Verde esmeralda
Depois de ler Paris é uma festa, imaginei que Hemingway pudesse estar mesmo certo e me mandei pra lá pra conhecer essa cidade ícone que sempre causou inveja aos americanos, e encantou Hitler e um bando de outros conquistadores e sucumbiu a quase todos eles, como uma Geni, aquela Geni que o Chico Buarque criou. Paris não é só uma festa, é também uma grande puta linda que seduziu seus conquistadores para preservar sua beleza velha com suas sedosas rugas triste e cicatrizes reluzentes e coloridas. Vejo o Sena lá embaixo, um pálido anfitrião indiferente, há um fantasmagórico odor de sangue, e imagino que é a veia aorta dessa cidade que os poetas tanto iluminaram com prosa e verso enquanto caminho por sua margem pela madrugada me guiando pela luz de verdade que vem da torre. Cheguei à cidade já bem noite, peguei um ônibus asséptico no aeroporto e me esparramei no hotel barato mais próximo da torre, mas nem fui pra lá, apenas a vi iluminada e resolvi caminhar. O metrô passa sobre minha cabeça quase o tempo todo, e nunca o vejo se enfiar no queijo suiço que dizem que é o solo de Paris, fica muito tempo me azucrinando na cabeça, e vejo muita bosta de cães por toda parte.
Queria ir a um desses cancans, bem brega mesmo, coisa como ir a Buenos Aires e ver a porcaria do tango, ou ao Rio pra ver uma ensebada e fedorenta casa de samba. Acho legal essas coisas. Em minha cidade suja e burra a gente não tem nada e copia tudo e que se danem. Gosto dela assim mesmo. O Sena é todo limpo, mas tem ratos saltitantes entre suas paredes esverdeadas, a lua joga uma luz brilhante sobre seu leito, mas me parece triste e cansada também. Passo pela ponte dos miseráveis, que ponte linda e cheia de rococó, e a atravesso só pra sentir como é atravessar a ponte dos miseráveis onde os franceses morriam tudo de lepra e outras pragas dos tempos das vísceras e sujeiras. E a torre ta ali, cheia de si, iluminada lá longe e assim não me perco, basta sempre olhar pro alto. Então me detenho um pouco em frente a um bar numa esquina, e tem um velhinho gentil na porta impecavelmente vestido de garçon que me faz referências gentis e me convida a entrar e entro pra beber algo nesse outono com sabor de primavera. O bar estava bem vazio mesmo, certamente não era da moda, e eu nem saberia onde encontrar as coisas da moda em Paris, as tais festas e essas baboseiras todas, já que não conhecia ninguém lá e tampouco sou uma linda garota pra ter alguém sempre pronto a me receber de braços abertos. Mas no balcão vi dois olhos de esmeralda cintilantes, cachinhos lindos e um proverbial e gostoso som ao falar um francês bem doce com sua vozinha de avelã pedindo informações ao barman que se debruçava no balcão, todo cheio de gentilezas, só pra olhá-la bem mais perto. Ela com sua roupinha simples, calça jeans bem surrada, blusa vermelha felpuda e um sobretudo preto bem velho e um par de botinhas de couro feita na China, também desbotada. Ali no banco, rindo, sendo gentil. Como nunca sei como chegar em uma linda garota, apenas a olhei de longe e pensei, "bem não tenho nada a perder se chegar mais perto". E cheguei mais perto, pedi uma taça de vinho num francês porco de ruim, e o garçon mais interessado nela que servir um idiota estrangeiro com cara de terceiro mundo, mal me olhou e logo me fez uma repugnante cara prepotente de quem não entendeu nada. Mas ela se virou pra mim e sorriu, e falou em português comigo. "Você quer um vinho, né?". Achei tão lindo, sua atenção. Brasileira. Caramba, quase uma da madruga, num bar solitário, e acho uma linda brasileira ali. Eu quis dar uma de garanhão de filme americano e disse pra ela "quero duas taças, uma pra você". Ela sorriu gentilmente, e disse que não estava afins. E se levantou, passou seus dedos gelados em meu rosto, me agradeceu a cortesia e partiu. É sempre assim comigo. Nunca consigo conquistar uma garota logo de primeira, e essa mexeu comigo. Eu ficaria ali naquele bar fantasma e com aquele barman idiota e tarado na minha frente? Que se foda, larguei o cara enchendo a taça de vinho e sai também, atrás dela. Perguntei se eu podia ao menos acompanhá-la e ela consentiu e fomos caminhando e nem via mais a porcaria da luz da torre, acho que se apagou. Fui caminhando ao lado dela por quase uma hora, sem pressa, até uma pensão charmosa, ela me agradeceu mais uma vez e se despediu com um beijo quase entre a boca e o rosto, num cantinho sutil de minha cara, e foi tão discreto que pareceu um acidente do acaso. Mas aquela face fria ficou em mim, e seu cheiro de frutas cítricas, e seu rosto de pêssego também. Na volta me perdi como já esperava me perder, pois apagaram as luzes da droga da torre no início da madrugada. A brasileira, sim eu só pensava nela. Tão linda, e entrou, me deixando ali naquela Paris sem graça sem ela. Anotei o endereço no meu bloquinho, pelo menos algo positivo aconteceu. Levei mais de duas horas pra encontrar o hotel que me hospedei, e no trajeto bebi taças de vinhos em bares vazios e sem ninguém. Pelo menos aprendi a pedir vinho de forma francesamente decente. Não a encontrei mais por anos e anos. Até a ver num bar freqüentado por intelectuais e jornalistas metidos nessa São Paulo desesperada. Ela se tornou minha garota, e nos amamos tão apaixonadamente, que acho que adoeci por um tempo. Então ela se mandou de novo, pé na estrada, tão cigana que é, e me escreveu uma carta, depois de muito tempo sem qualquer notícia, me dizendo que vai ficar um tempo num país caribenho. Nunca vou esquecer aqueles olhos brilhantes e não posso morrer sem beijá-la de novo.
Escrito por Mauro Cassane às 23h58
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