Cores Humanas


Alaranjadas sombras dançantes

Passei um dia incrivelmente letárgico, conclui uns textos e terminei de fazer um discurso por encomenda. Me pagam bem para escrever coisas que algum medalhão vai falar na frente de um monte de gente que se acha importante. É simples. Te dão os tópicos, a mensagem que querem passar, e eu viajo num blá blá blá corporativo que muitas vezes me surpreendo até. Sigo aquela linha agradável e meio enfadonha de auto-ajuda que invariavelmente funciona bem. Daí você mistura umas loucuras no meio, umas viagens nonsense e dá tudo certo. Fica bom pra cacete. No fim os caras aplaudem. E eu ganho assim minha grana. Por sorte, mesmo nos tempos mais agudos da recessão, me virei e me mantive com dignidade e grana. Uma vez, por brincadeira, fiz umas contas e converti tudo que ganhava em dólar e me surpreendi. Eu ganhava mais com meus escritos que um amigo italiano bem empregado em Roma. Puta merda. Que beleza. E aqui no Brasil, nessa terra tropical, cheia de balanço caboclo. Nunca mais fiz essa conta, mas me mantenho feliz desde então. Ficar rico é improvável nesse negócio, também não guardo porra nenhuma, mas também não me privo de quase nada. Sem luxo, mas sempre com alguma luxúria, vou seguindo em frente. E tanta gente fodida por aí. Sou um privilegiado, mas agradeço meus santos protetores que não sei quais são, só sei que me dão uma puta sorte nas coisas. Certa vez uma amiga de minha mãe, dessas que andam pelos centros de umbanda, me disse que tenho um santo danado de forte. Sou um sujeito de sorte então. Viva.

Brincando de escritor não ganho porra nenhuma, como jornalista até que tiro uns trocados, agora como criador de discursos consigo satisfazer meu lado mesquinho e materialista. Porém se não escrevesse essas merdas todas, sem propósito ou coerência, e que não me fazem ganhar um mísero tostão, acho que não conseguiria empregar tesão para redigir discursos. Portanto, e por isso mesmo, as coisas se encaixam. É como o carinho e a trepada. Normalmente o segundo depende do primeiro. O foda é que muitas vezes não estamos afins de fazer carinho em uma mulher, apenas queremos nos satisfazer. Botar o pau bem duro pra fora e mergulha-lo violentamente em uma boceta úmida e bombar freneticamente até gozar e pronto. É o egoísmo mais natural do macho humano. Muito embora, ultimamente, tal desejo também venha sendo indevidamente apropriado por algumas mulheres. Mas não é muito natural às fêmeas. Há uma explicação antropológica para isso também. Não vem ao caso. Quando amo me desvio suavemente de minha natureza selvagem. Eu diria que passo a ser um lobo semi-doméstico. Mas ainda assim um ordinário animal, mantendo seus instintos e amarguras, domando diariamente sua violência predadora. E há os loucos rompantes explosivos com seus uivos e dentadas deixando suas marcas indeléveis. Nem quero falar sobre isso. Bem, eis minhas voltas, e revoltas, com meu amor desesperado.

Vontade de fumar um beck, mas acabou tudo. Então resolvi ir com meu jovem amigo Vince comprar diretamente na fonte. Antes paramos tranqüilamente num bar para ver a hora do rush passar com seus carros parados, nervosos e aquelas caras enfadonhas e iradas lá dentro. É incrível, mas parece um bando de psicopatas prontos para matar o primeiro incauto que passar por eles. E são todos pais exemplares, com suas famílias assépticas. Os filhos os esperam em casa para um jantar bem correto. Porém, em seus invólucros de aço cintilante transmutam-se em sádicos assassinos. É bom vê-los ali, neuróticos, assombrados, apressados e, mesmo assim, fodidamente parados. Por outro lado, eles nos observam bebendo e pensam “bêbados e vagabundos filhos da puta, gentinha de merda”.  É assim, o mundo dos humanos é assim mesmo tanto aqui nessa desesperada São Paulo como lá na bucólica Paris. Tudo igual. Pedimos cerveja e caldo de piranha. O garçom é um gaúcho descaradamente safado metido a galã e incurável contador de casos. Adora quando a gente chega pra desfiar suas incríveis histórias de conquistador. E sempre nos dá uma dose de cachaça de Salinas de graça. Acho que por aturá-lo. Não sei se dá pra acreditar em tudo que ele diz, mas o sujeito nos conta que trepa com duas ou três garotas diferentes por mês. É uma média impressionante, pois ele só contabiliza as diferentes. Ou seja, aquelas com as quais ele trepa mais de uma vez não entra nesta estatística. Então, levando-se em consideração que o cara é casado, eu diria que ele praticamente não pára de processar porra. Trepa diariamente. Que inveja.

Bebemos algumas cervejas, devoramos as suculentas piranhas moídas e pedimos a conta quando duas garotas, uma loira e uma morena, chegaram e, mesmo com o bar vazio, se alojaram na mesa imediatamente ao lado da nossa. A loira, como sempre, com um ar falso e esnobe, nos nota de soslaio. A morena, também como sempre, mais à vontade, com sua boca carnuda e com uma desconcertante e intensa tinta vermelha nos lábios, tratou de sorrir simpaticamente. Tratava-se, na certa, de um sinal universal para uma abordagem de sucesso. A gente avalia em frações de segundos todo o material. O garçom traz o troco. Vince dá seu veredicto:

-         Cara, mulherão heim. Que gostosas. Se ligou nos peitos dessa morena?

Ambas ajeitam suas coisas, botam cigarro na boca, colocam celular de lado, o gaúcho prontamente as serve com fogo. E nós ali, diante de uma bifurcação na noite, um genuíno dilema. Maconha ou uma trepada com dois belos exemplares nitidamente desejosos pelo prazer?

-         Vamobora.



Escrito por Mauro Cassane às 14h40
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continuação...

Sim, não sei explicar ao certo porque eu disse isso. O fato é que ando meio bundão mesmo. Não me interesso muito. Ainda sinto uma dor cortante no peito, uma melancolia descabida e simplesmente não consigo ir em frente com meu lado lobo indômito. Talvez eu esteja na fase de lobo ferido e acuado, mais agressivo do que perigoso. Vince não contestou nem nada. Também estava afins da erva, chamou o gaúcho de lado e deixou seu número de celular com ele pra entregar para elas. E saímos com um gosto especial muito peculiar às mulheres, ou seja, nos fizemos de difíceis. Palhaçada. Elas devem ter deduzido outra coisa. Dois bichas. Isso sim. Seguimos já meio altos, sem muito trânsito, ouvindo The Doors pra fazer a trilha sonora da compra de maconha. Bem rápido tocando pela avenida larga e rica, com seus prédios modernos, e que escondem, lá atrás, espremida, uma favela triste, meio acanhada, abrigada sob alguns viadutos. “É ali, é ali”, fala Vince meio eufórico e um pouco tenso. “Vira, vira à direita naquela ruinha”, me orienta frenética e nervosamente. Doors tocando. Com esse prosaico fundo musical nos enfiamos na ruela arruinada, com seus trágicos casebres apoiados uns aos outros, e todo aquele lixo espalhado pela rua como barreiras desordenadas. Um sofá em chamas conferia um brilho estranho ao local, fazendo com que as sombras dançassem entre as penumbras e os becos. Fomos tocando lentamente, quase parando. É o sinal. Um carro já estava meio parado em nossa frente, indo à velocidade dos passos malandros dos malucos ali, e de repente, arranca. Então é nossa vez. Vince abre o vidro, um jovem maltrapilho, com seus olhos impressionantemente esbugalhados, cara de faminto e uma pequena bolsa atada ao pescoço e presa ao peito, caminha com um jeito ansioso e nervoso ao nosso lado. “O quê heim, o quê?” pergunta com uma entonação para dentro, como se estivesse engolindo a própria língua. Vince bota vinte contos na mão dele e diz “me dá quatro emes”. “Donde ceis são?”, ele diz como se vomitando pra dentro, mas vai tirando da bolsa, com desconfiança e cuidado, pequenos saquinhos de plásticos com a erva cuidadosamente prensada. “A gente é da área”, Vince diz, já guardando o primeiro saquinho. O neguinho se curva mais e olha pra mim. Eu não digo porra nenhuma e o encaro também. É uma favela de merda e pequena. Quando garoto eu jogava bola no meio das grandes e aguerridas favelas da zona leste. Passei a infância escondendo pacotaço de fumo nos canos de merdas e bueiros e enterrando os famigerados “tresoitão” sujos nos terrenos baldios da minha rua. Os traficas ali, mais velhos e bem armados, eram os gurus da garotada. Nossos anjos protetores. Depois cada um seguiu seu caminho, uma porrada de nego morreu e eu, por conta de meu santo forte, sobrevivi. O certo é que estava cagando praquele neguinho tenso e chapado. Enfim, os quatro saquinhos em mãos, saímos como entramos, sem acelerar, sem pressa e com o melancólico “this is the end”, do Doors.

Vince, a despeito de ser quase duas décadas mais novo que eu, sabe fazer algo que nunca aprendi em vinte anos. Ele bola um baseado de maneira habilidosa e honesta, confeccionando um cigarrilho completamente amarrotado e meio torto, mais fumável. E faz isso no carro mesmo. Passamos pelos casarões da vizinhança, com seus seguranças mal-encarados perambulando feito almas penadas, e fomos defumando toda a rua. Minha amiga Sandra mora ali perto e resolvemos dar um oi. Ela é maravilhosa em todos os sentidos, cheira bem e tem a pele tão macia que parece que nossa mão flutua ao acariciá-la. Fumo bom é assim, sufoca a gente com tesão insano. Eis o lobo ferido agora com algumas ataduras e curativos. A noite se prolongou suave, fugaz e doce, parece que as horas se esticam. Lembro que preciso ir cedo aos Correios para tentar saber onde diabos foi parar a encomenda que enviei e nunca chega. Não sou notívago, apenas insone, mas meus sonhos continuam sombrios.        

 



Escrito por Mauro Cassane às 14h39
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Um passeio para ver o cinza brincar com o branco

 Há dias em que a única coisa útil que gostaríamos de fazer seria mandar alguém tomar no cu. Possivelmente o primeiro que se aproximar. Ou o segundo também, que se foda. Invejo as mulheres por diversas razões, mas a principal delas é pela tal TPM. Até nisso elas são mais privilegiadas que nós. Pelo menos elas têm uma explicação científica para a vontade de mandar todos à merda de vez em quando. E essa prerrogativa vem religiosamente todo mês. Que maravilha. Uma vez a cada trinta dias as danadas têm o direito de dar um foda-se a todo mundo. A ficarem putas da vida. Depois chega o castigo divino, a tal cólica que as dobra ao meio e as põem literalmente de joelhos, mas tudo bem, pelo menos extravasaram. Lembro uma vez, quando estava com meu amor, e ela me ligou desesperada, em prantos, por causa dessa porra de cólicas. A gente tinha quebrado o pau no dia anterior, por motivos tão pífios que mal me recordo, e estávamos tecnicamente de mal. Mas ela me liga, me relata aquela dor com sua voz chorosa e cheia de manhas, então fui correndo pra lá. Para ela bastava minha mão quente e pesada flexionando seu ventre. Pra mim era suficiente aquele cheiro cítrico misturado com seda e algodão matinal. Me enlouquecia.

Lembro disso vez por outra. E liguei para ela nesta manhã quente, outra manhã insuportavelmente quente de inverno, e o fone dela permanece fora do ar. Fora do meu ar suponho. Como é difícil falar com ela. Mandei uma encomenda há dias e não chegou. Possivelmente não chegará mais. Essa merda de Correios. Talvez agora a gente tenha que pagar propinas pra coisa funcionar. Enviei um sonoro tomar no cu ao espaço. Xinguei também uma velhinha escrota que dirigia como uma bêbada bem na minha frente. Desliguei o rádio. E acho que me sinto um pouco melhor agora.

O sol ferve às dez da manhã. O ar seco deixa as partículas pesadas flutuando e infestando nossas entranhas, vedando nossos poros, nos sufocando aos poucos. Amo essa São Paulo por me envenenar assim lentamente. De um jeito ou de outro morremos. Então que se dane. Prefiro mesmo morrer aqui do que numa merda de um campo ou interior ou até na praia. Pior ainda morrer fora de meu país. Sou provinciano na morte. Deve ser uma merda morrer como aquele sujeito que tomou vários pipocos dos meganhas londrinos. Fizeram da cabeça do cara uma peneira. Que covardes. Fosse aqui certamente iriam dizer que a polícia brasileira é uma merda. Não que não seja, mas polícia normalmente é merda em qualquer parte do mundo. A gente vai lidando muito tempo com sujeira e osmoticamente acaba fazendo parte dela. É indivisível. Assim é na política, nas empresas e em tudo. Ah, cacete. Por isso que é bom, vez por outra, ficar um pouco de fora de tudo. Olhar de fora. Ser alienado ou tolo. Se ausentar talvez. Ler e cozinhar. Fazer um belo risoto para uma turma de gringos. Isso sim é bom. Ficar de longe. Bem distante. Preciso fazer algo diferente por esses dias. Meu amigo, um insano e pervertido que mora e trabalha comigo, quase duas décadas mais novo que eu, quer que eu vá com ele comprar maconha na favela. Nunca comprei essa porra. Desde os tempos da faculdade me davam de graça. Até cheguei a pensar, por um bom tempo, que isso era uma espécie de cortesia de bons samaritanos. Mas tem que pagar. E pra comprar de playboy cuzão sai caro. O lance é ir lá, na boca mesmo, e pegar ali, que são os atravessadores primários. Sai mais barato e dá mais barato. Então eu vou correr um pouco de risco, brincar de roleta-russa com a lei. Fumar um beck e beber vinho me traz recordações doces de meu amor. Certa vez ela me deixou plantado na frente do prédio dela por horas sob um puta frio cortante porque resolveu dar uns pegas com amigos antes de voltar pra casa. Que adorável filha da puta. Mas quando estava louca transava tão deliciosamente, com um tesão quase desesperador, que nem dava para eu ficar discutindo por muito tempo.

O calor me torra os cornos. Desci para a praia. Dizem que paulistanos não têm praia. Bem, e quem as tem? Construíram uma baita estrada que liga Sampa a Santos numa reta só morro abaixo. Não gasta nem gasolina, basta jogar na banguela e fruuummm, desce direto até quase meter as rodas na areia. No meio da semana, o trampo em ordem, lá vou eu, sozinho, ouvindo Stone Temple Pilots e curtindo um pouco do visual serrano. É sempre bonito. Quarenta minutos de som e sonhos, e pronto. Praia. Mais calor ainda, mas lá tem a brisa que vem da África, que mais parece um arroto fresco com gosto de salitre. Não importa. Dá uma boa sensação. Duas da tarde, ninguém na areia, resolvi caminhar um pouco sem camisa para dar uma de vagabundo gostoso. Me exibir ao sol para as poucas pervertidas que não fazem porra nenhuma e ficam ali disfarçando mas querendo mesmo é um macho que as coma. Havia umas garotas por lá. Umas jogavam vôlei, e gostosas de verdade. E outras caminhando também. Elas nos olham, a gente repara naquelas bundas e peitos bronzeados. E assim vai. Uma mulher com uma cara desastrosa, mas um corpo tenro e firme, curvilíneo, quase me parou para fazermos algo ali mesmo. Puxou assunto, falando do verão fora de época e outras tolices. Não me lembro bem. Feia demais. Mas nem estava interessado em trepar, nem nada. Apenas espairecer um pouco. Lembrar de coisas, pensar em nada, ou pensar nela. Odeio quando estou pensando na garota que amo e aparece alguém. Me dá um ódio ácido imaginar que quem eu quero está “bem longe, longe de mim”. E quem não quero me contempla como urubu sobrevoando carniça. Segui sozinho por mais umas duas horas, me deu fome e sede. Parei um pouco para olhar o horizonte debruçado no fim da arrebentação. Um azul intenso descia perdendo cor até mergulhar no mar cinza salpicado com branco desordenado. Aquela brisa africana nos enche de negritude e nos sentimos mais humanos. Me deu tesão. Pensei de novo na deslumbrante bunda daquela bruxa horrorosa que me abordou. Até que seria uma boa foda com ela de quatro, sem olhar aquela cara miserável. Mas ainda me mantenho um monge punheteiro. Ainda amo com insana demasia.       



Escrito por Mauro Cassane às 11h06
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As nuances do verde

Muitas vezes perdemos a noção da realidade. E isso acontece com todo mundo. Desde criança somos assim. Criamos um mundo paralelo, irreal, e gostamos dele, mesmo nos assombrando com os monstros que normalmente o habitam. Fico imaginando se as crianças tivessem a capacidade para a escrita, um pouco mais de discernimento, puta merda, elas criariam loucas histórias. Me esforço muito para alcançar o nível abstrato e lúdico de uma criança, mas é difícil pra caralho. Penso que os grandes escritores conseguiram, ainda que por alguns instantes, essa proeza. Nem criatividade, nem inspiração, nem estilo, nem porra nenhuma diferencia um bom escritor de um medíocre a não ser sua capacidade de escrever como adulto, mas com a cabeça explosiva e infame de uma criança. Machado de Assis fazia maravilhas com esse recurso, Kafka o levou ao paroxismo e Bukowisck resolveu tirar as amarras e censuras e mergulhou também no extraordinário e secreto vocábulo infantil. Só estou mencionando alguns, mas foram muitos imortais das letras que conseguiram isso. Estou tentando, estou tentando.

O calor nos afeta os miolos, por isso os caras acima do Equador pensam melhor. Até Santos Dumond para chegar a seu grande invento correu lá pra cima, pois aqui não faria nada além de um papagaio com varetas. O frio mantém as idéias frescas, o calor pulveriza tudo, transforma tudo em merda, deixa muita sujeira e podridão em nossas cabeças. Por isso criamos essas coisas sem qualquer valor. Minha única vontade de passar um tempo na Europa é por conta do frio. Ficaria lá durante o inverno. Depois me mandaria para cá, para esse calor invernal. Verão mesmo, só um mês, pra ver garotas deliciosas com suas ebulições libidinosas e tudo mais, e pronto. Já está muito bom. Acho que mulheres entram no cio no Verão. Há uma explicação antropológica para isso. Na verdade há explicação antropológica para tudo de bom e ruim que acontece no mundo. Você sempre sabe o que fazer, mas continua errando muito mais do que acertando. Essa é a vida. Erramos sempre. E sabemos disso. Nem somos tão burros assim, erramos porque somos espertos demais.

Esse é o preço que a humanidade paga por ser intelectualmente tão superior aos demais seres vivos. Se bem que há exceções. Na verdade, pensando bem, há muitas exceções por aí. Mas há uma grande vantagem de ser idiota. Quanto mais tolo mais feliz é o sujeito. Um idiota completo é um feliz por inteiro. E esses caras sempre se dão bem, têm mais sorte, fazem mais amigos, transam com mais mulheres e normalmente se tornam mais ricos. Invariavelmente, e isso nunca consegui entender, revelam-se hábeis políticos. Por castigo divino, ou sei lá porque porra de mistério, nós, os normais, os pensantes, escolhemos eles como líderes. Nem se trata de chaga de país pobre, como muitos devem imaginar, é algo inerente à humanidade mesmo. Os maiores boçais mandam nos países mais ricos. 

Comecei a falar das crianças porque hoje brinquei de faz de conta. Então liguei para a garota que amo, conversei com ela, coloquei o celular perto do alto falando do carro, e deixei tocar uma canção linda só para ela ouvir. Ela sempre é monossilábica comigo, mas ainda assim, é doce. Se é uma coisa que nunca deixei de fazer é me iludir com fantasias oníricas. Eu a beijo todos os dias sem nunca tocar seus lábios, e sinto sua pele de pêssego roçando em mim, seus peitos, suas mãos, e sua boca cuja saliva mistura hortelã com uvas e me enlouquece. Sinto tudo isso o tempo todo. Uma vez li as linhas daquelas mãos insanas, quase brutais, mas leves feito plumas, e percorri em frações de segundos seu mundo, me imiscui nele, invadi aquele ser por todos os seus poros, brinquei com seus sonhos mais delinquentes. Apenas numa brevidade ínfima do tempo, só para me tornar sábio e eterno. É assim que me sinto ao lado dela, mesmo de mentirinha. Quando não sinto o cítrico perfume de sua pele, nem me esforço para imaginá-lo flutuando por onde passo. Eis então eu, supremo órfão do mundo, imerso em mim mesmo como um deus-criança. Talvez os grandes da literatura tiveram também um ser assim como ela. A chamavam de musa. Então eu a classifico também desta maneira. Não há outra melhor. Ela é minha musa mesmo. Com certeza ela é bem melhor que as musas dos grandes poetas, eu é que não sou tão bom quanto eles. Me sinto criança só de pensar nela. Que grande e inebriante alegria. Converso com ela todos os dias, até porque ela nunca fala comigo.

Tudo isso pode parecer um simples e pueril jogo de palavras, mas não é bem assim. Eu converso com ela sim, mas ela não fala mesmo comigo. O que posso fazer senão brincar de faz de conta? É esse o grande lance que procuramos. Brincar. Tive um sonho onde tudo parecia densamente verde. Não sei bem o significado disso. Mas era demasiadamente esverdeado. Céu, mar, plantas, chão, casas. Apenas alteravam as tonalidades ora claras demais, quase translúcidas, ora densas e pesadas, perto do negro. Mas tudo verde. E ali estava ela, com sua pele com um verde em bronze, sua boca suavizada com um verde castanho e aqueles melancólicos olhos de esmeralda. Ela cintilava radiante sobre um delgado unicórnio cuja pelagem verde lembrava o sol poente. Nada me disse. Quase nunca me diz nada. Nem mesmo em meus sonhos. No entanto, ao chegar bem próximo a mim, já caminhando como se desfilasse em passarela, com aquele balanço cheio de pecado e languidez, me lançou um saboroso sorriso que me intoxica a alma. Acordei com um puta tesão ordinário. E passei toda manhã de hoje tentando conferir mais coerência a meus atos. Acho que não devo mais fumar baseado quando perco o sono. Talvez seja melhor ficar só com uma taça de vinho mesmo.      



Escrito por Mauro Cassane às 15h13
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Lâmina prateada

A pior coisa de uma segunda-feira é imaginar a garota que a gente ama transando com outro sujeito. Passei por isso hoje e, devo admitir, é mesmo uma grande merda. Não tenho nada contra segundas-feiras. São dias comuns e amanhecem como os outros, com apenas uma diferença, comparando com o dia anterior, é um dia corporativamente útil. Quer dizer, trabalhamos. Mas hoje faço o que gosto, então foda-se, não tenho porque me irritar com esse dia. A grande sacanagem, para mim que acredito em datas especiais e tudo mais, é que penso que sempre às segundas-feiras coisas novas se iniciam em nossas vidas. Não sei exatamente como explicar, mas é um reinício. Algo como um ano novo, ou coisa do gênero. Então, nesse dia meio metafísico, me sinto mais sensível. Para ser franco, tentando não ser tão piegas, me torno um pouco mais imbecil mesmo. Se bem que tenho a seguinte teoria: sempre, em alguma determinada hora, ou dia, ou mês ou até por um bom período de nossas vidas, somos completamente idiotas. Compartilho com a máxima de Paulo Freire, “ame e de vexame”. Virou até um best seller que não li, mas a frase, por si só, já diz tudo. Estou começando a pegar um puta ranço de amor, principalmente porque hoje, nesta ensolarada segunda-feira de inverno de araque dos trópicos, com calor úmido e insuportável, imaginei a garota que amo toda nua, suada, e desejosa, entesada, numa puta cena de foda com um filho da puta. Ah, que merda.

Você precisa ser um pouco boçal para tentar tocar em frente essa porra de vida. Parece que sempre há alguma coisa faminta pronta para te devorar as tripas e vai te comendo ao contrário, de dentro para fora, consumindo primeiro sua alma, cuja dor não sei descrever, mas depois vai mordendo suas entranhas, tripas, vísceras até mastigar ferozmente seu coração. E depois vomita tudo bem na sua frente, só para você ainda conseguir se ver triturado e fedorento. Por isso hoje resolvi caminhar sem destino. Me dei algumas horas de ócio e sai por aí. Me faz bem vagabundear enquanto as pessoas trabalham, me sinto vitorioso. Eu trabalhei pra cacete por longos 16 anos em empresas, cumprindo esses horários que nos envenenavam, com medo do relógio o tempo todo. Mandei tudo à merda e agora me sinto bem melhor. Mas também fui eu à merda nessa guinada. Toda essa mudança custou caro. Perdi a garota que tanto amei. Cacete, estou falando nela de novo. Já tive um pensamento com ela que mais me pareceu um pesadelo e agora volto nela, naquele olhar doce, naquela voz macia e aveludada. Então caminhei sem pressa sob um calor destemperado de inverno. Os relógios digitais marcavam 33 graus. Isso é o bucólico e charmoso inverno do terceiro mundo. Fui até a livraria e comprei meu primeiro livro do Burroughs. Há tempos andei atrás de “Almoço Nu”, mas não se acha em lugar algum. Então achei esse, “Junky”, e comprei. Já comecei a ler hoje mesmo. Sempre quis ter uma obra desse velho alucinado. Agora tenho. É bom ter algo que você deseja intensamente. Agora estou escrevendo, mas não vou fazer mais porra nenhuma de útil hoje. Antes de caminhar enxuguei algumas lágrimas que marcavam meu rosto como se fosse uma lâmina prateada. Vou tomar vinho a noite e fumar um baseado. Na solidão a gente faz essas coisas também. Tenho ambos guardados em meu apartamento que está uma verdadeira pocilga. Por isso vou mudar de lá. Não que eu seja um desmantelado, tampouco faço o gênero, como muitos músicos e poetas que adoram se passar por relapsos e essas merdas. É verdade, os caras gostam de fazer tipo e tudo mais. É até engraçado. Conheço essas espécimes. Se fazem de desleixados, bebem pra cacete e se fazem de louco. Uns babacas filhinhos de papai. Eu sempre trabalhei, pago minhas contas, odeio bagunça, gosto de tomar banho, bebo moderadamente e fumo um beck de vez em quando. Tudo muito normal. Sou o sujeito mais tolo e normal deste planeta de artistas. Até choro, como chorei hoje. Vou mudar para ficar numa casa mesmo. Odeio apartamentos.

Há uma escola de música aqui perto, nesta parte mais burguesa da periférica zona leste. O sol está quente demais, e fecho a janela, mas a música penetra pelas frestas. É violino, com seus acordes chorosos, dramáticos e inebriantes. Seja lá quem for que está tocando, o faz à perfeição. Música mexe comigo. E penso que mexe com qualquer humano, até mesmo com plantas e animais. É algo mágico. Divino mesmo. O homem só pode ter criado os instrumentos com ajuda divina. Eu diria que foi, pelo menos na minha concepção, o mais genial invento da humanidade. Sim, em épocas e lugares diferentes, os homens criaram os instrumentos musicais. Nada supera a beleza suprema da música e sua democrática abrangência mundial. Posso dizer que esse sujeitinho está tocando Mozart agora. Mas minha erudição não chega além disso, não poderia dizer que obra é essa. Só sei que é de arrepiar. E ouvindo essa porra, penso novamente no meu amor, sinto um pouco de ânsia, e uma vontade desmedida de manda-la à merda e esbofeteá-la com toda minha fúria. Mas se eu a encontrasse agora, ah seu a visse na esquina, a beijaria com violência feroz, me ataria a ela com impetuosidade, e a sufocaria até a morte em meu peito. Mentira. Se ela morre, morro também. Mais uma mentira. Se ela morre, eu a trago de volta. Ah, que merda. Ela nunca vai morrer pra mim. 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Mauro Cassane às 16h04
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