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Sombras e um vinho branco sedutor
Almocei com uma amiga que conheço há 15 anos. Tive um romance com ela quando era muito jovem. Acho que com vinte e poucos anos. Na época ela tinha dezoito. Nunca faço contas direito. Faz um tempão. Isso eu sei. Ela é deslumbrante, linda e esbanja sensualidade. Incrível. É uma das poucas mulheres que conheço que os anos passantes só fizeram bem a ela. Agora, além de sua beleza, com trinta e poucos anos perdeu um pouco daquele pudor carola do caralho. Ficou mais safada. Quando a gente saia ela tinha medo até de me beijar com mais tesão. Claro, dizendo assim, nem preciso comentar que ficamos um ano juntos e não houve sexo. Apenas aquelas agarrações frenéticas e angustiantes que me deixavam com o pau dolorido. Ficamos cinco anos sem se ver. Ela casou, agora tem uma filha muito bonita e um marido muito correto. Fez bem. Tivesse casado comigo não teria sido feliz. Eu demorei muito tempo para amadurecer. Fui canalha por um longo período. Analisando bem a situação, acho que fui mesmo muito infantil. Não sei, mas creio que todo homem seja mesmo levemente retardado. As mulheres estão uma década bem na nossa frente. Hoje me sinto plenamente preparado para acompanhar o raciocínio lógico e maduro de uma garota de vinte anos. Mas ainda encontro grandes dificuldade para compreender as vicissitudes intrincadas de mulheres com mais de trinta. Que crueldade. As grandes mulheres são quase inatingíveis para nós, pobre homens buscando loucamente a maturidade. Por um bom período, longo demais até, somos unicamente um cacete duro com um corpo musculoso se deslocando atrás delas. E se fodendo, pois não conseguimos nos comunicar. Muitas vezes, por mera complacência delas, e uma elevada dose de paciência, conseguimos até conquistá-las. Talvez, pensando bem, pesa aí a completa falta de opção. Por isso é bom ter quarenta anos. Me sinto quase pronto.
Algumas vezes releio coisas que escrevi há duas décadas. Me assusto até. Eu não publicaria nem a pau. Mas já me disseram que é muito melhor do que as merdas que escrevo hoje em dia. Não sei. Nem quero avaliar. Para mim escrever é como pintar um quadro. Eu gostaria de saber pintar. Mas só consigo escrever. Quanto mais melancólico fico, mais e mais escrevo. Misturo os elementos todos, e eu mesmo me confundo com o que é real e ficcional. O que faz um pintor quando começa a pincelar uma tela branca? Cria uma imagem impressionista ou surreal, não importa. Mas é uma imagem. Assim tento fazer com as palavras. Cada palavra é como uma pincelada. A gente forma um quadro. A vida é composta por boas e más histórias. Eis aí a matéria-prima latente e vibrante para se fazer música, teatro, escultura, pintura e literatura. Editei um livro chamado “Tão Longe, Tão Perto”. Fiz uma tiragem ridícula. E está muito bom. Nunca tive qualquer intenção de viver disso. Fiz o livro inspirado em um grande amor. Além disso, pra ser bem franco, tenho um pouco de cisma quando lêem o que escrevo. É um tremendo e absurdo paradoxo. Então por que diabos escrevo? E ainda coloco num espaço na internet? A explicação é bem simples. Para poucos, apenas para poucos lerem. Me sinto melhor assim. A maioria dos caras que escrevem, normalmente escritores mesmo, gostam de publicar suas obras e, mesmo se fazendo de tímidos, adoram holofotes neles ou na criação. Prefiro o subterrâneo. A sombra. Sempre tive medo de muita gente.
Tomamos um vinho branco francês. Muito bom. Levemente frutado, um sabor marcante e instigante. Adoro os adjetivos que dão aos vinhos. Tesão mesmo. Ela me contou que manteve um amante por oito anos. Puta merda, com aquele corpo, peito lindo, um cabelo negro e liso, uma pele alva e macia. Na hora fiquei imaginando o cara transando com ela. Me excita isso. Fiquei perguntando detalhes. E ela ralhou comigo. Mas eu curto essas coisas. Me dá um puta tesão. Perguntei se o cara comia ela de quatro. Nossa. Ela ficou furiosa. Me chamou de moleque. “A gente não se vê há quatro anos e você me vem com essas perguntas de merda e infantis?”. Porra, somos retardados mesmo. Só não entendi porque cacete ela me falou do tal cara que ela mantinha como amante por tanto tempo. Eu nem perguntei. E quando pergunto dos pormenores, que aí sim me interessam, ela só faltou me esbofetear. Bem, almoçamos, falamos amenidades, e secamos a garrafa de vinho. À medida que sua taça era preenchidas, ela ia ficando corada. E cada vez com mais calor, mesmo sob forte ar-condicionado. Soltou um botão da camisa e seus peitos rijos pareciam me espiar. Fiquei com tesão. Uma vontade louca de saber como o cara comia ela. Caralho, mas a gente tem que se comportar sempre como cavalheiros. Vai à merda toda essa educação e essa sociabilidade. Não sei, me pareceu, apenas uma idéia, que ela estava se insinuando pra mim. Tocou minha mão e dividiu uma salada de frutas comigo. Parecíamos um casal ideal. Estava com meu livro entre outros livros antigos que comprei no sebo. Ela quis ver. Pediu um pra ela. Não dei, pois não sou escritor com uma porrada de exemplares para ofertar de brinde aos amigos. Mas mostrei aquele que estava comigo. Ela leu umas coisas. E foi ficando puta da vida. Fechou a cara comigo. Me pediu para emprestar o livro pra ela. Emprestei. Fomos embora e a deixei no metrô. Ficou seca comigo de repente. Ainda não me devolveu o livro. Me ligou apenas para dizer que se sente mal com cada linha que lê. Perguntei se o estilo estava legal. E ela me mandou à merda. De qualquer forma, ela continua linda. Um tesão de mulher.
Escrito por Mauro Cassane às 19h23
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A escuridão e duas estrelas sorridentes
Voltando de viagem, na estrada, o carro zunindo e eu curtindo o visual, cento e vinte por hora e um bom som. Nada para pensar, apenas alguns flashes esparsos de lembranças de uma garota que amo. Mas cada vez mais ela se distancia de mim. Ela e suas viagens. Há um outro homem ao lado dela, deve ser mesmo um bom homem. Nas primeiras horas da noite azulada avisto duas estrelas brilhantes despontando um pouco acima do horizonte. Havia passado o dia no interior entrevistando granjeiros. Antes de ir embora bebemos e conversamos amigavelmente. Não sabia, mas esses caras que vendem hortaliças aos feirantes são uns beberrões. E daqueles bem divertidos. O celular toca. Era Fernando. Uma ligação ruim, falhada, e ele eufórico e ansioso, meio ofegante até. “Cara, vamos fazer uma orgia com duas minas hoje”. Caralho, essa era realmente a última idéia que me passaria em mente neste fim de dia de uma quinta-feira. Mas com esse cara tudo era possível. Aliás, pra ser sincero, apenas essas coisas eram passíveis de acontecer quando ele me ligava. Bem, deveria, mas não me animei muito. Estava em frangalhos, com sono e meio alto com algumas cervejas. Queria mesmo era um bom banho tranqüilizante e dormir. Não via a hora de chegar na cidade e parar o carro na garagem e me atirar no sofá. Entretanto minha resposta foi a de um macho viril. “Oras, uma sacanagem sempre é bom. Mas me conta. Que tá rolando?”. Ele me explicou o que eu já meio que tinha sacado. Ele estava saindo com uma garotinha nova, uma adolescente pervertida de uns 19 anos e vivia indo com essa garota em casas de swing. Então, nesta noite, a garota resolveu realizar uma fantasia dele e convenceu outra amiga para, juntos, fazerem uma putariazinha. Mas ele, mais pulha ainda, disse que chamaria um amigo. E então, bom samaritano que é, lembrou de mim. Eu nunca tinha visto nenhuma das duas. Não lembrava direito, mas havia uma foto que ele me mandou de uma moça uma vez. Seminua. Acho que era essa fulana. E era bem bonita. Uma cara um pouco tristonha mas um corpo bem correto, com seus contornos sensuais e gostoso de ver. Bunda, peito e cintura no devido lugar e nas proporções exatas de garota que chama a atenção por onde passa. O padrão pode variar, mas mulher gostosa é gostosa em qualquer lugar do mundo. São aquelas em que quase tudo está em cima e ostentam uma poética simetria corporal. Eu diria que Vinícios de Morais perderia alguns segundos mirando aquela bundinha. Entretanto Fernando não tinha lá muitos critérios. Gostava mesmo de putanhar. Como ele mesmo costuma dizer, “nada como uma boa foda”. A outra nem ele tinha idéia se era ou não interessante. E então me convidou. Havia um bom tempo que eu não transava, e mesmo cansado, embora sem muito interesse, topei a parada. Ele fez uma série de recomendações. Nem prestei muita atenção. Nunca acreditei muito nele. Mas éramos amigos. A gente não precisa crer nos amigos. Ficou combinado que ele me ligaria em uma hora. Era o tempo de eu chegar em São Paulo, tomar um banho e me aprontar.
Continuei a viagem, a estrada limpa e o cd tocando uma seleção de clássicos do Elvis. Me arrepia até a bunda. Cada canção. “Maybe I gonna miss you”. Ouço essa, nem sei se esse é o título, mas é certamente a letra. Ouço essa canção na voz aveludada do Elvis e penso nos encantos da garota que tanto amei. Puta que pariu. A estrada está vazia, a escuridão agora é total, o carro desliza. Me esqueço de tudo. Só penso nela. Fico sonhando com coisas absurdas. Eu bem que poderia estar retornando e ela lá, toda linda, com aquele jeitinho delicioso, com aquele sorriso sapeca, e seus dentes parecendo de leite, me esperando. Pularia em meu pescoço, eu a esmagaria em meu peito, ergueria ela do chão, e a beijaria com instinto meio animal. Eu a desejava sempre assim. Não precisava muito, bastava tocar sua pele macia. A estrada segue silenciosa, com suas bordas negras e velozes raios luminosos do meu lado esquerdo. As estrelas agora pipocam aos milhares. Todas ali, apavoradas, competindo entre si para ver quem brilha mais. Gosto de vê-las. Tudo me lembra aquele mocinha arredia com seu olhar brilhante. Um autêntico diamante que não pude lapidar.
Escrito por Mauro Cassane às 15h59
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continua...
Entretido com a música, a estrada e minhas lembranças, esqueci do que acertei com Fernando. Antes de ir direto para meu apartamento, passei no bar de um amigo da faculdade. Um excelente fotógrafo. Um bar freqüentado por jornalistas, perto da avenida Paulista. Bebemos lá umas duas cervejas. Ele me contou os planos para uma viagem ao Irã. Faria uma exposição fotográfica sobre as mulheres iranianas. Acho legal isso. Também gosto de fotografar rostos, semblantes humanos e seus traços profundos. Mas não iria tão longe. Não sei, sou meio burro nisso, mas minha convicção é que os humanos são tediosamente iguais em qualquer lugar do mundo. Por isso gosto de me enfiar pelas florestas. No meio do mato. Gosto de fazer trilha de moto para me enfiar bem no meio da mata. Por outro lado, sou urbano. São Paulo é minha terra, meu recanto, minha zona e minha sepultura. Gosto de andar por aí, mas me sinto apenas turista quando estou por aí. Tem gente que se sente em casa em qualquer lugar. Eu só me sinto em casa em Sampa. Nos outros lugares, sou um mero forasteiro espectador. Na verdade, no íntimo mesmo, todo mundo é provinciano. O mundo é dividido por milhares de pequenas aldeias. Forasteiros são bem vindos quando podem oferecer alguma coisa. Nada é de graça. Ninguém é assim tão bom, poucos são honestamente hospitaleiros. Há interesse podre em tudo. Depois, chega um tempo em que não se há muito a oferecer. Daí te mandam embora. Te jogam fora. Há pessoas que vivem como pássaros e curtem comer só as frutas, mas não querem nem saber de cultivar a árvore. Quando acabam as frutas de um pé, voam ao outro. E tocam a vida assim. Mas um dia as frutas desaparecem, ou as asas não têm mais forças. E é o fim. Muitas vezes um fim melancólico e prematuro. Pombas velhas morrem solitárias e abandonadas. Eu gosto de cultivar um bom pé de fruta, de adubar e aguar a terra. Gosto mesmo disso. Asas para voar todo mundo tem. Mas poucos se importam em cultivar seu próprio pé de fruta. Que se foda também. Fiquei menos de uma hora com meu amigo fotógrafo. Me lembrei do meu evento com Fernando quando ele me ligou me perguntando onde eu estava. Disse que estava pronto. E ele me disse “então vem pra cá, no motel Zurik. Traz vinho e vem logo”. Bem, não fui. Pensei no assunto por alguns minutos apenas, e resolvi não ir. Me deu uma nóia em me imaginar entrando num motel sozinho, procurando o quarto deles e entrando ali, com um vinho debaixo do braço. Fiz o que eu realmente estava afins: tomei o rumo do apartamento. E tomei um bom banho, comi alguma coisa e dormi pesado. Por fim, Fernando até que achou bom meu furo pois ele ficou perdidamente apaixonado pela amiga da sua amante. Mentiu pra ela como mente para todas. Ele tem o dom de dizer “eu te amo” sem amar. E é bem convincente. Consegue convencer, inclusive, a própria esposa.
Escrito por Mauro Cassane às 15h58
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Entre o translúcido e o vermelho
Há tempos não me flagrava chorando. É terrível isso. Odeio chorar, me sinto um tonto. Um fraco. Sei que é um preconceito machista de minha parte. Mas que se dane. Não consegui conter as lágrimas, fiquei com os olhos marejados e meus pensamentos vagavam feito alma penada por partículas envelhecidas, meio rasgadas, observando as películas de meus momentos. Penso tanto no futuro, mas minha melancolia reside no passado. Estava num bar, ouço músicas, presto atenção nos sons de todas as conversas, tudo muito confuso, não compreendo nada, e nem quero entender, apenas fico ouvindo os ruídos humanos para fazer uma trilha sonora fantasmagórica à minha tristeza repentina. Brinco com o rótulo da cerveja, e vou me ausentando, vou para longe de tudo aquilo e apenas o som confuso de todas as falas e músicas penetram em minha mente como mensagens criptografadas. Então eu a vejo de relance, como uma aparição, quase translúcida, bem ali, por pouco não estava diretamente na minha frente. Pensei até em abraçá-la, mas não posso. Meus olhos ardem, levanto, vou ao banheiro, tento mijar, não tenho vontade. Queria apenas arejar a cabeça, o coração e os pulmões. Volto. Ela está ali, na mesa, sorrindo com outra pessoa. Bem na minha mesa solitária. Alguém fala comigo, não entendo nada, tomo mais um gole mas fico com nojo da cerveja. Nojo de tudo. Vontade de chorar, mas não se chora num bar. Sou tímido. Não gosto de chamar a atenção. Ela continua lá. Seria bom se me amasse. O que o fogo faz com a lenha? Penso nisso sempre. É uma combinação tão perfeita. Nos aquece, nos dá alimento, é acolhedor e até romântico. Amo fogueira. Mas para o fogo existir, brilhante e quente, fumegante e confortável, a madeira precisa morrer.
Tenho vontade de conversar. Não um papo qualquer, queria sentar ao lado dela, beber um pouco, e ficar ali falando da vida, da morte ou de qualquer coisa. Às vezes tenho um ódio fulminante de meu próprio amor. Por que amamos a pessoa errada? Quando fico assim faço mais perguntas e normalmente não há respostas para nada. Queria estar numa cabana com ela. Perto do mar, perto de uma montanha, com caminhos pelas matas, e alguns cavalos pra gente correr sem direção. Uma vez fiz massagem naquelas costas suaves, com aquela pele doce e macia, e me senti flutuando num mar de fantasias pueris. Eu falava para ela meus sonhos, todos eles com ela silenciosa e terna ao meu lado. Ela imaginou um barco, e remava, e parava numa pequena ilha esquecida para apanhar alguns cocos. E eu me imiscui nas imagens que ela desenhava na sua imaginação para me inserir na história. Queria estar lá com ela. Mergulhar com ela no mar e ver todo o visual louco da vida marinha. Mas imediatamente depois ela virou pra mim e me disse que fez aquilo por pena de mim. Apenas me permitiu esse fugaz sonho para me deixar mais feliz. Pois ela não sentia nada por mim.
A franqueza é bom, uma boa qualidade. Não sei exatamente a realidade dos fatos que se sucedem atualmente em minha vida. Muitas vezes tenho pesadelos ao vivo, em cores opacas, e nem sequer estou dormindo. Muito embora, enquanto durmo, costumo apenas sonhar. Pesadelos eu os tenho acordado mesmo. Meus fantasmas habitam meu mundo real. Creio que se fazem de humanos. Levanto um pouco da mesa do bar. Mudo o caminho. Não vou ao banheiro. Saio para rua. Vou caminhar a pretexto de pegar meus documentos no carro. Três jovens estão ali, alucinados, suados e desesperados, tentando estacionar um carro pequeno. Acho interessante. São garotos recém entrando na vida. Um ao volante, suando em bicas, e dois fora do carro tentando ajudá-lo a estacionar. Passo por eles e sigo em frente, para respirar um pouco e não ouvir nada. Achei que estavam apenas de gozação. Acendi uma baranga fina e fui caminhando até o final da rua escura. Fiz a volta, retornei. Ainda uma dor no peito me fustigava, de melancolia triste, vontade incontrolável de cair no choro. Passei novamente pelos rapazes. Estavam lá. Desesperados. Não conseguiam estacionar o maldito carrinho. Eu não estava nada feliz, mas aquela cena me fez sorrir. Ofereci ajuda. Eles aceitaram prontamente. Mas ficaram com cara de que tal tarefa seria para mim tão problemática como certamente estava sendo para eles. Eu estava um pouco alto. Falei pro garoto saltar para o banco do passageiro. Peguei no volante, acelerei o bicho, e o carro saltou pra frente. Eu disse pra ele “preste atenção, e aprenda”. Com algumas flexionadas firmes no acelerador, e alguns giros no volante posicionei o carro pra fora da vaga. E, de ré, num movimento único e acelerado, joguei o carro de volta para a vaga. Simples. Estava estacionado. Os garotos ficaram me olhando como se estivessem diante de um deus do volante. Era uma admiração honesta e não debochada. Qualquer idiota bêbado estacionaria aquele carro naquela vaga imensa. Mas eram jovens demais, aprendizes ainda dessa vida. Entreguei a chave e sorri. Me senti bem, fiz minha boa ação da noite. Virei herói de três adolescentes. Voltei para a mesa. Ela ainda estava lá. Quase transparente agora. Voltou a vontade de chorar. Mas não chorei. Apenas os olhos explodindo num vermelho quase areioso e eu apenas tentava dissimular fingindo uma coceira nas pálpebras. Pedi a conta. Fui embora. Mas no carro, sozinho, ouvindo ColdPlay eu pude chorar de verdade como um genuíno idiota. Não me senti nem melhor, nem pior depois disso. Chorar é como gozar. Muitas vezes é melhor fazer sozinho.
Escrito por Mauro Cassane às 10h52
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O primeiro brilho do diamante
Tomamos algumas cervejas para apaziguar um pouco o calor seco de inverno. Vince tira do bolso sua derradeira ponta para uns relaxantes tragos. No bar do coelho tem um espaço dedicado a esses prazeres mundanos especialmente reservado a clientes como nós. Ninguém nos atormenta e uma elevada área feita de madeira permite uma visão privilegiada da rua com aquelas garotas colegiais e universitárias transitando, esbanjando sensualidade com suas roupas de verão fora de hora. É bom ver mulheres simulando o cio. Quase todas fazem dessa brincadeira uma verdadeira e nobre arte. Há as especialistas. Que fascinantes essas moças. A garota que eu amava me disse uma vez “aproveite de mim, me explore”. E proferiu isso com tamanho tesão que só aquela voz aveludada por pouco não me provocou orgasmos. Eu tinha que me conter. Precisava me segurar. Além de amá-la eu a desejava com uma intensidade perto do irracional. Me sentia um lobo selvagem ao lado dela. Um vigor assustador. Quando transávamos eu me sentia ainda mais poderoso, e em vez de saciado após gozar, ficava ainda com mais vontade de pegar aquela mulher e beijá-la, acariciá-la e transar de novo e de novo. Nem sempre conseguimos. Não tenho mais 16 anos. Se bem que quando tinha essa idade eu não sabia direito o que fazer, por isso pouco me adiantava uma ereção atrás da outra. Mas ela tinha algo assustador que me despertava libido de uma forma nunca antes experimentada. Coisas assim, acho que sempre, não tenho certeza, passam e deixam apenas lembranças tristes. Bem, foda-se. Se fosse amor creio que duraria bem mais, quase eterno, pode ir, esfriar um pouco, mas sempre volta com suas lavas em chamas. Ela me abandonou sem muita explicação. Sofri pra cacete e agora não quero mais sofrer. Achava que tinha encontrado enfim um grande amor. Mas que se foda. E lá estavam elas todas ali, sob nosso olhar, andando apressadas, ou lentas, rindo ou sérias, mas todas tão deliciosamente vibrantes com a vida simples e cotidiana que as espreita. E nós dois, como abutres, empuleirados naquele mesanino imundo e gorduroso. Víamos, mas não éramos vistos. Melhor assim.
O peito esquenta com aquela fumaça toda. Não sei fumar cigarro, não gosto muito. Maconha é mais suave. Desce redondo. E dá barato. Cigarro só serve pra ficar com bafo. Bebemos muito. Não sei ao certo quantas garrafas. Um rastafari extemporâneo ajeita suas coisas na calçada. Ele e seu violão e não demora a rolar Gilberto Gil, depois Rappa e, claro, Bob Marley. O cara fazia umas reinvenções de antigos hits e até que ficavam legais. Alguns garotos sentaram na mesa bem em frente ao músico. Pediram cervejas e ficaram ali, com seus bonés para trás, com aquelas caras miseravelmente soberbas e se cutucando à medida que passava uma gostosa na calçada. Um avisava o outro, com cotoveladas, e riam pra caralho. Não sei que merda é essa de achar graça em mulher gostosa. Começou a chegar mais gente e isso me irrita um bocado. Não gosto de tanta gente. Prefiro olhar todo mundo de longe. Ou então assistir televisão. Resolvemos tomar a saideira e mais uma cachaça. Lembro de um velhinho matuto que vi no Mato Grosso. O cara morava sozinho numa ilha fluvial. Setenta e dois anos e ali, sozinho num casebre velho e caindo aos pedaços. Um autentico hipster. Tomamos cerveja com o velho homem e ele me ofereceu pinga. Eu disse que gostava de boas cachaças, particularmente daqueles com cheiro de madeira e ele rio à beca. “Aqui a gente toma pinga mesmo, a 80 graus de álcool. Esse troço de cachaça é coisa de boiola. Eu tomo pinga pra ficar louco e não pra ficar saboreando”. Caralho, o velho arrasou comigo. Mas é uma figuraça. Agora peço cachaça e lembro dele. O cara estava bem certo. A gente bebe pra chapar ou pra curtir a porra da bebida? Não sei ao certo. Acho que neste aspecto sou meio boiola mesmo, pois gosto de saborear. Aprendi esse lance com vinhos. E não consigo beber vinhos vagabundos. Nem pingas fodidas que parecem álcool puro. Deixo isso para os autênticos malucos. Eu sou normal.
Ficamos ali, com a última garrafa de cerveja, uma boa dose de pura Salinas e o fundo musical de Gilberto Gil. Eu gostava mais do Gil. Agora acho um saco. A gente muda. Mas o cara tocava hits antigos. Vince sugeriu fazermos uma análise da fauna feminina do local e das transeuntes que não paravam nunca de circular. Uma brincadeira simples e adolescente que consistia em olhar um daqueles exemplares e dizer se a gente transaria ou não com ela. Coisa idiota, mas interessante. No fim, numa estatística bêbada, chegamos à conclusão que, naquela altura do campeonato, com exceção de umas gordas asquerosas que passaram, encararíamos quase todas para uma trepada. Tudo apenas na ilusão exacerbada. Não conversamos com nenhuma. Pagamos a conta e fomos caminhando até a casa. É isso mesmo. É fácil demais desejar, ter tesão, e até trepar. Não tem muito segredo. Basta querer. Exige pouco esforço. Mas eu me torno cada vez mais melancólico. Talvez esteja me tornando precocemente senil. Me excita mesmo observar garotas gostosas, com suas formas e gestos, com suas requebradas macias, e aquela languidez tesuda e tudo mais. O problema é que não vou além disso. E, pior ainda, não quero. Não sinto vontade. Que merda. O único ser que desejo intensamente está longe de mim. Minha cama é meu refúgio sagrado. Deito ali, leio um pouco de Burroughs, anoto umas palavras que me vêm a mente num bloquinho, penso num poema mas me dá preguiça de escrevê-lo. Certas vezes é melhor nem desenhar um poema, apenas pensar nele e deixá-lo partir, pois ele é volátil como um peido. Acho que meus melhores poemas vieram e sumiram assim. Adorei quando chegou, e não notei quando partiu. Foi assim também com meu grande amor. Não notei sua chegada, mergulhei de cabeça em sua presença, e quase não percebi sua despedida. Diante dessas elucubrações quase pernósticas, o melhor que fiz foi apagar a luz e curtir minha insônia na penumbra para brincar um pouco com minhas alucinações. Pensei naquela garota maravilhosa outra vez. Ela conversa comigo, mas evita fixar seus olhos aos meus. Depois fiquei imaginando um diamante bruto, rústico e tosco. E comecei a lapidá-lo, a entalha-lo e peguei no sono às quatro da matina quando já começava a ver algum brilho naquela pedra.
Escrito por Mauro Cassane às 14h11
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Costas suavemente douradas
Observei aquelas costas por um longo período. Eu a via escrevendo, e o nervoso toque de seus dedos no teclado, absorta, compenetrada, fazia com que a musculatura de suas costas rígidas vibrasse com discreta sensualidade. Gostava de ver aquele desenho delicado, de linhas retas, e com suas ondulações firmes. Uma massagem era um alento para ela, que sempre trabalhava como uma máquina alucinada, mas para mim, ao percorrer com minhas mãos e dedos aquelas costas, era um momento mágico de ternura e paixão. Ao flexionar cada um daqueles músculos, ao percorrer com as mãos caminhos inóspitos e de impressionante textura lisa, um aroma se desprendia daquela pele macia, perfume madeirado com tênue fragrância de frutas cítricas. Laranja com mel para ser mais preciso. Que delícia. Enquanto eu notava um ligeiro e discreto relaxamento, me entregava desmedidamente a luxuriosos pensamentos. Não tão sexuais, como por certo o faria se fosse com outra mulher, mas essencialmente sensoriais. O que, para mim, é o paroxismo da sexualidade masculina. Ela relutava em cerrar os olhos, buscava concentração na tela do computador, falava comigo coisas profissionais, mas eu podia sentir sua vibração dizendo outras tantas coisas tão soltas e desconexas que conversávamos apenas espiritualmente. Uma telepatia simples, apenas com toques. Rolavam loucos papos apenas nessa troca de contatos entre minhas mãos e sua pele de pêssego. Não conseguia sequer prestar atenção em suas confusas questões sobre abordagens políticas em seus textos ou parágrafos. Apenas me desconectava da realidade nesse litúrgico momento de amor silencioso, improvável, incoerente e insano.
Suas costas, suavemente douradas, sem olhos, sem maquiagem, nua e simples, desprovida até do tesudo apelo de seus lindos peitos e pernas e bunda, simplesmente aquele ângulo reto, puro e sereno, me faziam flutuar em sonhos de amor. Posso dizer, sem medo de errar, que sentia a divina presença de todo seu erotismo discreto apenas com simples toques de meus dedos em suas costas. Me intrigava, a despeito de tanto prazer por tocá-la, por sentir seu cheiro de fêmea compatível com todas as minhas células, o fato de admirá-la tanto que não conseguia imaginá-la transando comigo. Não, essa imagem não percorria nem meu consciente nem o meu inconsciente. Vetava isso em mim. Queria, mais e mais, apenas senti-la completamente minha. E, daí sim, nessa condição suprema, bem, eu a teria como um homem tem verdadeiramente uma mulher. Não sei se emprego bem o verbo, talvez não seja ter, como quem possui, mas eu diria, para ser mais acertado, amaria aquela mulher sem nenhum pudor ou medo. Eis meu ideal. Queria, com essa mulher, o amor. Não apenas por suas costas, tão lisas e de beleza ímpar, tão pura, e com contornos suaves e simétricos, nem por todas seus outros tantos atributos físicos que, até seus dedinhos, me seduziam, queria essa mulher completa, inteira para ser, creio que para eternidade de meus dias, meu grande amor. Contemplava suas costas com tudo isso circulando alucinadamente em minha mente, com meu coração estarrecido e assustado com tamanha vontade de dizer tantas coisas a essa mulher. Mas nada dizia, apenas, em raras insanidades, escrevia alguns poemas pueris e tortos.
Espero seu amor, meu amor, sem contar os dias
Espero nas manhãs de sol, sob chuva ou frio
Espero sem esperar nada, apenas desejo seu amor
Meu amor, as horas são tão vazias sem ti
Te espero com renovada paixão, desesperada solidão
Como quem espera quase sem esperança,
Como criança miserável aguarda seu papai Noel
Como faminto fantasia sua ceia, como cego sonha com a luz
Esperando seu amor, meu amor, aprendi até a rezar
Mesmo ateu, em Deus resolvi acreditar
E espero, com esperança no olhar, com fé em tudo
Espero até morrer, mas um dia ainda hei de te beijar
E se isso acontecer, meu amor, nunca mais tu deixará de me amar...
Escrevia assim. Essas coisas que apenas quem ama tem coragem de rabiscar. Se não amasse teria vergonha de botar essas palavras todas num papel. Perder tempo com isso. Mas o tempo não tinha muito sentido para mim. Ainda não tem. Um dia terá. Um dia eu vou ver o tempo passar lentamente, sem pressa, percorrendo as entranhas de meu corpo, mas esse dia não vou me preocupar. Até a morte passará a ser uma conseqüência agradável da vida. Neste dia estarei ali, com aquelas costas repousadas em meu peito, com minhas mãos atadas naquele ventre delicado, com suas tensões largadas em meu corpo, e aquele cheiro de laranja silvestre, aquele jeito selvagem, quase cruel, domado em meus braços. Aquela boca tênue, perfeita e alucinada, me tocando com sedenta vontade de me matar de amor. É bom. Mas morreria assim, com ela, todos os dias. Apenas para renascer pelas manhãs, e beijá-la novamente. Preparar seu café, fazer um suco, e passar a mão em seu rosto na madrugada fria e silenciosa de minhas ausências. Um toque apenas, um leve toque na face de pêssego, e meu dia se tornaria o mais perfeito de todos. Sem ela, minhas horas são absolutamente vazias, com ela meus dias prescindem das horas.
Escrito por Mauro Cassane às 19h14
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Brasa mergulhada no cristal
O calor tropical me derrete as idéias. Estou escrevendo um livro, me sinto bem quando me pego a ele, brinco com o personagem, finjo ser uma espécie de deus ao tocar os dedos no teclado macio e ir construindo uma história a meu gosto. É bom. Há tesão para tudo. O meu, tirando aquele incomparável de tocar a mulher que a gente ama, é contar histórias. Não toco a mulher que amo, então conto histórias. É um caralho isso. Me dá ódio muitas vezes. Mas é o que me resta. Há mais gente neste mundo que não ama do que gente que ama. Há também mais trepada sem amor do que aquelas inesquecíveis com amor. Eis o mundo. Assim mesmo. Mais tesão que amor. É uma tremenda sacanagem ver as coisas sob esta ótica, mas creio que, mesmo sem qualquer embasamento científico, essa porra de mundo é regido por sacanagem e não por amor. Falam pra caralho de amor, mas normalmente quem ama se transforma num imbecil. Já falei sobre isso. É assim que me sinto. Queria conhecer alguém que ama e é amado, assim, profundamente. Loucamente apaixonados. Como eu amei uma mulher uma vez. Nunca vi. Sempre pergunto, investigo, mas nunca vi. Mas deve existir. Shakespeare escreveu histórias impressionantes de amor mas todas com tamanha e melancólica tristeza que penso que o cara sabia mesmo que amar era uma merda. Por uma garota larguei um rastro dolorido de poemas e lágrimas. Não conto mais por quanto tempo nem quando para não dar margem a fantasias, nem me mostrar tão fraco. Deveria ter escondido isso tudo dela, não consegui. Vou tocar em frente cada vez entendendo menos esse confuso emaranhado que é a vida. Mas acreditando também cada fez menos nos sentimentos que julgava verdadeiros. Sempre achei isso, e continuo firme nessa convicção, quanto mais ignorante o sujeito, mais feliz ele é. A felicidade não existe para quem busca um pouco mais de luz. Viver nas trevas é a melhor solução para se sentir plenamente feliz. Por isso mesmo que a gente ri quando alucinados de álcool ou drogas. Rimos com amigos, entre copos e tudo mais, e seguimos assim mesmo, nesta ilusória sensação fugaz de alegria eterna. A morte nos espreita, a velhice e as doenças são nossas sombras, mas seguimos rindo feito hienas que se lambuzam em carniça. Ou, ainda pior, há aqueles que riem embriagados pela própria estupidez. Se divertem com o massacrante cotidiano enfiado guela abaixo. São felizes assim mesmo. Odeio festas, mas preciso delas.
Um policial me parou logo pela manhã. Quis ver meus documentos. Que merda. Para que nos pedem documentos? O que há nos papéis que não pode ser dito por nós mesmo? E para que caralho um guarda te pára e te pede documentos? Se fosse eu um bandido, ou mal intencionado, sei lá, um tarado ou louco, eu não teria documentos? Mas eu não carrego documentos. Faço minha caminhada matinal sem documentos nem grana nem porra nenhuma além da companhia de meu cão. O sujeito uniformizado, com toda sua tacanha autoridade, parou ao meu lado, olhou para minha cara na segurança blindada de sua viatura, e como eu também resolvi encarar, ele quis medir forças comigo. Sim, num gesto brusco, esbanjando truculência, fez o outro guarda frear a viatura e desceram os dois caminhando ligeiros e serelepes em minha direção. Ambos com a mão direita no coldre. Como se eu fosse o mais perigoso elemento das redondezas. Meu cachorro quase rio. Eu sei quando ele ri. Ele poderia até ficar puto, latir, ou ficar em posição de ataque, mas achou graça dos dois idiotas metidos a autoridade. O policial disse: “segure seu cão e me apresente seus documentos”. Achei isso muito retrógrado. Parecia coisa do regime militar. Aquelas abordagens arbitrárias que faziam com os pobres coitados que tinham cara de comunistas. Eu não sei ao certo se minha cara tem algo semelhante às caras de bandidos ou psicopatas. Mas acho mesmo que o puto do policial que estava na janela da viatura cismou comigo. Homens são assim. Agem feito animais irracionais. Um invoca com o outro e pronto. É briga na certa. Mas quando um está armado há uma imensa desvantagem. Foi o que aconteceu. Então eu disse o óbvio: “não ando com documento para fazer caminhada, moro aqui perto”. Os dois ficaram por alguns segundos sem ação. Era muito surreal parar um cara como eu, com um cachorro, de shorts e camiseta e tênis. Onde eu guardaria uma arma? Só se enfiasse no cu. Deu para notar que o guarda que estava ao volante, o que certamente não invocou comigo, ficou meio puto com o parceiro, bem mais nervosinho, e todo metido a macho e que, sei lá por que motivo, havia cismado com minha cara. Mas não havia qualquer razão para nem sequer me revistarem. Não havia nada além de um baseado no meu bolso. Claro que também não lembrei desse detalhe. Mas os caras ficaram ali, olhando a mim e ao meu cachorro. O motorista, sem dizer nada, voltou para a viatura meio balançando a cabeça, acho que reprovando a atitude do parceiro. E o guarda nervosinho, meio puto com o amigo, não podia ir sem fazer algo, mas não teve culhões para me agredir, até porque meu cão já estava ficando meio impaciente com ele e disse: “dá próxima vez, ande com seus documentos”. Eu só disse “tá” com um sorriso meio disfarçado que o cara percebeu mas fingiu não notar. E voltou de novo para sua ronda sem graça pelas redondezas da periferia. Continuei minha caminhada e fumei meu beck dentro do cemitério. Há sensações indescritíveis quando se fuma dentro de um cemitério. E se são indescritíveis não dá para descrevê-las. Há uma garota que gosto de pensar nela. E uma outra que gosta de pensar em mim. Assim é a vida. Nunca pensei em conhecer Aparecida do Taboado, uma cidadezinha carismática e povoada por artistas da cozinha e do barro. Gente bonita mesmo. De verdade. Desci do ônibus depois de dez horas de viagem e conheci Dona Nair, que nasceu lá, sessenta e sete anos, uma doceira famosa na cidade. Eu e meu amigo ficamos na casa dela mesmo. Engordamos lá. Era bom matar a larica naqueles doces incríveis. Um rolê para fumar e um mergulho nos quitutes divinos de Dona Nair. Doce de leite com geléia de morango. Ela enchia as tigelinhas e nos servia com pedaços generosos de queijo fresco. Que maravilha. Nunca viu praia na vida. Achei uma tristeza e fiquei com dó dela até conhecer a praia do Paranazão, como eles chamam o rio Paraná. Daí senti pena de mim por ter perdido tudo aquilo por tanto tempo. Uma linda praia cristalina de água doce. Ali Deus quis se exibir, ou fez aquela obra movido por inusitada inspiração. Cacete, como é impressionante. Só os matutos pescam e se banham naquela margem esquerda e esquecida. Um rancho melancólico no alto, simples com suas paredes encardidas e rachadas nos serviu de abrigo. No cair da tarde o sol toma seu banho no rio e parece brasa se apagando no crepúsculo quase pantaneiro. A vida simples tem uma suave magia que me contamina. Mas voltei a Sampa para me envenenar um pouco mais. Gosto de veneno, por isso amei tanto e com tanta força.
Escrito por Mauro Cassane às 12h19
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Amarelo brilhante e cansado de um dia sem esperança
Há aqueles dias em que esperamos algo acontecer. Esse, para mim, é um desses malditos dias. Não dormi direito, me sinto pesado, lento e cansado. O brilho intenso do sol faz tudo parecer ainda mais lento. Parece que o mundo acordou fatigado hoje. Inicio o dia assim, ao lado do fone que me acompanha, com suas conexões ligadas, mas não há chamadas para mim. Sinto fome, mas não tenho vontade de comer. Porém uma saudade imensa de uma garota me incomoda. Uma vontade de abraçá-la, beijá-la. Preciso lutar contra tudo isso que não vai me levar a lugar algum. Não é bom amar quando não se é amado. É tão cruel quanto cortar os próprios pulsos. Ficamos tontos e vamos morrendo aos poucos. Não uma morte morrida, dessas de ser enterrado e tudo mais, mas uma morte espiritual, talvez ainda mais dolorida, que vai nos ausentando das coisas. Um dia, por conta disso tudo, deixamos de crer nessa porra de amor. Um romântico, tolo por natureza, assim como eu, até que demora mais tempo e, claro, sofre mais. Hoje queria encontrá-la. Sim, a levaria para jantar, prestaria atenção em seus contornos, seus detalhes, e acho que pouco falaria de tão assombrosamente tomado pela emoção. São minhas ilusões fantasiosas. A pior, a mais atroz e viciante droga, é o amor verdadeiro. Não ame, e viva feliz. Se tens tesão por uma garota, faça seu jogo de sedução, brinque com as palavras, e tente levá-la para cama ou para qualquer outro lugar onde possa trepar. Essa é a vida. É assim que as coisas funcionam. Todos falam dessa merda de sentimento, de honestidade e tudo mais, mas amar mesmo é para idiotas como eu. Amar é para estúpidos como eu. Gente ordinária com um mordaz gosto ao sofrimento. Há um monte de gente assim. Por sorte não se encontram.
Espero algo acontecer hoje, mas não vai acontecer nada. Sei disso. Mas sempre espero. Acho que sou otimista demais, porém meu pessimismo me devolve ao eixo simples da vida humana. Sei lá o que porra sou. Estou agora percorrendo uns cantos do Brasil. A gente vai por aí e conhece pessoas incríveis. Eu e um amigo. Fumando, bebendo e indo por caminhos pouco utilizados. Nada turístico, mas é impressionante como há coisas loucas por esse País. É bom ver essa gente simples, demasiadamente humana. Falam do exterior, minha amiga me chama para ir a Londres. Não me interesso. Acho legal, a Europa e suas velharias bem conservadas, como um grande museu limpo e brilhando, mas prefiro os rincões deste país onde nasci. Ver gente da terra, com suas caras e marcas, tomar banho de rio, e ver aquelas montanhas velhas erguidas há milhões de anos, ali largadas, quase nem contempladas. Fiz a primeira viagem para as bandas de Mato Grosso. Impressionante. Queria escrever sobre ela, e vou escrever. Mas hoje não. Neste quase último dia de agosto, esperava outra coisa da vida. Um beijo talvez. Há dias que realmente temos coisas mais interessantes a fazer do que chorar. Mas acho que hoje não tenho como evitar algumas lágrimas. Caralho de merda. Odeio chorar por razões que sei que nada posso esperar além de malditas lágrimas. Mais uns dias e nos enfiamos novamente em outro ônibus e vamos subir pela costa brasileira. Tem sol em tudo por aqui. Quente pra burro. Sempre quente. Mas me fascina esse povo. Queria amar outra garota. Há tantas por aí. Mas um tenebroso bloqueio me corta os sentimentos. Esse é meu mais terrível castigo.
Não sei mais o que esperar deste dia que se inicia assim, lento e brilhante, com esse amarelo tenso flutuando ao redor de tudo. Tenho saudade de quem nada sente por mim. Tudo é uma grande mentira, uma farsa sem tamanho. Nossos enredos são falsos. Tenho que crer nisso. O que caralho escrevo? Minhas memórias? Um diário? Porra nenhuma. Odeio escrever diário. Gostaria de ler apenas um, em especial um, mas me contento por ora com as observações de Kafka. Hoje é um dia importante para mim. Talvez nasça ou morra algo em meu coração. Sabe quando você deseja intensamente ver uma pessoa, e sabe que ela está ali, bem na sala ao lado, ou no outro canto, talvez na outra rua. Só que, por indicações evidentes e irrefutáveis, ela não quer te ver. Então me pergunto: o que me leva a querer ver uma pessoa que não está nem aí comigo? Resposta: sou um idiota. Explicação: eu a amo. Conclusão: sou um idiota. Contra-medida: esquecê-la. Resultado: não consigo caralho! Resumindo: sou um idiota. O sol continua com seu brilho, o céu tão azul que mais parece aquelas calmarias caribenhas, garotas sensuais desfilam por aí, com seus olhares insinuantes, proverbiais rebolados e eu aqui ainda sonhando com meu mais terrível pesadelo.
Escrito por Mauro Cassane às 09h48
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