Cores Humanas


Chagas avermelhadas numa cara desesperada

Puta que o pariu. Ouvi isso logo cedo, na rua, proferido por uma mulher com uma cara tão triste e deformada, gritando para si mesma, irada, descontrolada, numa expressão angustiante. Senti pena dela. As pessoas passam, ignoram, ninguém quer saber, é insuportável o sofrimento alheio, chega mesmo a nos incomodar, e damos a volta. Ali estava ela, esbravejando consigo mesma, cabelos bem cuidados, loiros e penteados, mas a cara era lamentável demais. Não havia, entretanto, naquela face, traços grotescos, nem falta de simetria, não fosse sua pele cruelmente esfolada exibindo feridas imensas, avermelhadas, como se alguém tivesse lixado aquele rosto com intensa crueldade. Era uma ex-bela mulher. Diminui o passo, fui apenas tomar um chocolate no bar, e voltava para o trabalho. O desabafo espontâneo dela me fez imediatamente olhá-la. Depois segui meu curso, mas não me contive, tive que olhar de novo aquela trágica expressão. Pensei até em chegar perto, ampará-la um pouco, mas isso certamente me custaria alguns bofetes na cara. Ou uma boa sessão de xingamentos. Ela estava odiando a tudo naquela hora. Sua cara era dramática demais para qualquer aproximação. A única coisa que me ocorreu, e isso acho que com alguma dose de certeza, era que toda aquela chaga fora culpa de sua própria vaidade. Provavelmente quis ficar mais bonita, na certa havia sido abandonada por um cara, um marido ou noivo, sei lá, e procurou, como a maioria das mulheres, resgatar sua beleza, sua auto-estima. Mas deve ter escolhido mal o tratamento ou o profissional. Cagaram na cara dela. Além de sozinha, ficara horrenda, assustadoramente feia. Não sei as razões de suas deliberadas bravatas, mas por suas vestes, de elegante estampa, não deveria ser ela uma doida varrida nem tampouco uma vagabunda de rua envergada pelos excessos etílicos. Estava ali, com sua dor, se culpando, xingando-se, por seus equívocos cometidos em face a um desespero angustiante para sentir ligeiramente melhor. A vida e suas lições, suas cobaias, e seus instrumentos humanos. Somos sempre manejados, feito marionetes, por algo que não sabemos. Somos, nós mesmo, o quadro negro, o giz e os alunos.

Segui pela calçada, não olhei mais para trás. Nossas lições são dadas assim mesmo, peripatéticas, pelas ruas, a qualquer hora. Muitas vezes, para não perambular à toa como notívago estúpido, pensei em fazer algum curso. Sei lá. Aprender algo. Ocupar meu tempo com alguma coisa realmente útil. Mas não me animo com nada. Gosto de vinho. Pensei em estudar enologia. Vi uns panfletos de lugares que ministram aulas sobre como degustar ou escolher um bom vinho. Ah, foda-se isso. Que saco. Ficar lá com um monte de frescos cheirando a mofo, engomados e o caralho, pra tomar umas doses. Compro meu vinho e bebo. Deixei isso pra lá. Depois me deu vontade de estudar cinema. Gosto de cinema, sempre curti, sou meio cinéfilo. Fui atrás. Há coisas interessantes em Sampa para quem quer conhecer cinema, aprender a sétima arte e tudo mais. Fui a um lugar legal, bem no central velho, perto da Estação da Luz. Um casarão vitoriano, antigo pra burro, com seus corredores largos, pé direito alto e aquela arquitetura clássica, cheia de rococó. Isso me encantou. Mas havia ali uma fauna incrível daqueles seres bizarros, sexualidade indefinida, com suas caras toscas, seus cabelos ou ausência deles, tudo cuidadosamente desleixado. Suas roupas soltas, jeans velho, tênis sujo. Pareciam mesmo uniformizados. Todos iguais. Ah, sempre, claro, com livros sob os braços magros. Fui percorrendo com os olhos todas aquelas caras. Eram jovens, adultos e velhos. Mas todos com o mesmo tipo, monótonas faces intelectuais. Conversavam, discutiam, em suas rodinhas encantadas, e se respirava cinema por todo canto. Se orgulhavam disso. Ah, que se foda também. Me deu asco daquela frescura toda. Prefiro os botecos ensebados da periferia, com seus bêbados falando merda. Isso, pra mim, era cinema puro. A vida é uma puta escola das boas, a gente aprende mais sendo vagabundo do que buscando aprender algo em escolas formais. Mas eu tirei meu diploma, sim, tenho um. De jornalista. Num curso insano, de apenas três anos, onde mais fodi e fumei maconha, e me alcoolizei, do que freqüentei as aulas. Aprendi mais nos corredores do decadente prédio da Gazeta, com os velhos e loucos mestres, principalmente os poetas, como Péricles, poeta maior, que nas salas de aula. Odiava a aula de ética, porque nunca houve ética nessa porra de mundo. Mas amava filosofia, pois é um estudo profundo e sagaz do esgoto humano.

Então, permaneço um vagabundo da noite que perambula por alguns bares. Vez por outra me aventuro no meio das ruelas das favelas, e vejo aqueles seres ímpares, com suas bolsas forradas de porcarias que nos alucinam. Ou simplesmente me ausento em um canto solitário e fico ali, batucando as teclas do meu computador. A gente sempre cria algo para não ser devorado pelas criaturas. Vamos criando fantasmas e mais fantasmas e jogamos tudo nesse mundo. Que engulam os outros. Muitos amigos, executivos medalhados, com seus gordos salários, estudam pra caralho e fazem essas porras de pós-graduação, cursos de extensão e esse tal de MBA cuja sigla, em inglês, só diz merda mesmo. Poderia significar, talvez, “mais um babaca autônomo”. Ou, quem sabe, “monte de bosta aglutinada”. Os caras colecionam diplomas assim, mas vão ficando cada vez mais cego para os ensinamentos simples, ainda que muitas vezes cruéis, da vida. Jovens imberbes, que há pouco mijavam nas calças, ostentam cargos fodidos em grandes corporações. O resultado disso, não sei ao certo, quem sou eu para saber, não vai ser muito bom a longo prazo. Mas esses garotos estão com os bolsos cheios de grana, se drogam com o que há de mais na moda nas baladas mais burguesas, e trepam com as melhores e mais deliciosas ninfas. Com certeza passariam bem longe da pobre dama com sua cara esfacelada. Virariam a cara com nojo e desdém. Mas somos mesmo, todos nós, movidos pela vaidade. E um dia ela nos arranca a pele.   

Escrito por Mauro Cassane às 11h09
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Travesseiros, cachecol azul e um homem quase feliz

Feriado com chuva, quase primavera e, enfim, o melancólico frio. Dia da Independência do Brasil. Não vi nada. Acordei tarde, me tranquei no quarto, li o conto “Na Colônia Penal”, de Kafka, e me detive nas escritas perdidas, saboreando um vinho frutado. É bom isso. Raras vezes temos essa situação sorumbática de clima. Fiquei assim por longas horas. Bem tranqüilo. Depois sai para caminhar um pouco pelas ruas apáticas da periferia. Nada a fazer. Tudo fechado. Avistei um amigo de infância na porta do bar. Pensei em passar lá. Mas resolvi parar, olhar para o céu, disfarçar, e voltar para meu canto e me manter assim submerso no silêncio. Há amigos que gosto de encontrar, outros, no entanto, prefiro evitar.  Me deu vontade de escrever uma história macabra para crianças. E fui em frente. O personagem chama-se Tenébria. E é um sujeito bem filho da puta que fica à espreita, sempre sob as sombras das grandes árvores dos parques, e seu soberbo prazer é pregar sustos nas crianças. Nada além disso. Nada demais, parece um retardado, e todos são complacentes com ele. As crianças até curtem. Mas ele tem um lado negro, como todo mundo, e ao cair da madrugada, Tenébria sai à caça, pois adora sangue e carne humana. Não de crianças, gosta mesmo de devorar bichos papões. E nesse leque entram os tarados e alguns ladrõezinhos, espécimes que grassam por todos os cantos do subúrbio. Escrevi muito até o cair da noite. Preciso mostrar pra minha filha, só ela pode me dizer se devo ou não prosseguir com essa história grotesca.

Depois, vi um filme idiota e fui me encontrar com minha insônia. Muitas vezes tenho sono, mas nem sempre consigo dormir. Durante a madrugada meus pensamentos são frenéticos demais. Meu corpo está ali, letárgico, mas minha mente ferve e fico criando coisas tontas como se estivesse escrevendo. Passam poemas, cartas, contos. Normalmente cartas para meu amor. Nunca escritas, nunca enviadas, apenas ali, implicantes, atormentando minhas idéias. Durmo numa cama imensa, daria para quatro pessoas, e fico ali sozinho. Minha inseparável parceira de cama são dois travesseiros que curto abraçá-los com a perna e o braço. Uma mania meio estúpida, eu sei, mas é uma forma de simular um carinho que, efetivamente, não tenho, não desfruto e não sei se um dia hei de ter. Eu gostava, sempre gostei, de transar todos os dias. Hoje sequer me lembro da última vez. Casei por amor, fiquei anos casado e me separei por um motivo simples: não transava tanto quanto eu queria. O amor e seus paradoxos. Sexualmente somos todos pervertidos e, se não isso, certamente temos algo de santo. Muitas garotas dizem que tenho cara de safado. O fato é que sou isso mesmo. Com uma diferença que me desfavorece. Talvez seja até uma doença. Ou mesmo algo que não combina mais com os novos tempos. Desvio de conduta? Não sei ao certo. Nem entendo porque porra só me apetece, hoje em dia, transar por amor. Virei um babaca. Isso eu devo admitir. Queria mesmo ser um puto, há bons putos por aí, curtem pra cacete, e eu aqui, recém-solteiro, e um imbecil. Uma vez uma garota me disse: “não seja tão dramático”. É verdade. Bom conselho. Eu sou muito dramático. Intenso demais quando eu deveria ser simplesmente vazio como quase todas as relações humanas. O que percebo é que, quanto mais intenso, mais na beira no abismo ficamos.

Queria substituir os travesseiros por alguém que pudesse conversar comigo. Sinto falta disso. Daqueles papos despretensiosos, de viagens a dois, de acampamentos, fogueiras, cavalgadas, de alguém na garupa da minha moto, de meu fone tocar e do outro lado ela me dizer “to com saudade”. Ou simplesmente emitir um doce grunhido do tipo “hummmm”. Penso nela e me vem em mente a cor azul de seu cachecol confeccionado a mão. Cores são desprovidas de vida, mas cheias de sentimentos, sabor e emoção. Fazer comida juntos e ficar bêbados juntos era um ritual divino, mas no café da manha, ou até mesmo se tivesse que sair no meio da madrugada, nada como um carinho com a mão naquela face de pêssego, indecentemente macia. Andando por esses caminhos brasileiros, visitei um velho homem, numa ilha fluvial, e havia um placa bem na entrada de seu sítio, ou pedaço natural de um paraíso: “aqui mora um homem quase feliz”. Eu não precisava perguntar, mas perguntei o porquê destes dizeres na placa. Eu já sabia o que ele diria. E foi exatamente o que me disse. Faltava-lhe, claro, um grande amor. Havia tudo, beleza, fartura, liberdade, boa bebida, boa comida. Só não tinha o que mais queria: o amor de uma mulher especial. Sim, havia uma. Mas não, e o velho homem por esse amor lutou a vida inteira, mas não a teve. Por isso mesmo, deixou claro, para todos que o visitassem, que ele não era assim, tão feliz, como os incautos pudessem supor ao se depararem com todo aquele sonho de lugar. Eu até pensei em lhe dizer que, pelo visto, melhor seria escrever, na placa, “eis um homem quase infeliz”. Seria certamente mais triste. Mas foi minha sensação. O homem pode ter tudo, mas sem amor é um pobre coitado. Há quem passe a vida inteira sem esse sentimento, há aqueles que, melhor ainda, conseguem ter grandes amores em qualquer lugar e a qualquer hora. Eu não fui agraciado com nenhum desses dois dons vitais. Sou demasiadamente humano. Gosto de amar e ser amado. Minha liberdade, tão profundamente desejada, só será plena quando meu coração estiver infalivelmente atado a alguém. Daí sim farei jus à minha fama de safado. Sou sim. Queria mesmo fazer tudo quanto é coisa errada ao lado dela. Essa noite meus dois travesseiros me aguardam. Mas, mais uma vez, não haverá sexo. Se ao menos eles falassem.



Escrito por Mauro Cassane às 11h52
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Olhos negros em verdes quase desbotados

Uma das coisas boas em São Paulo é ver a chuva densa se preparando para dar um bom banho no centrão. Dentro de um carro. É impressionante quando isso acontece lá pelo fim da tarde. Aquela tensão toda das pessoas querendo voltar do trabalho. Todo aquele estresse. E os prédios cinzas alheios a tudo parecem simplesmente moldar um mundo sinistro completamente à parte. Tudo meio fantasmagórico. Negro, cinza e prata. Nas ruas, rastros de vermelho e laranja, com as luzes cintilantes e piscantes se misturando com as latas coloridas e seus pneus negros. Os guardas se distanciam de tudo. A chuva começa a cair. Fico ali no carro, ouvindo qualquer porcaria no rádio, não penso em muita coisa. Lembro apenas de um texto que li uma vez, da mulher que amei e, de certa forma, ao ler aquela porra toda senti minha alma sendo escarrada no vaso sanitário. Muitas vezes esperamos demasiadamente alguém, nos concentramos nessa pessoa, a desejamos intensamente e, de repente, vem a frustração. Penso nisso meio bestamente, de maneira furtiva, com a chuva batucando na lataria de meu carro. É um ritmo meio bebop. Um aguaceiro alucinado que desce do céu acinzentado. Tudo parado, se arrastando tão lentamente que dá um certo desespero e angústia. Que se foda. Nem ligo. Não tenho mais tanta pressa. Mais tarde, pode ser uma ou duas horas, tomarei um bom vinho. Eu e minha alma. A sós. Minha alma virou uma puta alcoólatra. Mas é discreta e silenciosa. A mulher que amei me deu ela de volta há uns dias, com um tapa na cara e tudo. Aprendi que não se deve confiar a própria alma a uma mulher apenas movido por um amor desenfreado. Ela partiu e eu entreguei minha alma a ela, pedi para ela cuidar. E ela me devolveu lá de longe, deu uma bica tão forte que acho que veio toda rasgada essa condenada. Me estrepei. Tampouco devemos botar tanta fé em um amor. Muitas vezes o que te parece muito sólido é tão volátil quanto um arroto. O que parece bom é também excepcionalmente sórdido. Quantas merdas passam por nossas mentes enquanto a chuva limpa um pouco o ar cáustico desta cidade. É curioso como cai tanta água. Rapidamente verdadeiros córregos caudalosos se formam pelas sarjetas imundas e vão lavando tudo. Não sei onde caralho se enfiam os ratos durante as tempestades. Muitos transeuntes encharcados procuram desesperadamente por algum abrigo, e eu aqui no carro, confortável, ar-condicionado temperado, som ambiente, aconchegantemente seco. Não tenho nenhuma sensação de culpa por isso. Sou egoísta. Me sinto um rei esnobe assistindo ao caos no mais confortável camarote. Nos carros de luxo, com seus vidros covardemente escuros, os loucos irados pressionam a buzina. Seria bom se morressem todos pulverizados com um bom raio. A humanidade toda é assim. Uns se fodem, outros riem. Depois vira o jogo. Muda um pouco. Inverte as posições. No fim, todos se estrupiam da mesma forma.

Me senti miseravelmente fodido por um tempo imenso. Mais de um ano. Acreditei em demasia em um puta amor que, imaginava, seria eterno. Me entreguei a isso, me envolvi, me dediquei, cometi erros como qualquer mortal, mas fui em frente. Porra, lembro mesmo de tudo de bom que fazia em prol deste relacionamento. Não me valeu de nada. Porra nenhuma. Ela caga pra mim. Estendi a mão diversas vezes para ampará-la, mas quando precisei daquela mão só a vi me abanando com seu distante e debochado tchau. Me dei muito mal. A desgraçada frustração foi chegando em doses homeopáticas. Aos poucos. Como tortura chinesa. Se me lembro, ainda agora, me custa acreditar, pois era muito bom enquanto estávamos juntos. Tudo parecia tão verdadeiro e puro. Eu poderia, e até deveria, cair na esbórnia nesse meu doce abandono. Mas sinto profundamente que ainda vou viver uma puta história louca de amor. Só que, desta vez, será mais durável e também não serei tão idiota.

O trânsito parece seguir com mais humanidade agora. Os carros se movem. As buzinas ruidosas se comportam de maneira um pouco mais civilizada. Os nervos tensos dos motoristas relaxam gradativamente. São assassinos ainda assim, porém mais condescendentes. A chuva é de verão num final de inverno que ninguém nem viu. Aqui é sempre assim. Tudo meio pervertido. Abro um pouco o vidro. O cheiro de asfalto úmido é um tesão. Os pneus chiam no piche, as águas brilham esvoaçantes. Esse som líquido me remete a algo especial. Penso na beleza pura e plástica de uma cabocla que conheci. Que mulher linda. Certa vez, numa dessas raras oportunidades que o destino nos concede, pude ver de perto aqueles braços delgados, suavemente bronzeados, com seus pelinhos translúcidos, mínimos, curvados como adorno exótico sobre ume pele que, apenas visualmente, me parecia extremamente macia e perfeita. Que sensação incrível. Sua voz também era de seda, sempre de baixo tom, e suave cadência, meio rouca até, como uma diva de blues. Um olhar sensual que mistura ingenuidade e languidez. Uma genuína fêmea em todos os mais idílicos aspectos. Não tive nada com ela. Me movo ultimamente apenas por essas degustações sensoriais. Mas me pergunto sempre: como ela foi cruzar meu caminho? Como ficou tão próxima a mim? Li algo, num desses autores beat, acho que Kerouak, que há uma conspiração a nosso favor. Outros caras já disseram o mesmo. Tem essa coisa espírita e zen. A gente se fere aqui e há sempre um remédio por aí. O veneno e o antídoto. Tudo harmonicamente disposto. Fiquei ferido por muito tempo. Na verdade, mais tempo do que eu poderia suportar. Me causou marcas profundas. Mas vi aquela cabocla bem perto de mim. Ali, sensualmente perto, senti o perfume delicado e quase santo de sua pele. Ouvi sua voz serena por alguns parcos instantes. Eu me encontrava triste demais para dizer qualquer coisa. Mas ela cravou seus olhos negros e brilhantes nos meus quase opacos verdes desbotados. E se foi. Talvez nunca mais a encontre. O que me vale, apenas isso, é saber que nem tudo está perdido. Sempre há mesmo um remédio. A chuva agora vira apenas umas gotinhas tímidas. Engraçado, podemos mesmo aprender com tudo nessa vida. Mas quase nunca entendemos porra nenhuma.    



Escrito por Mauro Cassane às 18h48
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O denso verde das matas e algumas tristes lembranças

É importante manter a cabeça em ordem. O silêncio nos ajuda nessa empreitada. Aproveitei o domingo para pegar a moto, jogar na picape, e sair para os limítrofes da grande cidade cinza. É interessante, nos arrabaldes há muito e denso verde. Para o lado mais ao centro há a esmagadora predominância dos canaviais, com suas folhas afiadas, feito espadas felpudas. Campos infinitos com pequenas ondulações e cana até onde a vista alcança. Acho monótono demais, mas bom pra acelerar a moto. A gente salta a toda velocidade pelos barrancos, sente a adrenalina, mas o visual e cheiro de merda moída é terrível. Então me dirijo ao limite mais ao leste, um verdadeiro fim de cidade. Nada melhor. A Serra do Mar. Um grande paredão natural que separa Sampa do litoral. A impressão que dá é que é possível se atirar lá pra baixo e cair na praia estatelado. É um verde mais genuíno, floresta mesmo e protegida. Quer dizer, porcamente protegida pela lei. As favelas proliferam por ali. É uma degradação contínua, mas no abismo não dá pra colocar barracos. Então ali ainda há algo natural. Mas é bom pra fazer enduro de moto pelos caminhos tortos. Nada de competição, porra nenhuma, simplesmente pega-se uma boa trilha, segue o caminho feito por mulas ou bandidos que se escondem da polícia, e vai até onde dá percorrendo as picadas da serra. Não ouço nada, apenas acelero, e vejo tudo passando feito um filme rápido de terror na selva. Um vacilo e pluft. Chão. Lama. Há muito barro, morro liso, fendas enormes, algumas macumbas e a gente acelera fundo. É um tesão. Me sinto plenamente na solidção fazendo isso. Não vejo ninguém e vou em frente. É interessante. A gente tem frações de segundos para escolher um caminho entre pedras e troncos, e acelerar. Se errar, fodeu, rola um puta tombo. Se acertar, tanto melhor, seguimos em frente. Mas os percalços são constantes, e bifurcações, abismos, armadilhas. Tudo é imprevisível. Assim é a vida também. A gente acelera e segue em frente. Erramos, caímos, nos ferimos, e tocamos em frente. Não adianta querer ficar parado.

Na moto, trepidando entre um chão irregular, imagino a garota que amo na minha garupa. Ela ali, atada a mim, e a gente flutuando entre todas as imperfeições e obstáculos. E ela bem presa em mim, abraçada, com seus braços delicados e fortes, eu me sinto seguro dando a ela segurança. É bom sonhar assim, mas cada vez mais perco a fé no amor. Cada vez mais acho todo esse sentimento um paroxismo cruel da melancolia, um passo irreversível para a angustia e dor. Bom seria não amar. Talvez, com o tempo, e sob uma chuva incessante de frustrações, eu me torne mais e mais empedernido. Eis o retrato da maioria dos homens. Na verdade, dos seres humanos. Há uma desilusão muito grande em mim, e isso vai me extraindo toda fé que sempre tive nesse lance de amar. Estou cansado de sonhar, meus sonhos começam a pesar demais. Esgotado de amar também, pois só consigo me ferir com esse amor. Queria dar um foda-se grande a tudo isso. Mas como? Não sei como se faz. Muitas vezes penso que seria mais fácil dar um foda-se à própria vida. Não é exagero. Mas tampouco sou um suicida em potencial. Tenho vergonha de morrer. Acho feio demais. Sou vaidoso. Como é certo que todos vamos morrer, então é só aguardar. Não vale a pena se precipitar.



Escrito por Mauro Cassane às 11h30
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continua...

Depois que andamos por cinco horas com as motos, paramos num bar perto da represa. Ali o por do sol é incrível, impressiona, ele se debruça soberbo com suas chamas alaranjadas sobre aquele imenso espelho de água esverdeada e dá um show à parte. Mas nem era hora do sol dormir. Ficamos ali tomando cerveja, relaxando, nada pra pensar além de jogar conversa pro ar. Meu celular toca. Não era quem eu queria, claro que não. Nunca é quem a gente quer. Era Fernando. O grande puto. Ele sempre liga quando está com vontade de contar suas aventuras sexuais. Invariavelmente os homens são assim, gostam de contar aos amigos suas façanhas com as garotas. Que merda há de diferente comigo. Eu não curto contar nada disso. Ou, talvez, e acho que é isso mesmo, o problema é que normalmente transei com quem amei. E jamais contaria nada de meu amor a alguém. Sou um babaca por isso. Mas que se foda também. Ele está tão ansioso pra contar que me pergunta onde estou e em vinte minutos aparece por lá. “Cara, que bela foda. Estou amando de verdade agora”. É o que ele sempre diz. E sentou, comeu, tomou cerveja, e desfiou em minúcias ginecológicas seu encontro de sábado a tarde com sua mais recente amada. Mostrou fotos dela no motel. “Tem foto nua?”, perguntou um outro amigo. “Ah, cacete, isso não. Respeita. É minha mina”, ele responde com sua gravidade cínica de cafajeste escolado. Eu conheço o cara há incontáveis anos. É um falastrão de bom coração. Engana bem pra caralho. Sua afiada lábia é capaz até de convencer seus amigos mais incautos de que ele estava, de fato, amando a tal mocinha. Acho que ele, inclusive, de tão convincente, é capaz de convencer a si mesmo. Mas no fundo, confesso, tenho uma certa dose de inveja dele. Não porque ele sai com diversas garotas, isso nem requer tanta habilidade. Mas admiro sua maestria e total controle sobre seus sentimentos. Ou seja, desprezo por qualquer sentimento. O cara não sente porra nenhuma. Finge o tempo todo e as garotas se apaixonam por ele assim mesmo, deste jeito, fingido e tudo. Até a mulher dele, que vive com ele há anos, o ama com impressionante dedicação. E eu não consigo sequer transar direito movido apenas pelo tesão. Que merda de homem que sou? Gosto de transar por amor. Coisa mais estúpida, não? Acho realmente piegas demais.

Sinto a fragrância dela, e a observo mesmo não a vendo. Gosto simplesmente de imaginar aquele jeito maroto de caminhar, e sei que ela está com outro homem. Isso é tão doloroso. Meu egoísmo incurável me diz: “como pode essa garota, feita exclusivamente pra ti, estar com outro?”. Mas não é bem egoísmo isso, é essa porra de amor. Quando a gente ama temos a compleição de achar que o ser amado só serve pra gente e vice-versa. Aquela frase tola “feitos um para o outro”. Amor é foda. Escrever sobre isso é terrível pois todas as frases são comuns demais. Tudo lugar-comum. “Alma Gêmea”, “cara metade”. Mas quando a gente ama e é amado queremos bem é cagar pra todos os conceitos. Pouco importa se é lugar-comum ou chavão, é bom pra caralho amar. Não como o Fernando, que só pensa em trepar. Neste aspecto cometo a heresia de achar que, muitas vezes, me dou melhor com uma portentosa punheta. Queria ser mais safado, tenho cara, fala e trejeito de puto. Mas sou um miserável, piegas e eterno apaixonado. Por fim esperei o sol dar seu cotidiano espetáculo na lagoa. Minha solene indiferença sobre os assuntos mundanos e repetitivos de Fernando o fez dar mais atenção aos outros tarados ali presentes. Aproveitei para me ausentar um pouco espiritualmente e mergulhei mais uma vez nas lindas recordações que guardo comigo. Queria jogá-las todas fora, pois me ferem mais que me dão prazer. Mas ainda prefiro esse singular e miúdo prazer, por isso não me importo muito por ora em encarar a dor que é, por assim dizer, o preço que pago. A gente não escolhe amar. Somos sempre escolhidos. Que merda.   

 

 

 

 

 

 



Escrito por Mauro Cassane às 11h29
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