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A ressaca e as lembranças em sépia
Acordei com uma ressaca desorientadora, dor de cabeça e vontade de vomitar. Queria dormir mais, mas o sol esquenta o quarto, abafa tudo, dá uma terrível sensação de desconforto. Me irrito, viro de um lado e de outro, mas não consigo mais ficar na cama. Deveria, e poderia também, dormir um pouco mais, mas não consigo suportar esse maldito calor de inverno. A gente vai dormir na madrugada, meio bêbado, e acorda assim, abstêmio, com nojo de qualquer coisa que contenha álcool. Um banho frio é meio desconfortável, mas ajuda a nos dar uma dose de ânimo. Mais um dia. Hoje estou melancólico e com o estômago ruim. Uma coisa não está precisamente relacionada a outra, mas ambas em conjunto conferem a mim uma terrível angustia. Escrevi ontem uma carta para a mulher que mais amo na vida. Creio que ela tenha lido, pois enviei por e.mail. Tive poucas horas de sono esta noite e alternei sonho e pensamento nela. As lembranças são doces quando amamos e somos amados, mas elas se tornam extrato de fel quando apenas amamos. Não sei agora, realmente não consigo definir, se essa ressaca tonta é fruto das cervejas que tomei ontem num pub australiano ou da saudade que agora se abate sobre mim. Vou repassando na cabeça imagens suaves, quase em sépia, onde eu a vejo no carro me beijando, me esperando no ponto do ônibus, na cama comigo, cozinhando pra jantarmos juntos. A cabeça dói com isso também. Tomo aspirina. Faço uma mistura de pó de guaraná com suco de laranja. Talvez me anime mais também com essas coisas. Pego meu carro, o rádio liga ao virar a chave, e toca um blues do Taj Mahal. Não tem jeito. Lembro do cheiro dela, das mãos, da boca, do nariz, do olhar. Isso tudo me enlouquece aos poucos. Diariamente sinto uma grande revolta com esses sentimentos e sensações. O amor pode ser maravilhoso, mas para mim se tornou algo quase atroz. Não tive a sorte dos enredos de filmes, novelas e livros onde os protagonistas lutam para ficar juntos, se amam loucamente, se desejam e tudo mais. Sinto que meu amor é uma via de uma única e desesperadora mão, que vai me levando irremediavelmente ao abismo.
Queria deixar de amá-la, mas uma força irracional me mantém assim, nessa estúpida condição romântica em que não a tenho, não a vejo, não a toco nem falo com ela. É como uma espécie de castigo. Porém nem sei porque diabos sou castigado. Mas a gente sempre faz coisas ruins, mesmo sem saber, ou involuntariamente. Erramos sempre. Quem nos castiga afinal? Deus? Ou o diabo? Sei lá. Nem me importa. Já pensei nisso diversas vezes. Queria apenas ter a mulher que amo em meus braços. Tão simples quanto respirar. E, confesso, sem exageros retóricos, me sinto sufocado sem ela. Já tentei de tudo para esquecê-la, e cada vez mais pormenores de meu cotidiano me remetem a ela.
Vou tentando tocar minha vida, buscando minha dose diária de egoísmo, mas não consigo passar uma merda de dia sem pensar naqueles olhos brilhantes. É agora um confuso misto de prazer e ódio. Pensei em fazer análise, mas só faria se cachorros fossem analistas. Confio em cães. Não tenho nenhum desprezo pela profissão desses sujeitos, mas não confio em humanos. É sério. Como vou falar de meus problemas, ou de conflitos, ou de minhas angustias de amor com um humano que pode estar numa merda pior que a minha. Ou ser um boçal que nunca sequer amou. Porra, como vou desabafar com alguém que pode nunca nem ter sentido o que senti e sinto por aquela garota. E, pior, nem a conhece. Não pode ser algo racional isso. Falo com meu cão. Ele me olha nos olhos, senta ao meu lado, e presta atenção curiosa, com suas orelhas ora em pé ora deitada, me sinalizando carinho e atenção. Nada me diz, apenas me escuta e compartilha comigo tudo isso. Ele sabe de tudo. Mas hoje não falei com ele. Falarei amanhã. Ela também gosta de cães. Nunca a vi na infância, nem a conhecia, mas tenho todas as imagens da infância dela em minha mente. Se são ou não reais, nem me importo. Eu as tenho todas. Para mim ela é a mulher, uma heroína, musa eterna e louca. Grande e amada filha da puta. A gente não pode ter tudo, não é mesmo? Eu não a tenho. Se me dessem tudo, riqueza, saúde, poder eu ainda estaria angustiado sem aquela presença doce e sensual ao meu lado. Sem aquele cheiro de madeira, ferro e laranjas silvestres. Já me disseram que é humilhante se sentir assim, pois eu acho que a maior humilhação humana é aviltar seus próprios sentimentos. Que se foda os outros. Ou o que pensam. Odeio conselhos, mas insisto sempre em recebe-los apenas para discordar. Ou discutir. Sei lá. Ou apenas para beber mais uns tragos de vinho durante os conselhos. Essas coisas até que combinam. Eu queria mesmo é beijá-la agora. Com força, sem pudor, espreme-la contra meu peito vigorosamente, e sentir todo aquele calor, suor, cheiro, hálito e textura.
Odeio acordar de ressaca. Mas o pior é dormir sozinho por muito tempo. Me lembro, sempre quando deito, dela ali, sonolenta, descabelada, às vezes lendo, outras me esperando tesa e ansiosa por minha presença. Estou tendo um caso de amor com dois travesseiros agora, são tenros e robustos. Me ato a eles a noite inteira e os transporto comigo para um lado e outro da cama. Assim como eu fazia com ela. Mas não os beijo. Seria estúpido demais, não? Tampouco me atrevo a dar banho neles pela manhã. Mas, nos meus parcos momentos de sono, são eles que estão ali, sob meus braços e abraços. Escrevi um poema para ela ontem. Não tive coragem de enviar. Começa outro inebriante blues do Taj Marral, depois das dez horas da manhã as ruas paulistanas sossegam um pouco e dá para abrir a janela e sentir a brisa esparsa, nesta hora sem tantas partículas nocivas. O sol brilha intenso e insensato lá fora, parece um astro fora do lugar. A Europa pega fogo com o Verão, e nós aqui nos fodemos com esse inverno quente pra caralho. Essa merda toda ainda vai derreter e vamos nos afogar. Preciso escrever um discurso, mas hoje vai sair uma grande porcaria de dia. Amanhã é o dia seguinte, mais um dia, continuo contando esses dias todos. Mas quando 22 de outubro chegar espero não contar mais nada. Aquarianos são assim, a gente pensa em datas sem pé nem cabeça e tudo lá adiante. Penso demais no futuro e sou saudoso do passado. O presente que se foda. Parece que apenas flutuo. Neste dia vindouro quero apenas acordar outro sujeito. O menos humano possível. Talvez uma singela barata ao estilo de “Metamorfose”, do genial Kafka, cujas memórias não paro nunca de ler.
Escrito por Mauro Cassane às 15h02
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Entre o cinza e o laranja, cabeças desesperadas
Comecei a caminhar logo cedo nesse inverno aquecido da cidade, contemplando o céu alaranjado que se debruça vigoroso numa densa névoa prateada. Pode fazer mal a saúde, como dizem os caras do tempo na televisão, mas essa inversão térmica é um grande barato como visual. Fosse eu versado na arte de pintar coisas legais em uma tela ficaria ali, no canteiro central da avenida, e reproduziria esse surreal encontro de cores. Parece o inferno sendo tragado para as entranhas da Terra. E nós, desprezíveis humanos, ali, alheios, absortos em nossas pequenezas, apressados e preocupados com grana, trabalho, sexo e outras coisas. A ordem nem importa. Pois sempre muda. As prioridades nunca são comuns. Uma hora a gente tá bem de grana e fodido de saúde, outra hora estamos amando e sem um puto no bolso e outras vezes não temos nem grana, nem saúde, nem amor, nem sexo e só perturbações. Somos um pesadelo ambulante. A felicidade não existe como pregam, apenas há fatias para não morrermos entediados na lama da tristeza. Há uma fila imensa, acho que quilométrica, bem perto. Uma fábrica procura adolescentes para trabalhar e vão pagar cento e cinqüenta contos por mês mais cesta básica. Gente de todo lugar correu pra lá. Dormiram no portão. Não há trabalho para todo aquele povo miserável. Mas eles estão ali feito espermatozóides alucinados em busca de uma chance de viver. Vou seguindo, ainda deslumbrado com o fenômeno térmico e tudo mais, e passo por aquela legião de espremidos. Pobres garotos e garotas condenados. Pouco se importam com aquele visual todo. Precisam de trabalho para ao menos comer. Carros reluzentes passam zunindo por mim, com seus pilotos adornados e escondidos por trás de vidros inviolavelmente escuros. Há uma fossa imensa que separa as classes sociais aqui. Eu fui me agarrando como pude e ao menos consegui me afastar dignamente da merda mais fedorenta e podre.
Uma senhora caminha com ares aristocráticos com seu cão bem na minha frente. Balança sua bunda envolta por uma calça de moletom vermelha com uma espécie de bata sobreposta, acho que de seda, ostentando talvez todas as cores existentes numa mistura desordenada e confusa. Seus cabelos estavam em estado de choque como finas molas que se balançavam alucinadamente e com uma cor laranja vibrante. Seu cão, mais lúcido, não poderia ser outro animal senão um odioso poodle, porém ao menos mantinha uma certa dignidade branca. Apenas isso. Era uma cena entre o hilário e o assombroso. Eu a ultrapassei, fingindo ser tudo isso bem normal, mas não me contive e olhei para trás, pois tinha que dar uma espiada naquela cara. E me voltei rápida e educadamente para frente, mas a cena foi tão dramática que não pude deixar de acelerar o passo e dar uma outra olhada, agora um pouco mais demorada. Incrível. Óculos escuros redondos e imensos, armação vigorosa e cor de osso, batom descomunal para dissimular uma boca tímida e seca porém a pintura ultrapassava despudoradamente os parcos limites de seus lábios para formar um desenho de uma boca impressionante e distorcida, mal pintada, disforme e risível. Cacete, nunca tinha visto nada igual antes, nem mesmo naquelas histriônicas figuras que desfilam nas paradas gays. E ela tinha um semblante rijo e grave. Seguia resoluta, firme e extremamente séria. Se eu olhasse mais uma vez, mesmo porque fiquei na fissura de faze-lo, certamente ela iria ralhar comigo. Não o fiz. Mas que coisa. Como os humanos são figuras curiosas e estranhas. O cão permanecia ali, autêntico, assumindo ser ele um estúpido exemplar da raça canina, o mais enfadonho animal que apareceu na face da terra, mas, enfim, assumia isso, e se mantinha assim, um poodle ordinário porém com alguma dignidade.
Escrito por Mauro Cassane às 16h25
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continuação...
Segui adiante. A gente sai à rua para isso mesmo, para respirar, para observar um pouco, para pensar. Isso é bom. Os tipos humanos me inspiram, isso tudo me faz bem. Começa então uma infernal e ruidosa sinfonia de sirenes. Primeiro passa voando uma viatura policial, com seus gambés com aquelas caras peculiares e estúpidas de poucos amigos bem pra fora, daí, mais atrás, dois carros do corpo de bombeiro, e buzinando, fazendo um puta estardalhaço, e suas sirenes parecem berros de porco sendo abatido. Os carros balançam de um lado a outro, os motoboys tocam suas motos a toda velocidade pela calçada mesmo, e um puta fuzuê é armado. Coisa meio comum na Zona Leste. Certamente havia uma boa encrenca pela frente. Apertei os passos, a gente é curioso. E as luzes vermelhas brilhavam e piscavam nervosamente a uns cem metros adiante. Todos contornando. Cheguei lá em poucos minutos. Um cara enforcado numa árvore bem baixa. Amarrou uma corda velha, dessas de prender balde em poço, de sisal, subiu numa lata enferrujada de tinta de vinte litros, e pronto, foi o suficiente. Estrangulou o pescoço. Estavam isolando o lugar e o nego ali, esgüelado, com a língua pra fora, cabeça tombada para o lado esquerdo. Estava razoavelmente bem vestido. Calça e camisa social. Mas descalço. Ou lhe roubaram os sapatos ou o cara simplesmente fez alguma espécie de liturgia suicida onde é recomendado tirar os sapatos. Nem era um japonês. Pela cara era um mulato, acho que nordestino. As pessoas aglomerando-se em volta, eu passei, olhei o cadáver durante todo meu trajeto, mas simplesmente passei e segui meu caminho para dar uma volta no cemitério. Uma macumba velha deixa um cheiro desgraçado de carniça, isso me vira o estômago. A cabeça do bode estava ali já fazia um tempão, com aqueles dentinhos separados, como que rindo de seu infortúnio. Porra, me deu mais dó do pobre bode. Ninguém liga.
O cemitério não é muito grande, tem um monte de pé jovem de pinheiro espalhado pelas campas paupérrimas. É o único adorno além da pedra de mármore com o nome do sujeito e data de nascimento e morte. Não dá tempo da árvore crescer, pois em menos de cinco anos arrancam o caixão de lá e enfiam os restos mortais num buraco de cimento no muro. Isso se a família der as caras e pagar pelo serviço. Senão, jogam tudo fora mesmo. Queimam tudo. A cada período os coveiros trabalham num quadrante do cemitério. Removem os mortos velhos, e deixam as covas prontas para os recém-chegados. Esse é o cotidiano dos bastidores do cemitério que observo quase diariamente. Estava de estômago meio virado. Abreviei minha trajetória e sai caminhando por entre as campas, esses motinhos de terra com suas arvorezinhas de Natal. Um novo quadrante, ali perto, começou a ser preparado. Mas os caras não estavam lá. Fiquei meio curioso. Sempre quis saber se uma cova tem mesmo sete palmos. Olhei para os lados e não havia ninguém. Então pulei pra dentro de uma cova e comecei a medir com as mãos. A terra vermelha estava muito úmida, cheirava mais a madeira podre do que a terra, uma terra cansada e humilhada. Sim, sete palmos certinho. Os caras são metódicos. Não era papo não. É verdade. Fiquei ali mais um tempo. Em pé na cova a gente vê todo o resto em um ângulo muito parecido com os filmes do Tarantino. A cara muito próxima ao chão. A terra quase sugando nossas narinas. De repente me deu um puta calafrio do caralho, e não consegui sair de lá com a mesma rapidez com que entrei. Tive que enfiar a mão naquela porra de terra barrenta para me impulsionar. Me deu nojo. Cheirei a mão, e ficou impregnado aquele cheiro de madeira podre, sei lá, talvez cadaverina. Me lembrei da cabeça desesperada do bode e do cara enforcado. Um calor louco me esquentou o peito. Foda-se. Estava vivo. Lavei as mãos num tanque onde tiram água pra jogar nos pinheiros das covas. Deve ser oito da manhã. Muito cedo ainda. A lua estava já translúcida no céu, o sol brilha e o alaranjado caótico se enfiou de vez no infernal cinza prateado. Volto com uma vontade louca de falar com a garota que tanto amo. Acho que vou fazer um poema pra ela.
Escrito por Mauro Cassane às 16h24
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