Cinza desbotado
Ele esperou dia e noite por um contato, não cansava de pensar nela. O bom senso lhe dizia para esquecê-la de vez, mas seu coração sempre implorava por mais um tempo. Pensava consigo “como esquecer o inesquecível?”. Cada momento com ela fora recheado com tanto amor e ele até se esforçava para buscar na memória lembranças mais ruins para tentar descredenciar, de alguma maneira, esse louco desejo incurável por ela. Não achava nada. A cada esforço, mais e mais recordações de carinho, ternura e aquela voz macia e rouca lhe pedindo beijo e abraço.
Saia desesperadamente pela noite, andava pelos bares, bebia e fumava, e olhava outras mulheres. Achava muitas lindas, elegantes, sensuais. Algumas se ofereciam. A bebida sempre facilitava tudo. O libido corria solto pela veia. Ele pensava: “mas há muitas garotas por aí, como posso só pensar nela?”. A razão é coerente, o amor não. Quando havia abertura se aproximava de outras mulheres. Mas o resultado invariavelmente era o mesmo: a inevitável comparação com a mulher que amava. O cheiro não combinava, o timbre da voz, os jeito de falar, de andar de mexer no cabelo e até de roçar os dentes nos lábios depois de algumas doses de bebida. Feito isso, vinha a frustração. E vontade de permanecer sozinho.
“Ninguém é igual a ninguém”, era o conselho que vinha de amigos mais íntimos. “Não se pode comparar, isso não existe. E se você compara então vai um dia achar alguém ainda melhor. E daí? Vai amar por ser a outra melhor?”. Um comentário mais abrasivo. Ele sabia as respostas. Não se tratava de achar alguém melhor, ou igual ou diferente, ou pior, nada disso. O fato é que amava loucamente aquela garota que, por imperfeição de curso, não estava com ele. Mas acreditava no destino. Na verdade, na situação de ausência da pessoa amada, não lhe restavam muitas opções para apoiar sua crença em alguma coisa. “Você precisa sair com mais garotas, só assim vai desencanar de vez dela”. Outro conselho.
O amor é algo louco. Ele só pensava nela, mas sentia que precisava fazer algo para esquecê-la. Um dia ela o amou também. Mas agora estava longe, e disse a ele uma vez, por carta, que não o amava mais. Foi um dia terrível. E ele nunca mais perguntou nada a ela. Não se falaram mais. Mas ele não soube como matar o seu amor por ela. Não queria amar outra garota. E sentia que, mesmo se tentasse, não seria igual nem com aquela intensidade que o levou a alçar grandes sonhos. Fez planos só com ela. Agora tudo estava sem rumo. Uma linda garota se aproximou. Não uma qualquer. Uma mulher ímpar. Diferente. Ela se apaixonou pelo jeito dele. Os deuses do acaso e suas brincadeiras.
Ele notou a aproximação. Ela puxava assunto. E ele ficava imaginando a garota que tanto amou, que ainda amava intensamente, nos braços de outro. Sempre um cinza opaco tomava conta de seus sonhos agora. Mas ainda sonhava com ela. Insistia em algo que agora somente o agredia a alma. Um olhar o perturbava. Pensava em ligar para ela. Queria dizer “eu te amo”. Mas seria muito humilhante. Aquele olhar continuava ali, observando seus movimentos. Mas ele ainda sentia em suas mãos aquele cheiro cítrico de laranja silvestre.
Escrito por Mauro Cassane às 13h19
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