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Um domingo opaco e cinza com suas revelações
Ela me disse, assim, na cara, de maneira peremptória, “não te amo”. Minha reação foi estranha, e surpreendente pra mim. Apenas continuei respirando, não houve sobressalto em meu peito, o sangue continuou a ser bombeado pelo coração. Para não dar margem para alguma dúvida ou, quem sabe, com o propósito de aniquilar qualquer esperança, também acrescentou, “não estou apaixonada por você”. Muito bem. E concluiu: “se tivesse eu estaria contigo. Largaria tudo e ficaria contigo”. Ah, agora sim, ficou todo claro. Medi meu pulso, embora não saiba exatamente como se faz isso, mas peguei a porra do pulso e senti que continuava um sistemático tum tum tum tum. Foda-se. Tudo bem. Continuei vivo a despeito desse petardo contra meu coração. É, porque, afinal de contas, eu havia feito a ela uma declaração de amor. Meio velada, diga-se, mas o fiz de qualquer jeito. Escrevi uma carta. Só sei abordar meus sentimentos assim, meio bestamente, pelas palavras emergidas de nossas entranhas, seguradas bem no alto e despencadas na folha em branco. Mas ela foi mais simples, sem nenhuma retórica, sem meias-palavras, nem substantivos, poucos verbos, nada de superlativos, ou rodeios. Um curto e definitivo “não te amo”. Curioso isso. Dizer “não te amo” é mais fácil do que “eu te amo”. Oras, claro, e bem simples até, pois não amar é mais comum que amar. E a gente nem sai por ai amando todo mundo. É diferente de trepar.
Então fiquei em silêncio, não sei ao certo o que respondi. Acho que não importava também. Quando a gente não é amado e, estupidamente, ama, o melhor a fazer diante dessas coisas é se enfiar em sua própria concha e ficar calado. Botar o rabo entre as pernas e sair. Não me lembro mesmo se disse algo a ela naquele trágico momento. Tentei até pensar a respeito sobre o que cacete eu respondi pra ela. Mas, pra ser sincero, acho mesmo que fiquei quieto. Talvez pensei em algo, ou a xinguei, ou expressei um sonoro e interno “porra” em minha mente naquela hora infeliz. Não lembro de nada agora. Ah, ela me disse também, “fique bem”. Elas sempre fazem isso quando não amam a gente. E nunca ficamos bem. Mas elas dizem mesmo assim pra demonstrar alguma compaixão. Como que pedindo perdão por não nos amar. Meio bobo isso. Ninguém tem culpa de não amar. Mas Tânia, uma morena fabulosa me ligou. Ela também não me ama. Nem nunca vou eu amá-la. Ela quer trepar apenas. Tem uma bunda linda e é uma ninfomaníaca contumaz e assumida. Me disse que transou com um cara que conheceu na balada. Adora me contar essas porras porque sabe que gosto de ouvir e que me excita. Às vezes acho que ela inventa tudo isso. Não é possível um ser humano trepar tanto assim. Um dia me disse que estava sem grana e pensou até em ganhar uns trocos fazendo a vida por aí, nesses lugares chiques, com uns gringos. Ela até que ganharia uma nota boa nesse negócio. Mas eu a desencorajei. Ela, definitivamente, não leva jeito pra coisa pois gosta de foder por prazer. “Eu gosto dum caralho que vou gozar e vou ficar sem jeito de cobrar”. Ela é assim mesmo. Passamos a noite de sexta e o dia inteiro do sábado até parte do domingo juntos. A danada cheira bem até suando e não pensa em outra coisa senão em trepar e, pra variar, comer alguma coisa e beber. Goza fácil e parece uma máquina de criar e realizar fantasias sexuais. Para ela basta isso. Passeamos pelo Ibirapuera no domingo cedo. Fazia um frio desanimador e havia um tom opaco e cinza sobre o lago. Mas ela me animou e se exibia com sua roupa colada e toda tesuda com seus peitos empinados e convidativos. Ela gosta de malhar, é musculosa como uma potranca e adora ser notada por homens e mulheres. Corremos um pouco, depois paramos em um lugar mais isolado, e ensolarado, e falamos de cinema. Ela não entende merda alguma de filmes, mas vai religiosamente às salas mais cults de Sampa pra flertar. "Tenho tesão por tipos intelectuais", ela me diz com aquele sorriso insinuante. "Mas você nem cara de intelectual tem. Parece mesmo um puto". Ainda bem. Agora de música ela gosta e se anima. Principalmente essas merdas de tango, salsa e outros tipos latinos. Dá aula de dança flamenga numa academia na zona sul e me conta as loucas sacanagens que rola naquele ambiente tão saudável e burguês. Bem, tomamos água de coco juntos, que nem casal de verdade, e ela me diz “eu nunca namoraria com você, nem me imagino te amando, você tem um jeito doce mas uma puta cara de sacana”. Porra, mais uma vez. Acho que desperto uma irrefreável repulsa nas mulheres em se tratando de amor. Mas, desta vez, me senti muito bem. E também me surpreendi, imediatamente levei a mão ao pulso, e tudo continuava inapelavelmente normal. O mesmo tum tum tum. Que merda. Sou um sujeito bestial e insensível. Pensei que fosse um romântico.
Escrito por Mauro Cassane às 18h12
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Uma nuvem avermelhada cagou em minha cabeça
A insônia tem seu lado bom, nos põe a pensar. A mim, posso ser franco, não me desespera nunca não dormir. Adoro ler Kafka nas madrugadas. Nessas, mais frias e com a sonoridade uivante dos ventos que sopram feito um lamento pelas frestas, mergulho no livro “Diários” e me sinto invadindo aquela personalidade arredia e triste. Puxo sonos intermitentes, sem preocupações ou neurose, e muitas vezes sonho com uma garota maravilhosa. Antigamente eu me punha louco por não dormir, e me irritava com meus pensamentos notívagos. Algumas histórias ficavam me assombrando, flutuando sobre minha cabeça feito encosto ruim. Mas até que eram interessantes. Escrevi algumas em papéis, mas perdi tudo. Naquela época queria mesmo dormir pois tinha que acordar cedo para seguir em frente com uma merda de vida corporativa numa empresa. Tempos ruins. Ganhava um bom dinheiro mas me custava caro demais à alma. Minha salvação, naqueles anos imundos, era meu coração, perdidamente apaixonado e, em troca, recebia também uma razoável dose de amor. Eis meus bons momentos fugazes feito estrela cadente. Agora ganho bem pouco, mas a gente sobrevive sempre. Me sinto gostosamente vagabundo, curto minha insônia, pratico minha solitária filosofia peripatética mas não desfruto mais do amor que antes me dava tanta alegria. Tudo tem seu preço nessa porra de vida. Não concordo com isso, mas é assim que são as coisas.
Eu dormia junto com ela, e sempre acordava com tesão. Bolinava seus seios, e ela resmungava um bocado. Mas era bom. A gente nunca saia da cama sem transar. Bons tempos com meu verdadeiro amor. Sempre acordo pela manhã. A insônia brinca comigo na madrugada, mas me deixa pregar os olhos antes do dia raiar. É sempre assim. Nunca vejo o sol nascer. E acordo sempre cedo, com o sol já ali, despontando, um show laranja e cinza, sendo que o cinza fica por conta das partículas paulistanas. Mas gosto disso também. Foda-se. Odiaria tudo muito puro. Me irrita coisas demasiadamente puras ou assépticas demais. Por isso não me sentiria bem num país europeu. Tudo lá é muito ordeiro. Os caras ficam loucos em Amsterdã e esbarram em ti e só faltam pedir desculpas de joelhos. Têm medo das regras. Na França neguinho vai cagar em banheiros de bar e tem um treco que limpa o assento depois que o cara levanta. Não me acostumo com isso. Mas também não suporto a asquerosidade e decrepitude de certos rincões subdesenvolvidos. Fico com o meio termo tropical de São Paulo. Na zona leste mesmo, periferia suburbana, com toda sua gente alucinada e ruidosa. Meio termo, eis minha noção crua de sobrevivência.
Essa manhã então, seguindo minha rotina vadia, fui caminhar para manter a forma. Agora me preocupo com isso. Quando a gente chega aos 40 anos bate essas coisas de querer se sentir mais atraente para competir com os garotos. Não tenho muita certeza se é isso mesmo. Na verdade caminho porque gosto de pensar e fujo dos parques e ruas, até porque na zona leste não tem nada disso, então sigo andando pelas alamedas do cemitério público pisoteando flores murchas numa maluca profusão de cores vivas e mortas. Todos os dias eles amontoam tudo, coroas, flores, faixas, pedaços de caixões desenterrados, e fazem uma montanha desse lixo e queimam. Brinco com minha imaginação, com aquela fumaça avermelhada flutuando por ali, como se fosse um bando de fantasmas dançando e rindo de tudo aquilo e cagando em minha cabeça. Só na minha mesmo, pois sou o único anormal que caminha naquelas ruas. Outros estão ali, mas são coveiros esfarrapados ou vagabundos que dormem abrigados pelos muros repletos de caixinhas com nomes e velas derretidas. Mas os fantasmas não cagam na cabeça deles, eles já estão devidamente imersos na própria merda. Cagam em mim.
Não me importo com nada disso. Me sinto em forma e cada vez mais vivo caminhando entre os mortos. Tem aquela história meio idiota, “em terra de cego quem tem um olho é rei”, pois é, no cemitério sou eu o vivo, sou o rei de todos, o cara mais vivo dali. Fico até com vontade de zombar deles todos, mas um dia também vou morrer e vão me enfiar naquela porra de lugar. Bem, estou vivo. Vou em frente e os urubus fazem seus pousos desengonçados para degustar um gato morto atirado ali. Queria ouvir um canto de urubu. Será que tem? Sempre penso nisso. Quase toda ave tem seu grito, seu canto, e os negros urubus são silenciosos demais. Devem ter vergonha. Eu também já senti vergonha, mas a minha foi diferente, eu amei com muita força e depois me envergonhei disso. Por isso deixei de cantar. Não vejo a hora de chegar mais uma madrugada para invadir um pouco mais a privacidade de Kafka.
Escrito por Mauro Cassane às 13h38
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Triste amarelo tigrado
Eles se conheceram no escritório. Ele entrou logo depois dela, ambos eram recém-admitidos. Mary não gostava muito daquele trabalho, na verdade odiava, mas estava ali apenas para fazer algum dinheiro para realizar alguns de seus sonhos. Quem a indicou foi o homem com o qual ela vivia uma parte de seu tempo. Parecia ser amor. Era um bom homem mas em franco processo de mudanças com problemas demais, confusões por toda parte, e Mary andava cheia disso tudo. Ninguém tem paciência para problemas alheios. Esse homem buscava uma saída sensata para um casamento em frangalhos, tinha filhos, e agora iniciava um processo moroso de separação. Não era exatamente o momento mais adequado para amar, mas o coração parece ser um órgão independente em se tratando desses assuntos.
Enquanto juntos, Mary o amava loucamente. Ambos viajavam, passeavam e tudo mais. Parecia algo tão absolutamente próximo da perfeição que a única coisa que os afetava era os tais problemas. Viviam um sonho que, aparentemente, lutavam para tornar realidade. Porém, separados, enquanto ele buscava um equilíbrio para levar uma nova vida ao lado dela, ela seguia com sua vida entre festas e a arte de conhecer novas pessoas, preferencialmente homens. Não exatamente com objetivos de conquista ou sexuais, mas gostava sempre de aumentar seu ciclo de amigos. Em pouco tempo de emprego novo, conheceu Leo, um jovem meio tacanho, extremamente falante, e versado na arte de conquistar garotas. Leo era noivo, mas não dispensava um olhar insinuante, não deixava de lado um corpo feminino de primorosos contornos. Leo e Mary, quase de frente um para o outro, nada diziam em palavras audíveis durante o expediente, apenas trocavam mensagens pelo mágico recurso da informática. O tal msn. E ali, por esse meio, a conversa era sempre quente, fluía solta, dia após dia.
Mas Mary amava o tal homem que a ela arrumou o trabalho. Sim, o amava sem sombra de dúvida. Sua diferença era que, em todo tempo, sempre teve que dividir as delícias da paixão com os problemas inerentes a uma separação. Não suportava mais aquilo. Tinha raiva até. Se imaginava amante, a mulher-estepe, e nem parava para refletir o quanto ele a amava. Se encontravam sempre, se amavam, mas, por conta de todas essas encanações, ela já começava a esfriar com esse homem. E, na mesma proporção, a esquentar seus diálogos com Leo, apenas, naturalmente, nas conversas virtuais. Um dia saíram. Leo a levou a um bar no meio da semana. Beberam um bocado e, em apenas uma hora de prosa desinteressante, se beijaram. Era a senha para saírem outras tantas vezes. Agora não mais com qualquer desculpa de bar, apenas saiam para um quarto de motel. Leo nem pensava em largar sua noiva, tampouco Mary imaginava amá-lo, e ainda por cima, amava, mesmo que já com alguma frieza, seu homem complicado que, por sinal, a amava mais profundamente a cada dia. Porém, naturalmente, sequer imaginava desse caso entre Mary e Leo. Assim os dias passaram.
Certo dia, também nesse tal msn, Leo convidou Mary para um encontro diferente. Queria realizar uma fantasia e a convidou para ir com ele a uma casa de swing, esses bares onde os casais sentem prazer em fazer trocas. Leo certamente não levaria sua noiva, mas não via problema em levar Mary. Ele não disse isso a ela, ao contrário, elencou uma série de motivos sensuais para ambos irem ao tal bar. Mary ficou com vontade de ir, ficou excitada com a idéia e chegou até a pensar em seu homem complicado. Conversaram por horas em cima dessa fantasia, e Leo a tentando, usando de todos os seus recursos de convencimento para levá-la à tal casa. Ela já estava cedendo mas o telefone tocou. Era César. Um velho amigo, antigo caso, que algumas vezes saira com ela no passado, e que ligava agora para convidá-la para jantar. Mary ficou indecisa. César ou Leo? Ambos a ela eram sujeitos interessantes. Falou a praticidade. Embora estivesse excitada para conhecer o tal lugar de swing, preferiu rever um antigo amante. Dispensou Leo com uma desculpa de que outro dia iriam. Mas César, por uma complicação profissional, não pode aparecer naquela noite. Mary ficou sozinha e então ligou para seu homem complicado que, prontamente, a levou para jantar. Não sem antes parar em uma floricultura e comprar um singelo buquê de flores amarelas tigradas com vermelho. Ele a amava. Mas era um homem demasiadamente complicado.
Escrito por Mauro Cassane às 14h40
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Ocre promíscua e divina
As coisas sempre se ajeitam. Muitas vezes não da forma como a gente quer. E é aquela merda. Dizem que é o destino. Eu gostaria de acreditar no destino, mas briguei com ele e me sinto mal. Tenho saudade ainda, e trago isso no peito, essa coisa nostálgica, sensação dormente ora doce ora amarga, que parece banal aos olhos dos outros, mas é tão fodidamente dolorido pra mim. O ser humano é assim mesmo. Ninguém se importa com as dores dos outros, fingem apenas se importar. Acho que estou me endurecendo, talvez seja essa falta de amor. Mas já fui muito amado. Aproveitei isso naquela ocasião. Agora não sei mais e estou começando a não me importar também. A promiscuidade nos ronda, fica nos olhando, flertando com nossas sensações, espreitando maliciosamente. Por um tempo morei em duas casas. Queria abandonar um casamento fatigado, mas havia os filhos. E me dividi em pai e solteiro. Uma dualidade sem qualquer juízo ou praticidade. Me senti um afogado na areia. Um alienígena. Não era casado, nem nada, pois não desfrutava da vida de casado. Minha mulher, que passou a ser ex mulher, estava saindo com outro homem. E eu buscava um meio de marcar presença com meus filhos a despeito de minhas ausências.
Nada se ajeitou. Piorou tudo. Fiz tudo errado imaginando acertar. Não sei como fazer para ser amigo de ex mulher. Talvez fosse melhor não ser, como todo mundo não é. Pois bem, em casa era o pai descasado. Fora dela, vivia num apartamento no meio da maior zona de badalação de São Paulo. Odiava ali. Aquela gente toda me irritava, aquele trânsito fora de hora, aquele barulho e a merda de toda aquela gente fedia demais. Sempre me imaginei solteiro. E nunca fui solteiro na prática. Então resolvi desfrutar disso por um tempo. Mas fiz uma avaliação equivocada. Sai com algumas garotas e não senti nada além de tesão. Assim mesmo. Mas me disseram que era bom. Porra, fui lá, não é difícil nem nada, basta estar ali, marcar presença, definir seu território, coisa de macho, e pegar uma garota. Meio estúpido isso tudo. Fiz algumas vezes agora, nesta vida de recém-solteiro maduro, quase velho. Sim, porque quando a gente faz quarenta anos, por mais que você se sinta bem, você já está morrendo. Me sinto bem, mas estou morrendo. É verdade. Entretanto passei pelos dez, vinte e trinta anos e sobrevivi. Então já sou um vencedor. Não morri ainda. Muitos se fodem e morrem. Deve ser uma merda morrer antes dos quarenta anos. Sei lá, deve ser uma merda morrer depois também. No fim o bom mesmo é viver. É o que conhecemos. Depois pouco importa. Se vai ser bom ou ruim, ninguém sabe ao certo. O melhor mesmo é ficar com o que temos em mãos. Já pensei uma vez em me matar, nessa coisa de suicídio, mas tenho vergonha de morrer. Não sei porque, não tenho medo, e sim vergonha. Desde criança acho ridículo gente metida dentro de caixão com coroas de flores e gente chorando ao redor. Um vexame mesmo.
Bem, mas não estava falando disso. O lance era essa porra de promiscuidade que ronda a gente e fica piscando, mexendo com nossa vida quando estamos solitários. Lá fui eu, solteiro, me sentindo abandonado, pecar um pouco. Sai com uma garota estranha. Uma jovem, acho que 23 anos, loira e modelo frustrada. Vivia com um cara, tinha um filho e fazia eventos. Conheci num sebo imenso no centro de São Paulo. Estava lá, com sua calça bem justa, cintura baixa, barriga à mostra, um corpo desconcertantemente insinuante e buscava um livro do Machado de Assis para não boiar na prova de vestibular. Puxou assunto do nada, me perguntou se conhecia a obra. Nem lembro qual era. Acho que “Esaú e Jacó”. Pra ser franco também não lembro o que disse a ela, mas no fim, conversamos um pouco e ela me deu o número do celular. Liguei muito tempo depois, numa dessas tardes desesperadoras e solitárias que a gente fica com vontade de se masturbar mas sabe que será frustrante. Ela demonstrou felicidade por receber minha ligação. Saímos. Que corpo maravilhoso. Gozava com certa facilidade e isso sempre deixa o homem se sentindo mais macho. Me pareceu meio ninfomaníaca. Me senti mal depois, me pareceu desonesto com ela pois a criatura ficou me falando que eu a tocava de forma diferente e isso e aquilo e ficou me fazendo carinho. Me deu raiva. Puta merda. Era linda a moça. E eu querendo fugir dali, sair correndo.
Que diabos eu queria então. Mudei do apartamento. Fui para um sobrado com dois quartos grandes na parte de cima. Vamos morar lá eu e um amigo jornalista. A loira me ligou diversas vezes, me escreveu e eu disse pra ela que não consigo sair com mulher casada. É mentira deslavada. Quando meu casamento estava à deriva, beirando o colapso, eu saia com garotas sem qualquer pudor. Casadas ou não. Na verdade preferia as casadas, pois suas limitações me permitiam total liberdade de ação. Agora como solteiro refuto a puta da promiscuidade que se oferece inteira pra mim. Queria voltar a ter prazer no sexo fortuito, apenas pela banalidade de transar sem nenhuma forma de paixão. Mas não consigo mais. Acho que preciso antes destroçar algo que me aflige, que por ora me machuca, me deixa no chão, que é um amor absurdo. Ele me torna um brocha e me idiotiza. É assim que o amor faz com a gente quando não é recíproco. Por isso vou me embrutecendo aos poucos e aquele olhar insinuante da promiscuidade investe contra mim, com suas temíveis sensações cromáticas entre o ocre e o bege, cheiro de ferro com madeira. Ontem estive em um desses submersos lugares onde putas dançam no fim do expediente delas. As putas são os seres mais humanos e sinceros deste planeta. Uma me lançou um olhar incrivelmente doce, mas ela cobrava caro demais. Voltei ouvindo Nina Simone com sua voz negra penetrando em meus poros úmidos e cansados.
Escrito por Mauro Cassane às 10h35
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