Encontro vinho alaranjado
Naquela manhã de inverno o sol brilhou cedo, mas o vento frio não permitia qualquer descuido com as roupas. Colocou sua jaqueta, seu jeans, vestiu seu tênis e mais uma vez foi caminhar. Ouviu dizer que ela estaria pela cidade. Não fazia idéia ao certo de quanto tempo não a via, mas sabia que já poderia contar mais de um ano. Sabia também que não houve sequer um dia sem que ele pensasse naqueles olhos de esmeralda cristalina. Não estava mais tão dramaticamente triste como ficara por um quase infindável período, contando horas, chorando em cada sol poente que não era contemplado ao lado dela. Mas ainda tinha lá suas lágrimas envergonhadas, escondidas dentro de si. Nunca antes amara desta maneira, nem sofrera tanto, contava com o tempo para esquecer, mas não esqueceu nem mesmo do cheiro daquela pele amanteigada.
Ficara sabendo que ela permaneceria apenas um dia na cidade. Nada além de um dia e uma noite. Provavelmente não mais que 20 horas ao todo. Ela não disse nada a ele, nem o chamou. E ele se lembrava dos dias em que tudo que faziam era em conjunto, cada passo dele e dela era por ambos monitorado, não de forma policialesca, mas apenas apaixonada. Se lembrava dos momentos de amargura dela para saber notícias dele, e das loucas tentativas que sempre fazia quando ficava algumas pares de horas sem saber nada dela. Ainda ouvia aquela voz macia e rouca, de timbre suave e doce, resvalando-se por seu ouvido e atingindo em cheio seu estômago, coração, pulmão e até secando sua saliva. A desejava sonoramente, sensorialmente e não conseguia entender como seu coração renovava diariamente esse desejo sem nunca ser alimentado com qualquer esperança.
Sua mente apenas agora se concentrava neste fugaz dia que amanheceu. Não tinha idéia dos horários de vôos, tampouco de onde ela viria, apenas sabia que estaria ela presente em sua grande cidade neste dia. Respirava mais forte, tentava sentir o mesmo ar que certamente por ela passaria. Acreditava de maneira desconcertante em magias que nem os magos ousariam sustentar, talvez apenas os tolos de espírito o fizessem. Mas perseguia seu sonho improvável, para não dizer impossível. De uma maneira absolutamente desprovida de razão, seguia sem rumo a passos decididos, firmes e sem qualquer direção pelas ruas claras e melancólicas de sua cidade. Sabia que seu caminho não deveria ser rumo ao aeroporto, pois talvez ela já houvesse desembarcado e seguido para algum destino, provavelmente para a casa de algum parente ou talvez se hospedasse com algum amigo ou amiga. Entretanto, involuntariamente, seus passos já doloridos, com propensão às cãibras, o levavam pelas imediações do aeroporto. Não sentia fome, mas sabia que a ausência de qualquer alimento já o enfraquecia, a claridade invernal o incomodava e cerrava os olhos para trespassar pelas ruas neuróticas com seus carros berrantes. Não diminuiu o ritmo em nenhum momento, parecia querer ganhar tempo, andava apressado como se houvesse mesmo um destino ou encontro marcado e não haveria de se atrasar. Contudo, em si, tinha plena consciência de seu delírio.
Por volta das primeiras horas da tarde alcançara o parque de sua cidade. Com aquelas árvores imensas, um frescor suave soprava dali, um cheiro de grama úmida em meio à fumaça que aviltava seus poros e àquela secura da atmosfera hostil de inverno. Prosseguiu resoluto para o parque. Entrou por seus portões de ferro esverdeado, e seguiu por suas alamedas idílicas, sonolentas, entre pessoas silenciosas e a suavidade de uma brisa tímida, mas prolongada por todos os cantos do parque. Ali a fotografou em anos passados, ali a beijou também, e caminhou com ela de mãos dadas. Cada lembrança o enchia de emoção, mas também, em momentos assim, não tinha como disfarçar algumas lágrimas, ainda que fossem apenas para ele mesmo, que ninguém as visse.
Seu delírio realmente era consciente. Tinha certeza que não a encontraria, mas seguia andando como se, a qualquer momento, pudesse se surpreender e encontrá-la passando com seu jeito tão peculiar. E permaneceu nas imediações e nas entranhas do parque onde a viu tantas vezes. Aquele cheiro de madeira e terra, com pitadas de água e barro, o transportava para junto de sua amada. O sol mais uma vez começava a pesar no horizonte, e a se debruçar inebriado com seus tons de laranja e mel, e isso também o remetia àquela pele de pêssego e seus perfumes cítricos. Ainda caminhava, mas com fome, sede e sem conseguir mais vencer as cãibras, resolveu sentar em um banco triste e isolado sob árvores cansadas. Os pássaros faziam seu reboliço sonoro escondidos entre as folhagens, e ele deixou a noite se debruçar mais uma vez, mais uma noite sem ela, mas agora era uma noite diferente, pois sabia que ela estava tão perto. A solidão tinha também seu cheiro empoeirado de fuligem seca, como se fosse uma rolha despedaçada de Cabernet. Talvez agora ela estivesse sorrindo em algum lugar. Resolveu voltar de ônibus, suas pernas estavam doloridas demais, e haviam algumas feridas entre os dedos de seus pés. Não conseguiu dormir naquela noite, quase nem mesmo pôde fechar os olhos, mas a abraçou e beijou naquele dia e nem foi preciso da presença dela.
Escrito por Mauro Cassane às 14h32
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