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Odioso absinto e uma foto com o azul do mar desfocado...lembranças ao lixo
Acordei com uma tremenda ressaca. Todo mundo já passou por isso, e é uma droga. Saltei diversas vezes da cama, em desespero, minha boca parecia um Saara de tão ressecada. Engoli jarras de água. Tinha vontade de me afogar. Deveria ter ficado apenas no vinho, mas fui entrar na onda de uma cadela viciada em absinto. Que bebida odiosa, escrota e ruim pra caralho. O que a gente não faz por uma trepada. Estava puto da vida, já andava há tempos de humor estragado, azedo, e a gente nessas condições só consegue mesmo piorar. Tinha acabado de descobrir que a mulher que tanto amei, agora namora. Um filme alucinado, veloz, com todas as imagens onde eu a beijava, viajávamos e tudo mais, passou em minha mente em desesperadas frações de segundo. Cenas rápidas, não tive tempo nem de curti-las, passavam em ordem cronológica, mas incrivelmente instantâneas. Beijo, lágrimas, abraços, noites, jantares, cafés da manhã, cavalgadas, acampamentos, vinho. Tudo zunindo em minha mente, e meu coração se desmanchando, sentia os vermes diabólicos arrancando os pedados todos e cagando tudo isso dentro de mim. O que para mim eram sagradas lembranças, se tornou, naquele momento, apenas um canto fúnebre odioso e melancólico. Não havia o que fazer naquela maldita noite, a não ser morrer um pouco, então sai para beber sozinho no bar mais barato. Nem dinheiro tinha. Nessas horas é bom beber em bar de amigo, a gente enche a cara e pendura tudo. Odeio drama, odeio me sentir mal e beber para fazer esta estupidez atroz de afogar as mágoas. Mas essa é a porra da vida. Todos passam por isso. Por isso que antigamente chamavam dores de amor de fossa. Era isso, a gente fica na merda mesmo. Se bem que, não sei explicar ao certo, senti muita dor e, bebendo, não só pelos efeitos do álcool, mas por outros mais misteriosos, me deu um certo alívio naquele momento. Fiquei sozinho no balcão, com meu vinho, isolado num canto, e sem saber onde botar os olhos, apenas me mantive apreciando o rótulo. Ninguém fica sozinho por muito tempo. Chegou a tal moça com seu copo imenso e decorado transbordando absinto. Amiga de meu amigo que era o dono do bar. E o filho da puta provocou a situação. Botou ela ali do meu lado e disse: “fiquem os dois babacas fodidos de amor aí, assim vocês não estragam o astral do bar”. Ela me contou na hora. Tinha tomado um pé na bunda do namorado. Eu ri. Ela ficou com cara de puta da vida. Mas depois rio também. “Eles sempre isolam os chatos românticos neste canto”, disse pra ela. “Qual a sua história?”, ela disparou isso contra mim, eis a pergunta irrespondível. Detestável aliás. Mudei de assunto, perguntei da bebida dela, meu vinho já estava no final. Ela insistiu, disse para eu não desviar o assunto, pois queria saber. Eu fui peremptório. Não quero falar. “Você é chato mesmo”, ela sentenciou com um olhar de reprovação. Eu me calei, tomei meu último gole. E ela ali, não saiu do meu lado, nem sentou. Ficou plantada, dando pequenas bicadas naquela porra de bebida nojenta, e com sua cara de arrependida cadela abandonada. Era realmente bonita a danada. E um corpo gostoso. Tesuda para ser mais claro na descrição. Com um pouco de experiência é bem fácil reparar pela roupa e saber se a mulher é ou não gostosa.
Ela me ofereceu aquele líquido. E bebi. Depois de uma garrafa de bom vinho, e na iminência de uma boa foda com aquela criatura abandonada, aceitei a contragosto. No dia anterior eu não faria aquilo. Estava há quase um ano sem ninguém. E sempre esperançoso de ter meu amor de volta. Mas ela estava agora namorando, e provavelmente saudosa de seu novo amor e tudo mais. Devia agora dormir com ele, nua e linda, mas com outro homem. Não fiquei com ódio dela, deu uma puta raiva absurda de mim mesmo. Como pude ser tão idiota a ponto de amá-la e esperar por ela? Eis minha pergunta sem resposta. Me restava encher a cara, como um porco desgraçado, e iniciar um novo processo promíscuo em minha vida. Ali estava então, bem na minha frente, como um marco reluzente desse novo início, a primeira de uma série de garotas que eu transaria furtivamente. Mais uma vez, e agora retornando, o bom e velho tesão sem qualquer vínculos emocionais mais sérios. Sem porra nenhuma. Apenas corpos desejosos e, via de regra, alcoolizados. Estava amargo demais, triste também, mas procurei me conter. A gente precisa se controlar no caos, senão somos tragados e triturados. A moça também sabia o que fazia. Não era tola. Tinha seus 27 anos. Me contou detalhes do relacionamento que nem me interessavam. Estava magoada com o sujeito que, por diversas vezes, a tinha corneado. Era músico e viajava muito. Bem, foda-se. Nem me interessou. Ficou ali, não sei por quanto tempo, mas creio que por uma hora. Falou um monte. Minha paciência para essas coisas é curta demais. Sou um pouco grosso. E soltei meu verbo mais sujo. “Olha, estou um pouco bêbado, com sono e vontade de transar com você. Pronto. Só queria fazer esse aparte. Agora pode continuar sua conversa chata”. Ela estancou. Ficou com uma cara de estúpida. Ou fez cara de um certo espanto. Como se ela também não estivesse louca pra foder comigo. E ela me devolveu a pérola mais óbvia do mundo: “você é sempre assim tão direto?”. Pensei, “acho que devo beijá-la”, e era o que eu deveria ter feito, mas sempre faço tudo da pior forma. E então pequei pelo excesso de álcool que sempre nos torna perigosamente francos. “Quando quero apenas dar uma trepada e pronto sou assim mesmo”. A cara dela ficou transtornada. Minha noite de sexo miou ali. Seu semblante se comprimiu, cerrou os dentes. Eu olhei um pouco para o outro lado, já tinha noção da merda que havia acabado de dizer. Como ela era excessivamente previsível, e talvez via muita novela e filmes imbecis, agiu conforme manda a regra básica quando um homem diz uma grosseria a uma mulher. Me deu um tabefe, mas eu estava agitado demais, então pegou de raspão e ela, já bem alterada de bêbada, com a força imposta ao braço, acabou por desabar de lado em cima de mim e derramar o resto do segundo copo de absinto na gente. Ela ficou na pior, molhou-se bem mais. Eu a segurei com carinho e respeito. Pedi desculpa. Não havia muita gente ali naquele canto dos desesperados. “Tudo bem, mas agora pode me pagar mais uma dose, você derrubou a minha”. Mentira. O copo dela estava quase no final. Que safada. Pedi outra dose. Ela jogou charme no barman que foi generoso e encheu o copo até a boca. Bebemos aquela porcaria juntos. Gole a gole. Mas não falamos muito. Era melhor assim. Demos um beijo. Foi bom. Ela estava excitada. Se esfregava em mim. Larguei meu carro no estacionamento do bar e fomos a pé, pela Paulista, até o apartamento dela. Uma espelunca de um kitnet vagabundo e sujo, atrás do prédio da Gazeta. Sob uma estante de grossa madeira, fotos dela e uma, em especial, bem linda, ela deitada numa grande pedra e, ao fundo, desfocado, o tênue azul do mar. Transamos rapidamente ali mesmo, ela apoiada na estante, apenas dois animais alucinados pelo cio. Havia uma tatuagem linda, um ramalhete, bem nas costas dela. Nos arrastamos até a cama e peguei no sono. Mas acordei a noite toda, a cada hora, para beber água. Algo nela me lembrava uma pessoa especial. Mas logo me desvencilhei de tudo isso. Abri a porta e fui embora sem me despedir e ainda com uma puta sede dos infernos. Odeio absinto.
Escrito por Mauro Cassane às 11h06
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Baseado em cinza e azul
Conheci July e Lisa. July é do Rio, Lisa, de Belém. Ambas lindas, sensuais. Adoráveis. July é mais louca, Lisa tem a boca mais linda que já vi. E aquela carinha sapeca de Giulia Gam. Sabe, a Giulia? Acho que é com G. Não sei ao certo. Puta merda, eu era apaixonado por essa moça quando ela trabalhava com Antunes Filho e fazia a peça macunaíma. Ela ficava pelada no palco, não dizia porra alguma, e fica ali, nua, linda, tesuda. Lisa é assim, toda gostosa, um corpo liso, sedoso e desejoso. Linda a Lisa. A beijei em Belém, que nunca nem fui. E transei com ela perto do rio, que não me molhei. July me pediu um cigarro, mas a danada nem fuma. Pediu pra chamar minha atenção débil. Eu não gosto de escrever drogado. Então falei essa tolice pra July e passeamos por ruas ensebadas do Catete, merda escorre por umas lâminas de agua negra e uns ratos brincam na calçada. Os carros todos enfiados na passagem, entopem-se de carros ali, não se passa e os ratos fecham as saídas. Nos fodemos. Há ratos grandes e pequenos. Bípedes ratos que nos perseguem. Prefiro Belém. Pru caralho o Rio. O que tem em Belém? Sempre quis mesmo ir pra lá. Lisa, alô, Lisa? Atende essa porra de fone, cacete! Se a beijo novamente ela elouquece. Nunca ame uma jornalista, vocês devem se manter na mais urânica distância. Minhas jactâncias. Estúpidas lembranças também. Me sinto um sapo que acabei de enrabar um principe. Filho da puta. E ela namora agora. Odeio garotas que namoram. Por que eu não namoro então? Eu não sei namorar! Devo, então, por conta disso, e horror a tudo, matar todos os namorados deste planeta? Que delírio. Vou tentar dormir. Há três noites não durmo direito. Posso estar morto então. Sim, pois só os mortos não dormem. Por que ela tem um namorado? Lisa, responda. Você nunca responde. Tem celular pra quê? July está calada. O Rio é tão sorumbático. É tudo meio ocre por lá. Não sei, prefiro o cinza esverdeado de Sampa. Mas Belém não, é uma terra azul turquesa. Preciso ir pra lá. Vou parando pelas cidades mais alucinadas desse mapão brasileiro. Fico uns dias numa, outros em outra. E prometo tentar transar com todas as mulheres gostosas que encontrar pelo caminho. Vou perguntar para todas "quer transar comigo?". Deve funcionar, estatisticamente se eu perguntar para umas cem, pelo menos quinze por cento aceita. Então, numa viagem de vinte dias, como quinze tesudas. Simples pra caralho. Ou melhor, simples para o caralho. Lisa? É você? Mas sua voz tá tão rouca. O que houve? O que? Mas com ele? Pora, Lisa, até você? E é sério? Namoro mesmo? Puta merda. Tá bom. Bem, seja feliz. Fique bem. Desligo. Não ligo mais pra ela. Vagabunda. Onde estão esses namorados, cacete! Como a gente fica assim? July, fala comigo vai. Por favor. Me perdoa! Eu adoro o Rio. Estava brincando. Porra, cidade maravilhosa, mina. Eu curto. Tem praia e tudo mais. Sampa é uma merda. É fedorenta e porca. Nem praia tem. July, vai, fala comigo. Ah, foda-se. Vou fumar mais uma ponta na Augusta.
Escrito por Mauro Cassane às 20h29
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Noite de autógrafos, tiros e pétala brancas mortas
Poderia ter sido uma noite de sexo com meu amor. Ou, então, na ausência disso, que por ora me parece tão impossível quanto ganhar sozinha na loteria, não me queixaria se minha sonolência e quase dormência muscular fosse resultado de uma orgia descarada com as mais sórdidas putas da cidade. Na completa falta de amor, que é o que nos move, nos dá um pouco de lirismo nessa vida tão crua, cheia de odores encarniçados, creio que temos que desabar de vez para o submundo do sexo mais primitivo, sem as regras, desprovido de qualquer sentimento que não seja o puro e simples prazer pela putaria mesmo. Mas não, nada disso, quem dera isso fosse, o que me ocorreu foi mais uma noite miserável de sobressaltos entre gritos intermitentes e disparos ensurdecedores, depois sirene, gritaria de novo, corre-corre, choro e o caralho. Zona Leste total. A essência da periferia nos bate à porta ou invade as frestas de nossas venezianas, com sua miséria ordinária, suas entranhas podres, e nos tira o sono apenas para nos dizer “hei, imbecil, não fique tão tranqüilo, somos vizinhos, lembre sempre disso”. Procuro ficar deitado, apenas descansar, pensar em outras coisas. Tudo isso parece roteiro de quinta categoria. Sem criatividade. É sempre igual na perifa. A ordem é exatamente essa: bate-boca, gritos, correria, chutes em portas ou portões, choro, palavrões de grosso calibre e ai vem tiros ou lâminas voadoras. Uns gritos mais histéricos decretam a iminente tragédia. Depois uns instantes de silêncio sacro, alguns sussurros, outro grito surpreso – normalmente feminino, pois a fulana avistou a mais recente vítima – daí seguem os passos apressados, conversas nervosas e, quando parece que tudo está calmo, enfim, a sirene. Eles mesmo. A polícia. É quase o fim. Rola meia hora de explicações e sobem uns seres calados no camburão. O pneu canta no asfalto. Conto cinco minutos de resmungações, então a sagrada calma que deveria brindar a todos humanos que tentam dormir volta a reinar. Tudo isso, com raras exceções, demanda-se de três a quatro horas. Sempre ocorre na madrugada. Normalmente começa a uma hora e se estende até as quatro. No dia seguinte todos às calçadas, nervosamente falantes em seus portões, e as mais estapafúrdias narrativas do ocorrido. Mas eu perco o sono, não consigo mais dormir, fico com o corpo cansado e não prego mais o olho. O melhor a fazer, no meu caso, é sair e caminhar nas primeiras horas da manhã. Há manchas de sangue escuro pelo chão, buracos de bala em algumas grades de portão, mas às sete horas todos dormem feito anjos, alguns jardins lançam um perfume bucólico de interior, os cães estão exaustos com a noite atribulada e apenas alguns bem-te-vis saltitam e sopram seu canto monótono. Sigo meu caminho não exatamente para me exercitar, odeio até mesmo pensar nisso, principalmente depois de uma noite sem conseguir dormir sequer por alguns minutos, busco, isso sim, um pouco de paz. E só consigo isso me movendo, suando, respirando fundo, e pensando em quase nada, pois a gente sempre pensa em alguma coisa. Raramente em algo bom, não sei, ando pensando demasiadamente em tolices. Um homem pode viver sem seu próprio pinto? Ah, deixa isso pra lá. Quase sempre um velhinho bem mirrado, com uma cara drasticamente chupada, com sua roupa de atleta, camiseta regata, calção e tênis, passa por mim correndo, e me lança um “alô” abanando as mãos. Sorri o tempo todo. Corre sorrindo. Nunca vi nada igual. Passa pelos becos e os vagabundos o cumprimentam com escancarada troça, e ele sorri, acena, e segue no ritmo acelerado. Creio que ninguém, tampouco eu, o conheça. Não fala com as pessoas, apenas ri, corre e acena. Acho que vai morrer assim. Mas é divertido. Ele passa uma certa alegria por todas as ruas carcomidas, diante das pessoas triste, passa como um anjo veloz e saltitante lançando seu sorriso cansado, mas franco, aberto, espontâneo. Sim, anjos nem devem mesmo ter asas, isso é criação babaca de algum idiota. Como se anjo fosse um galináceo. Os anjos estão aí, com seus contagiantes sorrisos, feito bobos da corte, a nos dar um pouco de poesia na vida. É muito bom ver esse velhinho hoje em dia, mais ainda quando estou assim, puto da vida. As primeiras vezes que o vi tive uma louca vontade de chutá-lo. Me irritava aquele sorriso ininterrupto naquela face velha e desbotada, frágil demais, quase morta. Parecia deboche. Nem sabia que era ele um anjo. Agora que sei, tudo bem. Na verdade acho que todos ali sabem, mas nada dizem. Nem sempre acreditamos em anjos, especialmente diante de tanta pobreza e ruína moral.
Escrito por Mauro Cassane às 15h32
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continua...
Andei à toa por hora e meia, um pouco mais. O cemitério estava tristemente vazio. Apenas seus habitantes decompostos e recentemente postos em seus buracos avermelhados e alguns cães vadios e ossudos buscavam restos de macumba para se alimentar. Sempre há os coveiros, mas não os vi. Quanto menos humano, melhor, mas a tristeza parece grassar no vazio, flutuar mais livre e indecente e nos tornamos mais vulneráveis a ela. O vento é desordenado no cemitério, sopra feito um tonto por todos os lados. Tudo ali se balança muito, as árvores se mexem como dançarinas débeis e há velhas pétalas voando por todo lado. Os cheiros desagradáveis, mistura de merda, carniça e terra podre, nos confundem. Dou a volta, sigo pela alameda monstruosamente decrépita, sem calçadas, com terra e lama no meio do asfalto, e velas e coroas de flores pelo chão. O fim do mundo de cada um está ali, naquela liturgia toda. Gosto de me sentir um intruso nesse universo caótico, um mero explorador, alheio ao fim de cada um, e observando com algum sarcasmo mórbido essas mazelas humanas. Então passo pelas grandes chaminés do crematório. E a louca fumaça brancas sai apressada, há um terrível cheiro de pêlo queimado. Lembro de algo que nunca vi, o holocausto. Sei lá, o cheiro devia ser o mesmo. Sento um pouco numa pilha de blocos de cimento que serão usados para fazer caixas fúnebres para se depositar restos mortais. Acendo uma ponta miúda, uma bituquinha apenas, mas carbura forte, tem um pedaço generoso de erva ainda bem viva ali. O cheiro da maconha expulsa, num ato heróico, pelo menos ao meu redor, aquele odor triste de gente torrada. Deveria ter um taça de vinho. Mas não se caminha com vinho. Nunca vi isso. A fumaça da grande chaminé é translúcida, mas ágil, segue frenética para o céu. Vão com ela os espíritos? Ah, que se foda. Depois de uns tragos lembro de uma certa manhã melancólica quando Kika passou por mim sem me dizer bom dia e saiu e me ignorou. Nunca soube ao certo porque caralho ela agiu assim. As poucas mulheres que por minha vida passaram sempre me entristeceram demasiadamente.
Me deu preguiça. E um pouco de sono. Uma vontade incontrolável de me encostar um pouco naqueles blocos duros e tirar um cochilo. Eu e Vince nos entupimos de vinho ontem. Fomos ao lançamento de um livro do mais badalado escritor cubano da atualidade. Um cara bacana. Uma porrada de gente ali, se apinhando para ficar com o melhor lugar e muita mulher. Elas o adoram. Comprei um exemplar, mas fiquei com vergonha de pedir dedicatória e autógrafo. Coisa meio besta isso. Mas como era para dar de presente a uma amiga apaixonada pelo autor, então pedi para namorada do Vince entrar na fila para pegar a porra do autógrafo na página inicial do livro. Antes disso, fizeram um monte de perguntas idiotas pro cara. E me senti um pouco constrangido de estar ali, ainda que completamente incógnito, diante de tanta bobagem. Imagino como deve ser a paciência de artistas que topam esse lance de encarar seu público e responder as tais curiosidades. Uma mulher falou tanta merda lá, sobre Cuba, o governo e o caralho que não entendi nada. Nem sei o que tudo o que falaram tem a ver com o que o cara escreve. Na verdade, pensando bem, era um diálogo de loucos. Ou eu que estava louco. Havia duas garotas lindas e sensuais, e seus olhos não tiravam o escritor latino de foco. Cara de sorte. O resto, tudo mesmo, grandes, gordas e velhas barangas. Nesse mundinho cultural parece que só tem gente feia, e as belas, com seus óculos retangulares de grossa armação negra, sempre estão ao lado de seus cabeludos envernizados com suas roupas cuidadosamente desarrumadas. Ou, então, são apaixonadas por seus ídolos. Fico imaginando roqueiro como Bon Jovi que pode simplesmente escolher a dedo a garota que estiver afins, inclusive a nossa. Odeio ter inveja de caras assim. Fiquei pensando em meu amor ali. Por que porra sempre penso nela? Todos os dias busco o esquecimento, mas antes dessa busca estúpida e ineficiente, vem a lembrança viva, doce e voraz que me consome as entranhas. Antes de embrulhar para presente, abri o livro aleatoriamente, sempre faço isso, e li um trecho. Descrevia uma mulher, sua bunda bem formada, seios delicados e um cheiro de fruta. Fechei imediatamente. Ainda bem que vou dar. Não consegui pegar no sono, os blocos são duros demais, e agora um intenso fedor de tutano frito toma conta de tudo, mas fiquei com tesão. Preciso urgente de um banho quente, minhas mãos e um sabonete. “Dancing with myself”. Hoje eu transo com ela em diversos lugares e posições. Tudo em apenas alguns minutos.
Escrito por Mauro Cassane às 15h31
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Fantasmagóricas fumaças encantadas e um rosto de pêssego idílico
A noite fria, com chuva e vento, essas coisas todas, não tem jeito, preciso de vinho. Não faço gênero subterrâneo, daqueles que bebem qualquer merda com álcool para ficar louco. Não suporto bebidas vagabundas. Meu estômago é fraco. Sou meio fresco também. Gosto de vinho bom, encorpado, pode ser frutado ou madeirado, mas de boa estirpe, decentemente confeccionado. Ah, sim, custa mais caro. Mas que se foda. Eis o meu prazer. Pago por ele. Um monte de gente gasta os tubos por outros prazeres que vão das jogatinas aos entorpecentes. Eu fico com os vinhos e, via de regra, para não ser tão insociável, como não sei fumar cigarros, ainda que a fumaça me agrade, dou minhas pitadas em coisas mais caseiras, lamentavelmente ilegais. Comprei também um narguilé, realmente não sei como se escreve essa porra, mas é aquele treco árabe em que se fuma e a fumaça passa por um recipiente com água. Isso é bom. Como gosto da fumaça, e não do cigarro, o tal aparelho me permite curtir especialmente a tal poluição cheirosa dos fumos dos muçulmanos. Nada é tão fantasmagórico como uma fumaça. Negra, cinza, translúcida, tênue, ela flutua, formando figuras incríveis, e sai vagando pelo espaço. Quando garoto, mesmo engajado na luta contra os contumazes poluidores industriais, pois .pensei até em fazer parte de alguma ong, gostava de ver esses fantasmas todos flutuando por Cubatão sempre que ia para o litoral. Aquelas imensas chaminés incontroláveis, assustadoras, vingativas até, e soltando aqueles soberbos monstros iluminados no ar. Curtia ter aquela visão de fim de mundo. A morte sendo soprada para o céu, como se o inferno fosse fazer uma visita ao paraíso. Admiro quem fuma, parecem mais felizes, soltam suas mágoas todas junto com a fumaça. Tragam a morte e expelem um pouco da suavidade da alma. Dizem que dá câncer, mas todo prazer pode, de alguma maneira, nos ceifar a vida.
Então bebi com um amigo duas garrafas de bom vinho, fumamos, ficamos loucos, rimos e à alta noite, perdemos os assuntos todos. Fui dormir e tive dois sonhos. No primeiro eu voava em fuga alucinada. No segundo estava ali, sentado num banco de praça, tudo muito deserto, uma manhã fria e mal iluminada, e me apareceu aquela garota santa, agasalhada, meio trêmula, sentou-se ao meu lado, fez um muxoxo indescritível e ficou ali, quieta. Nada diz, sempre foi assim, mas se encosta em mim, e eu ali, tudo normal diante da insólita aparição, ela me beija. Simples assim. Em sonho bêbado é tudo muito fácil. Até voar. Acordei cedo demais, dormi poucas horas, e a gente se sente cansado. Fui fotografar uns caminhões, perambulo um pouco por um terminal de cargas imundo, confuso, com pessoas tristes à espreita, favelas por todo lado. Frio intenso na manhã paulistana, nos arrabaldes barulhentos, as estradas violentas, carros zunindo apressados, tensos. Ainda é muito cedo e já sonhei com meu corpo voando sem nenhuma asa, beijei minha amada e fotografei um carregamento de eletrônicos. O mundo não pára nunca. Tenho vontade de ouvir aquela voz meio rouca, meio adocicada, que me perturba e encanta. Sinto saudade de seu cheiro de laranja, da sua pele que me enche de desejo. Das massagens que nela fazia. Nunca entendo porque diabos tenho tanto tesão assim por uma criatura tão distante. Porcaria, é carinho também. Pior ainda, mesmo lutando contra, tentando dissociar sentimentos, esconder aquela sensação terrível e lúgubre de afeto, eu a amo. Puta que pariu. Que merda!
Mas vou esconder tudo isso, enfiar tudo dentro de mim, socar esses sentimentos todos como um migrante que espreme suas tralhas dentro da rota mala e sai por aí antes mesmo de definir sua trajetória. Acho que todos neste mundo, dos sábios aos tolos, loucos e lúcidos, passam grande parte da vida perdidos. Uma dessas perdidas, noutro dia, sentou ao meu lado no metrô. Mascava chiclete de forma odiosa, devia ter seus vinte e poucos anos, tinha um aspecto jovial, quase tolo na face, mas uma simetria pura, traços suaves que me lembravam um rosto que por tanto tempo me detive em carinhos. Um rosto de pêssego, com suas pelugens douradas, tênues, quase invisíveis e suas covinhas adornando tudo aquilo. Não era ela, pois jamais mascaria tão estupidamente um chiclete. Não sei fazer isso, me sinto mal, mas puxei assunto. A desculpa foi perguntar se ela sabia o tempo de viagem da estação tal, onde estávamos, até outra que vi no mapa logo acima da porta. Dei sorte. Era lá que ela descia, então me respondeu sorrindo, “uns quinze minutos” e eu, meio automático, sem pensar, disse “que bom”. Acho que ela foi com minha cara. “Por que você achou bom?”. Bem, ela queria papo comigo. E não importa mais. Conversamos sobre amenidades, besteiras e sua voz era terrível e aguda como uma cigarra à beira da morte. Mas o rosto era perfeito, a boca suculenta e o resto, mesmo sob pesadas vestes, me parecia também em boas formas. Como todo macho prestei pouca atenção no assunto e fiquei imaginando aquela formosa donzela nua, sedenta por mim, e de quatro numa larga cama de motel. E os quinze minutos de sonho se passaram como se fossem segundos. Chegou a estação dela. E descemos juntos. Não era a minha. Mas desci. Já estava farto dela. Sua voz me irritava e seu caminhar era indecente, meio torto, um tanto vulgar. Nos despedimos depois da catraca. Ela foi para um lado, eu optei para o outro. Nada de telefone, não pedi nada. Nunca mais vou vê-la. Ainda bem.
Escrito por Mauro Cassane às 10h32
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Poeiras vermelhas até o grande e negro rio, quiça Panama
Conhecer o Brasil de ônibus. Um on the road diferente, ora em ônibus capenga, outra em luxuosos duplex leito. A gente escreve sobre a viagem e fotografa o caminho e a cidade. Saio de São Paulo e percorremos de dez a trinta horas de estrada e batemos em algum lugar ao Norte, ou Sul, ou Centro-Oeste e, lógico, Nordeste. Eu e Vince, sempre com boas provisões de erva na bagagem. Estivemos na inusitada cidade de Aparecida do Taboado, porta de entrada de Mato Grosso do Sul, uma cidade que lembra um pouco aqueles velhos filmes de bang bang. Chegamos e a notícia na boca do povo era a morte, à bala, de um professor gay por um filho da puta que se aproveitava da grana dele. A melhor coisa para se informar, em lugares assim, é ir à mais tradicional barbearia. Fui lá para fazer a barba, e raspar as penugens que me restam na cabeça. Antes fumamos, andamos pelas alamedas vermelhas e empoeiradas, demos uma volta pela praça, tomamos umas cervejas e ali estava ela, tímida, clássica, com seu banquinho na calçada, um velhinho conversando, e aquela majestosa cadeira à espera de uma boa prosa sob reluzente lâmina afiada. A barbearia de Aparecida, na regência, Seu Atílio, sessenta e seis anos de idade, quarenta e dois deles ali mesmo, naquele exíguo espaço, desbastando cabelos e pêlos dos caboclos. Forasteiro é bem tratado, mesmo os mais desengonçados, como eu, e seu Atílio me untou a cabeça com água de cheiro, passou a máquina e viajamos numa infindável conversa que me deu uma geral, com ampla base política, de quem é quem nesse povoado banhado pelo Rio Paraná. O tal professor homossexual morreu covardemente, como sempre as pessoas normalmente morrem. O assassino foi preso. E o morto deixou um legado a um amigo: uma coleção de discos de vinil com “centenas de porcarias”, isso nas palavras de seu Atílio. A gente é curioso, a cidade é microscópica e nem precisamos muito para descobrir quem era o tal amigo. Ele mesmo passou na barbearia vinte minutos depois. O acervo deixado pelo gay era de nada menos que quatrocentos discos de vinil, todos semi-novos, e um caderno ensebado com todas as obras catalogadas. Ali estava de Vicente Celestino, Carmem Miranda à coleção completa de Bob Dylan, Little Milton, Ray Charles, Elvis Presley, Led Zeppelin, The Doors, Pink Floyd e mais uma porrada de gente de grande vulto do jazz, blues, rock, bossa e até gospel. Nada de sertanejo, nada de pagode, e alguns clássicos do samba de raiz. Vi só o catálogo. Nem acreditei. Mas Hamilton, o herdeiro, fez questão de mostrar o tesouro. E pra lá fomos, e lá envergamos algumas latas de cerveja local, um pouco adocicada, mas tragável e bem gelada, e vimos e ouvimos o que, provavelmente, poucos museus de discos das metrópoles dispõem em seus requintados acervos. Lá mesmo, no meio do velho oeste brasileiro.
Escrito por Mauro Cassane às 14h47
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continua...
Entre doces, mergulhos no velho Paranazão, e passeios de barcos por praias fluviais, nos largamos em Aparecida do Taboado por três dias. Dormimos na casa de Dona Nair, a personalidade mais famosa dali. Não por seus dotes físicos, tampouco por seus bens materiais, era apenas uma senhora mirradinha, com mais de sessenta anos, e de uma humildade de madre Teresa, mas com um dom divino: uma exímia fazedora de doces. Em suas panelas de ferro, qualquer simples fruta vira delicadas especiarias. Engordamos ali, e sua filha adotiva, uma morena meio índia, linda, com seus cabelos negros e olhar ameaçadoramente sensual, e um corpo firme, bustos e pernas rígidas, nos levou a todos os lugares. Tinha sempre um cheiro bom, de banho rústico, e num misterioso silêncio, dissimulando seus desejos em uma timidez meio caipira, me tocava as mãos toda vez que queria me contar alguns causos ou apenas para perguntar sobre São Paulo. Nunca fora à cidade. Uma linda mulher. Demasiadamente atraente, eu diria. A gente se sente atraído, se sente tocado, brinca com os desejos e instintos, mas há uma trava em mim, cruel até, penso ser totalmente insensata, porém não deixa de ser uma trava. Sinto desejo, mas não me vem a vontade. Ou se vem a vontade, perco o entusiasmo. Puta que o pariu. Percorro quilômetros, atravesso fronteiras, e segue em meu encalço, feito uma sombra sombria, colante e indesejável, esse sentimento atroz que me tolhe até mesmo os mais elementares libidos humanos. Idiossincrasias do amor, esse velho e rabugento sentimento poderoso, que nos mantém estupidamente fiel até mesmo àquilo que sequer existe.
Próxima parada. O portal do Nordeste. Trancoso, a terra sagrada da putaria. Fui lá há mais de uma década. Era um canto meio hippie antigamente. Agora rola maconha e garotas afins de uma boa noite de sexo. Mas tem essa porra de ritmo baiano que nem gosto. E são quase todas colegiais meio precoces, essas ninfinhas de merda, com suas virgindades recentemente abandonadas em transas mais parecidas com uma masturbação mútua. Não me agrada. Sou chato, eu sei, mas não me atrai mesmo garotinhas metidas a mulher. Mal sabem chupar um pau. E ainda têm dificuldade de limpar a própria bunda. Como ando mesmo sistematicamente travado, sexualmente carente, acho que não me fará qualquer diferença que porra de garota vou encontrar por lá. Estou zen. Fosse me enfiar em um mosteiro sairia certamente sob orações e louvores se, naturalmente, ficasse de boca bem fechada. Mas dizem que não se come bem nesses lugares, nem vinho rola. A gente pode se privar de sexo, mas não de vinho. Falo isso, esse lance de ficar sem sexo numa boa, e me assusto. Justo eu que ficava trêmulo, com surtos de profunda ira, se passasse mais de dois dias sem trepar. Não esfriei, nem nada, apenas mergulhei na cova do amor. Cova? Bem, acho que é isso mesmo. Ou túmulo, sei lá. Meio dramático isso. Tentemos apenas apagar a luz, jogar um pouco de pó de cal, ou profanar tudo isso e deixar esse sentimento apodrecer no ostracismo de nossas lembranças. Enquanto não somos amados pelo ser que amamos, o melhor a fazer seria trepar com todos os outros corpos solícitos a nós. Isso sim seria bom. Ah, que morena linda aquela. Miseravelmente ainda não consigo.
Mas vou para Belém em breve. Não faço a menor idéia de quantos dias de viagem. Nunca estive em Belém. Já fui a Manaus e outras cidadezinhas amazônicas, mas Belém não. Tem a festa do Círio de Nazaré e o tal mercado para ver o peso. Coisas loucas. E tudo ali, perto do gigantesco rio Amazonas. Uma vez mergulhei nessas águas negras, onde ele tem o nome de rio Negro, e me deu um puta medo. Mais de cem metros de profundidade, não se vê a outra margem, e parecia um imenso tanque de coca cola. Deve ter monstros ali que te devoram os culhões. Quem sabe, então, depois de Belém, percorro a Venezuela e subo mais, para a América Central, passo por Panamá, visito o faraônico canal e compre lá um chapéu e alguns charutos. De repente, por lá, por ser terras de tão pequenas proporções, espremida por dois soturnos oceanos, eu encontre alguém que procuro há tanto tempo. A gente, que tanto espera, sempre está em busca de algo, de alguém, ou daquilo que possa nos fazer plenamente feliz. Nunca esqueço da placa do sítio paradisíaco do velho homem na ilha em Aparecida, “aqui vive um homem quase feliz”. Isso ficou na minha cabeça. Por isso é bom meter o pé na estrada. Viajar pra caralho. Grande escola a vida. Podemos, nas andanças, até eleger o melhor lugar do mundo para se viver. Muito embora, com um grande amor ao lado, não reclamaria nem mesmo se fosse inquilino do diabo.
Escrito por Mauro Cassane às 14h46
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Pântanos negros e alguns labirintos
Um fim de semana escroto. Me sinto um intruso onde vivo, e busco refugo nas letras e nos afagos de meus filhos. O amor é algo bom, seja ele qual for. Não tenho o amor que queria, de uma mulher, mas conto com o carinho inesgotável de meus filhos. Talvez eu nem mereça tanto amor, vindo deles, mas são eles hoje que me concedem a graça de me sentir um pouco mais humano. Na verdade, por ora, acho que sou um intruso no mundo. Um estrangeiro em meu país. Não consigo me comunicar, e não entendo nada que me dizem. Cada fez estranho mais os lugares que por muito tempo foram a mim tão familiares. Sempre me perdi pelos caminhos, mas invariavelmente me encontrava. Hoje fico perdido por um tempo absurdo. Por isso prefiro andar a pé, ao menos curto os labirintos que a mim se apresentam a todo momento. Tento conversar com uma pessoa especial, mas não falo a língua dela. Tampouco ela me entende. Não sei que porra de idioma falo. Deve ser uma espécie de esperanto de trás pra frente. Algo meio diabólico. Julgo que sou propenso a me enveredar pelo caminho do absurdo, do improvável e do inviável. Amar quem não me ama, tentar o que não vou conseguir e lutar por causas absolutamente perdidas. Busco um meio de fugir de tanta sordidez, de escapar, mas a vida parece sempre tão simples diante dos néscios, que invariavelmente me engano e me largo na corrente suja de esgoto que escorre pelas sarjetas. Vou seguindo feito um barquinho de lata de sardinha desgovernado num rio de merda. Sem rumo, nem nada, e com um desagradável odor de podre em tudo que me circunda.
Tomei uns tragos de vinho no domingo à tarde, fiquei sozinho devorando “O Velho e o Mar”, do Hemingway. Que puta livro. Eis algo que gostaria de ter escrito. Me vi ali, como aquele pescador decrépito, cheio de cãibras, buscando sua derradeira vitória na vida, diante de um oponente ostensivamente superior, visivelmente mais forte, mas a gente nunca desiste. Vai sempre em frente, com fé ou não em nossa vitória, seguimos adiante. Embora muitas vezes com nossa covardia como força motriz. Somos, sem dúvida, sempre covardes. Os maiores heróis foram, claro, uns grandes covardes dissimulados. Um amigo me chama ao fone. Odeio atender o celular, pois nunca é quem eu gostaria. Fazia mais de um ano que eu não o via. E então, mesmo a contragosto, assenti uma saída para uns tragos em algum boteco, “para colocar o papo em dia”, como ele argumentou prodigiosamente para me convencer. Que porra é essa de colocar papo em dia. Não havia papo algum. Me contou de sua vida, do casamento, da firma, da casa, dos amigos, de churrasco e o caralho. E creio que isso foi colocar o tal papo em dia. Daí não tinha mais o que dizer, e perguntou de mim. Eu apenas disse, “estou bem”. A gente sempre diz isso quando está mal. Pois quando, nós, os contumazes orgulhosos idiotas, estamos mal, não desejamos contar a ninguém, tampouco suportamos conselhos ou afagos. Vão a puta que pariu. Sim, eu sei, sou rabugento e me sinto terrivelmente amargo, feito fel atritado em carne decomposta. Cacete, que nojo. Depois de colocar a porra do papo em ordem, e com o sol derrubado no horizonte, nuvens grossas e cheiro úmido de grama e fumaça dos pneus torrados nas favelas, nos despedimos e ele me ofereceu carona. Inventei uma desculpa qualquer, não me recordo, para andar um pouco pelo bairro decadente da periferia da Zona Leste. Me perder pelas ruas vizinhas. Sentir aquele cheiro gorduroso de fim de domingo. Nos arrabaldes esquecidos da metrópole sempre há um caminho inédito e estranho a pegar. Acho ótimo isso. Fui caminhando, ventava forte, e me entretive observando os quintais miúdos das casas da periferia. Aquela gente toda reunida, com suas cervejas, alguns sentados na calçada, outros já desmaiados, seus cachorros doentes e magros em volta, suas gordas mulheres correndo atrás das crianças chorando e descalças. A tevê ligada no último volume, e as casas todas ali, capengas e suas paredes descascadas, apenas envergonhadas em abrigar essa gente. Nada podem fazer, inanimadas que são, a não ser permanecer com suas bocas abertas, para engoli-los diante da noite ou das chuvas e vomitá-los todos no calor insuportável e enervante. Subitamente, sob efeito de vinho e erva, me deu tesão. Liguei para Cindy, uma garota jovem e bela, com lábios tão macios e carnudos que parecem até modelados por Vênus, uma autêntica ninfa, daquelas que sempre desejam o puro sexo. Sensual, de pele macia, e esbanjando languidez. Deixei tocar duas vezes, e me arrependi. Desisti. Da última vez ela me convidou para sair. E ela é um tesão. Eu a acho um tesão. Mas não me atrai. Porra, fico puto com isso. Odeio não sentir atração por garotas assim, tão gostosas.
Penso sempre no meu amor, vejo uma garota assim, seus peitos, aquele balanço sensual, e penso no ser mais inatingível do planeta. Parece até proposital, que gosto de me ferir. Mas não consigo me abstrair desses pensamentos. E sei que, se ter uma dessas lindas garotas em meus braços, ainda que possuído com tamanho ardor de paixão, ou inebriado de desejo sexual, será única e simplesmente aquilo: beijar, abraçar, apertar e ejacular. Tudo tão mecânico quanto catraca de metrô. Sei muito bem que é exatamente o que um homem precisa. Disso mesmo, coisas com pouca vida, puramente automatizadas. Simples, a vida aparentemente é bem trivial. Mas eu me perco pelos caminhos mais simples, sempre fui assim. Quando garoto me perdia toda vez que saia para ir até a escola, isso porque nunca fiz o mesmo caminho. Mudava sempre. Perdia a hora. Faltava. Repetia de ano por conta disso. Tenho medo de fazer o mesmo trajeto sempre. Me assusta as coisas mais simples, vejo uma monstruosa complexidade nelas. Então busco o grotesco, o sujo, o confuso, vou pelo lamaçal, me enfio nos cipoais e entro de peito aberto, e sorridente até, nos mais obscuros labirintos. E não é para me foder, não sou assim nada masoquista, não me agrada a dor, ainda que a tenha como inseparável companheira, vejo apenas muita crueldade escondida na simplicidade da vida. Para mim, o caminho mais óbvio, o mais comum e aparentemente seguro, é aquele que vai levar a todos inexoravelmente a uma máquina de triturar humanos. Não quero ver minha alma moída, destroçada, humilhada. Preciso dela, mesmo ferida, ou abandonada, mas preciso dela para seguir por esses caminhos com pouca luz. O tesão, está ali, na reta pavimentada e correta, mas o amor verdadeiro, aquele que sempre quis, não há meios, preciso me enfiar pelos negros e pastosos pântanos, com suas frias sombras, para senti-lo novamente, seu frescor e beleza vital. Somos todos covardes, mas já é um ato heróico, ao menos, reconhecer isso.
Escrito por Mauro Cassane às 13h05
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