Conversa com Neruda numa tarde alaranjada
Paty não gostava de celular. Também não suportava seu nome. Odiava documentos e burocracias por ter que grafar seu nome. Estava com 28 anos, casou cedo e cedo também pariu. Entre seus afazeres domésticos, e seu trabalho, além das noites insones de estudo, gostava de conversar com seus amigos pela internet. Não conhecia quase nenhum. Amava todos. Dizia isso. No casamento não ia tão bem, não sabia ao certo o que sentia pelo marido. Já o considerava ex mas vivia ali com ele, estava um pouco perdida quanto a isso. Por outro lado, a despeito de ser comum em matrimônios esfacelados por amarguras e cotidiano, também não sentia nada por outra pessoa. Nem paixão, nem tesão, nem nada. Tinha um prazer especial em sair com a filha, uma linda garotinha loira, olhos verdes, de oito anos. Eram amigas íntimas. Paty também não demonstrava sentimento, se atrapalhava até mesmo ao abraçar os pais. Ficava à vontade apenas trocando afetos com a filha. Nada mais.
Nas madrugadas, com seu estranho marido largado na cama, ou quando flutuava pelos bares de sua cidade, e muitas vezes até depois de satisfaze-lo sexualmente, pois transava por compaixão com ele, sentava-se à frente de seu micro e buscava desesperadamente seus amigos virtuais. Não gostava de carinho físico, nem verbal, mas queria atenção. Conversava com caras mais jovens e mais velhos, com garotas e mulheres, com quem estivesse disponível para conversa fiada. Nada íntimo, nenhuma confissão, nada além de papo jogado ao vento sem qualquer pretensão filosófica. Permanecia horas ali brincando de diálogo. Exatamente feito uma garotinha diante de seu brinquedo eletrônico.
Mas Paty tinha um segredo inconfessável. Tinha prazer em algo, julgado por ela mesma, como uma aberração. Um completo desvio de conduta. Gostava de sair às tardes para seduzir homens e, ao transar, seja lá em que lugar fosse, o fazia por vingança. Gozava não por prazer, nem sequer se ligava na estética, pois saia com homens de variados tipos, gozava quando, no ato, no decorrer dele, se sentia vingada. O problema, e sua tremenda confusão, era não saber exatamente do que ou de quem se vingava. Apenas tinha prazer nisso. Não pedia nada, e mal conversava com seus fugazes parceiros, tampouco tinha qualquer fantasia, e no seu íntimo, ainda se entristecia por sua contundente frieza nesse nefasto jogo sexual. Muitos homens reclamavam, outros ainda, mais resolvidos e sensíveis, a abandonavam na cama ao notarem tamanho e régio desdém por aquele ato em si. Isso não a abalava. Ainda assim, mesmo abandonada, e sozinha, sentia o gozo da vingança. Pensou em fazer análise, mas se sentiu ridícula. Apenas escrevia em seu diário.
Certa vez conheceu um homem diferente daqueles que estava habituada a conversar e, com alguns, até sair. Conversaram banalidades. Mas ele a questionou, já na primeira conversa, sobre coisas que nunca antes ninguém havia tocado. Ela ficou desconsertada. Mas manteve sua altivez. Nunca vira o tal homem. Se encontraram então algumas vezes no universo virtual. E ela ficou curiosa com a história dele. Pela primeira vez um homem dizia, sem culpa, nem glória, que amava plenamente uma garota. Ela não se sentiu cantada, nem desejada, sentiu-se apenas amiga. Mas irritava-a, muitas vezes, a forma intensa que esse homem amava essa misteriosa garota. Sentia um pouco de inveja, algo desconfortável, pois queria ela também, talvez de alguma forma, se sentir amada exatamente daquela maneira. Um dia resolveu arriscar e botar seu instinto sedutor para agir. Paty era uma moça de beleza rara, com boca e olhos naturalmente envolventes. Não precisava de qualquer esforço para seduzir. Sua voz também era macia e densa o que, normalmente, mexia com o libido dos homens. Seria então mais uma de suas soberbas e inexplicáveis vinganças. E aquele homem era certamente a vítima perfeita. Estava triste por amar e não se sentir amado. Era evidente sua carência afetiva. Ela enviou então uma mensagem avassaladora e direta, convidando-o para sair às escondidas, pois era casada e tudo mais e já sugeriu um lugar reservado, “para ser desfrutado a dois”.
Mas antes de ler, esse homem teve um louco sonho onde conversava com Pablo Neruda num entardecer alaranjado, caminhando pelos frios corredores de um antigo mosteiro da América do Sul. Um diálogo suave e amigável. Ele queria então presentear sua amada com uma lembrança daquele encontro inusitado e pediu, meio envergonhado, um autógrafo para o grande poeta que, solicitamente disse: “aqui não posso dar autógrafos, mas escreva tu um poema a ela, eu te ajudo”. Foi o que fez na mesma hora, com uma ponta de lápis emprestada pelo próprio Neruda. E assim, ditado em castelhano, escreveu: “te amo Pequeninha, com toda la fuerza de mis sueños, entre lágrimas y sonrisas, com sus llegadas y partidas”. Saiu feliz deste encontro e acordou com esses versos dançando em sua mente. Colocou num papel. Correu ao computador para enviar tal poema para sua amada. Apressado que estava para faze-lo, e inepto que era com informática, esse homem acabou por apagar ali, naquele momento, a mensagem que havia recebido de Paty. Mas enviou seu soneto para sua amada que, naturalmente, não lhe respondeu. E ele também, sem qualquer explicação, nunca mais encontrou-se virtualmente com Paty. Livrou-se de ser vítima de uma vingança inexplicável. Um dia seu amor ligou. E eles combinaram de se encontrar.
Escrito por Mauro Cassane às 14h35
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