemas quando ainda os escrevia compulsivamente, sofrendo por um amor perdido. São centenas. Mas agora não consigo mais escrevê-los. E me dá uma grande náusea quando leio tudo aquilo que fiz de 2002 até há alguns meses. Me sinto um otário. Nem avalio a qualidade do que foi feito, se é bom ou ruim, isso realmente não me importa. Penso no sentimento, exclusivamente nisso. Cacete, como eu amava. Agora só consigo enxergar a garota que amava na cama com outro sujeito. Só isso me vem à mente. Nada mais. Nem corno posso me sentir, talvez até seria melhor, mas ela sequer está comigo. Não é só a gente que morre. Outras coisas vão se desfazendo primeiro. Os sentimentos também. Agora que ela está com outro, pra mim, com total honestidade, não consigo mais amá-la. E acho que nunca mais vou conseguir. Sou assim. Ao lado da mulher que amo sou capaz de tudo e de toda espécie de fantasia. Não há limites, inclusive transar com ela e mais um cara, ou outro casal, e que se foda. Pra mim não há limites para o tesão e fantasia quando se curte uma mulher de verdade. Com a mulher que amo, sou capaz de todo tipo de putaria que ela topar. Agora, a partir do momento que a mulher que amei começa a sair com outro homem, me colocando totalmente de lado, aí é o fim. Sei lá como explicar isso. Não a amo mais. E uma força impressionante me move agora para outra direção. Porém há uma ferida atroz, deixada bem aberta, infeccionada, pusilânime e fedorenta. Parece que vivo amando a pessoa errada. Nem sei mais como amar. Preciso antes conseguir rabiscar um poema. Sair dessa porra de galho de árvore, pois, como peixe, se não me jantarem, vou apodrecer.

Eu sempre me considerei um romântico meio boboca. Desses que escreve poemas, manda flores, compra presente, gosta de ver a cara de felicidade da pessoa amada. E digo meio boboca porque a gente invariavelmente sofre com isso e se fode com o tempo. Tentei ser um promiscuo, me esforcei para tanto, e até que poderia me dar muito bem. Como sou vaidoso ao extremo, do tipo que fica preocupado com uns quilos a mais, procuro estar bem fisicamente. Se não bonito, pois beleza é algo tão pessoal, e aqueles airosos mais unânimes em se tratando de preferências femininas, via de regra, são poucos e, ainda por cima, nem todos são assim, digamos, tão homens, me sinto dentro de um aceitável padrão estético. Nem feio nem bonito. Nem jovem, nem velho. Nem gordo, nem magro. Nem muito bom, tampouco demasiadamente ruim. E o cacete, na ausência de uma referência cientificamente assegurada com relação às dimensões, me arrisco a dizer que meu pau se posiciona dentro do padrão mediano. Por isso a promiscuidade flerta comigo o tempo todo. Se estivesse desprovido de minha ainda anacrônica encanação com relação à melancólica indumentária do pinto talvez estaria mais inserido no fantástico mundo da putaria. Nada, entretanto, que o tempo não cuide de mudar com alguma facilidade até. Porém, como deixo por conta do tempo, quiçá do destino, prefiro respirar um pouco e achar, talvez sonhar seria o termo mais apropriado, que ainda hei de beijá-la. E lá, em Paris, ela me paga o jantar. Mas não vou levar camisinha.    

       



Escrito por Mauro Cassane às 14h10
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