Cinza borboleta
As tropas de Stalin seguem avançando rumo a Berlin. O fim é questão de dias. Hitler se mata mesmo, com sua Eva ao lado. Itália está prostrada. França devastada. A Inglaterra respira com algum alívio. Churchill toma seu primeiro chá da tarde sem sobressaltos. Espanha e Portugal já enxergam o buraco financeiro de proporções nunca antes vistas na era moderna. Efeito borboleta. Um pormenor. O artífice americano Marshal brigou com sua amada. Está cabisbaixo e sorumbático. Não fez o papel que na história lhe cabia. Não houve Plano Marshal. E o dinheiro americano não jorrou nos anos seguidos. Mas as bombas foram atiradas sobre Hiroshina e Nagasaki, porém ninguém foi lá tapar as feridas.
A Alemanha vira inteira comunista. Não há Muro de Berlin, não há muro algum. Os tentáculos do comunismo flertam com os franceses. 1955. O cinza é a cor marcante por toda Europa setentrional. Metade da população da Espanha converte-se ao islã e o partido com inclinação xiita já é maioria no congresso. Os americanos passam pela pior crise econômica desde o crash de 1929. No Japão hordas de famintos migram para a China, o país está em ruínas.
Mais dez anos se passam. A miséria grassa agora rumo ao Reino Unido. O movimento pelo comunismo ganha as ruas em Paris. 1968, o ano da mudança. Os estudantes franceses, com maciça ajuda do movimento operário, derrubam o governo e instalam o regime comunista. O mesmo acontece na Itália e Portugal. A inflação na Inglaterra bate índices assustadores. O desemprego em massa assusta. Refugiados de várias nacionalidades embarcam em navios empoeirados rumo à América. O papa é assassinado. Na Espanha os xiitas tomam o poder. Tropas inglesas, esfarrapadas e sem muita munição, invadem a França de surpresa. O embate é cruento. Uma luta de miseráveis. Não há vencedores. A grande União Soviética intervém. Milhares de soldados ingleses são trucidados em poucos dias. O último pilar do capitalismo ruiu por completo.
Os Beatles continuam tocando na caverna. Não conseguem gravar um vinil sequer. É um bom grupo mas não há dinheiro, nem mesmo estúdios equipados para gravação. John Lennon trabalha numa siderúrgica. Paul é garçon. George dá aulas de inglês e Ringo vende frutas. Não houve Woodstock. Janis Joplin continua no coral da igreja. Não houve Nixon. Muito menos Vietnã. A China incorporou a Coréia e fecha acordo com o governo japonês para formar um grande bloco oriental. Os árabes vivem em tribos em moldes parecidos com os tempos de Moisés. O petróleo abundando naquele solo não serve para outra coisa senão aquece-los das baixas temperaturas das noites do deserto.
Com exceção de pequenos conflitos por terra e comida, o mundo vive em paz. Não há dinheiro para grandes batalhas. No Brasil vive-se da agricultura e o sistema até que oferece um razoável conforto à população. O sistema é o escambo. Não há papel moeda. Não existe banco. Mas todos estão bem alimentados. Caetano Veloso é um dos maiores latifundiários e é conhecido na Bahia como o Rei do Cacau. Chico Buarque é governador do Rio de Janeiro. No país o comunismo não teve espaço. Mas a anarquia toma conta de todo cangaço. A capital continua no Rio de Janeiro. E no planalto central Geraldo Vandré cria gado para exportação. Raul Seixa pode ser novamente presidente mas o povo protesta nas ruas e exige democracia. Fidel Castro vai se apresentar com sua banda mais uma vez. A música cubana ganha espaço. O guitarrista Che Guevara enfim assume seu romance com Fernanda Montenegro, a grande revolucionária frustrada do Brasil, mundialmente conhecida por suas peripécias guerrilheiras em diversos países latinos.
Efeito borboleta. Que dia infeliz a namorada de Marshal resolveu brigar com ele em 1945. Mas dizem que não demorou muito e logo eles se entenderam. Viveram felizes por muito tempo na Califórnia, estado adquirido recentemente pelo México. O amor pode mudar totalmente a história do mundo. Raul Seixas mais ume vez fez um péssimo governo. Mas a Pequeninha já trocou duas cabras por dois ingressos para ver o show de humor da dupla Bin & Bush. Eles são engraçados e dizem que até vão fazer um filme longa-metragem. O problema é a falta de grana.
Escrito por Mauro Cassane às 14h21
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Amarelo cabelo de boneca
Uma encardida bonequinha de pano ficava ali em sua gaveta cuidadosamente posicionada junto a um pequeno estojo de madeira onde ele guardava alguns parcos objetos que o lembravam das centenas de dias que compartilhou com a garota que mais amou em sua vida. O estojo ele raras vezes ousava abrir. Ali estava uma rolha de vinho tinto onde, em tinta de caneta, foi tatuado o nome dela de maneira tosca com um “eu te amo” meio bêbado abaixo. Uma pena verde que encontrara no chão de seu apartamento, uma moeda antiga da França, um boneco mexicano com a bunda de fora e uma foto dela, sorrindo, com um óculos de sol adornado com um pequeno coração feito com pedras brilhantes na lente esquerda. Eis o tesouro de um homem: as lembranças físicas de um grande amor.
Antes de perder totalmente o contato, eles se falavam freqüentemente. Para ela ele escreveu dezenas de cartas, ligava quase todos os dias. Queria saber se ela estava bem, se havia tomado seus remédios, se precisa de alguma coisa. Todas as manhãs, religiosamente, ele abria a gaveta e beijava a face da bonequinha, acariciava-lhe os cabelos de lã amarela e ajeitava-a novamente na gaveta, com zelo e carinho, como se estivesse mesmo colocando sua amada de volta à cama. Ela também ligava para ele. Mas um dia, sem maiores explicações, ela deixou de ligar. E deixar de fazer algo, como ligar ou sorrir, ou sentir ou desejar, não requer qualquer explicação. Porém, para ele, que a amava de maneira quase sobrenatural, tal atitude o abateu com uma fria e cortante tristeza nunca antes experimentada.
Já estava sozinho há bastante tempo, mas sentia-se próximo a ela enquanto se comunicavam. Trocavam idéias, mesmo com um mundo separando-os geograficamente. Não sentia qualquer vontade de sair com outras garotas, nem tampouco buscar prazer sexual fortuito, contentava-se unicamente com a presença fugaz dela ao fone ou, até mesmo, quando o mundo virtual possibilitava um encontro casual entre os dois. E saia apenas para beber com amigos e conversar. Guardava consigo a esperança de rever seu grande amor e de tanto amá-la havia tomado a decisão de esperá-la o quanto fosse preciso. Planejava casar com ela, e sair por aí, viajar, e cruzar fronteiras e lugares sempre com a mão estendida e atada à mão dela. Sonhava com isso.
Todas as noites, com ou sem luar, nubladas ou não, frias ou quentes, ele olhava o céu antes de dormir e dizia “boa noite meu amor, durma bem”. Acreditava francamente que o céu seria um canal de comunicação mais eficiente que correios eletrônicos e que, com certeza, aquele mesmo céu que se debruçava sobre ele também havia de, sobre ela, deitar sua brisa. Enviava, nas manhãs também, ao céu, seus beijos e recados a ela. Abraços, carinhos, boas noites e bons dias sempre e sempre. E nunca sem dizer, ao fim, “te amo”. Mas ela não mais respondeu. Nunca mais lhe escreveu, nem ligou.
A bonequinha com seus cabelos amarelos de lã permanecia beijada diariamente, e agora também ele fazia carinhos em sua face rosada de pano desgastado. O sorriso vivo da bonequinha o encantava. O verde de seu vestido lembrava aqueles olhos vibrantes de esmeralda. O amor e suas vicissitudes. Ele se sentia desejado por outras mulheres, mas desejava apenas ela. Um sujeito que vivia à frente de seu tempo, com seu espírito libertário, seus pensamentos de vanguarda, idéias revolucionárias e contrário a qualquer espécie de preconceito, posse ou obsessão. Amante das artes, das ciências, estudioso dos repetidos ciclos da história humana desde os primórdios e, eis esse homem, ciente e seguro de sua filosofia, com uma boneca Pequeninha em mãos, com seus cabelos de lã amarela, e algumas lágrimas conferindo-lhe um melancólico brilho ao rosto. “Pra que amar tanto assim?”.
Escrito por Mauro Cassane às 16h04
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