Lilás
Ela caminhava apressada, quase correndo, e desviava-se dos passantes com desconcertante habilidade, mas esbarrava em alguns e, mesmo esbaforida, perdia um tempo para pedir desculpas com um ligeiro sorriso encabulado. Saltava de lado, se virava, contorcia a coluna, requebrava, gingava e seguia resoluta como que vencendo obstáculos humanos em seu caminho. O trem partiria em minutos. Desceu a escada rolante aos tropeços, pedindo licença, ficando irada com alguns mais letárgicos e displicentes e, na plataforma de embarque, com o derradeiro apito de partida, saltou para dentro do vagão segundos antes das portas fecharem. O trem partiu. Ela ajeita sua mochila no compartimento acima, respirou aliviada, ajeitou seus cabelos para trás, se abanou um pouco e se jogou no banco vazio com vista para a janela. Fica contemplando as paisagens que voam quase mais rápido que o trem. Ainda passam as casas periféricas da vila, seus telhados úmidos e escuros formam uma mancha uniforme, e as parreiras, nesta época do ano com seus galhos cinzas e retorcidos, ganham um movimento fantasmagórico que a assusta e ela desvia um pouco a atenção para dentro do vagão azulado, com um tom de lilás encardido por todo piso.
Havia poucas pessoas naquele vagão, e só agora ela se dava conta. Teve até vontade de cumprimentá-los, mas já estava ali por alguns minutos, e não fazia muito sentido um cumprimento tardio. Se ajeitou então melhor no banco, esticou as pernas doloridas pela correria, fez de seu inseparável cachecol esverdeado um pequeno travesseiro e fechou os olhos. Dormia muito fácil em viagem, estava acostumada. Com pouca gente no vagão ficou mais tranqüila, e sua mochila tinha apenas algumas mudas de roupa, seu velho jeans e camisetas. Sua máquina fotográfica, algum dinheiro e documentos, essas coisas de mais valor, ficavam com ela o tempo todo. Além do mais, agnóstica que sempre fora, ainda assim não deixava nunca seu amuleto, um pequeno chaveiro de santo que seu amor lhe dera há mais de um ano quando partiu e o deixou. Esse amuleto, acreditava nisso, a protegia sempre. Dormiu rápido, o balanço ferroviário a remetia para o berço, para o aconchego do lar, bem junto da mãe. Lembrava da vez que, de saída para sua cidade, seu amor a levou à rodoviária e ficou com ela ali, no colo, até o ônibus chegar. Tinha agora saudade dele. Sentia um aperto no coração. Curtiu muito, viajou muito, conheceu outros homens, teve algumas paixões, mas ainda amava aquele que deixara para trás.
O cavalo não a obedecia, e disparou desgovernado. Na piscina ela mergulhava e o abraçava. Na sauna ela o beijou com volúpia. E seguia caminhando pela relva, uma grama úmida e macia os convidava para uma sessão de brincadeiras infantis. Ele corria atrás dela e a alcançava, e a derrubava e ela ficava com uma mancha enorme e molhada na bunda. Ralhava com ele, e se beijavam imediatamente. Reclamava dos temperos excessivos nos molhos, mas adorava a taça cheia de bom vinho Cabernet. No banho era sagrado a massagem e os óleos essenciais, para maior maciez de sua pele. Veio o cheiro de sangue, de suor, de algodão macio. Um zunido repentino, um vento gelado a despertou. O trem estava em nova estação. Outra cidade. Abriu os olhos, espiou desanimada pela janela. Não pularia ali. Estava com sono ainda. Queria sonhar mais um pouco. Pelo seu mapa, a próxima parada seria em mais duas horas. Dormiria mais, pensaria mais nele. Desceria na próxima então. Mas agora já começava a surgir em sua mente, ainda que timidamente, um plano para regressar. Sim, voltaria para lá. Sabia que ele a estaria esperando. “Acho que vou ligar e dizer que o amo”, pensou assim que o trem zuniu pelos trilhos mais uma vez. Era madrugada. O fone tocou. Ele não acordou. Ela nunca mais tinha ligado.
Escrito por Mauro Cassane às 14h17
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